APOESC é uma entidade criada em março de 2010 na cidade de Santa Cruz-RN. É uma associação de poetas e escritores que tem as portas abertas também para simpatizantes e colaboradores; para ser membro da APOESC, basta ter amor à cultura. Objetivamos congregar apologistas e produtores da arte da palavra de toda a região.


domingo, 3 de junho de 2012

AS POMBAS E "QUE POMBAS!"


AS POMBASRaimundo Correia

VAI-SE a primeira pomba despertada...
Vai-se outra mais... mais outra... enfim dezenas
De pombas vão-se dos pombais, apenas
Raia sangüínea e fresca a madrugada...

E à tarde, quando a rígida nortada
Sopra, aos pombais de novo elas, serenas,
Ruflando as asas, sacudindo as penas,
Voltam todas em bando e em revoada...

Também dos corações onde abotoam,
Os sonhos, um por um, céleres voam,
Como voam as pombas dos pombais;

No azul da adolescência as asas soltam,
Fogem... Mas aos pombais as pombas voltam,
E eles aos corações não voltam mais...



"QUE POMBAS!"
 
                              –Haroldo Lyra/CE

Vai-se a primeira fraude consumada
vai-se outra mais, mais outra; enfim, dezenas
de fraudes vão-se do planalto, apenas
raia a perenal mão mancomunada.
 
Porém, quando uma farsa é publicada,
as manchetes, de novo, as velhas cenas
de cinismo repetem as cantilenas,
voltam em conta superfaturada.
 
Também nas capitais, onde abotoam,
os rombos, um por um, céleres voam,
como as fraudes dos plenos federais.
 
Na esfera da Justiça as verbas soltam,
fogem; mas nos jornais os rombos voltam
e a grana popular não volta mais.

A Cidade dos Poemas - Epitácio Andrade


Monteiro/PB

A Cidade dos Poemas
                      No pórtico de acesso à cidade, um sanfoneiro conterrâneo e a flautista Zabé da Loca anunciam que Monteiro, capital do cariri paraibano, é a cidade dos poemas.
                                   Mas, foi Severino Lourenço da Silva Pinto (1895-1990), "Pinto do Monteiro", poeta repentista e um dos maiores improvisadores do Brasil, que imortalizou a cidade dos poemas, cujo legado está sintetizado no design arquitetônico de sua principal praça.
                        "Eu comparo esta vida/a curva da letra 'S'/tem uma ponta que sobe/tem outra ponta que desce/e a volta que dá no meio/nem todo mundo conhece", eis um pouco da sensibilidade e da perspicácia do poeta Pinto do Monteiro.
                                       A cidade respira poesia. Os estabelecimentos comerciais são decorados com poemas. Uma das principais pousadas do município adota o nome de poetas para designar os seus apartamentos e suas paredes são repletas de estrofes.
                            Natural de Monteiro, a poetisa Janice Japiassu é uma das homenageadas da Pousada dos Poemas. Radicada em Recife desde os anos sessenta do século passado, onde conheceu o mestre Ariano Suassuna, um de seus incentivadores, Janice expõe na sua terra natal a paixão pela capital pernambucana.
                                     Localizado na fronteira pernambucana, a cidade interiorana recebe a influência cultural da metrópole nordestina. Está exposto numa parede o poema "Recife, com paixão", onde a poetisa, com suavidade, revela as contradições da grande cidade do "descaminho do reino das águas".
                                   As águas do rio que dá nome ao estado da Paraíba nascem na Serra de Jabitacá, no município de Monteiro, na divisa com Pernambuco, e ao longo do curso dos seus 380 km até a foz na ilha da restinga, entre Santa Rita, Cabedelo e Lucena, o Rio Paraíba vai recebendo afluentes, entre os quais, recebe o rio Taperoá, oriundo das glebas onde o poeta Ariano Suassuna passou sua infância e conheceu os primeiros "improvisadores".
                                   A cerca da vastíssima produção cultural do menestrel Armorial, ressalta-se o poema "A Cantiga de Jesuíno", musicado por Capiba, que foi apresentado no Festival da Canção, em 1967, no Rio de Janeiro. Este poema é uma referência ao cangaceiro potiguar Jesuíno Brilhante (1844-79).
                                          Na toponímia da região, na circunvizinhança de Monteiro, está a cidade de Zabelê, nome de ave, mas também do cangaceiro-sanfoneiro do bando de Lampião, que inclusive afirmou ser de autoria do "Rei do Cangaço" a letra e a música "Mulher Rendeira". É em Zabelê, onde ocorre a "poética" e uma das mais tradicionais corridas de jegue do nordeste brasileiro.
                       A imponência do estilo gótico da igreja de Nossa Senhora das Dores no centro da cidade contrasta com o atraso de alguns aspectos do desenvolvimento econômico do município, como a desconexão com os sistemas de cartão de crédito.
                          Por outro lado, a implantação do Serviço Móvel de Urgência (SAMU) está em sintonia com o desenvolvimento sócio-cultural da cidade representado pelo resgate histórico do legado da obra de seus poetas.
                        Com poema, Rafael Menezes vai revelando o quotidiano da cidade do interior paraibano. "Se queres receberás/É cidade do interior/Pedindo conseguirás".
                         Já o ás do improviso Pinto do Monteiro, assim define o poeta: "Poeta é aquele que tira de onde não tem e bota onde não cabe".
                         E a terra natal também é definida em poesia: "Em Monteiro nasceu o riso/Tristeza passou por fora/Paro a vida, ali eu fico/O resto mando embora".
                         No poema do sapo, Onésimo cantador fala da determinação econômica do destino deste anfíbio: "O sapo é um animal que tem tudo, mas não vale nada! Tem couro, mas não dá bainha/Tem tripa, mas não dá buchada/Tem sangue, mas não dá chouriço/Tem leite, mas não dá coalhada". Para não ser injusto, noutras estrofes, o poeta repentista fala da importância do sapo na cadeia alimentar.
                       Os adereços da decoração são definidos, poeticamente. Animais da caatinga em cerâmica, canteiros de plantas xerófitas, a indígena rede de dormir, o galo de campina na árvore, a cadeira de cipó, móveis antigos, instrumentos museológicos, lavabo de louça, vitrais, instalações rústicas e um "carrinho de carneiro", representando a tradição econômica baseada na ovinocaprinocultura, completam o cenário lítero-poético deste recanto paraibano.
Canteiro de Macambira 
   Rede de dormir, uma invenção indígena
                                                                    Galo de Campina 
                                                                     
                                                               Carrinho de Carneiro
                                 A programação noturna não seria outra: Degustar a culinária cariri, baseada no binômio "bode-carneiro", e conhecer novos acervos de poesia.
                                   Epitácio Andrade e Cristina Cláudia

Mensagem inspirada pelo blog da APOESC - Darciele Clíssia


Darciele Clíssia

  • Adoro ver, sentir, ouvir... a cultura do meu povo nordestino - povo talentoso que retira arte dos galhos secos de um "pé de algaroba" ("uma árvore qualquer"), da sombra de uma cajarana,da simplicidade de uma noite sertaneja. Povo que faz de seu sofrimento, música, e que nos faz, nas primeiras horas do dia, ter orgulho de ser um dos seus.

    ... inspirada pelo blog da APOESC


    Obrigado, Darciele, por palavras tão incentivadoras e poéticas.
    Sinta-se à vontade para nos enviar textos seus. Vê-se que você tem talento.

PINTURA DE WILARD MONTEIRO

Quadro feito por Wilard Monteiro (filho do poeta Chicola) para presentear a mãe.
Belíssima pintura!



"Recitando o sertão de uma maneira diferente."  - Wilard Monteiro
Desde a primeira a presentação da APOESC "RECITANDO O SERTÃO", 
que eu tive vontade de mostrar, a minha maneira, o quão poético é o sertão nordestino.

FILOSOFIA DO DALAI LAMA


"Creio que a melhor utilização do tempo é a seguinte: se for possível, 
servir aos outros, a outros seres sencientes. Se não for possível, pelo menos 
procurar não prejudicá-los. Creio que esta é toda a base da minha filosofia.
Logo, reflitamos sobre o que realmente tem valor na vida, o que
confere significado à nossa vida, e fixemos nossas prioridades com base
nisso. O propósito da nossa vida precisa ser positivo. Não nascemos com a
finalidade de causar problemas de prejudicar os outros. Para que nossa vida
tenha valor, creio que devemos desenvolver boas qualidades humanas
essenciais  —  o carinho, a bondade, a compaixão. Com isso nossa vida
ganha significado e se torna mais tranqüila, mais feliz."

ESPINHO - Aldenir Costa

Foto do perfil

REPORTAGEM DO BLOG DE ERIVAN


APOESC COMEMORA CENTÉSIMO PROGRAMA NA 

FM SANTA RITA

A Associação de Poetas e Escritores de Santa Cruz-APOESC 
comemorou neste sábado(02) o centésimo programa na rádio 
comunitária Santa Rita FM.
O programa é, basicamente, destinado aos poetas da região 
e artistas em geral, sendo apresentado pelos poetas, escritores 
e cordelistas Hélio Crisanto e Gilberto Cardoso.
O programa vai ao ar todos os sábados pela manhã, e já é sucesso 
garantido. "Levar Cultura é instruir seu povo".
Poetas: Hélio Crisanto e Gilberto Cardoso no Stúdio da FM Santa Rita
Parabéns à APOESC e aos idealizadores do programa.

sábado, 2 de junho de 2012

VIAGEM PÓSTUMA - Antoniel Medeiros


Deus, com sua imensurável misericórdia, sempre reserva um dia a cada dez anos para que as almas do céu, inferno e purgatório se encontrem. Desta forma, as famílias separadas pelo julgamento divino se reencontram, além de ser uma excelente oportunidade para conhecer pessoas novas, viventes em outras dimensões.

Foi no meu primeiro (e único até o momento) dia destes que conheci o colega Brás Cubas. Ele me falou que conhecia um local no céu que servia como correio entre este e a Terra, e que já tinha escrito “com a pena da galhofa” para a nossa antiga casa. O entreguei este relato escrito e lho pedi que enviasse. Se você, leitor, estiver lendo isto significa que, de alguma forma, isto veio do céu e caiu em suas mãos. Não sei se por destino ou coincidência.
Não trago aqui nada de sobrenatural. Mas, tenho a dizer coisas que despertam a curiosidade humana: falo do procedimento natural ao chegar à SEDE. Daí o leitor deverá perguntar: o que seria SEDE? Calma, explico. SEDE é uma sigla que significa Sala de Espera de Destinação Espiritual, é nesta que sabemos para onde vamos: céu, inferno ou purgatório.
Após ter sido perfurado por um tiro em um confronto com a polícia, estava eu lá com mais três pessoas, na SEDE. Nenhum de nós quatro entendia como aquilo tinha acontecido. Alguns segundos após minha chegada, apareceu um anjo sorrindo para todos nós. Falou:
- Saudações. Sou o “Finanjo”, o anjo responsável pelas finanças do planeta Terra. Ponham a mão no bolso direito e entenderão melhor o que estou dizendo.
Ao tirar a mão do bolso, vi que eu tinha duas notas. Cada uma delas tinha um anjo desenhado e o número cem.
- Bom, o Criador me forneceu uma tabela com o valor de cada conduta exercida por vocês na Terra. Cada ato corresponde a um valor, sendo que as más condutas correspondem a ônus financeiro.
Ainda meio sem entender o que estava acontecendo, pensei que estava numa boa situação, afinal de contas, apesar de ter cometido vários crimes, eu ainda tinha um saldo positivo, pois tinha duas notas.
O anjo apontou para uma senhora que estava ao meu lado, e a chamou para perto do balcão onde se encontrava. Disse:
- Bom, pelo que vejo em sua ficha, a senhora viveu boa parte de sua vida numa casa que cuidava de crianças órfãs e idosos. Sempre foi muito prestativa a todos eles. Vejo que você ganhou 2000 Contos Celestiais, correto?
-Sim, é isso mesmo.
- A entrada no paraíso custa 1000 contos celestiais...
- O que?(eu disse).
O anjo olhou para mim com olhar de reprovação e continuou:
- Como dizia, a entrada no paraíso custa 1000 contos celestiais. Você tem mais mil, com estes pode conseguir algumas regalias.
Por trás do balcão onde se achava o anjo, havia vários produtos celestiais. Resumindo, com o dinheiro celestial restante, a senhora comprou um par de asas por 500 contos, algumas aulas de voo por 300 e uma harpa por 200.
Após a entrada triunfal da velhinha no céu, o anjo chamou o segundo. Este se mostrou muito curioso. É que por trás do anjo havia dois quadros pregados na parede. Um tinha a foto da Virgem Maria, o outro de Adolf Hitler. O homem astuto perguntou:
- O que são estes quadros?
O anjo respondeu:
- São os recordes financeiro-celestiais obtidos até hoje.
- Como assim?
- A imaculada Virgem Maria conseguiu a quantia de 1.000.000 de Contos Celestiais. Enquanto que este senhor da foto chegou aqui com um débito de 100.000 Contos Celestiais, o maior da história.
- Ah é? E depois da Virgem Maria quem vem?
- Moisés, com a incrível marca de 200.000.
- Discordo. Mas, e José do Egito? Até de mulher ele fugiu pra fazer a vontade do Criador.
O anjo sorriu. Ficou de costas e começou a procurar alguma coisa nas gavetas que ficavam atrás dele. Ao achar o que queria nos mostrou uma foto da mulher de Potifar. A mulher era gorda, careca, banguela e tinha uma verruga no rosto. 
- Ele fugiu por que tinha de fugir mesmo. (caçoou o anjo)
- Tá bem, eu tenho aqui comigo 1000. Você disse que era o dinheiro pra ir pro céu, não é isso?!
- Sim, isso mesmo. Pode entrar, mas você não terá regalias.
O terceiro “defunto” se levantou rapidamente, após a subida do segundo. Disse educadamente:
- Perdão por falar sem ter sido chamado, mas é que não consegui me controlar. Não tenho a quantia suficiente para entrar no paraíso. Só tenho 500 contos aqui. O que vai acontecer comigo?
O anjo respondeu:
- Não se preocupe, meu caro, este é exatamente o mínimo necessário para se ir para o purgatório...
- Ah minha Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, agora lascou. (eu disse)
O anjo pediu silêncio proferindo um categórico shiwwww.
- Você irá para o purgatório e lá terá oportunidade de conseguir o dinheiro restante.
O rapaz foi embora e ficamos só nós dois: o anjo e eu.
- Agora você, rapazinho.
Fui lentamente até onde estava o anjo.
- Vejo aqui na sua ficha que você cometeu muitos crimes na Terra, mas era um homem que prezava pela sua família, inclusive amando seus filhos. Fez umas boas ações na mocidade, isto também conta. Por isso, agradeça a Deus, você ainda teve um saldo positivo de 200 contos celestiais.
- Não teria como fazer um precinho mais camarada para o purgatório?
- Não, não estamos na Terra nem tampouco no Brasil. Aqui a tabela é seguida à risca.
- É... então este dinheiro que recebi não servirá para nada. Vou para o inferno mesmo.
- Guarde-o será de grande serventia por lá.
Antes que eu pudesse falar, o anjo puxou uma corda que fez com que o chão que estava sob meus pés abrisse. Passei umas duas horas caindo, até que cheguei ao lugar que eu temia: o inferno.
Chegando lá, apareceu um capeta que me falou:
- Bem vindo, cabra. Sou o responsável pelo setor dos criminosos. Pelo que vi na sua ficha você cometeu vários crimes, deve estar em débito.
- Não, não. Tenho aqui duzentos contos celestiais. Para que serviriam aqui?
Surpreso ele disse:
- Nossa... você ainda conseguiu isso? Andam muito generosos lá em cima. Como falei, sou responsável pelo setor dos criminosos, com estes contos celestiais você poderá escolher em qual subsetor ficará. Se não tivesse nada iria para o lugar que eu escolhesse.
- Então você me mostrará estes subsetores?
- Sim, vamos.
O primeiro local que me mostrou foi o subsetor dos traficantes de entorpecentes. Neste vários capetas ficavam fumando e a fumaça se concentrava apenas no rosto da “vítima”.
- Gostou do subsetor? Bem confortável, não acha? O único incômodo que terá que suportar é a fumaça no rosto 24 horas por dia. Vá por mim é um dos melhores do inferno.
- Deus me livre, pode me mostrar outro.
Daí fomos ao subsetor dos homicidas. Neste o indivíduo experimentava todas as dores mortais possíveis, mas, obviamente, não morria, pois já estava morto. Funcionava desta forma: havia um capeta curandeiro para deixar o infernente (pessoa do inferno) curado para ser quase morto de novo. Vários tiros, cura, várias facadas, cura, afogamento, cura, queima, cura, e assim sucessivamente, de maneira perpétua.
Ao ver aquela cena eu disse:
- Meu Deus, piorou. Homem, me leve pra outro canto, pelo amor de Deus. O da fumaça era “fichinha”.
Fomos ao subsetor dos estupradores. Este era o pior de todos. Lá os homens ficavam nus, presos a vários cabos de aço, com todo o corpo envolto por um pano preto. Este pano possuía um buraco no local onde o leitor malicioso deve estar imaginando neste momento. Por trás do infernente, sempre havia um capeta nu que corria cerca de 50 metros, e sempre acertava o buraco do pano e os que estivessem além deste.
Vendo que eu estava insatisfeito, o capeta disse:
- Já estou vendo que você não vai querer. Não vou mais mostrar os subsetores a você, pois a tendência é piorar.
- Pior do que isso aí? Não tem como não!
- Em todo caso, tenho uma proposta a fazer.
- Qual?
- Você já foi político?
- Não, nunca. O mais próximo que cheguei da política foi quando fui líder de classe na 4ª série.
- Serve. Vou mostrar a você o setor dos políticos, que fica aqui vizinho ao setor dos criminosos.
Chegando ao dito setor, meus olhos brilharam. Havia um campo de golf imenso, vários bares, mulheres, carros de luxo passando por todos os lados, enfim, tudo que não se imagina existir no inferno.
Entusiasmado falei:
- É aqui mesmo! É aqui e não abro mão.
- Sua escolha não tem volta. Está vendo aquela porta? Se eu passar por ela você não poderá mais sair daqui, pois só os autorizados podem passar pelas portas.
- Sim, não há dúvida. Ficarei aqui.
- Está bem, então seja bem vindo ao setor dos políticos, “adiabo” (adeus em infernês), meu caro.
Ao passar pela porta tudo mudou. Havia todos os castigos que eu tinha visto no setor de criminosos e mais um pouco. As coisas boas que eu tinha visto desapareceram. Fiquei indignado e desesperado.
O capetinha que me pôs naquela enrascada apareceu na porta rindo sarcasticamente.
Perguntei:
- Por que você mentiu para mim?
Ele soltou uma gargalhada e disse:
- Não menti não, aqui o sistema é este mesmo.
- Como assim?
- É que quando você veio era período de campanha, depois da escolha as coisas mudam sempre.
Sumiu, e eu fiquei aqui. Era basicamente isto que queria relatar neste texto: como cheguei até aqui. Gostaria também de alertar os leitores: jamais escolham o setor dos políticos.

Antoniel Medeiros

VENDER AS ESTATAIS - Selma Patti Spinelli


Ideia de bom aceite
é vender as estatais;
pois mesmo não dando leite,
estão “mamando” demais...

sexta-feira, 1 de junho de 2012

A MISSA INVISÍVEL - Gilberto Cardoso dos Santos



Na calçada, devidamente paramentado, todas as noites, voltado para a rua, celebra missa para uma plateia inexistente.
Deram-lhe uma batina, provavelmente reciclada de uma peça  de roupa feminina. Veste-a, e, empunhando um microfone desconectado – de brinquedo, talvez – fala coisas pouco inteligíveis. Botou na cabeça que tem uma missão sacerdotal a cumprir. Pensa-se que pense ser um padre, mas, quem sabe, não se julgue bispo. cardeal ou papa?  Frágil jovem que se agiganta aos próprios olhos e faz-se santo de Deus.
Executa gestos solenes e discursa com convicção uma mensagem pouco inteligível, extraída do livro de sua insanidade. Hinos conhecidos são deformados por sua voz anasalada e rebelde às notas. Curva-se respeitosamente diante de uma imagem inexistente, representativa do invisível. Em seguida, pega um pão que outros não veem e, por força de oração, transforma-o no corpo de Cristo. Estende-o às diversas bocas inexistentes daqueles que não se aglomeraram para ouvi-lo. Sua mímica bem feita, própria de quem crê na materialidade do que imagina, leva nosso pensamento a colocar um pão em sua mão e a dar forma a alguém da multidão com quem ele fala ao entregar a hóstia. Sob a parca luminosidade da rua onde mora, os poucos transeuntes que ocasionalmente passam vislumbram o frágil pregador em sua insignificância física, dirigem-lhe breves olhares indiferentes e distanciam-se alheios à solenidade da ocasião.
Nas janelas e portas das casas ao redor, vê-se o piscar das tevês que mantêm a todos presos em seus lares. A apatia parece tomar conta de tudo.
É de admirar a constância com que ele se posta naquela calçada, noite após noite, enquanto o resto da família, já afeita ao barulho de seus discursos, aproveita para ver a novela.