APOESC (Associação de Poetas Escritores Simpatizantes e Colaboradores)

A APOESC (Associação de Poetas Escritores Simpatizantes e Colaboradores), criada em 03.2010 em Santa Cruz -RN, existe para congregar amantes da cultura, apologistas e produtores da arte da palavra.


domingo, 21 de setembro de 2014

ERA PATATIVA DO ASSARÉ UM GÊNIO SEMIANALFABETO?


 "PATATIVA DO ASSARÉ NÃO ERA ANALFABETO

 [...] O poeta Arievaldo Viana teria dito em entrevista que Patativa não era analfabeto. Hoje, trago trecho do livro CORDÉIS, de Patativa do Assaré, o qual é iniciado com um texto de Luiz Tavares Júnior – professor do Curso de Mestrado em Letras da Universidade Federal do Ceará – no qual o autor confirma essa afirmação de Arievaldo:

“Embora sua instrução formal tenha sido muito diminuta, seu contato com os livros foi constante e permanente, tendo convivido intensamente com a poesia de Gonçalves Dias, Casimiro de Abreu, Castro Alves e a prosa de Coelho Neto, como afirma Luzanira Rego, a partir de uma visita à casa do poeta, ao se deparar com os livros desses escritores; e Rosemberg Cariry vai um pouco mais além, ao enunciar: ‘Patativa é homem que sabe ler, de muitas leituras e informações sobre o que acontece no mundo (...). Basta dizer que, mesmo quando Patativa era violeiro e encantava os sertões com o som de sua viola e a beleza de seus versos de repente, já estudava o tratado de versificação de Guimarães Passos e Olavo Bilac e lia Os Lusíadas’. Em face dessas afirmações e, se acrescentarmos que, de fato, estamos diante de uma pessoa de inteligência invulgar e espantosa memória, como sempre afirmam seus biógrafos, haveremos facilmente de compreender a grandiosidade de seu engenho e arte no manejo do verso e na criação de sua poesia, atestado por quantos se aproximam de sua obra, aqui, no Brasil, como no estrangeiro”.

Percebe-se, portanto, que Patativa agia deliberadamente quando escrevia na forma matuta presente em Aos Poetas Clássicos


Poetas niversitário,
Poetas de Cademia,
De rico vocabularo
Cheio de mitologia;
Se a gente canta o que pensa,
Eu quero pedir licença,
Pois mesmo sem português
Neste livrinho apresento
O prazê e o sofrimento
De um poeta camponês.

O fato é que Patativa foi realmente um fenômeno, desses que aparecem a cada século, quando muito. Basta fazer uma pesquisa com o nome “Patativa do Assaré” no Google para ver a imensa quantidade de páginas que se dedicam a ele. Eu, aliás, fiz isso hoje, e achei coisas interessantíssimas, como, por exemplo, o estudo 
“Relações entre Estética, Hermenêutica, Religião e Arte”, de Cristiane Moreira Cobra.
Também encontrei o divertido poema da Prefeitura sem Prefeito:


PREFEITURA SEM PREFEITO

Nessa vida atroz e dura
Tudo pode acontecer
Muito breve há de se ver
Prefeito sem prefeitura;
Vejo que alguém me censura
E não fica satisfeito
Porém, eu ando sem jeito,
Sem esperança e sem fé,
Por ver no meu Assaré
Prefeitura sem prefeito.

Por não ter literatura,
Nunca pude discernir
Se poderá existir
Prefeito sem prefeitura.
Porém, mesmo sem leitura,
Sem nenhum curso ter feito,
Eu conheço do direito
E sem lição de ninguém
Descobri onde é que tem
Prefeitura sem prefeito.

Ainda que alguém me diga
Que viu um mudo falando
Um elefante dançando
No lombo de uma formiga,
Não me causará intriga,
Escutarei com respeito,
Não mentiu este sujeito.
Muito mais barbaridade
É haver numa cidade
Prefeitura sem prefeito.

Não vou teimar com quem diz
Que viu ferro dar azeite,
Um avestruz dando leite
E pedra criar raiz,
Ema apanhar de perdiz
Um rio fora do leito,
Um aleijão sem defeito
E um morto declarar guerra,
Porque vejo em minha terra
Prefeitura sem prefeito.

A sua morte, em 08 de julho de 2002, deixou órfãos todos os poetas populares do Brasil. 

Texto editado, disponível em http://olhosdoaprender.blogspot.com.br/2012/08/patativa-do-assare-nao-era-analfabeto.html

sábado, 20 de setembro de 2014

Saudações aos cantadores - Manuel Bandeira e Djavan


Anteontem, minha gente,
Fui juiz numa função
De violeiros do Nordeste
Cantando em competição,
Vi cantar Dimas Batista,
Otacílio, seu irmão,
Ouvi um tal de Ferreira,
Ouvi um tal de João.
Um a quem faltava um braço
Tocava cuma só mão;
Mas como ele mesmo disse,
Cantando com perfeição,
Para cantar afinado,
Para cantar com paixão,
A força não está no braço,
Ela está no coração.
Ou puxando uma sextilha,
Ou uma oitava em quadrão,
Quer a rima fosse em inha
Quer a rima fosse em ao,
Caíam rimas do céu,
Saltavam rimas do chão!
Tudo muito bem medido
No galope do Sertão.
A Eneida estava boba,
O Cavalcanti bobão,
O Lúcio, o Renato Almeida,
Enfim toda comissão.
Saí dali convencido
Que não sou poeta não;
Que poeta é quem inventa
Em boa improvisação
Como faz Dimas Batista
E Otacílio seu irmão;
Como faz qualquer violeiro,
Bom cantador do Sertão,
A todos os quais humilde
Mando minha saudação.”


VIOLEIROS (Djavan)


quinta-feira, 18 de setembro de 2014

PORQUE TANTA CRUELDADE? ME RESPONDA CAÇADOR! - Adriano Bezerra


O lambu corre ligeiro
Quando cansa ele se deita
Faz a cama, se ajeita
Na sombra do marmeleiro
Alegre e todo faceiro
Porém chega o predador
Sem ter dó nem ter amor
E atira só por maldade
Porque tanta crueldade?
Me responda caçador!


A rolinha acorda cedo
Olha os filhos depois voa
Seu canto baixinho ecoa
No galho do arvoredo
Contente sem sentir medo
Bonita feita uma flor
Mas a espreita o matador
Dispara sem piedade
Porque tanta crueldade?
Me responda caçador!


O preá numa coivara
Constrói a sua morada
Prevendo qualquer cilada
Uma trilha ele prepara
Porém no caminho para
Sangrando cheio de dor
Na pedra que o traidor
Armou por perversidade
Porque tanta crueldade?
Me responda caçador!


Sem peso na consciência
O homem caça os bichinhos
Matam os pais e os filhinhos
Nos ninhos com inocência
Morrem sem ter assistência
De fome e sede, que horror!
Guarde as armas malfeitor
Não lhes roube a liberdade
Porque tanta crueldade?
Me responda caçador!

terça-feira, 16 de setembro de 2014

MANHECENÇA - Jorge Fernandes


MANHECENÇA

O dia nasce grunindo pelos bicos
Dos urumarais...
Dos azulões... da asa branca...
Mama o leite quente que chia nas cuias espumando...
Os chocalhos repicam na alegria do chouto das vacas...
As janels das serras estão todas enfeitadas
De cipó florado...
E o coên! coên! do dia novo —
Vai subindo nas asas peneirantes dos caracarás...
Correndo os campos no mugido do gado...
No — mên — fanhoso dos bezerros...
Nas carreiras da cutias... no zunzum de asas dos besouros,
das abelhas... nos pinotes dos cabritos...
Nos trotes fortes e luzidos dos poltros...
E todo ensangüentado do vermelhão das barras
Leva o primeiro banho nos açudes
E é embrulhado na toalha quente do sol
E vai mudando a primeira passada pelos
Campos todo forrado de capim panasco..

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Grito Negro - José Craveirinha


Eu sou carvão!
E tu arrancas-me brutalmente do chão
e fazes-me tua mina, patrão.
Eu sou carvão!
E tu acendes-me, patrão,
para te servir eternamente como força motriz
mas eternamente não, patrão.
Eu sou carvão
e tenho que arder sim;
queimar tudo com a força da minha combustão.
Eu sou carvão;
tenho que arder na exploração
arder até às cinzas da maldição
arder vivo como alcatrão, meu irmão,
até não ser mais a tua mina, patrão.
Eu sou carvão.
Tenho que arder
queimar tudo com o fogo da minha combustão.
Sim!
Eu serei o teu carvão, patrão.

domingo, 14 de setembro de 2014

Bilhetes de viagem - Samih al-Qasim (poeta palestino)

Quando eu um dia for morto,
O assassino vai encontrar em meu bolso
bilhetes de viagem:
Um rumo à paz,
Um rumo aos campos e à chuva,
Um
Rumo à consciência dos seres humanos
Por favor, não desperdice os bilhetes
Meu caro assassino
Por favor, viaje

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

QUANDO SE CALA UM ARTISTA (EM HOMENAGEM AO SAUDOSO NILSON SILVA)

   

 Adriano Bezerra (12/09/2014)

A arte fica sem cor
Quando se cala um artista
Falta rima ao repentista
Falta voz ao cantador
Falta texto ao escritor
E ao poeta inspiração
Falta a interpretação
Ao interprete de rua
E o mímico não mais atua
Porque lhe falta expressão.

De dor e de comoção
Fica sem riso o palhaço
Fica também sem abraço
E sem aperto de mão
O seu jeito brincalhão
E aquela sua esperteza
Fica faltando a beleza
E no seu rosto pintado
Uma lágrima em cada lado
Revela a sua tristeza.

Fica faltando a leveza
No passo do dançarino
Ao mestre do violino
Fica faltando a destreza
Fica também sem clareza
A obra do desenhista
No circo o malabarista
Fica sem coordenação
E o rapper de emoção
Não consegue entrar na pista.

Porém sua arte à vista
Ficará por toda a história
Sempre viva na memória
Por mais que o tempo persista
Nos versos do cordelista
Nos quadros de um pintor
Nos gestos de um ator
Por onde for a cultura
Pois sua arte tão pura
Jamais ficará sem cor.


terça-feira, 9 de setembro de 2014

Só Jesus é quem pode consertar os estragos da seca no sertão - João Paraibano e Valdir Teles


João Paraibano

 Andar mais no sertão ninguém suporta
Que só vê o agave virar bucha
As abelhas peitando em rosa murcha
Sertanejo pisando em planta morta
Onde água é vendida porta a porta
Já se paga um real pelo galão
Dói na alma comprar à prestação
Uma lágrima que o céu não quis chorar
Só Jesus é quem pode consertar
Os estragos da seca no sertão

Valdir Teles

 Nossas reses estão escaveiradas
Fora muitas que a fome já matou
A beleza da mata se acabou
As lagoas tão secas e rachadas
Tem carcaças nas beiras das estradas
De animais que morreram sem ração
Que se enche carreta e caminhão
Sem gastar meia hora pra juntar
Só Jesus é quem pode consertar
Os estragos da seca no sertão

Ouça mais aqui:


segunda-feira, 8 de setembro de 2014

A PARTIDA DE JOÃO PARAIBANO LEVA JUNTO UM PEDAÇO DO SERTÃO


MOTE DO POETA. HELENO ALEXANDRE
ESTROFE DO POETA BIU SALVINO:

CANTADOR, CIDADÃO E COMPANHEIRO
A MAIOR EXPRESSÃO DA CANTORIA
GÊNIO POBRE COM RICA POESIA
CONQUISTOU COM REPENTE O MUNDO INTEIRO
VAI COM ELE O ABOIO DO VAQUEIRO
FOLHAS MORTAS CAÍDAS PELO CHÃO
O CANTAR MELANCÓLICO DO CARÃO
O PROFETA DA SECA TODO ANO
A PARTIDA DE JOÃO PARAIBANO
LEVA JUNTO UM PEDAÇO DO SERTÃO