APOESC (Associação de Poetas Escritores Simpatizantes e Colaboradores)

A APOESC (Associação de Poetas Escritores Simpatizantes e Colaboradores), criada em 03.2010 em Santa Cruz -RN, existe para congregar amantes da cultura, apologistas e produtores da arte da palavra.


sábado, 17 de setembro de 2011

ENTREVISTA SOBRE COSME F. MARQUES com Dr José Mário

GILBERTO: Caro José Mário: Peço-lhe, por obséquio, que inicie essa entrevista com uma breve apresentação. Fale-nos de sua formação, filiação e família.
JOSÉ MÁRIO: Sou advogado, formado pelo antiga Faculdade de Direito da UFRN, onde concluí o curso de Bacharelado em Ciências Jurídicas e Sociais - Turma de 1971. Atualmente estou vinculado à Procuradoria Geral Federal, órgão que integra a estrutura da Advocacia Geral da União, ocupando o cargo de Procurador Federal, para o qual fui nomeado em 2001, após aprovação em concurso público prestado em Recife-PE, onde inicialmente fui lotado, encontrando-me hoje em Natal.
Sou filho de Cosme Ferreira Marques e Maria Pia Marques, casados em 1933, juntamente com mais 5 irmãos e 6 irmãs, nascidos entre agosto de 1939 e abril de 1959. Conheci e convivi com meus avós paternos (José Maria Marques, comerciário, e Isabel Oscarlina (dos Santos) Marques, professora),`ambos à época aposentados, e avós maternos (Mariano Araújo Barros e Serafina Maria da Conceição, agricultores no Sítio Riacho do Feijão, herdado de meu bisavô materno).
Meu avô paterno era natural de Bananeiras, filho de João Marques Ferreira, proprietário de antigo engenho de cana de açúcar que existia onde hoje é o campus da UFPB (antiga escola de Agronomia), naquela cidade. Ele com sua esposa e filhos, mudou-se para Santa Cruz em 1912, quando meu pai tinha 3 anos de idade, tendo em vista que minha avó aceitou vir trabalhar como primeira professora primária formada, tendo ela aqui desarnado várias gerações de santacruzenses, em sua escolinha pública que funcionou na Rua Elói de Souza, no primeiro quarteirão entre a Av. Rio Branco e a Praça Ezequiel Mergelino, em um antigo armazém que, coincidentemente pertencia ou pertencera a a meu bisavô materno, Manuel da Costa Palma, proprietário da fazenda Várzea Grande, no Vale do Trairi.
GILBERTO: Até que idade conviveu com seu pai Cosme Ferreira Marques? Vocês eram muito presentes na vida um do outro ou se mantinham meio que à distância?
JOSÉ MÁRIO: Convivi com meu pai desde meu nascimento em 1946, até seu falecimento em junho de 1959, sendo que, nesse ano, estava estudando em Caicó.
A convivência de meu pai com os filhos ocorria principalmente na primeira infância, quando ele, pela manhã, antes de se dirigir cedinho ao trabalho, se desvelava em dar toda a atenção ao pimpolho, ante os olhares curiosos dos irmãos menores, que também foram educados a tratarem os novinhos com todo o carinho e atenção.
(Criança nova em casa era período de festa. Começava com os preparativos para o "resguardo", durante o qual mamãe ficava absolutamente recolhida em seu quarto com o neném, amamentando-o e alimentando-se de comidas escolhidas, "não carregadas", no jargão da época, para não ocorrer qualquer complicação pós-parto. A essa altura, o recém-nascido passava a ocupar o leito do casal, com mais algum outro rebento nascido no ano anterior (aconteceu com frequência), enquanto outro um pouco mais velho era "instruído" a não mais escapulir para "o quarto de mamãe" - o que era também frequente -, por que havia criança nova e poderia ser machucada pelo intruso.)
Meu pai passava o dia no trabalho e somente o víamos nos horários de almoço e jantar, quando se sentava à cabeceira da mesa (imensa mesa que depois soube tinha sido "herdada" da escola da minha avó, quando ela se aposentou), e era cerimoniosamente servido por mamãe, em primeiro lugar, passando em seguida a servir os filhos mais novos, por ordem de idade, todos sentados em um antigo e comprido banco, que tomava toda a lateral da mesa e presumo também oriundo da mesma "herança".
Meu pai, a quem sempre vi servida uma refeição absolutamente frugal (uns dois ou três pedaços de carne cozida no feijão e farinha de mandioca, no almoço, e um prato de coalhada, com rapadura e pão, no jantar, seguidas ambas as refeições de uma generosa xícara de café, "forte de enrolar no dedo", como ele sempre gostava e pedia a mamãe, em voz forte, quando chegava em casa, eventualmente, durante o dia.
Suas refeições eram absolutamente frugais, e, até por isso, concluídas rapidamente, retirando-se em seguida, para o "batente" (Papai era o Agente de Estatística e tinha a seu cargo a Agência de Estatística do IBGE, em Santa Cruz, onde trabalhava o dia inteiro). Seu café da manhã sempre se restringia a uma simples xícara de café, das grandes, sempre muito forte. Não comia nada pela manhã.
Enquanto ele permanecia à mesa, todos os filhos ali reunidos permaneciam abolutamente silentes e respeitosos.
Após sua saída, da mesa e de volta ao trabalho, fumando um indefectível Astória - e quanto fumava! - começava a bagunça, principalmente com reclamações, ora contra a presença de um pedaço de cebola no prato, que alguns odiavam, ou de que a quantidade em seu prato havia ficado menor do que a do vizinho.
(Para mamãe isso representava uma tortura diária, pois nem sempre havia comida franca e eu vi, muitas vezes (e ainda hoje isso me revolta completamente) vê-la renunciar ao seu prato de comida em favor do reclamante, para não ficar ouvindo aquela litania. Mamãe preparava o último prato para si e este era só um pouco menos frugal do que o do meu pai, e sempre comia de pé, amassando bolinhos de feijão com a mão - pois assim é que sempre comia, com bastante farinha e uma pimentinha malagueta para temperar - mesmo sendo o feijão mulatinho, que era a regra, talvez com saudade do macaçar que raramente entrava lá em casa, pelo menos nas épocas das vacas gordas - houve também as das magras - pois ninguém gostava desse feijão. Em regra ela só comia dele, quando recebia um presente do tio Zué (Josué), ou outro irmão, que lhe trazia um cozinhado do sítio. A festa mesmo, para nós, era quando vinha um presente de espigas de milho verdinhos, para comê-las assadas, ou transformadas em deliciosa canjica ou para comê-las raladas e cozinhadas.)
Assim, até pelo grande número de filhos que tinha, meu pai se via forçado mesmo a manter uma certa distância dos filhos, o que acontecia mesmo também com mamãe, pois suas ocupações com cozinha e limpeza da casa, impedia-lhe de dedicar algum tempo aos filhos mais velhos, que ficavam cuidando os maiores dos menores, salvo quando tinha de intervir com umas boas chinelas para por ordem na bagunça após as discussões e brigas que facilmente ocorriam. Eu levei bastantes sovas, sem contar com os cascudos, tapas e safanões dos irmãos e irmãs mais velhas.
A distância também tinha o efeito de preservar a "aura" de autoridade, principalmente do pai, que era sempre convocado em situações mais graves para disciplinar os excessos e arroubos dos mais velhos que descobriam cedo como livrar-se das chineladas de mamãe, e esta perdia o controle da situação. Ao meio-dia a reclamação era feita e Papai algumas vezes aplicava umas boas "lamboradas" de cinturão, segurando o braço do incauto que se esforçava para fugir das lapadas, dadas sem dó nem piedade. E como doíam! :-)) A mim, lembro-me ter recebido de duas a três pisas, que nunca sairam de minha memória e me serviram bastante. Nunca tive raiva, nem de meu pai, nem de minha mãe, por essas sovas que foram bem aplicadas e realmente merecidas, e serviram para me por na linha, quando tive de enfrentar a barra que nos espera fora de casa.
Não havia diálogo entre mim e meu pai, mas tive a felicidade de conviver com ele sempre, logo que comecei a ficar crescido, por volta dos quatro anos de idade, pois ele me levava para o seu trabalho (acho que para facilitar a barra de mamãe, que à época tinha a seu cargo pelo menos 3 filhos pequenos), próximo da casa onde morávamos e "me entendi de gente", na rua, ao lado da Igreja Matriz, entre a casa de D. Carmen Andrade e de seu Zé Fonseca, pai adotivo de Terezinha Cury (ex-Diretora do Ginásio Normal), todos de saudosa memória.
A Agência de Estatística ficava na ruela que sai da frente da Igreja e leva até a Praça Ezequiel Mergelino, que à época era denominada de "Beco das Almas", pois por lá passavam todos os enterros em busca do velho cemitério e que à noite ficava às escuras e era percorrido em demanda da praça pelos meninos, às carreiras, com medo de assombrações. O maior terror era no meio do Beco das Almas, pois estas era cruzada por outro beco, escuro como breu e de onde acreditávamos vir a ser atacados pelos zumbis que por ali ficavam, quando os enterros passavam, sob o dobrar triste dos sinos da matriz. Mas isso é outra história - e não tão triste!
Mas lá na Agência de Estatística encontrei meu mundo, pois havia uma verdadeira biblioteca de livros os mais diversos que o IBGE editava e vários periódicos, entre os quais a revista "Sesinho" - editada pelo SESI, onde me deparei com as primeiras lições de Esperanto - mas então não as aproveitei! Quem diria, hein? Depois aprendi esse idioma, que tanto enriqueceu culturalmente a minha vida, saindo da mesmice do monoglotismo - sob os olhos compreensivos de meu pai, que me estimulava e me mostrava novidades, e até me deixava "brincar" na máquina de escrever "Underwood" da repartição, seu instrumento de trabalho, e em que, afinal, eu comecei a aprender a datilografar, sem precisar de fazer curso - que nunca fiz - de datilografia (como os tempos mudaram, agora é curso de digitalização!), fazendo os exercícios do "método de datilografia" que ele próprio me pôs à disposição, e lá se foi: asdfg asdfg asdfg asdfg etc.
GILBERTO: Conhecemos o Cosme Marques poeta e intelectual. Como era o pai Cosme Ferreira Marques? Ele tinha vícios?
JOSÉ MÁRIO: Era um pai preocupado com o futuro de seus filhos, sempre procurando incentivá-los ao estudo, pois não sendo rico e não tendo herança para deixar, como sempre ressaltava, via que cada um deveria procurar seu rumo, de acordo com as aptidões de cada um. Mas ele vibrava mesmo quando via um filho propenso aos estudos. Com que alegria ele me recebeu em seu leito de morte, apresentando-me aos amigos que lhe visitavam - e eram muitos! - com bastante orgulho, dizendo: está no seminário, estudando para ser padre! Seu maior orgulho não era ver seu filho padre - e claro que ficaria, pois era católico fervoroso, porém sem ser Carola. De fato, ele procurou de seu amigo Mons. Walfredo Gurgel (que celebrou seu casamento e esteve em Natal em 18 de dezembro de 1958, para celebrar a missa de Bodas de Prata do casamento de meu Pai (em clima de festa há apenas seis meses de sua morte, quem diria?) e dele obteve a promessa de uma bolsa de estudos para o Ginásio Diocesano, que eu, motivado pelo pré-Seminário mantido por Mons. Emerson Negreiros na Casa Paroquial, a que eu já estava vinculado, consegui transformar em minha ida para o Seminário Santo Cura d'Ars, onde estudei durante todo o ano seguinte, porém sem a bolsa - como só vim descobrir depois da morte de meu pai - tendo ele feito um esforço sobre-humano para pagar minha manutenção e preparar todo o - ainda que modesto enxoval - exigido por aquela instituição de ensino religioso.
O esforço ele fez porque sentia que eu era vocacionado para o estudo, porque alfabetizei-me pequenino, antes de ir à escola, e logo cedo, muito cedo, tornei-me um inveterado leitor e lia tudo o que me passava às mãos, lendo, às escondidas as fotonovelas da revista Capricho de minha irmã mais velha, e os livros da Biblioteca das Moças, que ela trazia da biblioteca paroquial.
Meu pai tinha muitos vícios... mas quem não os tem ou teve? Um deles, o pior segundo mamãe, era o de beber, mas sem nunca perder nem o tino - especialmente a verve do poeta e do intelectual, que ficava até mais apurada - nem o prumo, sem perder também sua extrema simplicidade e humanidade.
Mas também, pudera (!) ser responsável por uma família de 12 filhos menores, em uma cidadezinha do interior como era a Santa Cruz da minha infância (só 5.000 habitantes, hoje ela até parece metrópole!) , dependendo de um parco salário de funcionário público federal, que em regra atrasava e o no início de cada ano só começava a ser pago no mês de abril, se um cara desses não bebesse ficava louco. E sua situação ficou ainda mais difícil na segunda metade da década de 1950, quando a sociedade brasileira foi acometida do primeiro grande surto de inflação que conhecemos no pós-guerra, com o Governo de Juscelino e a criação de Brasília. Foram épocas difíceis, pois os salários permaneceram congelados durante todo o período! Foi triste!
(E Isso sentimos muito mais, após a morte de papai, quando mamãe teve de dar giros no corpo para alimentar uma família numerosa com uma pensão que correspondia a apenas 10% do que papai ganhava. Em alguns momentos sentimos a mão pesada da fome, coisa que nunca tinha havido enquanto nosso pai foi vivo. E isso se tornou mais dramático, à medida que o tempo passado e todos cresciam, o que terminou por nos decidir a nos transferir para Natal, para onde tinhamos já vindo uma irmã e eu, para darmos continuidade a nossos estudos, pois em Santa Cruz só havia o primário e o ginasial, e passamos a aqui trabalhar.)
Papai tinha outros vícios, sim. O de fumar, como já falei antes. Fumante inveterado de no mínimo uma carteira por dia. Fumar e beber, os piores, porque o fumo e o álcool, no mínimo, destroem a saúde.
(Minha mãe não reclamava do cigarro - até porque ela também fumava, se bem que às escondidas, talvez por ser cachimbo, herança de sua trisavó índia -. Ela reclamava, sim, da bebida, porque esta visivelmente estava acabando com a saúde de papai. Ela dizia que, no final, papai passava, a cada ano, 6 meses bebendo, e 6 meses de cama. Eu a ouvi dizer várias vezes: Eu preferia que Cocó (assim era de todos conhecido, Seu Cocó) tivesse uma rapariga, a que ele bebesse, pelo menos assim ele não se acabava, já que seu organismo nunca foi dos mais fortes.
(De fato, pode-se dizer que papai já nasceu doente, de parto de gêmeos, em que ele foi o rebento mais fraco. Nasceu pesando pouco mais de um quilo (1,8kg acho) e cabia numa caixa de sapato de tão pequeno, enquanto a irmã (Damiana, falecida aos 12 anos, e, daí, ele Cosme) nasceu robusta e taluda. Sinhá Antônia, a preta velha, filha de escravos, que o criou como mãe e cuidou dele desde pequena e a quem ele chamava de "mamãe" dizia que, no início, ele tinha de ser alimentado com colher de chá, pois seu estômago, de tão pequeno, quase nada cabia. Como vê, ele já nasceu frugal. Mas é aquilo que a música popular diz: "tão pequenino, tambor tão grande", ou o provérbio: "tamanho nunca foi documento!")
Mas papai tinha também vícios adoráveis, além de ser poeta. Seu vício maior era a música, seu violão. Tocava violão divinamente, solando e acompanhando as músicas que cantava tão bem, mesmo sua voz um pouco enrouquecida pelo fumo, mas que nos soava como se fosse cristalina. Meu pai, graças a esse seu vício, proporcionou-nos uma infância cheia de música quando realizava ensaios com seus amigos para alguma apresentação musical que frequentemente fazia na cidade e na Difusora Irapuru, de que foi Diretor durante vários anos, e escrevia diariamente uma crônica sobre os fatos mais recentes da vida da cidade e que era divulgada à noite, antes de ser transmitida "A Voz do Brasil".
Tocava, também, com igual maestria bandolim e cavaquinho, se bem que, em face das agruras financeiras - presumo - pouco tempo duravam esses outros instrumentos em nossa casa.
Fomos crianças privilegiadas, porque nesse tempo não havia televisão e radiolas eram coisas de ricos e estavam fora de cogitação. Mas em nossa havia diariamente música, principalmente à noite, após a ceia, meu pai ira para o jardim e nos levava a todos para ouvi-lo cantar as músicas de serestas, que ele tocava desde a juventude e seresta ainda havia.
Quando era noite de lua, ele levava colchões para o jardim e lá ficávamos até adormecer vendo a lua subir até o zênite, ouvindo todas as músicas do cancioneiro brasileiro, que nos embalavam o sono e ali normalmente adormecíamos. Tinha esse vício, sim! Mas quantos não gostariam de ter um pai com um vício assim! Ao cantar para nós, minha mãe com certeza sentia-se recompensada das agruras a que tinha de suportar ao vê-lo não chegar para o almoço, algum dia, porque ficara a prosear com um amigo em um bar e ela, ciumenta como só, imaginava ele a estar com mulheres. E ela dizia que preferia vê-lo com uma rapariga, vejam só!
Papai escrevia e escrevia muito bem, apesar de não ter sequer concluído o terceiro ano primário. Era orador de mão-cheia ou pelo menos assim parecia aos santacruzenses da época, pois sempre era chamado a discursar nas ocasiões mais importantes da cidade, inclusive nas festas cívicas do Sete de Setembro, antes do desfile escolar, que se encerravam, inicialmente, com os desfiles garbosos das escolas normal e comercial, quando essas passaram a funcionar. E os discursos eram feitos de improviso, mostrando domínio pleno do idioma e da retórica.
Ele não aprendeu a fazer nada disso, pois não havia como em Santa Cruz. Ele tinha o dom e se fez sozinho. Foi professor contratado pelo Estado para ensinar matemática na Escola Normal. Quem precisava de estudar algo mais profundo em matemática naquele tempo em Natal, procurava meu pai, a quem eu vi, muitas vezas, ainda pequenino, lecionar matemática a jovens que já à época buscavam a via do concurso público para obter uma colocação no Banco do Brasil e depois no Banco do Nordeste, tentando fazer entrar em suas cabeças noções de operações com frações ordinárias e decimais, valendo-se do exemplo da laranja, para introduzir os conceitos abstratos dos números menores do que a unidade.
Depois, um de seus alunos, Prof. Manoel Macedo, foi meu professor de matemática, ensinando-me a desenrolar-me com as expressões aritméticas, a álgebra e as expressões algébricas, de primeiro e segundo lugar. De certa forma, meu pai também me ensinou matemática!
Como vê tantos vícios, a maioria adoráveis e que qualquer um gostaria de ter.
GILBERTO: Além de poeta, que outras habilidades tinha seu pai?
JOSÉ MÁRIO: Além de pai amoroso, responsável, poeta e bom instrumentista musical, como já lhe demonstrei acima, meu pai foi antes de tudo professor, seguindo a vocação de sua mãe, D. Santinha, pois essa foi sua primeira profissão, ao que me consta, tendo sido professor, quando solteiro, em Coronel Ezequiel, á época chamado de Melão. Quando casou-se foi morar com mamãe, em um barracão de venda de mercadorias, no acampamento da construção do Açude Inharé e lecionava em uma localidade, ou sítio, chamado Riacho Fechado, na estrada para Campo Redondo, para onde mudou-se com mamãe após o término da construção do açude, continuando a lecionar nesse lugar.
Conheci-o professor de matemática da escola normal e sempre era conhecido e pelas pessoas mais gradas da cidade, como Professor Cosme e para os mais íntimos, como Professor Cocó, sendo por todos respeitados.
Era membro do Partido Trabalhista Brasileiro, fã ardoroso de Getúlio Vargas, preocupado com a extensão de direitos trabalhistas para os mais humildes, que o procuravam para obter orientação, quando em dificuldades com os patrões, e atuava muitas vezes como rábula, atuando, como defensor, para as pessoas mais pobres que não podiam pagar ao único advogado existente na Cidade. Eu mesmo o vi, orientando pessoas a tirarem sua carteira profissional e exigirem sua anotação, para preservação de seus direitos e garantia de obtenção de direitos juntos aos Institutos de Aposentadoria que à existiam aos montes, um para cada grupo de categorias profissionais. E esses direitos trabalhistas foram o apanágio da carreira política de Getúlio Vargas, em seu primeiro período de governo, que culminou com a edição da Consolidação das Leis do Trabalho, a velha CLT, que continua firme e forte no pedaço apesar dos renhidos esforços dos neoliberalistas para riscá-la fora do pedaço.
GILBERTO: Diga-nos suas palavras finais. Sinta-se à vontade quanto a informações adicionais sem se preocupar com a extensão de sua resposta.
JOSÉ MÁRIO: Obrigado, Gilberto, por sua compreensão.
Tenho todo interesse em colaborar com informações sobre meu pai, porque acho importante que se faça o registro na história da Cidade, pois ele a adotou como sua terra e sempre a sentiu como tal e durante toda a sua vida lutou pelo enriquecimento cultural da terra, no iniciativa e com outras iniciativas, como fundação de jornais e tentativa de lhes soprar vida, o que infelizmente nunca se concretizou por ausência de interesse da parte instruída da população, salvo os jovens, como ele à época, que se envolviam, colaboravam, mas lhes faltavam os recursos financeiros necessários à continuidade do projeto.
Aquilo que vc. fez recentemente de levar os artistas da terra ao palco para se apresentarem à comunidade, ele o fez várias vezes, sendo que a maior parte do trabalho era realizado por ele mesmo, aparecendo um ou outro para colaborar e dar cara às tapas em cima do palco.
Normalmente ele se caracterizava como um matuto, com algum pseudônimo (Jéca Tabua, foi o utilizado quando publicou o seu livro Canasta Véia), com seu violão apresentando emboladas, com versos falando sobre os personagens mais em voga na cidade, do político ao mais humilde, e fazendo toda a assistência dar gargalhados com o humor contido nos versos que cantava.
Eu ainda chegue a assistir um deles num teatrinho que depois virou cinema, na esquina da rua onde morávamos com a rua que passa por trás da igreja. Eu devia ter a essa época uns 3 ou 4 anos de idade. Mas está lá na memória eu, inclusive, surpreendido com o desempenho de meu pai, tão calado, tão sisudo, em casa e no trabalho. Ali ele soltava toda a sua veia artística, com a verve do poeta e se tornava um artista completo, que talvez tivesse aspirado em ser, mas que as voltas da vida lhe impediram.
Dizia de meu interesse em dar o máximo de informações sobre até para que não passe em branco o centenário de sua chegada a Santa Cruz (1912), no próximo ano, pelo menos na escola que leva o seu nome.
Papai, apesar de ter nascido em 1908, teve sua data de nascimento registrada como tendo sido 06 de outubro de 1912, ano de sua chegada a Santa Cruz. Acho que fizeram o registro às vésperas da viagem, ou logo que chegaram a Santa Cruz e erraram no ano. Mas o fato é que, oficialmente, ele nasceu em 1912, portanto no próximo ano completam-se 100 anos de seu nascimento, conforme registro oficial e também de sua chegada, com seus pais, à sua terra de adoção. No registro foi indicado Bananeiras, como local do nascimento.
Interessante é que esse erro terminou por ser causa de imenso transtorno para ele, mamãe e o restante da família, pois com o estourar da guerra, em 1942, ele, oficialmente, com
30 anos, encontrava-se no rol dos convocados para o serviço militar em tempo de guerra e, não sei se por não se ter alistado, confiado talvez no fato de já ser casado, portanto, arrimo de família, dispensado por lei de prestar serviço militar, terminou sendo preso, como desertor, e trazido para Natal onde ficou recolhido algum tempo (não sei precisar exatamente quanto), levando minha avó, aos prantos, ir de autoridade a autoridade até fazer prova de sua qualidade, como arrimo de família, conseguindo sua liberdade e evitando, talvez, sua ida à Itália, após o cumprimento da pena, para lutar e, quem sabe, ali morrer, hipótese que, se tivesse acontecido, teria privado o mundo de minha insignificante presença, pois só nasci em 1946.
Há um detalhe pitoresco, pois nasci louro, alvíssimo e de olhos azúis, terminando servindo de pilhéria para Papai por seus colegas, que, brincando, sugeriam que eu poderia ser filho de um dos americanos que àquela época também apareciam por Santa Cruz em seus períodos de folga. (RISOS)
Pilhéria meio racista, pois somos todos mestiços de cor meio melada, indefinível, produto da miscigenação do branco com índias, e aqui e acolá, uma misturazinha com um preto, daí resultando, numa ninhada de 12 filhos, quase todas as cores do arco-íris de nossas origens étnicas. Minha avó paterna era branca dos olhos azúis, mas de um físico precário, como o de meu pai. Meu avô paterno era tão baixo como meu pai, porém mais forte um pouco. Porém todos franzinos, fraquinhos, sendo meu pai não tão melado quanto meu avô, puxando à cor da mãe, mas herdando dela forte estrabismo, herdado também por três irmãs minhas e uma sobrinha, mostrando ser traço genético forte em nossa família.
Do lado de minha mãe, que tinha traços de cabocla, bem amorenada, meu avô paterno era também louro, dos olhos azúis, enquanto minha avó, cujo pai era bastante escuro, quase preto, do cabelo ondulado e a mãe de tez bastante clara, nasceu completamente cabocla, quase índia, refletindo os traços de sua bisavó, que era índia (acho que tapuia), presa pelos cabelos, após ser caçada "a casco de cavalo", pelo senhor, meu pentaavô, em algum lugar nos sertões da Paraíba, pois vieram de Araruna.
Meu avô, que era mascate de rapadura, fumo, fósforos, farinha e outros produtos aqui não encontrados, trazia essas mercadorias de Brejo de Areia (PB) até aqui Santa Cruz, inclusive ao sítio do meu bisavô, então no Riacho do Feijão, onde conheceu minha avó, caiu nas graças de meu bisavô e engraçou-se de minha avó, com ela se casando também nos idos de 1910/1912, ganhando um sítio para trabalhar e depois o próprio Riacho do Feijão, quando meu bisavô adquiriu o Sítio Várzea Grande.
Sem querer, terminaram saindo mais algumas informações sobre minha família. (risos