APOESC (Associação de Poetas Escritores Simpatizantes e Colaboradores)

A APOESC (Associação de Poetas Escritores Simpatizantes e Colaboradores), criada em 03.2010 em Santa Cruz -RN, existe para congregar amantes da cultura, apologistas e produtores da arte da palavra.


quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Meu pequeno beija flor - Marluce Cordelista


Meu pequeno beija flor
Meu pequeno beija flor
Eu lhe peço, por favor,
Com teu lindo vôo rasante
De penas de toda cor.
Vai depressa Passarim
Levando do meu jardim
A mais bela flor no bico.
Quando a ternura encontrar,
Depressa vá lhe entregar,
Que aqui te esperando fico.



Com a linda flor no bico
O beija flor voou,
Sumindo no horizonte
Ainda não retornou.
Volte amiguinho alado
Esperando, estou sentado
Para enfeitar meu jardim.
E depois que descansar,
E o néctar da flor sugar
Fique pertinho de mim.

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

SEU LUNGA - TOLERÂNCIA ZERO! - Ismael Gaião


Morre o poeta cearense Seu Lunga

Publicação: 22/11/2014 11:46 Atualização:
O humorista, poeta, vendedor de sucata e repentista da cidade de Juazeiro do Norte, Joaquim dos Santos Rodrigues, de 87 anos, mais conhecido como “Seu Lunga”, morreu por volta das 9h da manhã deste sábado (22), na cidade de Barbalha, no interior do Ceará.
“Seu Lunga”, que entrou na história do humor brasileiro por ser uma espécie de “antítese” da risada, até porque eram as respostas mais ásperas em diálogos que faziam sucesso entre o público, estava internado no internado no Hospital São Vicente de Paulo, em Barbalha, onde tratava de um câncer de esôfago.
O artista ganhou notoriedade pelo temperamento forte, tornando-se um personagem do folclore nordestino. Várias páginas em redes sociais, como o Facebook, dedicam perfis ao cearense. Seu apelido veio de uma vizinha que lhe chamava de Calunda, devido a sua loja. Com o passar dos anos, ficou apenas Lunga.

fonte: http://www.diariodepernambuco.com.br/app/noticia/viver/2014/11/22/internas_viver,544521/morre-o-poeta-cearense-seu-lunga.shtml

SEU LUNGA - TOLERÂNCIA ZERO!

Eu vou falar de Seu Lunga
Um cabra muito sincero,
Que não tolera burrice
Nem gosta de lero-lero.
Tem sempre boas maneiras,
Mas se perguntam besteiras,
Sua tolerância é zero!

Ao entrar num restaurante
Logo depois de sentar,
Um garçom lhe perguntou:
O Senhor vai almoçar?
Lunga disse: não Senhor!
Chame o padre, por favor,
Vim aqui me confessar.

Lunga tava na parada
Com Renata perto dele.
Esse ônibus vai pra praia?
Ela perguntou a ele.
Ele, então, disse à mulher:
- Só se a Senhora tiver
Um biquini que dê nele!

Seu Lunga tava pescando
E alguém lhe perguntou:
- Você gosta de pescar?
Ele logo retrucou:
- Como você pode ver,
Eu vim pescar sem querer,
A polícia me obrigou.

Pagando contas no Banco
Lunga viveu um dilema
Pois com um talão nas mãos,
Ouviu de Pedro Jurema:
O Senhor vai usar cheque?
- Ele disse: não, moleque,
Vou escrever um poema.

Em sua sucataria
Alguém tava escolhendo,
- Por quanto o Senhor me dá,
Essa lata com remendo?
Lunga, sem pestanejar,
Disse: não posso lhe dar,
Porque eu estou vendendo.

E ainda irritado
A seu freguês respondeu:
Tudo que eu tenho aqui,
Eu vendo porque é meu.
Se o Senhor quiser ver,
Coisas sem ser pra vender
Vá visitar um museu.

Lunga foi comprar sapato
Na loja de Barnabé
E um rapaz bem gentil
Perguntou: é pra seu pé?
Ele disse: não esqueça,
Bote na minha cabeça,
Vou usar como boné.

Lunga carregava leite
Numa garrafa tampada
E um velho lhe perguntou:
Bebe leite, camarada?
Ele disse: bebo não!
Depois derramou no chão.
- Eu vou lavar a calçada.

Seu Lunga tava deitado
Na cama, sem se mexer.
E um amigo idiota
Perguntou, a lhe bater:
- O senhor está dormindo?
Lunga disse: tô fingindo,
E treinando pra morrer!

Seu Lunga foi a um banco
Com um cheque pra trocar
Um caixa muito imbecil
Achou de lhe perguntar:
O Senhor quer em dinheiro?
- Não quero não, companheiro,
Quero em bolas de bilhar.

Lunga olhou pro relógio
Na frente de Gabriela
Quando menos esperava,
Ouviu a pergunta dela:
- Lunga viu que horas são?
Ele disse: não, vi não,
Olhei pra ver a novela!

Seu Lunga comprava esporas
Para correr argolinha
E o vendedor idiota
Fez essa perguntazinha:
- É pra usar no cavalo?
- É não, eu uso no galo,
Monto e dou uma voltinha.

Seu Lunga tava pescando
Quando chegou Viriato
- Perguntando: aqui dá peixe?
Lunga falou: é boato!
No rio só dá tatu,
Paca, cutia e teju,
Peixe dá dentro do mato.

Lunga foi se consultar
Com um Doutor que era Crente
Esse logo perguntou:
- O Senhor está doente?
- Lunga disse: não Senhor,
Vim convidar o Doutor,
Para tomar aguardente.

Seu Lunga, com seu cachorro,
Saiu para caminhar
Um besta lhe perguntou:
É seu cão, vai passear?
Lunga sofreu um abalo,
Disse: não, é um cavalo,
Vou levar para montar.

Lunga trazia da feira,
Já em ponto de tratar,
Uma cabeça de porco,
Quando ouviu alguém falar:
- Vai levando pra comer?
Ele só fez responder:
- Vou levando pra criar!

Lunga foi à eletrônica
Com um som pra consertar
E ouviu um  idiota
Sem demora, perguntar:
- O seu som está quebrado?
- Tá não, está estressado.
Eu trouxe pra passear.

Seu Lunga foi numa loja
Lá perto de Itaqui
- Tem veneno pra rato?
- Temos o melhor daqui.
Vai levá-lo? Está barato.
- Vou não, vou buscar o rato
Para vim comer aqui!

Seu Lunga tava bebendo,
Quando ouviu de Tião:
- Já que faltou energia,
Nós vamos fechar irmão!
Lunga falou: que desgraça!
Eu vim pra tomar cachaça,
Não foi tomar choque não!

Lunga tava em sua loja
Numa preguiça profunda
Quando escutou a pergunta
Vindo de Dona Raimunda:
- O Senhor tem meia-calça?
- Isso em você não realça,
Ou você, tem meia bunda?

Seu Lunga ia pescar
E um amigo encontrou
Depois de cumprimentá-lo
Seu amigo perguntou:
Lunga vai à pescaria?
Seu Lunga só disse: ia.
Pegou a vara e quebrou.

Jacó estava querendo
Apostar numa milhar
Vendo Lunga numa banca
Disse: agora vou jogar!
E foi gritando dali:
- Lunga, passa bicho aqui?
- Passa sim! Pode passar.

Seu Lunga sentia dor
Procurou Doutor Ramon
Que começou a consulta
Já perguntando em bom tom:
Seu Lunga, qual o seu plano?
Lunga disse: sem engano,
O meu plano é ficar bom!

Lunga tava em seu comércio
Despachando a Zé Lulu
Que depois de escolher
Fava e feijão guandu.
- Disse: vou levar fubá.
E o arroz como está?
Lunga respondeu: Tá cru!

Lunga com uma galinha
E a faca pra cortar,
Seu vizinho perguntou:
Oh! Seu Lunga, vai matar?
Com essa pergunta burra,
Disse: não, vou dar uma surra,
Logo depois vou soltar.

Lunga indo a um enterro
Encontrou Zeca Passivo
- Seu Lunga pra onde vai?
Ao enterro de Biu Ivo.
- E Seu Biu Ivo morreu?
- Não, isso é engano seu,
Vão enterrar ele vivo!

Lunga mostrou um relógio
Ao filho de Biu Romão
- Posso botar dentro d’água?
Perguntou o garotão.
Lunga disse sem demora:
- Relógio é pra ver a hora,
Não é sabonete, não!

Lunga fez uma viagem
Pra cidade de Belém
E quando voltou pra casa
Ouviu essa de alguém:
- Oh! Seu Lunga, já chegou?
- Eu não, você se enganou,
Chego semana que vem!

Lunga levou uma queda
De cima de seu balcão
- Quer tomar um pouco d’água?
Perguntou o seu irmão.
Lunga logo, respondeu:
Foi só uma queda, meu!
Eu não comi doce não!

Na porta do elevador
Esperando ele chegar
Seu Lunga escutou um besta
Pro seu lado perguntar:
- Vai subir nesse momento?
- Não, que meu apartamento,
Vai descer pra me pegar.

Se encontrar com Seu Lunga
Converse, mas com cuidado,
Pois ele pode ser grosso
Mesmo sendo educado.
Eu já fiz o meu papel
Escrevendo este cordel
Pra você ficar ligado!
Ismael Gaião

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

CRACK EM SANTA CRUZ/RN

Ativistas Articulam uma Intervenção Cultural na Epidemia do Consumo de Crack em Santa Cruz


          Reunido ao meio-dia deste 18 de novembro de 2014, no restaurante Refúgio, um grupo de ativistas, formado pelo cineasta Robson Ramon, pelo ator Wallace Medeiros, pelo professor João Maria e pelo médico psiquiatra e pesquisador social Epitácio de Andrade Filho iniciou as articulações para promover uma intervenção cultural na epidemia do consumo de crack em Santa Cruz, principal cidade da região Trairy do Rio Grande do Norte, distante 120 km da capital.

         Uma das estratégias da intervenção é o apoio ao projeto: Curta na Escola, do grupo teatral Lua Serena, que visa levar a projeção do Curta: De Quem é a culpa? , do cineasta santa-cruzense Robson Ramon aos ambientes escolares, nesse sentido o professor João Maria Medeiros iniciou articulações para viabilizar a apresentação do Curta-metragem na Escola Estadual Cosme Marques. O grupo de ativistas também vai propor aos vereadores a realização de uma audiência pública sobre a Epidemia do Consumo de Crack em Santa Cruz a ser realizada na Câmara Municipal. 

Robson Ramon e Epitácio Andrade mostram cartaz  Curta na Escola

Sineasta Robson Ramon, médico Epitácio Andrade e ator Wallace Medeiros

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

MENTIRA DE PESCADOR - Zé Acaci

Na foto, o cordelista José Acaci no lançamento de seu livro GOZANDO RIMANDO E RINDO, de onde extraímos o poema abaixo:

Tem gente que é bom de prosa...
Não joga conversa fora...
Pra qualquer situação
tem a resposta na hora.
Escuta conversa alheia
e se infiltra na teia
daquilo que está ouvindo.
E é tão bom na lorota
que tem gente que nem nota
que o sujeito está mentindo.

Certa vez um pescador
vinha chegando do mar,
quando um fiscal à paisana
chegou pra lhe interrogar.
Disfarçado de turista,
que era pra não dar na vista,
ele estava investigando
a pesca nas plataformas,
para descobrir as formas
que o povo estava pescando.

O fiscal puxou conversa,
foi pra lá e foi pra cá...
chegou perto e levantou
a tampa do samburá.
Tinha um peixe voador.
Com pena do pescador
ele perguntou baixinho:
- O senhor foi pra pescada
desde as três da madrugada
e só traz esse peixinho?

O pescador disse: - Não,
eu já tirei o meu ganho.
Já vendi um caminhão
de lagosta "destamanho".
Eu pesquei no compressor
e vendi pr'um comprador
a lagostinha pequena.
O trabalho é perigoso,
mas é bastante rendoso.
É crime, mas vale a pena.

Quando o fiscal escutou
o desenrolar da trama,
apresentou-se dizendo:
- Eu sou fiscal do IBAMA.
Tá no tempo do defeso.
O senhor esteja preso.
A multa é dois mil reais.
Pela lagosta pequena
vai pagar mais uma pena
de uns três anos a mais.

O fiscal admirou-se
depois de dizer aquilo
e notar que o pescador
ficou sorrindo tranquilo.
Quando o fiscal se calou,
ele se apresentou
esticando sua mão:
- Prazer, eu sou Zé Mimoso,
o cabra mais mentiroso
daqui dessa região!


Parabéns, poeta, por mais este excelente trabalho!

sábado, 15 de novembro de 2014

OS OLHOS DE RUBEM ALVES - Gilberto Cardoso dos Santos


Quando Rubem Alves cerrou para sempre as pálpebras, eu me perguntei: Onde haverá, na face da Terra, alguém capaz de vislumbrar o mundo exatamente como o Rubem via? Quanta aptidão tinha ele em despir uma cebola e ver-lhe a alma desnuda.

Por um tempo ele viu o mundo como nós; teve vista fraca para o que é essencial. Foi pastor protestante sedento por epifanias, professor universitário obcecado pela cientificidade da expressão linguística... mas, como aconteceu com o apóstolo Paulo, escamas caíram-lhe dos olhos.

Não se sabe exatamente quando, foi elevado até o mais alto céu e teve encontro pessoal com a poesia. Aprendeu a pressenti-la em tudo. O ouro descoberto por ele, que a tudo permeava, pertencente a um reino encantado, seria distribuído entre os educadores. A “aura” das coisas, aquilo que traz transcendência ao que é comum, que sempre escapa aos olhos enfeitiçados por bijuterias. Rubem, duplamente mineiro, sempre soube cavar no lugar certo. Mas não se sabe ao certo se ele de fato encontrava ouro ou descobrira a pedra filosofal. 

O que se sabe é que sua poesia, por ser tanta, não cabia em versos e alargava a forma das estrofes. A poesia se espalhou em sua prosa, decretou posse de seu ser e contaminou todo seu discurso. Não havia mais lugar para o pastor condicionado por viseiras religiosas, para o acadêmico árido, fanatizado por uma outra Bíblia, manietado, cioso do que deveria escrever. Nascia o Zaratustra da educação, aquele que nos falaria no idioma dos anjos.

Cerrávamos as pálpebras para ouvi-lo porque gostávamos de ver o mundo através de seus olhos. Cá embaixo, nos vales de nossa rotina educacional, deleitávamo-nos como eco de sua voz, vindo das montanhas. Éramos bem-aventurados.

Resta-nos agora treinar os olhos, adoecê-los, aflitivamente umedecê-los com o ácido das cebolas, pois necessitamos encarecidamente continuar a ver as coisas como ele as via. Do contrário, assim como morreu Rubem, morrerão os educadores. Que todo professor delire ao ponto de ver a aura única, especial, que envolve a cada aluno. O príncipe no sapo, a borboleta na lagarta, o pão na pedra.

Sejamos versos e estrofes onde a poesia livremente possa se despejar. Só assim haverá vida em nossas classes. E Rubem poderá descansar em paz...

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

OS 10 MELHORES POEMAS DE MANOEL DE BARROS - CARLOS W. LEITE



Pedimos aos leitores e colaboradores — escritores, jornalistas, professores — que apontassem os poemas mais significativos de Manoel de Barros, um dos mais aclamados poetas contemporâneos brasileiros. Nascido em Cuiabá em 1916, [FALECIDO EM 13/11/2014] Manoel de Barros estreou em 1937 com o livro “Poemas Concebidos sem Pecado”. Sua obra mais conhecida é o “Livro sobre Nada”, publicado em 1996.


Cronologicamente vinculado à Geração de 45, mas formalmente ao Modernismo brasileiro, Manoel de Barros criou um universo próprio — subvertendo a sintaxe e criando construções que não respeitam as normas da língua padrão —, marcado, sobretudo, por neologismos e sinestesias, sendo, inclusive, comparado a Guimarães Rosa.
Em 1986, o poeta Carlos Drummond de Andrade declarou que Manoel de Barros era o maior poeta brasileiro vivo. Antonio Houaiss, um dos mais importantes filólogos e críticos brasileiros escreveu: “A poesia de Manoel de Barros é de uma enorme racionalidade. Suas visões, oníricas num primeiro instante, logo se revelam muito reais, sem fugir a um substrato ético muito profundo. Tenho por sua obra a mais alta admiração e muito amor”. Os poemas publicados nesta seleção fazem parte do livro “Manoel de Barros — Poesia Completa Bandeira”, editora Leya. Por motivo de direitos autorais, apenas trechos dos poemas foram publicados.

O livro sobre nada

É mais fácil fazer da tolice um regalo do que da sensatez.
Tudo que não invento é falso.
Há muitas maneiras sérias de não dizer nada, mas só a poesia é verdadeira.
Tem mais presença em mim o que me falta.
Melhor jeito que achei pra me conhecer foi fazendo o contrário.
Sou muito preparado de conflitos.
Não pode haver ausência de boca nas palavras: nenhuma fique desamparada do ser que a revelou.
O meu amanhecer vai ser de noite.
Melhor que nomear é aludir. Verso não precisa dar noção.
O que sustenta a encantação de um verso (além do ritmo) é o ilogismo.
Meu avesso é mais visível do que um poste.
Sábio é o que adivinha.
Para ter mais certezas tenho que me saber de imperfeições.
A inércia é meu ato principal.
Não saio de dentro de mim nem pra pescar.
Sabedoria pode ser que seja estar uma árvore.
Estilo é um modelo anormal de expressão: é estigma.
Peixe não tem honras nem horizontes.
Sempre que desejo contar alguma coisa, não faço nada; mas quando não desejo contar nada, faço poesia.
Eu queria ser lido pelas pedras.
As palavras me escondem sem cuidado.
Aonde eu não estou as palavras me acham.
Há histórias tão verdadeiras que às vezes parece que são inventadas.
Uma palavra abriu o roupão pra mim. Ela deseja que eu a seja.
A terapia literária consiste em desarrumar a linguagem a ponto que ela expresse nossos mais fundos desejos.
Quero a palavra que sirva na boca dos passarinhos.
Esta tarefa de cessar é que puxa minhas frases para antes de mim.
Ateu é uma pessoa capaz de provar cientificamente que não é nada. Só se compara aos santos. Os santos querem ser os vermes de Deus.
Melhor para chegar a nada é descobrir a verdade.
O artista é erro da natureza. Beethoven foi um erro perfeito.
Por pudor sou impuro.
O branco me corrompe.
Não gosto de palavra acostumada.
A minha diferença é sempre menos.
Palavra poética tem que chegar ao grau de brinquedo para ser séria.
Não preciso do fim para chegar.
Do lugar onde estou já fui embora.

O apanhador de desperdícios

Uso a palavra para compor meus silêncios.
Não gosto das palavras
fatigadas de informar.
Dou mais respeito
às que vivem de barriga no chão
tipo água pedra sapo.
Entendo bem o sotaque das águas
Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim um atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos
como as boas moscas.
Queria que a minha voz tivesse um formato
de canto.
Porque eu não sou da informática:
eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor meus silêncios.

Retrato do artista quando coisa

A maior riqueza
do homem
é sua incompletude.
Nesse ponto
sou abastado.
Palavras que me aceitam
como sou
— eu não aceito.
Não aguento ser apenas
um sujeito que abre
portas, que puxa
válvulas, que olha o
relógio, que compra pão
às 6 da tarde, que vai
lá fora, que aponta lápis,
que vê a uva etc. etc.
Perdoai. Mas eu
preciso ser Outros.
Eu penso
renovar o homem
usando borboletas.

O fazedor de amanhecer

Sou leso em tratagens com máquina.
Tenho desapetite para inventar coisas prestáveis.
Em toda a minha vida só engenhei
3 máquinas
Como sejam:
Uma pequena manivela para pegar no sono.
Um fazedor de amanhecer
para usamentos de poetas
E um platinado de mandioca para o
fordeco de meu irmão.
Cheguei de ganhar um prêmio das indústrias
automobilísticas pelo Platinado de Mandioca.
Fui aclamado de idiota pela maioria
das autoridades na entrega do prêmio.
Pelo que fiquei um tanto soberbo.
E a glória entronizou-se para sempre
em minha existência.

Tratado geral das grandezas do ínfimo

A poesia está guardada nas palavras — é tudo que eu sei.
Meu fado é o de não saber quase tudo.
Sobre o nada eu tenho profundidades.
Não tenho conexões com a realidade.
Poderoso para mim não é aquele que descobre ouro.
Para mim poderoso é aquele que descobre as insignificâncias (do mundo e as nossas).
Por essa pequena sentença me elogiaram de imbecil.
Fiquei emocionado.
Sou fraco para elogios.

Prefácio

Assim é que elas foram feitas (todas as coisas) —
sem nome.
Depois é que veio a harpa e a fêmea em pé.
Insetos errados de cor caíam no mar.
A voz se estendeu na direção da boca.
Caranguejos apertavam mangues.
Vendo que havia na terra
Dependimentos demais
E tarefas muitas —
Os homens começaram a roer unhas.
Ficou certo pois não
Que as moscas iriam iluminar
O silêncio das coisas anônimas.
Porém, vendo o Homem
Que as moscas não davam conta de iluminar o
Silêncio das coisas anônimas —
Passaram essa tarefa para os poetas.

Os deslimites da palavra

Ando muito completo de vazios.
Meu órgão de morrer me predomina.
Estou sem eternidades.
Não posso mais saber quando amanheço ontem.
Está rengo de mim o amanhecer.
Ouço o tamanho oblíquo de uma folha.
Atrás do ocaso fervem os insetos.
Enfiei o que pude dentro de um grilo o meu
destino.
Essas coisas me mudam para cisco.
A minha independência tem algemas

Aprendimentos

O filósofo Kierkegaard me ensinou que cultura
é o caminho que o homem percorre para se conhecer.
Sócrates fez o seu caminho de cultura e ao fim
falou que só sabia que não sabia de nada.
Não tinha as certezas científicas. Mas que aprendera coisas
di-menor com a natureza. Aprendeu que as folhas
das árvores servem para nos ensinar a cair sem
alardes. Disse que fosse ele caracol vegetado
sobre pedras, ele iria gostar. Iria certamente
aprender o idioma que as rãs falam com as águas
e ia conversar com as rãs.
E gostasse mais de ensinar que a exuberância maior está nos insetos
do que nas paisagens. Seu rosto tinha um lado de
ave. Por isso ele podia conhecer todos os pássaros
do mundo pelo coração de seus cantos. Estudara
nos livros demais. Porém aprendia melhor no ver,
no ouvir, no pegar, no provar e no cheirar.
Chegou por vezes de alcançar o sotaque das origens.
Se admirava de como um grilo sozinho, um só pequeno
grilo, podia desmontar os silêncios de uma noite!
Eu vivi antigamente com Sócrates, Platão, Aristóteles —
esse pessoal.
Eles falavam nas aulas: Quem se aproxima das origens se renova.
Píndaro falava pra mim que usava todos os fósseis linguísticos que
achava para renovar sua poesia. Os mestres pregavam
que o fascínio poético vem das raízes da fala.
Sócrates falava que as expressões mais eróticas
são donzelas. E que a Beleza se explica melhor
por não haver razão nenhuma nela. O que mais eu sei
sobre Sócrates é que ele viveu uma ascese de mosca.

O menino que carregava água na peneira

Tenho um livro sobre águas e meninos.
Gostei mais de um menino
que carregava água na peneira.
A mãe disse que carregar água na peneira
era o mesmo que roubar um vento e
sair correndo com ele para mostrar aos irmãos.
A mãe disse que era o mesmo
que catar espinhos na água.
O mesmo que criar peixes no bolso.
O menino era ligado em despropósitos.
Quis montar os alicerces
de uma casa sobre orvalhos.
A mãe reparou que o menino
gostava mais do vazio, do que do cheio.
Falava que vazios são maiores e até infinitos.
Com o tempo aquele menino
que era cismado e esquisito,
porque gostava de carregar água na peneira.
Com o tempo descobriu que
escrever seria o mesmo
que carregar água na peneira.
No escrever o menino viu
que era capaz de ser noviça,
monge ou mendigo ao mesmo tempo.
O menino aprendeu a usar as palavras.
Viu que podia fazer peraltagens com as palavras.
E começou a fazer peraltagens.
Foi capaz de modificar a tarde botando uma chuva nela.
O menino fazia prodígios.
Até fez uma pedra dar flor.
A mãe reparava o menino com ternura.
A mãe falou: Meu filho você vai ser poeta!
Você vai carregar água na peneira a vida toda.
Você vai encher os vazios
com as suas peraltagens,
e algumas pessoas vão te amar por seus despropósitos!

Uma didática da invenção

I

Para apalpar as intimidades do mundo é preciso saber:
a) Que o esplendor da manhã não se abre com faca
b) O modo como as violetas preparam o dia para morrer
c) Por que é que as borboletas de tarjas vermelhas têm devoção por túmulos
d) Se o homem que toca de tarde sua existência num fagote, tem salvação
e) Que um rio que flui entre 2 jacintos carrega mais ternura que um rio que flui entre 2 lagartos
f) Como pegar na voz de um peixe
g) Qual o lado da noite que umedece primeiro.
etc.
etc.
etc.
Desaprender 8 horas por dia ensina os princípios.

II

Desinventar objetos. O pente, por exemplo.
Dar ao pente funções de não pentear. Até que
ele fique à disposição de ser uma begônia. Ou
uma gravanha.
Usar algumas palavras que ainda não tenham
idioma.

III

Repetir repetir — até ficar diferente.
Repetir é um dom do estilo.

IV

No Tratado das Grandezas do Ínfimo estava
escrito:
Poesia é quando a tarde está competente para dálias.
É quando
Ao lado de um pardal o dia dorme antes.
Quando o homem faz sua primeira lagartixa.
É quando um trevo assume a noite
E um sapo engole as auroras.

V

Formigas carregadeiras entram em casa de bunda.

VI

As coisas que não têm nome são mais pronunciadas
por crianças.

VII

No descomeço era o verbo.
Só depois é que veio o delírio do verbo.
O delírio do verbo estava no começo, lá
onde a criança diz: Eu escuto a cor dos
passarinhos.
A criança não sabe que o verbo escutar não
funciona para cor, mas para som.
Então se a criança muda a função de um
verbo, ele delira.
E pois.
Em poesia que é voz de poeta, que é a voz
de fazer nascimentos —
O verbo tem que pegar delírio.

VIII

Um girassol se apropriou de Deus: foi em
Van Gogh.

IX

Para entrar em estado de árvore é preciso
partir de um torpor animal de lagarto às
3 horas da tarde, no mês de agosto.
Em 2 anos a inércia e o mato vão crescer
em nossa boca.
Sofreremos alguma decomposição lírica até
o mato sair na voz .
Hoje eu desenho o cheiro das árvores.

X

Não tem altura o silêncio das pedras.
FONTE PESQUISADA: http://www.revistabula.com/

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

SOBRE "INQUIETUDES - IELMO MARINHO EM VERSOS" E SEU AUTOR - Gilberto Cardoso dos Santos

Tive o prazer de receber do escritor Gustavo Santos, que além de poeta é comunicador, professor e mestrando em educação, um livro autografado  intitulado Inquietudes – Ielmo Marinho em Versos.

Trata-se de uma leitura agradável, destas que despertam o apetite em leitores fastiosos - 50 poemas ao todo - em que o autor trata de paisagens, momentos e pessoas que falam com eloquência ao seu receptivo coração.

A Gustavo Santos coube o privilégio de ser o pioneiro das publicações literárias em Ielmo Marinho e a grande oportunidade de fotografar a rica subjetividade de uma gente simples, poética em sua essência. Poesia tem que ter alma, e a alma de Ielmo Marinho adquire corpo nestas páginas belamente ilustradas.

Além de merecer parabéns pela qualidade do livro e por sua habitual simpatia, Gustavo é digno de encômios por sua ideia de fazer escambo dos livros por comida - 3 kilos de alimento não perecível generosamente distribuídos -  podendo, assim, nutrir espíritos e corpos com sua obra.

Eis dois poemas de Inquietudes – Ielmo Marinho em Versos:

DOMINGO, EM IELMO MARINHO 

Amanhece o domingo,
Ielmo Marinho se desperta.
A natureza, como sempre,
com sua excelência,
sorri um novo dia.
Nos oferece
sua exuberante beleza

Choveu, um pouco, à noite.
O verde se espreguiça,
lentamente, a acordar.
A pedra fria
espera o sol chegar.

Nós encontramos uma cultura.
Estatuetas e jarros de barro.
Valioso e insaciável,
de nosso próprio respirar!
De nosso próprio viver...

Enquanto...
Um domingo amanhecer!

Foto de Ielmo Marinho meramente ilustrativa, adquirida na internet

EU QUERO

Quero beber
da água cristalina
que chega ao povo ielmo-marinhense...
Sorrisos e gargalhadas.

Quero o abacaxi
desse povo trabalhador,
vendendo na estrada de Umari,
a rotina.

Quero a carne seca
do feijão verde
em caldeirão de barro.

Quero ter boa vista,
boa prosa,
o silêncio que encanta e contagia.

Foto ilustrativa de Ielmo Marinho, maior produtor de abacaxi do RN

O poeta Gustavo Santos distribuindo alimentos adquiridos em permutas por  livros

Orelha do livro INQUIETUDES

domingo, 9 de novembro de 2014

NOVAS PÉROLAS DO ENEM

Proposta de redação do Enem: 

A partir da leitura dos textos motivadores seguintes e com base nos conhecimentos construídos ao longo de sua formação, redija texto dissertativo-argumentativo (de até 30 linhas) na modalidade escrita formal da língua portuguesa sobre o tema “Efeitos da implantação da Lei Seca no Brasil”, apresentando proposta de intervenção, que respeite os direitos humanos. Selecione, organize e relacione, de forma coerente e coesa, argumentos e fatos para defesa de seu ponto de vista.


“A Lei Seca tem esse nome por que sem cerveja a gente dirige com a gaganta seca”

“No rio de janeiro não pode dirigi bebendo mas pode ouvi fank, ainda não existe lei pra isso.”

“Acho a policia muito errado eles são grosso com o trabalhador que quer apenas se divertir com uma ceveginha.”

“A minha poposta é ter carro gratis se vc beber mas não vou candidatar pois sou de menor.”

“as mortes dimunuiram porém tem mais gente viva do que antes. graças a Deus.”

“Eles deviam trocar o bafômetro e mandar fazer o 4 com as pernas pois eu sei fazer o 4 quando estou bêbado”

“Na lei seca dos estados unidos surgiram muitos mafiosos mas no brasil ainda não apareceu isso porque o governo esta de olho nas manifestações.”

“Falta de bebida faz as pessoa dirigir triste”

“Temos que bater palmas para a skol porque fez a lei motorista da rodada para não beber quem dirige.”

“o bafotro é tipu pegadinha. eles manda voce bebê mas num sai nada. a poliça devia ser mais séria.”

“A lei seca também conhecida como lei da fisica ou lei 11-705/2008 melhora os direitos humano.”

“A desingualdade é grande no Brasil até na lei. o Rio de janero consegue comprar etilômetros mas aqui no maranhão a policia só tem dinheiro para bafometro.”

“já que não pode beber a presidente Dilma deveria liberar a maconha que faz dirigir bem relaxado e tranquilo”

“Quem bebe e dirige tem que no minimo morrer.”

“Quando a pessoa morre em acidentes por causa da bebiba além de perder a vida ela pode perder a carteira de motorista.”

“Meu pai inclusive ano passado sofreu um acidente fatal mas infelizmente ele passa bem e hoje está no aa.”

melhor ser preso pela lei seca que ser preso por robo então prefiro continuar bebendo e parar de roba”

“muitas coisas podem ser feitas para melhorar, exemplo: muitas coisas”

“basta ficar esperto e não passar perto da polícia”

 “Se no carro pode colocar alcool por que no motorista não pode?”

“a lei seca deveria valer também para o enem porque o moço que dá as provas parece que está um poco bebado”

“mas não adianta só curtir as fotos sobre lei seca no facebook, tem que também compartilhar”

“como se não bastasse a seca no nordeste”

“a lei seca é muito boa, todos deviam experimentar”

” Para finalizar, na redação do ano passado eu escrevi muito bem e me deram nota ruim, por favor me dê nota boa esse ano.”

“conserteza o pastor marcos felisiano está por tras dessa corrupição que é as multas”

“é como aquele ditado conhecido que eu não lembro muito bem, mas fala exatamente quase sobre isso “

“além do bafômetro é bom usar o etilômetro para ver se a pessoa está com febre”

“minha mãe insiste em dirigir bêbada e eu não sei como faser parar”

“as multas devia ser mais barata. nunca sobra dinheiro para meu pai me dar um playstation”

“o pior não é beber, o pior é beber e dirigir. só é aconselhável beber e dirigir se não beber antes”

“o governo poderia por exemplo criar uns memes”

FONTES PESQUISADAS: http://charlezine.com.br/proposta-de-redacao-enem-2013/

http://batblz.com/corvo/perolas-enem-2013/


sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Vamos nós dois pelejar Mostrar quem é cantador - JARCONE VITAL X ZÉ FERREIRA


Jarcone Vital

Sou um poeta pequeno,
porém não me menospreze,
ajoelhe a Deus e reze,
não provar do meu veneno,
o azêdume é "tereno",
no embate sou terror,
já vi poeta doutor,
me pedindo pra parar,
Vamos nós dois pelejar
Mostrar quem é cantador.

ZéFerreira

Se você se diz pequeno
eu aconselho que cresça
e depois me apareça
fazendo aí um aceno.
Eu te espero, sereno
no peito nenhum temor
só pra Deus Nosso Senhor
é que vou me ajoelhar
Vamos nós dois pelejar
Mostrar quem é cantador.

Jarcone Vital

Todo nordeste conhece
a força do meu repente
se passar na minha frente
ligeiro tu adoece
vai comer pra ver se cresce
magricela sofredor
papagaio falador
aqui não vai se criar
Vamos nós dois pelejar
Mostrar quem é cantador.

ZéFerreira

Já cantei com muita gente,
nunca com contaminado
a dizer que ao seu lado
alguém vai ficar doente.
Porém, preventivamente
tomei imunizador
trouxe um pulverizador
para seu verme matar
Vamos nós dois pelejar
Mostrar quem é cantador.

Jarcone Vital

Se poeta der bobeira,
arranco sua camisa,
lhe dou uma baita pisa,
com um fio de cadeira,
dou cascudo na "moleira",
de tapar o obrador,
eu gosto é de ver a dor,
se acabando de chorar,
Vamos nós dois pelejar
Mostrar quem é cantador.

Zé Ferreira

Enfrento qualquer rival
tentando ser compassivo
mas você me dá motivo
para cobri-lo no pau.
Não tenho fama de mau
porém digo sem rancor,
se despertar meu furor
de ti nada vai sobrar,
Vamos nós dois pelejar
Mostrar quem é cantador.

Jarcone Vital

Rimador véi sem futuro,
lhe peço não me aborreça,
cobra de duas "cabeça",
fumaceiro de monturo,
mijador de pé de muro,
indigente sofredor,
cria que não teve amor,
nascido para penar,
Vamos nós dois pelejar
Mostrar quem é cantador.

Zé Ferreira

Não queira me ver zangado
pois arregaço a munheca
faço de você peteca
jogando pra todo lado.
Vai apanhar um bocado
e não vai achar doutor
que lhe aplaque a dor
na hora de defecar
Vamos nós dois pelejar
Mostrar quem é cantador.

Jarcone Vital

De onde saiu esse incréu,
pra querer cantar comigo,
vou arrancar teu umbigo,
e pisar o teu chapéu,
se esqueça logo do céu,
o cão é teu protetor,
só Jesus nosso senhor,
é quem pode te salvar,
Vamos nós dois pelejar
Mostrar quem é cantador.

Zé Ferreira

Você só cantou bravata
agora vai levar tombo
e vai aprender no lombo
o ensino da chibata.
Aluno que desacata
seu mestre, seu professor
mostra que não tem valor
só serve para apanhar
Vamos nós dois pelejar
Mostrar quem é cantador.

Jarcone Vital

Essa sarna nunca vai,
saí dessa desavença,
hoje voçê pede abença,
me chamando de papai,
a sua casa hoje cai,
junto com o seu fedor,
seu moleque traidor,
aprenda a me respeitar,
Vamos nós dois pelejar
Mostrar quem é cantador.

Zé Ferreira

Poetazinho nanico
De repertório barato
dê nessa boca um trato
pois só parece um pinico
vá escovar esse bico
Minimizar o odor
diga algo de valor
que a gente possa escutar
Vamos nós dois pelejar
Mostrar quem é cantador.

Jarcone Vital

Poetinha sem futuro!
querendo ser menestrel,
nunca conheceu papel,
cresceu escrevendo em muro,
sempre viveu no escuro,
agora quer ser doutor,
tu és um avoador,
que já cansei de pescar,
Vamos nós dois pelejar
Mostrar quem é cantador.

Zé Ferreira

Seu versejar é tacanho
e só dá pra pagar mico
sua idéia é de girico,
a poesia é sem tamanho.
A minha imagem arranho
ao lado dum sem pudor
mas a todo pecador
Vem um cão pra atentar.
Vamos nós dois pelejar
Mostrar quem é cantador.

Jarcone Vital

Pego você no repuxo,
tiro sua valentia,
irás parir uma cria,
não serei pai desse bucho,
pra você seria luxo,
um filho do seu mentor,
não farei esse favor,
só não vou lhe emprenhar,
Vamos nós dois pelejar
Mostrar quem é cantador.

Zé Ferreira

Tô vendo acabar a pilha
desse poeta fracote
Se não podia com o pote
porque pegou na rodilha?
do arco de tordesilha
pra linha do Equador
nunca vi opositor
que pudesse me alcançar
Vamos nós dois pelejar
Mostrar quem é cantador.

Jarcone Vital

Minha pilha vai além,
de âmperes e decibéis,
voçê nasceu pra derréis,
não vai chegar a vintém,
eu estou bem mais além,
do vôo alto do condor,
Honduras e el-Salvador,
é onde eu vou te soltar,
Vamos nós dois pelejar
Mostrar quem é cantador.

Zé Ferreira

Conhece logo o fracasso
quem me vem com desaforo
seu cantar se torna choro
na potência do meu braço.
Volta pra casa um bagaço
pior do que já chegou
e diz nunca mais eu vou
a Zé Ferreira afrontar
Vamos nós dois pelejar
Mostrar quem é cantador.

Jarcone Vital

Esse poeta aprendiz,
querendo cantar de galo,
arrumou foi um entalo,
porque não sabe o que diz,
mando em tu infeliz!
sou o teu amo e senhor,
não canto com perdedor,
Passa pra não enganchar
Vamos nós dois pelejar
Mostrar quem é cantador.

Zé Ferreira

Ainda tá pra nascer
aquele que me derrote
só tenho visto frangote
chegar, apanhar, correr.
Por isso posso dizer:
quem à vida tem amor,
a si faz grande favor
em não me desafiar
Vamos nós dois pelejar
Mostrar quem é cantador.

Jarcone Vital

Nascestes pra levar pêia,
seu filho de chocadeira,
tu vai sair na carreira,
quando vir a coisa feia,
dou-te pisa de corrêia,
poeta gaguejador,
já que tu nunca prestou,
nem perdão irás ganhar,
Vamos nós dois pelejar
Mostrar quem é cantador.

Zé Ferreira

A macaca do repente
ando com ela ensebada
somente pra dar lapada
em poeta insolente.
Quem pisa no meu batente
em tom desafiador,
me saúda com temor
depois do couro provar,
Vamos nós dois pelejar
Mostrar quem é cantador.

Jarcone Vital

Meu menestrel Zé Ferreira,
de ti um fã eu já sou,
porém tudo não passou,
de uma grata brincadeira,
nessa terra Brasileira,
és poeta com louvor,
estou sempre ao seu dispor,
por tanto te admirar,
acabo de confirmar
que és grande cantador.

Zé Ferreira

Caro Jarcone Vital
pra mim foi grande alegria
fazer essa parceria
com um vate genial.
Pra você não tem rival
reconheço o seu valor
sou seu admiradoso não posso negar
acabo de confirmar,
que és grande cantador.

Jarcone Vital

Eu afinando a viola,
um repentista já treme,
e quando meu pinho geme
ele então se descontrola.
Dá branco em sua cachola
na alma sente o temor
seu corpo sofre o torpor
embarga e sai sem cantar
Vem de lá que eu vou de cá
Mostrar que é cantador.


quinta-feira, 6 de novembro de 2014

BELOS VERSOS DE MARIANA TELES


GALOPE À BEIRA-MAR 

Meu verso reúne costumes de um povo
Que nasceu na sombra do sertão valente
Fala das histórias de antigamente
Contadas nas rimas de um poeta novo
Quem ouve uma vez quer ouvir de novo
Que o verso é do mundo do céu e do ar
Tem marcas bonitas do improvisar
Relembra a cadência do rei do baião
O retrato vivo da cor do sertão
Longe das areias da beira do mar

Eu sou de uma terra de gênios poetas
Doutores sem letras, sem togas e anéis
Que às feiras exibem varais de cordéis
Escutando as histórias de antigos profetas
Matutas bonitas e analfabetas
Que aprendem primeiro cortar, costurar
Doutora nas prendas de cuidar do lar
Que prendem cabelo com laço de fita
E quanto mais simples fica mais bonita
Do que essas outras da beira do mar

No pé de uma serra nasci escutando
Aboio, toada, forró, cantoria
Acordava junto com o romper do dia
E na morte dele tava me deitando
Durmo numa rede com o pé balançando
A bíblia que eu leio me ensinou cantar
E se  Deus de novo na terra voltar
Procurando rastros perdidos no chão
Vai achar pegadas no pó sertão
Longe das areias da beira do mar

Nasci envolvida no véu do repente
Sentindo os sopapos do som da viola
Onde o verso nasce parecendo mola
Quando um vai pra trás vem outro pra frente
Meu vestido é feito como antigamente
Vendo a hora a barra no chão se manchar
No couro ou na sola aprendi andar
Criei-me na terra longe do asfalto
De saia comprida sem sapato alto
E não me acostumo na beira do mar.

O shopping da gente é dia de feira
A lona se estira no chão da calçada
Num chapéu de palha já descosturada
Uma banda falta a outra é inteira
Nossa cafeteira é uma chaleira
E um pano limpo pra café coar
Eu inda pastoro pra não derramar
Um fogão de lenha que meu avô fez
Mesmo assim não troco nesse de vocês
Pois café não presta com gosto de mar.