APOESC (Associação de Poetas Escritores Simpatizantes e Colaboradores)

A APOESC (Associação de Poetas Escritores Simpatizantes e Colaboradores), criada em 03.2010 em Santa Cruz -RN, existe para congregar amantes da cultura, apologistas e produtores da arte da palavra.


quinta-feira, 24 de julho de 2014

AO MESTRE ARIANO - Adriano Bezerra


Cumpriu sua sina
Mais um baluarte
Um gênio da arte
Tão rica, tão fina...
Porém não termina
Aqui seu legado
Serás recordado
Mestre Ariano
Ano após ano...
Imortalizado.

quarta-feira, 23 de julho de 2014

O GRANDE LEGADO DO FINADO ARIANO - Gilberto Cardoso dos Santos


Não tive a oportunidade de conhecer Ariano Suassuna pessoalmente. Conheci-o literariamente, através de A Pedra do Reino, de O santo e a porca, do filme O auto da compadecida, de seus poemas... mas principalmente conheci-o através de algumas palestras suas disponíveis na internet.

Creio que seu principal legado tenha sido o de elevar a autoestima do nordestino. Ele resguardou-nos de desenvolvermos um infundado complexo de inferioridade em relação às demais regiões do Brasil e do mundo. Sua ferrenha defesa não era apenas da cultura nordestina, mas do Brasil. Dizia ele dos mais variados modos e sempre com gracejo que não temos razão alguma para envergonhar-nos de nossas raízes e supervalorizar o que vem de fora.


Era alguém que brigava por nós. Brigava  brincando, feito um hábil lutador.

Seu sotaque pernambucano, propositalmente carregado, era um convite a assumirmos nossa nordestinidade. Por seu exemplo, dizia-nos ele que não devemos nos envergonhar do modo como falamos, da maneira que somos. Sua luta, ignorada por muitos que se acham cultos e até mesmo por educadores, tem o respaldo da moderna linguística.

Num mundo globalizado, não temos que nos igualar, prestar subserviência a uma cultura supostamente superior e renunciar ao nosso folclore. Pelo contrário: é preciso que nos apeguemos mais firmemente às diferenças, que salientemos nossas riquezas imateriais para que o mundo, tendente à uniformidade, continue colorido e rico em seus diversos aspectos e segmentos. Que prossiga a confusão de línguas iniciada lá em Babel e cada um de nós enraíze-se mais e mais na dimensão histórica e geográfica que nos coube.

Ariano Suassuna foi bem mais que um nordestino engraçado. Era uma porta aberta no presente que escancarou diante de nós os tesouros que havíamos trancafiado no quarto de despejos. Modernidade pra ele só tinha valor quando não atentava contra a cultura popular. E quem disse que a cultura popular era detentora de uma arte inferior, digna de nossa complacência? Mestre Ariano colocou-a em pé de igualdade com todas as outras e até um pouco acima. Entre uma culta tragédia grega e um ritual de dança indígena, ele ficaria com a segunda opção. A Grécia e o Egito até poderiam nos dizer alguma coisa, mas seria através das vozes de João Grilo, Chicó, Pedro Malazartes e outros tantos personagens dos folhetos de cordel.

Era impossível não gostar de nós mesmos quando ouvíamos Ariano! Ele nos abria os olhos para o  que temos de melhor.

Ariano se foi, mas antes de ir deixou-nos curados. Foi um psicanalista que bem cumpriu o seu papel. É hora de sair do divã e assumir nossa matutice.  Não mais precisamos que alguém nos diga a importância que temos, pois sua voz  ecoará dentro de nós sempre lembrando-nos disto.

HOMENAGENS EM PROSA E VERSO AO MESTRE ARIANO

Obrigado mestre! pela música, pela poesia, pela dramaturgia, pelo bom humor, fica a obra, isso nos alenta - Hélio Crisanto
.
O Mundo não acabou, mas ficou mais pobre.
Ontem a tarde, conversando com minha filha sobre o difícil estado de saúde de Ariano Suassuna, assim como das perdas recentes de grandes figuras da literatura e da cultura, como Rubem Alves , João Ubaldo Ribeiro e do Mestre Antônio da Ladeira dizia eu pra ela:
"Minha mãe dizia que se Frei Damião morresse o mundo se acabaria! Ele morreu e o mundo não acabou. Mas eu digo que se Ariano Suassuna morrer o mundo se acaba!!"
Infelizmente hoje, é com muita tristeza que acabo de saber da noticia da morte dele; 
O mundo não acabou, mas o Brasil e o mundo acabam de perder um grande homem, um grande escritor, dramaturgo; um árduo defensor do Movimento Armorial, da cultura nordestina; da cultura popular como um todo!!!

Onde estivesse, Ariano defendia nosso jeito de falar, nossa cultura, com muita propriedade, com muita autoridade. E isso não é pra qualquer um!
A morte de Ariano Suassuna vai deixar uma lacuna muito grande. Não tenho dúvida disto.
A nós mortais nordestinos e brasileiros, só nos resta um consolo:ele nos deixa , mas a obra dele (Auto da Compadecida, O Santo e a Porca. A Pedra do Reino, etc) ficará eternizada!

***João Maria de Medeiros -- cronista, contista, poeta e professor.


CORDEL PARA ARIANO SUASSUNA - Gustavo Dourado

Ariano Villar Suassuna:
Em João Pessoa nasceu...
Nossa Senhora das Neves:
A sua bênção lhe deu...
Filho de João Suassuna:
Dona Cássia o concebeu...

Dia 16 de junho:
1927, o ano...
Por graça da divindade:
Veio ao mundo Ariano...
Brasileiro por excelência:
Nascido paraibano...

[...]

8 décadas de Ariano:
Quintessência social...
Por justiça e liberdade:
Sua arte é vital...
Ariano é um luzeiro:
Da cultura nacional...

Cultura Popular Brasileira:
Movimento Armorial...
Estética e erudição:
Sapiência cultural...
Mamulengo e Cordel:
Ariano é sem-igual...

Parceria com Capiba:
E com Ascenso Ferreira...
Inspirou-se no Cordel:
E na cultura brasileira...
Com Hermilo Borba Filho:
Fez teatro de primeira...
[...]

Do Clássico ao Popular:
De Cervantes ao Cordel...
Euclides da Cunha e Dante:
De jogral a menestrel...
Shakespeare e Dostoiévski:
Gil Vicente e Rafael...

Pela poesia começou:
No conto é experiente...
O teatro é sua glória:
No romance é sapiente...
Teatro dos Estudantes:
A voz do povo presente...

Aleijadinho e Leonardo Mota:
Unamuno e Conselheiro...
Eça, Gautier, Villa-Lobos:
Mamulengo presepeiro...
Romance e cantoria:
Ariano é candeeiro...

Ariano romancista:
Poeta e professor...
Dramaturgo e filósofo:
Luminoso pensador...
Cultivador da estética:
Universal criador...

Gustavo Dourado - Autor do cordel



AO MESTRE ANTÔNIO DA LADEIRA - Adriano Bezerra

Mestre Antônio da Ladeira
Pelo Mestre foi chamado
Certamente pra alegrar
O povo do outro lado
Mas o seu valor sem par
Para sempre vai ficar
Entre nós eternizado.


terça-feira, 22 de julho de 2014

MESTRE ANTÔNIO DA LADEIRA - Homenagem em versos (Gilberto Cardoso dos Santos)


Hora de queimar o boi:
A festa silenciou
O nosso guia se foi
Sua missão terminou
Foi-se quem tanto apoiou
A cultura verdadeira
A nossa alma brejeira
Feito criança ficava
Quando se apresentava
Mestre Antônio da Ladeira

A cultura foi seu guia
Durante longa existência
Na dança e na poesia
Ele firmou a vivência
Enfrentou com resistência
O progresso sem fronteira
Que destrói na terra inteira
O que o passado teceu
Com seu boi permaneceu
Mestre Antônio da Ladeira

O passado jaz à porta
E não deve ser varrido
Feito uma coisa morta
Que perdeu todo sentido
Que não seja enfraquecido
O brilho dessa fogueira
Que nossa saga roceira
Resplandeça em sua glória
E não tire da memória
Mestre Antônio da ladeira.

Os 3 reis do Oriente
No céu estão a dançar
Junto com seu boi valente
Mestre Antônio vai chegar
Sem hora pra terminar
Tem início a brincadeira
Vão passar a noite inteira
Com anjos se divertindo
E alegremente seguindo
Mestre Antônio da Ladeira

Ele fez o que podia
Pra manter a chama acesa
A cultura que trazia
Era cheia de beleza
Vem dançando a realeza
Numa nuvem de poeira
Mas a morte sorrateira
Veio à festa estragar:
Era hora de levar
Mestre Antônio da Ladeira.

Num planeta iluminado
Que ao progresso cultua
Nos espelhos do Reisado
Falta o clarão da lua
Mas a festa continua
O boi desce a ribanceira
A Catirina faceira
Chega para conquistar
Em vão tenta despertar
Mestre Antônio da Ladeira

Nosso mestre adormecido
Sonha com outro Reisado
E está tão envolvido
Que não será acordado
Resta-nos o seu legado
Pra cultura brasileira
Vamos fechar a porteira
Para o progresso inclemente
E guardar em nossa mente
Mestre Antônio da Ladeira.

A  ladeira da cultura
É difícil de subir
Cercados de amargura
Muitos querem desistir
É preciso persistir
Não se entregar à canseira
Erguer bem alto a bandeira
Nem sempre reconhecida
Como fez por toda a vida
Mestre Antônio da Ladeira.

HOMENAGEM A MESTRE ANTÔNIO DE HÉLIO CRISANTO


A mão cega do destino
Turvou a segunda feira
Ceifando esse baluarte
Mestre Antônio da ladeira
Com o seu chicote e chapéu
Foi ser brincante no céu
Deixando a arte solteira.

segunda-feira, 21 de julho de 2014

NOTA DO CONSELHO MUNICIPAL DE CULTURA SOBRE MORTE DE ANTÔNIO DA LADEIRA

        Samira Delgado, membro do Conselho


O Conselho Municipal de Política Cultural de Santa Cruz lamenta profundamente o falecimento do Mestre Antônio da Ladeira, que alegrou, por muitos anos, as festas e celebrações de Santa Cruz e de todo o Rio Grande do Norte, colorindo e encantando a todos com o seu magnífico Boi de Reis. Mestre da cultura popular, reconhecido como Patrimônio Imaterial da Cultura Potiguar, Mestre Antônio da Ladeira foi responsável por manter vivo e divulgar o Boi de Reis em Santa Cruz e região. Sua alegria e dedicação à cultura popular sempre serviu de incentivo a dezenas de artistas, apreciadores e produtores culturais. Que seu exemplo de vida motive muitos outros brincantes a manter viva a alegria e o colorido de nossa cultura!


A MORTE DE MESTRE ANTÔNIO DA LADEIRA

 Santa Cruz e o RN estão de luto. Perdemos no dia de hoje (21/07/2014) um dos mais importantes nomes da cultura popular norte-riograndense: O Mestre Antônio da Ladeira.

Para benefício dos que não o conheceram ou pouco sabem a seu respeito, transcrevo o mais completo trabalho que já se fez a seu respeito do site do IFRN, Campus de Santa Cruz, onde também se encontram  vídeos duma  entrevista feita com ele:





ANTÔNIO RODRIGUES DA SILVA, CONHECIDO COMO ANTÔNIO DA LADEIRA, É UM DOS MAIS IMPORTANTES MESTRES DE BOI DE REIS DO RIO GRANDE DO NORTE. CONSIDERADO PATRIMÔNIO IMATERIAL DA CULTURA POTIGUAR, MESTRE ANTÔNIO DA LADEIRA NASCEU EM SANTO ANTÔNIO DO SALTO DA ONÇA, EM DEZEMBRO DE 1924. ORFÃO DE PAI, VEIO COM SUA MÃE PARA O TRAIRI AINDA CRIANÇA PARA TRABALHAR NA AGRICULTURA, NO CULTIVO DO ALGODÃO. NESSA REGIÃO, MANTÉM A TRADIÇÃO DO BOI-CALEMBA POTIGUAR HÁ MAIS DE 65 ANOS.

Foi ainda criança que Mestre Antônio da Ladeira conheceu o Boi de Reis, vendo a brincadeira de outros mestres. Hoje (2010), com seus 86 anos vividos, Mestre Antônio da Ladeira é uma figura referencial da cultura do Trairi e, mais particularmente, do Bairro Paraíso. Diversos pesquisadores de cultura popular já se debruçaram sobre o trabalho do Mestre Antônio da Ladeira e buscaram registrar seu rico conhecimento da tradição oral do Boi de Reis potiguar.
Sua brincadeira tem conotações místicas e simbólicas, ligadas profundamente ao imaginário cristão e a referências mitológicas que cercam o nascimento de Jesus.

De acordo com a visão tradicional sobre a origem do Boi de Reis, os três Reis do Oriente teriam descido do céu para homenagear Jesus, dançando o Boi ao redor da manjedoura.  Segundo Mestre Antônio da Ladeira, o registro da brincadeira do Boi teria chegado ao Brasil através de um livro que teria sido deixado na Serra de Cuité, na Paraíba.
Inserido em um universo mitológico, onde o sentido do tempo não corresponde aos dados da cultura historiográfica acadêmica, o Boi de Reis é uma manifestação cultural que mistura  religiosidade, arte e recreação em um  conjunto sagrado de referências estéticas que marca profundamente a sensibilidade popular e a identidade de nosso Estado.

No Boi de Reis, os cantos giram em torno da descida e da ascensão dos Três Reis Magos. As figuras que circundam o Boi de Reis de Mestre Antônio são tradicionais, como a burrinha, o bode, o Jaraguá (um monstro sem uma característica definida que pode fazer referência a antigas lendas de feras marinhas e monstros mitológicos que apavoravam o imaginário dos pescadores) e o cavalo marinho. O termo “marujada” é usado por Mestre Antônio para designar os brincantes do Boi.
Seu Boi de Reis retém elementos não apenas da tradição sertaneja, caracterizada por alguns pesquisadores como “civilização do couro”, como traz também marcas significativas do universo imaginário dos povos que habitam o litoral do Brasil.

O tempo do Boi não é histórico, mas mitológico e, como tempo mitológico, é também um tempo circular. O ano é dividido em dois grandes ciclos, como nas antigas tradições religiosas que regulavam suas festas a partir da chegada e da partida das estações. Tradicionalmente se brincava o Boi entre Julho e Janeiro (terminando no dia de Reis).

Após seis meses de brincadeira e de apresentações pelas Serras que cercam o Trairi, Mestre Antônio da Ladeira, seguindo uma antiga tradição, queimava seu Boi no Dia de Reis.
Esse ritual marcava o fim de um ciclo e o começo de outro através do ritual do fogo. No entanto, trazia certos riscos.
Segundo Mestre Antônio, quando a madeira do chifre do boi estralava no fogo, era sinal de que alguém do grupo iria morrer. A morte do Boi através do fogo fecha o ciclo do tempo e marca, também, os riscos da mortalidade dos próprios brincantes. Em um universo em que o real e o imaginário não têm fronteiras definidas, a brincadeira do boi não é vista como uma “expressão artística”, mas como parte da vida da própria comunidade, um elemento que integra, em uma totalidade, a fé, a beleza, a expressão particular, o humor e a imaginação do povo.

A música e  a dança são elementos fundamentais na brincadeira do boi. Mestre Antônio utiliza a rabeca, mas também não faz objeções ao uso de outros instrumentos como a sanfona, por exemplo. O que não pode mudar no Boi de Mestre Antônio da Ladeira são os cantos e as danças. Mesmo que os instrumentos mudem, a ordem das músicas e o conteúdo dos cantos não sofrem alteração.

Outro aspecto importante, que mantém relações com as práticas religiosas de povos tradicionais, é a evocação dos três Reis:

“Se perguntou quem cantou
Aqui neste lugar
Foi os três reis do oriente
Belchior, Gaspar, Baltazar”

Nesse sentido, a arte de Mestre Antônio presentifica e evoca a presença espiritual dos três reis, que surgem novamente no mundo para repetir a mesma festa que fizeram no dia em que Jesus nasceu. A brincadeira de Reis é, assim, um ritual sagrado, que faz com que a história da visita dos três Reis do Oriente possa ser experimentada pela comunidade, revitalizando o mito e dando forma viva e atual a um sentimento que remonta a tempos muito antigos.
Outro aspecto importante do Boi de Mestre Antônio é a rigidez com que ele trata a divisão entre homens e mulheres. Para o Mestre de Santa Cruz, as mulheres não podem dançar o Boi. Para elas existe o pastoril, mas feminino, menos intenso e vigoroso.
Essa divisão de danças também evoca uma sociedade rígida, cindida pelo gênero, onde homens e mulheres têm papeis socialmente distintos e demarcados de modo rígido.

Entre as cantigas, pequenos intervalos recitados em forma rimada, chamados de loas são introduzidos na brincadeira. Geralmente em primeira pessoa, essas loas têm um forte conteúdo narrativo. Ligados a histórias fantásticas ou bem humoradas, as loas, junto com o aboio (que marca a ligação do Boi de Reis de Mestre Antônio com a cultura sertaneja do gado) e as cantigas, compõe um aspecto poético muito importante dessa manifestação tão rica da nossa potiguaridade.


domingo, 20 de julho de 2014

LANÇAMENTO DO LIVRO "Proeja no IFRN: refletindo sobre o fazer pedagógico"

Nessa última quinta-feira (17/07), a editora do IFRN realizou o lançamento de 06 livros, no Campus Natal Cidade Alta, às 18 horas. Dentre os livros lançados,  constava "Proeja no IFRN: refletindo sobre o fazer pedagógico", organizado pela professora Cristiane Maria Praxedes e mais duas servidoras do IF. Neste livro, abordam-se, em onze artigos, discussões e experiências bem sucedidas referentes a modalidade PROEJA. Um dos artigos foi escrito pela professora Cristiane,  em coautoria. 

Parabéns pelo relevante trabalho, professora!





sábado, 19 de julho de 2014

TEXTO DE RUBEM ALVES SOBRE O FIM DA VIDA NO DIA DE SUA MORTE

Escritor e educador Rubem Alves morre em Campinas aos 80 anos

Alves morreu em decorrência de falência múltipla de órgãos.
Eles estava internado desde o dia 10 de julho.


Rubem Alves (Foto: Instituto Rubem Alves)


                                                                      A MORTE COMO CONSELHEIRA – Rubem Alves

Lembra-te,
antes que cheguem os maus dias,
e se rompa o fio de prata,
e se despedace o copo de ouro,
e se quebre o cântaro junto à fonte,
e se desfaça a roda junto ao poço…
Eclesiastes 12, 1-8
A vida está cheia de rituais para exorcizar a Morte. [...]
Não, não, a Morte não é algo que nos espera no fim. É companheira silenciosa que fala com voz branda, sem querer nos aterrorizar, dizendo sempre a verdade e nos convidando à sabedoria de viver.
O que ela diz? Coisas assim:
“Bonito o crepúsculo, não? Veja as cores, como são lindas e efêmeras… Não se repetirão jamais. E não há formas de segura-las. Inútil tirar uma foto. A foto será sempre a memória de algo que deixou de ser… E esta tristeza que a beleza dá? Talvez porque você seja como o crepúsculo…. É preciso viver o instante. Não é possível colocar a vida numa caderneta de poupança…”
“Você sabe que horas são? Está ficando frio… E as cores do outono? Parece que o inverno está chegando…”
“O que é que você está esperando? Como se a vida ainda não tivesse começado… Como se você estivesse à espera de algum evento que vai marcar o início real da sua vida: formar, casar, criar os filhos, separar da mulher ou do marido, descobrir o verdadeiro amor, ficar rico, aposentar… Como se os seus instantes presentes fossem provisórios, preparatórios. Mas eles são a única coisa que existe…”
“E esta música que você está dançando? É de sua autoria? Ou é um Outro que toca, e você dança? Quem é este Outro? Lembre-se do que disse o poeta ‘Sou o intervalo entre o meu desejo e aquilo que os desejos dos outros fizeram de mim’. Mas, se você é isto, o intervalo, você já morreu… Acorde! Ressuscite!”
A branda fala da morte não nos aterroriza por nos falar da Morte. Ela nos aterroriza por nos falar da Vida. Na verdade, a Morte nunca fala sobre si mesma. Ela sempre nos fala sobre aquilo que estamos fazendo com a própria Vida, as perdas, os sonhos que não sonhamos, os riscos que não tomamos (por medo), os suicídios lentos que perpetramos.
“Lembra-te, antes que se rompa o fio de prata e se despedace o corpo de outro”, e que seja tarde demais.
Uma das canções mais belas do Chico eu nunca ouvi tocada no rádio. Tenho perguntado, e pouca gente conhece. Desconfio. É porque ela é a mansa sabedoria da Morte, que ninguém quer ouvir. Diz assim: “O velho sem conselhos, de joelhos, de partida, carrega com certeza todo o peso de sua vida. Então eu lhe pergunto sobre o amor… A vida inteira, diz que se guardou do carnaval, da brincadeira que ele não brincou… E agora, velho, o que é que eu digo ao povo? O que é que tem de novo pra deixar? Nada. Só a caminhada, longa, pra nenhum lugar… O velho, de partida, deixa a vida sem saudades, sem dívida, sem saldo, sem rival ou amizade. Então eu lhe pergunto pelo amor… Ele me diz que sempre se escondeu, não se comprometeu, nem nunca se entregou… E agora, velho, que é que eu digo ao povo? O que é que tem de novo pra deixar? Nada. Eu vejo a triste estrada aonde um dia eu vou parar. O velho vai-se agora, vai-se embora sem bagagem. Não sabe pra que veio, foi passeio, foi passagem. Então eu lhe pergunto pelo amor… Ele me é franco. Mostra um verso manco dum caderno em branco que já se fechou. E agora, velho, o que é que eu digo ao povo? O que é que tem de novo pra deixar? Não. Foi tudo escrito em vão… E eu lhe peço perdão mas não vou lastimar”… Parece até que o Chico e o Jorge Luis Borges entraram de acordo, pois este escreveu coisa muito parecida: “Instantes: Se eu puder viver novamente a minha vida, na próxima trataria de cometer mais erros. Não tentaria ser perfeito. Relaxaria mais. Seria mais tolo ainda do que tenho sido. Na verdade, bem poucas coisas levaria a sério. Seria até menos higiênico. Correria mais riscos, viajaria mais, contemplaria mais entardeceres, subiria mais montanhas, nadaria mais rios. Iria para lugares onde nunca fui, tomaria mais sorvete e menos sopa. Teria mais problemas reais e menos problemas imaginários. Eu fui uma desta pessoas que viveu sensata e produtivamente cada minuto de sua vida. Eu era uma destas pessoas que nunca ia a parte alguma sem um termômetro, uma bolsa de água quente, um guarda-chuva e um pára-quedas. Se voltasse a viver, viajaria mais leve. Se eu pudesse voltar a viver, começaria a andar descalço no começo da primavera e continuaria assim até o fim do outono. Daria mais voltas na minha rua, contemplaria mais amanheceres e brincaria com mais crianças, se tivesse outra vez uma vida pela frente. Mas, já viram, tenho 85 anos e sei que estou morrendo…”
É! Embora a gente não saiba, a Morte fala com a voz do poeta. Porque é nele que as duas, a Vida e a Morte, encontram-se reconciliadas, conversam uma com a outra, e desta conversa surge a Beleza. Agora, o que a Beleza não suporta é o falatório, a correria… Ela nos convida a contemplar a nossa própria verdade. E o que ela nos diz é simplesmente isto: “Veja a vida. Não há tempo pra perder. É preciso viver agora! Não se pode deixar o amor para depois. CARPE DIEM!”
Foi esta a primeira lição do professor de literatura do filme A sociedade dos poetas mortos. CARPE DIEM: agarre o dia! E o efeito de tal revelação poética, nascida da reconciliação da Vida com a Morte, é uma incontrolável explosão de liberdade. É só isto que nos dá coragem para arrebentar a mortalha com que os desejos dos outros nos enrolam e mumificam.
Tive um amigo, Hans Hoekendijk, um holandês que esteve prisioneiro num campo de concentração alemão. Contou-me de sua experiência com a morte. A guerra já chegava ao fim, e os prisioneiros acompanhavam num rádio clandestino o avanço de tropas aliadas e já faziam o cálculo dos dias que os separavam da liberdade. Até que o comandante da prisão reuniu a todos no pátio e informou que, antes da libertação, todos seriam enforcados. “Foi um grito de lamentação e horror… seguido da mais extraordinária experiência de liberdade que jamais tive em minha vida”, ele disse. “Se eu morrer dentro de dois dias, então nada mais importa. Não há sentido em me guardar, não há sentido em ser prudente. Não preciso pretender ser outra coisa do que sou. Posso viver a minha verdade, pois nada pode me acontecer. Não preciso de máscaras. Tenho a permissão para a honestidade total. Posso ir ao guarda nazista, que sempre me aterrorizou, e dizer a ele tudo o que sinto e penso… Que é que ele pode me fazer? Posso ir até aquela mulher que sempre amei mas de quem nunca me aproximei (afinal, ela estava com o marido, e naqueles tempos isto era levado em consideração…) e pedir licença ao marido para confessar os sentimentos… Posso dizer tudo o que sinto mas que nunca me atrevi a dizer, por medo”. E me contou dessa experiência fantástica de liberdade e verdade que se tem quando se está pendurado sobre o abismo. A Morte tem o poder de colocar todas as coisas em seus devidos lugares. Longe do seu olhar , somos prisioneiros do olhar dos outros, e caímos na armadilha de seus desejos. Deixamos de ser o que somos para sermos o que eles desejam que sejamos. Diante da Morte, tudo se torna repentinamente puro. Não há lugar pra mentiras. E a gente se defronta então, com a Verdade, aquilo que realmente importa. Para ter acesso a nossa verdade, para ouvir de novo a voz do desejo mais profundo, é preciso tornar-se um discípulo da Morte. Pois ela nos dá lições de vida, se acolhemos como amiga. ” A morte é nossa eterna companheira” – dizia Don Juan, o bruxo. ” Ela se encontra sempre a nossa esquerda, ao alcance do braço. Ela nos olha sempre até o dia que nos toca. Como é possível alguém se sentir importante, sabendo que a Morte o comtempla? O que você deve fazer ao se sentir impaciente com alguma coisa, é voltar-se para sua esquerda e pedir que a sua Morte o aconselhe. Estamos cheios de lixo! É a Morte é a única conselheira que temos. Sempre que você sentir, como acontece sempre, que tudo está indo de mal a pior,e que você se encontra a ponto de aniquilado, volte-se para sua Morte e lhe pergunte se isso é verdade. Sua Morte lhe dirá que você está errado, que nada realmente importa, fora do seu toque. Ela lhe dirá “ainda não te toquei”. Alguém tem que mudar e depressa. Alguém tem que aprender que a Morte é caçadora e que ela se encontra a nossa esquerda. Alguém tem que pedir o conselho da Morte e abandonar a maldita mesquinharia que pertence aos homens que vivem as suas vidas como se a Morte nunca fosse bater no seu ombro.
Houve um tempo em que o nosso poder perante a morte era muito pequeno. E por isso os homens e mulheres dedicavam-se a ouvir a sua voz e podiam tornar-se sábios na arte de viver. Hoje, o nosso poder aumentou, a Morte foi definida como inimiga a ser derrotada, fomos possuídos pela fantasia onipotente de que nos livramos de seu toque. Com isso, nós nos tornamos surdos às lições que ela pode nos ensinar. E nos encontramos diante do perigo de que, quanto mais poderosos formos diante ela( inutilmente, porque só podemos adiar..)mais tolos nos tornamos na arte de viver. E, quando isso acontece, Morte que podia ser conselheira sábia, transforma-se em inimiga que nos devora por detrás. Acho que para recuperarmos um pouco a sabedoria de viver seria preciso que nos tornássemos discípulos e não inimigos da Morte. Mas para isso seria preciso abrir espaço em nossas vidas para ouvir a sua voz.Seria preciso que voltássemos a ouvir os poetas….
Referência
ALVES, Rubem. A morte como conselheira. In: CASSORLA, Roosevelt M. S. (Coord). Da morte. Campinas: Papirus, 1991.

Tem gente virando bicho E bicho virando gente - ZeFerreira Santos


     Poeta ZeFerreira Santos


No mote de Henrique José eu  disse:


Darwin tratando a questão
De como o homem surgia
Criou uma teoria
chamada de "Evolução"
Nela, a população,
Do macaco é descendente.
Não creio nessa vertente
Mas escutei um cochicho:
"Tem gente virando bicho
E bicho virando gente."

De conselheiro, o sermão
Ainda posso lembrar:
“O sertão vai virar mar
E o mar vai virar sertão”
Mas uma nova inversão
Em se tratando do ente
Você nota sutilmente,
Se bota ou tira o rabicho:
Tem gente virando bicho
E bicho virando gente.

sexta-feira, 18 de julho de 2014

ARREPENDIMENTO NO BRASIL E NO JAPÃO


Acho que arrependimento
É algo bem cultural
E a formação pessoal
Determina o sentimento
Recordo nesse momento
Dos antigos samurais
Que em seus zelos morais
Com espada se matavam
Quando erros praticavam
A vergonha era demais!

No Japão essa cultura
Continua muito forte
Há quem sofra até à morte
Depois que perde a postura
Forte é a amargura
De quem cai na tentação
Atos de corrupção
São duramente punidos
E os réus arrependidos
Nem sempre buscam perdão.

No Brasil é diferente
Quando alguém faz algo errado
Não se mostra envergonhado
Sempre se diz inocente
Na política é patente
Este vil comportamento
Sempre há um argumento
Para se justificar
E alguns chegam a zombar
Na hora do julgamento.

Por isso que a nação
Continua desse jeito
Grande é o desrespeito
Com a Constituição
Aqui não há punição
Político faz o que quer
Rouba enquanto puder
E quando é descoberto
Mostra o quanto é esperto
Vale o que ele disser!

Lágrimas de crocodilo
Às vezes são derramadas
Friamente calculadas
Mas sem perder o estilo
O criminoso tranquilo
Certo da impunidade
Esconde toda a verdade
E ri na cara da gente
Essa cena é bem frequente
Em nossa sociedade.