APOESC (Associação de Poetas Escritores Simpatizantes e Colaboradores)

A APOESC (Associação de Poetas Escritores Simpatizantes e Colaboradores), criada em 03.2010 em Santa Cruz -RN, existe para congregar amantes da cultura, apologistas e produtores da arte da palavra.


segunda-feira, 21 de agosto de 2017

A NADA FÁCIL ARTE DE EDUCAR - Gilberto Cardoso dos Santos


A NADA FÁCIL ARTE DE EDUCAR - Gilberto Cardoso dos Santos


Vi uma entrevista de um famoso pianista, cantor e compositor americano, concedida a Amaury Júnior. 

Foi perguntado ao sexagenário artista a quais pessoas ele agradecia por tão bem sucedida carreira. Sua resposta foi curta, sem titubeios: “Agradeço a minha mãe”.

Ante o aparente espanto do entrevistador, explicou: “Minha mãe me botava pra praticar, praticar, praticar... Eu odiava aquilo, detestava música! Mas ela insistia pra que praticasse ao piano. Se não fosse por ela eu não estaria aqui sendo entrevistado por você, não teríamos o que conversar. Talvez hoje eu trabalhasse numa loja de roupas, seria qualquer outra coisa... Portanto, tudo que sou devo a ela”.

Aquela entrevista, assistida por acaso, deixou-me pensativo sobre a difícil arte de educar. Qual o limite entre o não e o sim, pergunto-me. Até que ponto, devemos considerar os desejos, a felicidade imediata, disposições e indisposições de nossos filhos naquela idade em que o que mais importa é a diversão? Seria o correto, como fez aquela mãe, desagradar no presente para produzir um bem futuro? Teria hoje ele tão reverente sentimento de gratidão (observem que não citou ninguém, além dela!) caso ela o tivesse deixado à vontade e tivesse dito “Está bem, filho, se não quer fazer os exercícios, não tem problema”? 

Creio que através da disciplina – amarga naquele momento - aquela mãe o conduziu à autodisciplina. Consequentemente, esmerou-se na arte de tocar. Entre os momentos áureos de sua carreira, consta o dia em que tocou para o presidente Barack Obama.

Que orgulho daquela genitora ao longo da vida ao ver seu bebezão brilhando nos palcos, hiper feliz e bem sucedido! Será que valeu a pena para aquela mãe ser odiada durante o período em que insistia com o filho? Doía imaginar que em seu íntimo o filho a adjetivava de CHATA, mas aquela mãe diria que SIM, valeu a pena!


Será que valeu a pena sacrificar parte da infância para submeter-se aos desejos da mãe? O pianista responderia SIM, indubitavelmente. Para Rosely Sayão, famosa psicóloga, "Educar pressupõe sempre desagradar à criança".Todavia, não dá para ser taxativo, não há uma receita única. Qual nível de chatice se mostrará benéfico à criança? Em que medida e em que áreas deveríamos ser democráticos? Decerto é inspirador o testemunho do pianista  e com certeza útil a quem mima em excesso. Mas cada ser é único, cada caso é um caso. O que funciona com um pode não dar certo com outro. 

domingo, 20 de agosto de 2017

VERSEJANDO MANGA E CHUPANDO VERSOS




 Resposta ao grande vate Valdeilson:

Todos têm um lado angélico
E também um lado cão
Mistura de Yng e Yang
Eu creio que todos são
Os de toga e os de tanga
Todos têm seu lado manga
Na labial sucção.

(Gilberto Cardoso dos Santos)







quinta-feira, 17 de agosto de 2017

ZACK MAGIEZI E DRUMMOND: INTERTEXTUALIDADE




BORDANDO PALAVRAS COM HÉLIO CRISANTO, ÀS CUSTAS DE PIERRE BORDIEU - Gilberto Cardoso dos Santos


BORDANDO PALAVRAS COM PIERRE  E HÉLIO CRISANTO (Gilberto Cardoso dos Santos)

O que é poesia, professor? Poesia é devaneio, meu amigo, como disse Bachelard. Poesia é fugir da linguagem comum, atrapalhar a ordem natural do discurso, saltar pra fora da asa, como disse Manoel de Barros.
Hélio Crisanto, poeta santa-cruzense, de Campestre, disse-me que recebeu a incumbência de escrever um cordel sobre um tal de Pierre Bordeau e, naturalmente, estranhou a pronúncia do sobrenome, que em nossa língua soa como verbo “perfeitamente” conjugado, sem deixar margem para dúvidas:  - bordou ou não bordou? - E ficamos a conversar a respeito da proposta. No meio de nossas divagações, criei um mote (Pierre bordou a blusa que Cláudia Cunha comprou) E Hélio fez outro (Pierre bordou a saia da mãe de Napoleão), e assim foram produzidas algumas estrofes. Vejamos:

Eu fiz:

Pierre, quando menino,
adorava confusão
Bordava e pintava o sete
comia que só o cão
com gente da sua laia
Pierre bordou a saia
Da mãe de Napoleão.

Se ele bordou ou não
É melhor ficar calado
O eleitor de Bolsonaro
Vai ficar meio cismado
Com o que ele aprontava
Pois se Pierre bordava
Com certeza era viado.

Pelo que observei
Pierre era educador
De formação esquerdista
Vermelha era sua cor
Educador destemido
Que ficou mais conhecido
Na função de bordador.

Na defesa dos aflitos
Pierre era muito afoito
Sua comida preferida
Era café com biscoito
Ele era um infitete
Depois que pintava o sete
Pierre bordava oito.

E Hélio continuou:

Napoleão Bonaparte
Quando era o rei da França
Fez uma grande festança
Juntando o povo da arte
Botou a mãe como parte
Dessa comemoração
E num ato de paixão
Levou a velha na praia
Pierre bordou a saia
Da mãe de Napoleão.

E eu disse:

Pierre era meu colega
Nós caçava passarinho
Ele era bem baixinho
E ajudava uma cega.
Gostava de música brega
Roubava manga e mamão
Tornou-se um bom artesão
Seguidor de Malafaia
Pierre bordou a saia
Da mãe de Napoleão.

Prosseguiu Hélio:

Pierre quando menino
Tinha fama de teimoso
Por ser muito corajoso
O chamavam Virgulino
Torava corda de sino
Era ruim que só o cão
Entre tanta profissão
Já fez forro de “cangaia”
Pierre bordou a saia
Da mãe de Napoleão.

Eu concluí:

Pierre era professor
Por um décimo reprovava
E o povo reclamava
De seu imenso rigor
Então o governador
Tirou ele da função
E ele achou seu ganha-pão
Fazendo arte em cambraia
Pierre bordou a saia
Da mãe de Napoleão.


Poesia é isso, uma “útil inutilidade” que resulta num sorriso, ainda que breve, ou faz cair uma lágrima indevidamente represada. O cordel sobre Pierre (ainda) não saiu, mas bordamos essas bobagens a respeito dele.

PENSAMENTO - Luzia Anália


Pensamento

Meu pensamento não voa.
Ele percorre meu corpo,
Rende-se ao meu querer,
Molda-se em minhas células.
Seu designer é petulante e robusto,
seu cheiro é de flor.
Ele se faz poesia,
cantoria e medo.

Meu pensamento não sonha.
Ele escorrega em meus neurônios,
Prende-se ao meu fazer,
Liberta-se em meu coração.
Seu sabor é de esperança e silêncio,
seu cheiro é de amor.
Ele se faz nostalgia, alegria e torpedo.

Era tanto O amor que eu tinha.... - Francisco Vital


Era tanto O amor que eu tinha Era tanta
A alegria que eu tinha Ao ver você chegar
Assim um tanto sem jeito E aqui no meu peito
Eu me consumia E nos teus olhos eu morria Ao ver você se afastar. Você quieta, calada e eu querendo gritar E teu silêncio me seduzia, me envolvia Eu numa agonia tão sufocante Mas nem em face do me pranto ouvi você falar Como foi intenso o meu amor Inversamente proporcional
Ao meu físico raquítico, sifilítico E diretamente proporcional
Ao meu coração Que cheio de aflição
Só viu você passar.

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Apenas mais uma de dor - Cecília Nascimento


Apenas mais uma de dor

Chego em casa exaurida, a sensação que me toma não sei se é de fome ou de aflição; talvez um misto de ambas. Sigo uma das minhas filosofias de vida que diz que “quando comemos, cinquenta por cento dos nossos problemas se resolvem”, quem me conhece já ouviu tal máxima. No entanto, ao afastar o prato e jogar este corpo quase vivo na cama, quase perdido pela bagunça do quarto, da casa, da vida, percebi que não era apenas a barriga que estava cheia (plano alimentar, por que não consigo te seguir?!), mas trazia também o coração e a mente abarrotados de angústias e tão cheios que não deu outra, ou transbordaria no papel ou as lágrimas dariam conta do recado. O recado veio de ambas as formas, pois há sensações que de tão abrangentes pedem reações mais exageradas.
Hoje não quero nada; apenas aquilo que não posso. Hoje não quero nada; nada do que me está à disposição. Hoje não quero nada; nada do que já sinto há anos. Já disse que não quero nada; apenas restar-me aqui nesse quarto meio escuro, nessa cama meio vazia... o que me faz lembrar de uma vida meio satisfatória, exercendo funções meio agradáveis numa rotina meio adequada, com pessoas meio presentes...
E de aos poucos me contentar com pouco, com o copo de água limpa no fim do expediente, com o boa noite frio dos vizinhos cujos nomes eu nem sei, com os olhares desconhecidos que me catalogam a cada rua que passo, eu venho me sentindo tão pouca... tão pouca coisa, tão pouca mulher, tão pouca mãe, tão pouca profissional, tão pouco ser vivo, tão pouco feliz...
A Meireles “aprendeu com a primavera a deixar-se cortar e a voltar sempre inteira”, mas esta Nascimento que vos escreve, apesar de ter renascimento no nome, precisa aprender a florescer em meio à seca da vida severina que nos habitua a nos contentarmos com tão pouco e mesmo que aparente por fora ser cacto e não agrade tanto aos rígidos preceitos de nossa tão exemplar sociedade, traga dentro de si a água que lhe é peculiar, capaz de lhe manter de pé por longas estiagens. Talvez esse cacto aqui dê flor, talvez seja alimento ou mate a sede a algum peregrino que a vida lhe apresente ou já apresentou... Só espero que a exemplo das cecílias, não se permita cortar a tal ponto que a primavera não mais volte a brilhar em seus ramos, em seus olhos, em seu peito...
A tarde avança... ainda estou de barriga cheia, mas a alma já se mostra bem mais leve... Que esse papel leve de mim aquilo que já não me cabia. Estão servidos?

Cecília Nascimento
16/08/17 – 14h33min.
De barriga cheia e coração mais cheio ainda...


terça-feira, 15 de agosto de 2017

Jesus chamou Deus de pai Com linguagem figurada. - Marciano Medeiros


Jesus chamou Deus de pai
Com linguagem figurada.

Marciano Medeiros

Deus não é um ser humano
Perdido na vastidão,
É fonte da criação
Poder máximo e soberano,
Também nunca foi tirano
Essa imagem foi gerada
Por pessoas na jornada,
Bem distantes de El Shaddai:
Jesus chamou Deus de pai
Com linguagem figurada.

Vejo Deus no firmamento
Que seu reflexo clareia;
E num deserto de areia
Embalado pelo vento,
Seu Poder no sofrimento
Faz a dor ser consolada
Conforta na madrugada,
Quem crer nele jamais cai:
Jesus chamou Deus de pai
Com linguagem figurada.

No tempo do barbarismo
O chamaram de guerreiro,
Genocida e carniceiro,
Adepto do terrorismo.
Sempre o nosso infantilismo
Bradando de forma errada,
Essa imagem divulgada
Da teologia sai:
Jesus chamou Deus de pai
Com linguagem figurada.


Deus é a força suprema,
O topo da criação,
Formou nosso coração
Que é bomba da vida extrema.
Traz solução de problema
Muito calmo e sem zoada,
Fez a terra povoada
O nosso eterno Adonai:
Jesus chamou Deus de pai
Com linguagem figurada.

HOMÓGRAFAS HETEROFÔNICAS - Gilberto Cardoso dos Santos


segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Deram a chave do mundo aos malucos E o mundo, sem culpa, enlouqueceu - Hélio Crisanto


Na Coréia Kim Jong declara a guerra
Apontando seus misseis para o mundo
E os States rebate num segundo
O tratado de paz ali se encerra.
Falta pouco pra gente ver a guerra
Entre um louco e um doido fariseu
Que amedronta o planeta e resolveu
Fazer medo com seus fuzis caducos;
Deram a chave do mundo aos malucos
E o mundo, sem culpa, enlouqueceu.
(Hélio Crisanto)

sábado, 12 de agosto de 2017

VIAGEM - Francisco Vital


Um dia eu era saudade No outro eu era poesia Mas já fui tragédia Comédia e solidão. Fui ao Japão de caminhão, detesto avião. Fui com o mar a favor, Fui buscar o meu amor Pelos caminhos do vento Que o tempo levou. Mas o vento não esperou, Parece não ter coração, Dei adeus ao Japão, Até outro vento meu amor.

Francisco Vital

domingo, 6 de agosto de 2017

A ALA VIP DO FESTIVAL - Gilberto Cardoso dos Santos



A ALA VIP DO FESTIVAL (Gilberto Cardoso dos Santos)

Construíram um curral vip
Lá em Serra de São Bento
Um bom trabalho de equipe
Que visa o afastamento
Da alta sociedade
Decerto uma novidade
Que trouxe constrangimento.

Visando, sim, o sossego
De quem possui cartão VISA
Ou MASTER, sem muito apego
Que de destaque precisa
A astúcia empresarial
No espaço municipal
Ao status improvisa.

No festival de Inverno
Da bela cidadezinha
Gente de gravata e terno
Que anda dentro da linha
Poderia, sossegada,
Beber bebida importada
Longe de quem nada tinha.

Claro que deve ser chato
Ver um e outro chegando
Pessoas sem fino trato
De você se aproximando
Pra pedir ou pra roubar
Por isso é bom se isolar
Mesmo que caro pagando.

Há quem critique quem fez
Mas há quem ache normal
Neste mundo só têm vez
Os donos do capital.
Ache bom ou ache ruim
Em todo canto é assim
Há divisão social.

Afinal, a insegurança
Leva ao isolamento
Quem muito tem na poupança
Quer melhor atendimento
Um tratamento mais terno
No Festival de Inverno
Lá de Serra de São Bento.

Nada contra ou a favor
Mas muito pelo contrário
Determina-se o valor
Pelo fator monetário
Acontece em todo canto
Não deve causar espanto
A quem só ganha um salário.

Eu se for de fora fico
Porém vou juntar dinheiro
Quero dar uma de rico
Neste lugar prazenteiro
Retirarei da maleta
Uma expressiva gorjeta
Pro garçom hospitaleiro.

(Carta para minha futura filha) - Zack Magiezi


Olívia

Existe maldade nesse mundo
Mas há beleza
E para descobrir essa beleza
Você não precisa ir longe
Apenas pare e contemple
Ofereça flores ao mundo
Dance, abrace e sorria
Também é necessário chorar
Jamais use máscaras
Seja sincera
Com os seus sentimentos
E ganhará a amizade deles
E o respeito da vida
Trace a sua rota
Leia poemas
Coisas materiais
São apenas coisas
Olhe nos olhos
Converse com a natureza
Aprenda com ela
Distribua os tesouros da vida
E será rica
E terá paz

De alguém que te espera
E te ama muito
Seu pai.


https://www.youtube.com/watch?v=yZN5llvFCmk

domingo, 30 de julho de 2017

OH, QUE BOBAGEM, AS ÁRVORES NÃO FALAM... - Naílson Costa


OH, QUE BOBAGEM, AS ÁRVORES NÃO FALAM, SIMPLESMENTE EXALAM O PERFUME DAS ROSAS QUE ROUBAM DE SI!

Aquele árvore frondosa, defronte ao Bar do Baixinho, com o seu jeito elegante e discreto de ser e de ficar ali, na sombra agradável de seu silêncio, tem as rosas mais cheirosas de todas. Ela tentava, sem sucesso, confabular no ouvido de minha atenção sempre que por lá eu aparecia. Nunca lhe dei atenção! Ela nada dizia à mesa redonda de meus amigos na hora de nossos brindes barulhentos. Ela ouvia as confidências ditas, as sentenças condenatórias prolatadas nas páginas infiéis das nossas risadas de bar. Ouvia com discrição as estórias verossímeis, extraídas do universo pobre daquela província. E ela nunca silenciou, para mim, na estrada de minhas lembranças o seu segredo não dito. Aquela árvore do Baixinho queria me dizer algo. Sempre quis. Foi ela que me levou hoje, de volta, à telúrica cidade de meus primeiros passos. E fui a Santa Cruz matar a saudade daqueles tempos de outrora, para ressuscitar as minhas boas lembranças e confabular com aquela árvore, que quisera, há muito, dizer-me algo, mas que eu nunca lhe fui atencioso! E fui, e cheguei e olhei àquela árvore linda, que me recebeu como nunca antes recebido, com as suas seivas, os seus galhos, suas folhas e suas rosas a caírem educadamente por sobre a minha presença. Poxa, quanta honra! Sentei-me à mesa posta debaixo de sua sombra única, pedi a Eduardo Couro de sapo a minha cerveja preferida, abri, apurei os ouvidos, escutei seu cumprimento delicioso, bebi todos os prazeres daquela espera e contemplei a grandeza da estátua de Santa Rita, bem à minha frente. Cadê os amigos Ivonaldo, Zé da Luz, Otacílio, Leonardo, Meireles, Baixinho, Zé Lins, Lambão, Willard, Fernando Rola, Bezerril, Pedro Bala, Valmir, Nícolas, Eurípedes, João Alberto, Gildo... onde foram todos com os seus espantos, suas mímicas, confidências, exageros, suas músicas, suas paixões, suas fomes, suas sedes, seus castelos, ... cadê aquelas mentiras deliciosamente frescas? Cadê as calúnias amistosas de morte, nossas risadas e nossas estórias? Não vieram para regar as raízes daquela árvore feliz. E fiquei a sós, eu, a árvore frondosa , a mesa redonda e a ávida cerveja, sozinhos, a costurar os tecidos da alma inesquecível daquele tempo, quando, de repente, um clarão, com formato de auréola gigante, surge assustador no céu do meio-dia de toda a cidade! E outro e outro clarões! Ventania estúpida a virar a mesa e a irrigar os pés de minha árvore quieta, que agita suas folhas, galhos e rosas pra mim na sufocante tentativa de algo me dizer, mas, mais uma vez, não lhe dou atenção. Barulho ensurdecedor, a minha cerveja chora, a terra se abre e o povo da feira corre sem direção para escapar da gravidade mortal daquele novo momento; a ceiva escorre das feridas expostas na testa de Santa Rita, que implode de seu Alto e sucumbe no desfiladeiro profundo do fogo e da sede da agonia de nossa Santa Cruz. Eu, bem no centro dessa nova estória e à espera de meus amigos de ontem, que nunca virão, olho, atônito, para essa nova velha Rosa de Hiroshima que surge e desenha, por sobre a minha consciência, as trombetas de Kin Jong-Um, os sorrisos esquizofrênicos de Trump, as nuvens atômicas de Vladimir Putin e a bandeira bestial do Brasil, a tremular com a frase “Libertas que sera Temer”. Acordo e vejo, da janela feliz de meu alívio, o dia nascer lindo e promissor, neste domingo, 30 de julho de 2017. Abro o computador e leio as manchetes dos principais jornais internacionais: “Coréia do Norte testa novo míssil intercontinental e EUA, Coréia do Sul e Japão posicionam seus bombardeiros B-1B.” As árvores brotam do chão, crescem e lutam pra ser o verde mais lindo da aquarela de Deus. Quando derramam as suas ceivas, as suas folhas e as suas rosas, sem motivo aparente, por sobre a chegada inesperada de alguém, penso que queira, apenas lembrar da “rosa, da rosa, da rosa de Hiroshima, a rosa hereditária, a rosa radioativa, estúpida e inválida, a rosa com cirrose, a anti-rosa atômica, sem cor, sem perfume, sem rosa, sem nada.” Mas não tenho certeza se é isso que ela quer falar, e este texto é uma grande bobagem, até porque as árvores não falam, simplesmente exalam o perfume das rosam que roubam de ti! (Nailson Costa)




SEXTILHAS DE LOURO BRANCO SOBRE SAPO


Acho bonito o inverno
Quando o rio está de nado
Que o sapo faz oi aqui
Outro oi do outro lado
Parece dois cantadores
Cantando mourão voltado


Acho bonita a enchente
Descendo no ribeirão
E o cururu em cima
Dum garrancho de pinhão
Parecendo um chofer bebo

Dirigindo um caminhão.



sábado, 29 de julho de 2017

ROBINSON FARIA, MAS NÃO FEZ - vários autores



Saúde sucateada
Bastante gente morrendo
Segurança abandonada
Policiais se fudendo
Educação sem valia
Porque Robinson Faria
Mas acabou não fazendo.

Estradas esburacadas
E ninguém faz um remendo
As altas taxas cobradas
Pra quê serve?não entendo!
Deve ser uma micharia
Porque Robinson Faria
Mas acabou não fazendo.

X

 O cidadão vive preso
A violência crescendo
Assassinatos diários
É o que estamos vendo
RN em agonia
Porque Robson Faria
Mas acabou não fazendo


X

Em estrada esburacada
Não faz sequer um remendo
Um ladrão em cada esquina

E nós de medo tremendo
Nesse estado de apatia
Porque Robson faria
Mas acabou não fazendo





quinta-feira, 27 de julho de 2017

LUZIA LUZINDO EM VERSOS


LUZIA LUZINDO EM VERSOS

Luzia Anália é uma educadora caicoense de inegáveis charme e inteligência. Tive o privilégio de conhecê-la e tornar-me seu colega no final de 2015, quando demos início ao mestrado em Literatura e Ensino. Ela sempre deixou claro, nas vezes em que a vimos falando,  ser uma pessoa de grande sensibilidade. Eu insistia para que ela me mostrasse algum texto literário que, com certeza, já teria escrito, mas ela, por timidez, sempre recusou fazer isso. Ontem, porém, ela surpreendeu-me enviando alguns versos para análise. Fiquei muito feliz  e comprovei o que já esperava: qualidade no que ela faz.

ABISMO (De Luzia Anália)

Quem sentir a febre
De um amor sem fim
Venha rápido, 
Corra para mim.

Quem souber andar
Ao sabor do vento,
Conte essas estrelas
Do meu pensamento.

Quem quiser um beijo
Ou um mar de flor,
Corra para o abismo
Deste meu amor.

Mas, não sintam!
Mas, não saibam!
Mas, não queiram!
Fujam!


SOBREVIVO! (De Luzia Anália)

Entre medos e segredos,
Sobrevivo!
Entre sonhos e cuidados,
Esfarrapo-me!
Como num balé de fumaça, 
Despedaço-me!

O fogo queimou o que havia pra queimar
E agora a saudade, em brasas, tripudia do meu pranto, em gargalhadas brutais.

Não sobrevivo mais.
Agora, nem sonhos, nem segredos.


No poema Órion, de Drummond, há um verso que diz: "Luzia na janela do sobradão."
O duplo sentido, quando associado ao título, faz-se evidente. Fico feliz por comprovar que minha amiga, que tanto brilhava na qualidade de aluna e colega, também luze em versos. A Luzia de Drummond limitava-se, talvez, à janela do sobradão, mas está há de sobrar em brilho nas aberturas dos ambientes virtuais. Quem sabe, não venha a espargir raios nas páginas de nossa segunda antologia APOESC em Prosa e Verso!? Assim espero, assim desejo. 

Mostrou-me apenas dois de seus poemas, mas tenho a impressão que há uma botija de versos prestes a ser desenterrada, e eu quero meter a mão nesse tesouro.

-Gilberto Cardoso dos Santos










domingo, 23 de julho de 2017

ALBATROZ - Débora Raquiel



Albatroz eu te invejo libertino,
nesse voo de amor que desenlaças,
meu amor é escravo, não tem asas,
peregrina entre o algoz e a senzala.
Entre beijos...correntes e açoites,
No abraço um chicote a estalar,
Albatroz, me empresta tuas asas,
feito ave vadia vou dançar...
desenhar nesse céu, meu infinito,
enfeitar de poesia meu destino,
Alforria esse amor que é clandestino,
que carrega um abismo em cada mão.
Faz teu pouso, me ampara, alivia...
essa dor que macera o coração.
Ave alada, aniquila o meu degredo,
Se pequei por amar quem não devia,
Eu amei uma lua em segredo,
Sem remorso, sem culpa, foi paixão...
Revogando esse caos, ave ligeira,
Proclamai em voz alta meu perdão,
arrebenta as correntes dessas portas,
Acalmai esse mar que mora em mim,
Meu império será a liberdade,
meu decreto é amar sem ter mais fim.




Débora Raquiel Lopes



sexta-feira, 21 de julho de 2017

Amando... - Sabrina Dorico


Amando...

Observando você, descobri.
Mil motivos pra te desejar
Um deles é o seu respirar
Que azeita minha alma
A minha vida
E o meu caminhar
Aliás, ao longo do tempo.
Eu só quero te amar
Amo mais e mais
Não consigo parar
Então, escuto!
Ouço dizer:
Todas essas perguntas
Levam-me até você
Assim... Como se definisse
O meu ser
Tranquilamente, na paz do seu querer...

Sabrina Dorico

Currais Novos 20/07/2017

sábado, 1 de julho de 2017

PRECE AO DEUS DOS BRASILEIROS - Gilberto Cardoso dos Santos


PRECE AO DEUS DOS BRASILEIROS
(Gilberto Cardoso dos Santos (gcarsantos@gmail.com)


Senhor Deus dos enganados! 
Desperta-nos, Jesus Cristo!
É sonho ou realidade
Tanto horror que temos visto?!
Juízes, feito monarcas
Sugam as riquezas parcas
Da explorada nação
Repulsivas são as ondas
Que nos chegam hediondas
Do mar da corrupção.

Senhor Deus dos desgraçados! 
Dizem que és brasileiro
Temos bancada evangélica
Teu nome está no dinheiro
Com a mão na Bíblia Sagrada
Juram que não farão nada
Contra a Constituição
Mas é tudo hipocrisia
Teu nome lhes propicia
Domínio e ostentação.

Senhor Deus dos castigados
Pelo próprio egoísmo!
Na política demonstramos
Nosso analfabetismo
Tu, que te indignaste
E do templo expulsaste
Mercenários, vendilhões
Varre nossa consciência
Dá-nos luz e mais prudência
Em tempo de eleições!

Senhor dos desenganados
Milhões de vezes traídos!
Com paciência de Jó
Temos sido oprimidos
Em um beco sem saída
A nação desfalecida
Não enfrenta o opressor.
Põe de pé os derrubados
Que acham que estão deitados
Em berço de esplendor!

quarta-feira, 28 de junho de 2017

DO GALEGO AO PORTUGUÊS – Entrevista com Isabel Rei Samartim, excelente instrumentista e escritora da Galiza.

Durante boa parte de minha vida tive ideias errôneas acerca da origem de nossa língua. Graças a Bagno e a Isabel Rei Samartim, cheguei a um melhor entendimento. Depois da leitura desta entrevista, você terá bons motivos para orgulhar-se de nosso idioma e aumentará em muito sua bagagem cultural.  - Gilberto Cardoso dos Santos, entrevistador



GCS.: Ilustre entrevistada Isabel:
Moro em um país cheio de galegos. Em toda localidade há alguém que por causa da cor da pele é chamado de galego ou galega. Alguns são apelidados de galego sarará. Temos até uma música que se tornou clássica no Brasil chamada “Galeguim do zoi azu”, gravada por Genival Lacerda. Hoje mesmo troquei umas palavras com o Galego da Quentinha. Disse-lhe:
- Você sabia que há um lugar onde os moradores são chamados de galegos?
- Que país é esse, perguntou-me ele bastante surpreso.
- Trata-se da Galícia, ou Galiza.
Sem conter o espanto e certa incredulidade, indagou:
- Quer dizer que lá só tem gente de minha cor?
- Não, expliquei-lhe. – Assim como na África nem todos são negros, lá há morenos, loiros, negros... No entanto, parece haver uma predominância de pessoas da sua cor, não sei ao certo.
Finalizamos a conversa, e ele retirou-se bastante admirado com o que ouvira.
Inicio, pois, este diálogo pedindo-lhe que comente a respeito disto, pois imagino que esteja ciente dessa realidade no Brasil e tem condições de nos dizer a causa.


Isabel: Galiza é esse lugar onde os moradores se chamam de galegos, quer dizer, galego é um gentílico, uma palavra que designa os indivíduos segundo o seu local de procedência e não somente um adjetivo a indicar a cor da pele. É bem certo que @s galeg@s, como a maior parte de europeus, costumamos ser pessoas de pele clara, mas existem galeg@s de todas as cores, tanto na Galiza quanto no mundo, pois a nossa população está também muito estendida devido às contínuas emigrações. É possível que essa ideia do galego ser pessoa de pele clara se tenha formado na afluência da emigração galega ao Brasil. Não parece casual que precisamente o nosso gentílico, hoje desconhecido no Brasil, tenha sido a palavra escolhida para representar pessoas que são como nós. Por significar "cor da pele" ele passou a ser aplicado a todo tipo de pessoas com essas características. Acho muito simpático que no Brasil pessoas com apelido alemão, italiano ou inglês sejam adjetivadas de "galegos". É a grandeza do Brasil, país-continente que para os galegos da Galiza é nosso grande netinho querido.


GCS.: Fale-nos sobre suas origens geográficas e familiares. Descreva-nos um pouco o seu país e sua gente, número de habitantes...


Isabel:
Galiza situa-se no extremo ocidental da Europa, a Norte de Portugal, no cantinho noroeste da península ibérica. Atualmente somos arredor de 2 milhões e oitocentos mil galeg@s a morarmos cá. O governo da Galiza é um governo regional pertencente ao Reino da Espanha, por isso as galegas temos passaporte espanhol e conhecemos a língua castelhana. Além disso, recentemente Santiago de Compostela tem entrado na União das Cidades Capitais de Língua Portuguesa (UCCLA).


Eu provenho de uma família galega de lavradores, como tantas outras no meu país. Filha de galegos que foram filhos e netos de galegos. Meu pai, de nome Manuel, pertenceu a uma geração que decidiu não continuar nos labores agrários, mas aprender o ofício de carpinteiro e depois o de capataz na construção. Ele teve uma vida de aprendizagem contínua. Primeiro conseguiu trabalho no Brasil, em São Paulo, onde aprendeu música e a tocar o acordeão, depois trabalhou em diversos locais da Espanha e finalmente na Alemanha, país que ainda hoje reconhece o seu labor na reconstrução da Estugarda da após-guerra mundial. Minha mãe, de nome Preciosa, pessoa destinada pela família a levar a fazenda camponesa, deitou por terra esses desígnios ao casar com Manuel e participar na aventura vital que deixava para trás a vida agrária. Eles tiveram três filh@s d@s quais eu sou a terceira e seródia criança.


Nasci, portanto, numa pequena vila da Galiza, A Estrada, brote urbano no coração do vale do rio Deça. É aos domingos pelas três horas da tarde quando mais se percebe a Estrada como uma estranha flor crescida no meio das verdes pradeiras galegas. Dela, como de muitas outras vilas, partiu durante os últimos duzentos anos um número imenso de pessoas a fugirem duma pressão económica insustentável para outros países da Europa e também, especialmente, para a América do Sul: Brasil, Argentina, Uruguai, Venezuela são países que nos acolheram e nos deram oportunidades, emprego, refúgio, tanto para reverter as dificuldades económicas quanto para desenvolver as atividades políticas que com as condições da Espanha eram impossíveis de imaginar. Não se conhece o número exato de emigrantes galegos no mundo, mas algumas fontes falam que, entre filhos e netos, este duplica a atual população a morar na Galiza.


GCS.: Percebi que questões relacionadas à língua estão no centro de suas preocupações. Qual a sua formação e o que a motiva a lutar pela preservação do idioma galego? Trata-se de um idioma ameaçado de extinção? Há cerca de quantos falantes?


Isabel:
Eu sou música violonista, aqui dizemos guitarrista. Dou aulas no Conservatório Profissional de Santiago de Compostela, toco em concerto sempre que tenho oportunidade e pesquiso sobre música galega na área dos instrumentos de corda dedilhada. O meu interesse central é a música, mas reconheço que a defesa da língua na Galiza permeia todas as minhas atividades. O espírito crítico dos meus dous irmãos, que me educaram na leitura, na música e na dignidade de sermos galegos, prendeu na minha maneira de ver o mundo e já desde criança me acompanharam os estudos de violão, os exercícios narrativos e a consciência da vida como mulher galega.


Desde que acabou a ditadura franquista na Espanha e se puseram em andamento as dobradiças da Transição surgiu na Galiza um movimento composto inicialmente por professorado de língua, que depois chegou a representar todo um setor da sociedade galega que se chamou e se chama de Reintegracionismo. Este movimento dava os primeiros passos na década de 70 e lutava na década de 80 contra a imposição por parte dos governos regional e central de um modelo de língua para a Galiza que nos afastava da norma portuguesa, que é a nossa referência mais importante. O afastamento académico procurava condizer com o afastamento político que o governo desejava para as pessoas galegas a respeito das portuguesas na nova etapa que se abria no Reino da Espanha. Por motivos que só se podem compreender desde o egoísmo, a vontade natural de comunicação entre galegos e portugueses tem sido motivo de reprovação pelas autoridades espanholas.


Com quinze anos integrei a associação reintegracionista da Estrada, que se chamava Associação Cultural Marcial Valadares. As associações de pessoas contra a imposição do modelo isolacionista de língua, que nos afastava do português, brotaram durante os anos 80 em numerosas vilas por todo o território galego, permaneceram com dificuldades durante os 90, desapareceram na sua maior parte com a mudança de século e ressurgiram com força na primeira década do s. XXI como Centros Sociais. Outras unificaram-se em poucas mas alargadas associações, fundações e editoras que hoje apresentam uma intensa atividade, como são a Academia Galega da Língua Portuguesa (AGLP), a Associação Galega da Língua (AGAL), e a Através Editora.


O que aqui chamamos de "Galego" não é outra cousa do que uma variante da língua portuguesa própria da Galiza. O galego é português da Galiza, como o brasileiro é português do Brasil. Também gostamos de dizer ao contrário: O que hoje se conhece por "língua portuguesa" nasce antes do que o próprio Reino de Portugal, nasce na Galiza, portanto, o nome inicial de todo o sistema linguístico é Galego. Segundo isto, o português e o brasileiro são variantes do Galego, são galegos de Portugal e do Brasil. Foi por isto que causou tanto rechaço entre o professorado a imposição na década de 80 de uma norma ortográfica divergente com as regras mais elementares da língua portuguesa. Mesmo havendo diferenças linguísticas entre Brasil e Portugal, ninguém vai ter a peregrina ideia de escrever a palavra Geografia por Xeografía, ou a palavra Canção por Canción, porque nenhum linguista brasileiro ou português admitiria violações tão graves do alfabeto, das regras de acentuação, da etimologia e da morfologia própria das palavras em língua portuguesa, por mais variantes que observarmos dentro do nosso sistema linguístico comum.
Os dados numéricos sobre os falantes de Galego na Galiza são, por desgraça, confusos. Tudo ao redor do emprego da língua é obscuro. Os inquéritos oferecem resultados cada vez mais negativos quanto ao emprego da língua nativa entre as crianças. Objetivamente pode afirmar-se que, na atualidade, o português na Galiza é ensinado nas escolas oficiais de primário e secundário num modelo afastado da língua portuguesa que emprega muitos elementos da gramática e do léxico da língua castelhana e está de costas viradas para o modelo de português europeu. As crianças que aprendem a língua assim não adquirem competências para dominar o português escrito nem falado. O número de moradores não coincide com o número de falantes e o número de falantes regulares decresce a cada inquérito pela concorrência do Castelhano, que também é língua oficial na Galiza


GCS.: Durante muito tempo desconheci a real origem da língua portuguesa. Através do linguista Bagno eu aprendi que razões políticas foram determinantes para que a história fosse mal contada. Por favor, diga-nos o que sabe e o que pensa a respeito disso.


Isabel:
O que hoje conhecemos como língua portuguesa nasceu no antigo Reino da Galiza produto da evolução e mistura do hegemónico latim vulgar com a língua celto-galaica dos nativos kallaiki, ou galegos. É por isto que a parte menos ortodoxa da Academia começa a entender que galego é uma palavra que serve para nomear a língua que já existia antes da independência do Reino de Portugal em 1143. Daí as Cantigas galego-portuguesas. Entendamo-nos com a terminologia: Resulta um bocado estranho chamar de "português" uma língua antes de existir Portugal. Quer dizer, quando Afonso Henriques empreende a sua guerra de independência do Reino da Galiza que dará na formação do Reino português independente, em que língua ele fala? Qual a língua que aprendeu da sua mãe? A língua portuguesa não começa em 1143 porque já existe previamente. Por isso não parece apropriado lhe chamar de portuguesa e sim pelo nome da administração vigorante na época, que era o Reino da Galiza. Portanto, o português é galego.


Por outro lado, sei que antes afirmei o Galego ser uma variante da língua portuguesa. Essa explicação é um argumento teórico para entendermos a situação sem provocar curto-circuitos mentais desde a primeira frase. Na realidade, a língua portuguesa é o Galego de Portugal nacionalizado e modernizado como afirmou o nosso Vilar Ponte. Do ponto de vista das elites, quando uma língua perde o poder político, perde também a sua condição de língua erudita. Isso aconteceu com a língua na Galiza. Portugal, como reino independente, foi o revezamento desse poder galego que deu à luz as primeiras gramáticas e romances, e desenvolveu a linguagem administrativa e política. A língua na Galiza dos últimos cinco séculos apenas teve desenvolvimento escrito e sobreviveu na oralidade do povo que nada mandava nas questões das elites, como é o costume. Quando no s. XIX começa a recuperação da escrita, a situação é tão precária que os próprios notáveis galegos desconhecem qual seja a gramática e ortografia a empregar e tampouco procuram luz nos escasos, mas existentes, conselhos deixados em séculos anteriores. Exemplo disto é a impagável sinceridade da grande Rosália de Castro no prólogo da sua obra, Cantares Galegos (1863) onde literalmente a autora pede desculpa por desconhecer as normas da escrita da língua. Ela e resto de intelectuais galeguistas improvisaram ortografia, sintaxe e gramática, empresa ciclópica que, como é compreensível, não conseguiram realizar de maneira sistemática nem ordenada. Finalmente surgiram as vozes que lembravam olhar para a língua em Portugal, na procura do modelo de língua mais adequado às falas galegas. Estamos já no século XX.


GCS.: Vi, em minhas pesquisas, que em seu país têm feito passeatas públicas para defender o idioma galego. A impressão que dá é que parte de sua gente e você sofrem muito preconceito linguístico. Há outras questões envolvidas nesta luta?


Isabel:
A perda do poder político na Galiza acontece como consequência, primeiro, da independência de Portugal e, segundo, da dominação de Castela. A ambição imperialista castelhana leva a organizar autênticos pogroms contra as elites e gentes galegas. O resultado foi nefasto para a nossa sobrevivência como povo. Esta situação manteve-se por vários séculos e não melhorou com a mudança de regime político e económico no século XIX. A chegada do Capitalismo na sua vertente mais moderna, com as suas crises cíclicas que afetaram em especial às culturas agrárias como a galega, conseguiu reduzir ao mínimo a nossa dignidade como coletivo. O resultado é que temos assumido a emigração como uma via natural de sobrevivência, a falta de soberania como um mal endémico, e a pobreza como uma doença crónica num país rico e vital como o nosso, o qual dá tudo num grande absurdo.


O governo galego atual tem favorecido as políticas centralistas, tanto económicas quanto culturais e educativas. Impõe um modelo de língua pouco adequado, de âmbito regional, que lança uma imagem do galego como dialeto instável, a sofrer absurdas mudanças a cada década, e que nega aos galegos a condição de falantes de uma língua internacional e oficial em sete países do mundo.


É por isso que há manifestações, protestos, atividades alternativas. O governo não ajuda à consolidação da Galiza como um país autónomo e começa por dinamitar a língua, além de fazer o mesmo com o tecido económico, empresarial e cultural. Desde o governo atual na Espanha tampouco há vontade política de favorecer o desenvolvimento da Galiza, longe disso o seu maior logro tem sido a instalação do caos organizativo a impedir qualquer desenvolvimento social justo e democrático.


GCS.: Em um vídeo que não consegui reencontrar, vi um cartaz com a seguinte afirmação: “Quanto mais o galego é galego, mais português ele é.” Peço-lhe que corrija a frase, caso necessário, pois cito-a de memória. Este pensamento pareceu-me bastante curioso, principalmente naquele contexto. Por favor, discorra sobre ele.


Isabel:
Acho ser paráfrase da citação do nosso escritor da vila de Rianjo, Rafael Dieste, quem em 1926, diz:


Existe entre o galego e mais o português tão estreita afinidade que quanto mais português é o português e mais galego é o galego, mais vêm a se assemelharem.


Vem a dizer que se libertarmos a língua dos galegos da contaminação de castelhanismos e se pegarmos na língua mais genuína dos portugueses, que não é aquela fashion de Lisboa, ambos falares vêm a se assemelharem como duas gotas de água. O qual indica a perceção que tinha o autor das diferenças a um lado e outro da fronteira entre Galiza e Portugal. O reconhecimento da unidade da língua é um ato de responsabilidade social e política que, precisamente por essa responsabilidade, reconhece das diferenças. Elas estão aí, nós não falamos como os portugueses, mas essas diferenças não devem ser hiper-destacadas até ao ponto de sugerir a ideia de serem duas línguas diferentes, porque nem do lado português podem permitir-se perder o território de origem da língua, nem do lado galego podemos sobreviver sem o conhecimento da língua atual, tal como é hoje no mundo. A inflação linguística a que somos submetidos os cidadãos galegos pelas autoridades do governo regional está a provocar no nosso sistema uma crise sem precedentes.


GCS.: Ouvindo nativos da Galícia, percebe-se uma enorme semelhança com o português. Destaque as aproximações e distanciamentos que você considera mais interessantes. Gostaria que discorresse sobre o uso do “x” no lugar do “j”.

Isabel:
Há várias pronúncias galegas, até nisso está atomizado o português na Galiza. Certo é que costumamos palatalizar e nos últimos quarenta anos temos perdido a diferença entre a pronúncia de "j"/"g" e "x", mas não saberia dizer quanto desses traços, que hoje se podem identificar como galegos, são produto do ensino deficiente da língua. Perdemos essas distinções e também estamos a perder a abertura das vogais, traço indiscutivelmente galego que, além do mais, nos aproxima à oralidade brasileira. Esta última perda é ocasionada pela preeminência do ensino da oralidade em castelhano e a deficiência do ensino da oralidade em galego. Esta diferença entre as duas línguas oficiais da Galiza explica-se juridicamente pelo seu status diferente e assimétrico. Ambas as línguas são oficiais, mas juridicamente só o castelhano é de obrigado conhecimento. Segundo as leis espanholas, o galego não é uma língua de conhecimento obrigado para os galegos. Isso significa que a legislação do Reino da Espanha dá maior importância à aprendizagem de castelhano que à aprendizagem da nossa língua própria. Antes dizíamos que o governo espanhol não ajudava ao nosso desenvolvimento. Eis uma boa amostra.




GCS.: Alguns linguistas brasileiros julgam que o português aqui falado distancia-se tanto do português lusitano que deveria ser chamado língua brasileira. Que pensa a respeito disso? Consegue perceber muitas ou poucas diferenças? Qual português se aproxima mais do galego: o lusitano ou o brasileiro?


Isabel:
A nossa oralidade aproxima-se mais da oralidade brasileira. Um falante galego de cultura média entende melhor as pessoas do Brasil que a TV de Lisboa. Mas também isso é devido à falta de educação sistemática em língua portuguesa. Por acaso não é mais um paradoxo que, falando a mesma língua, não consigamos entender o padrão oral do país vizinho, país que consideramos extensão da Galiza? Para mim acho muito evidentes as diferenças de sotaque e de pronúncia entre os diversos países lusófonos. Mesmo acho diferenças entre brasileiros dos diferentes Estados do Brasil. É o normal nas línguas com muitos falantes cujo uso se estende ao longo do mundo, por isso a unificação da escrita é tão necessária. É necessária para servir como identificação de algo que é maior do que um país ou do que nós mesmos, algo que é ao mesmo tempo pessoal e social, algo que nos conforma, mas que não morre connosco, que nos sobrevive. A língua, a nossa bandeira internacional.


 GCS.: Em que comunidades de fala portuguesa já esteve? Destaque pontos de divergência. Há algum outro local fora da Galícia onde se fala o galego?


Isabel: Costumo viajar a Portugal e tenho estado no Brasil. Em Lisboa tenho conhecido pessoas de quase todos os países onde a língua portuguesa é oficial. Em 2014 gravei um disco na Ilha da Madeira com música para viola madeirense. Tenho amigos portugueses e brasileiros, mas também angolanos, cabo-verdianos, moçambicanos, são-tomenses, mantenho conversas com timorenses, com pessoas da ilha do Príncipe e com pessoas de diversos Estados do Brasil. Adoro a mistura de sotaques, acho que só dentro desse mundo tão diverso faz sentido dizer que galego não é português. Porque a comprovação da deliciosa variedade oral da língua portuguesa revela de modo absolutamente definitivo que na Galiza falamos um português, o nosso peculiar português. Ou, se quisermos pôr em destaque a origem da língua, falamos o nosso internacional galego. Fora da Galiza, o nosso peculiar português, ou o nosso internacional galego, com maior ou menor grau de conhecimento fala-se em todas as comunidades galegas ao longo do mundo. Aqui dizemos que há galegos até na Lua. Devem ser poucos os países que não têm um Centro Galego nalguma das suas cidades. Aí no Brasil têm uns quantos, por vezes disfarçados de centros espanhóis, o qual não deve interferir na certeza desses centros estarem conformados, em muitas ocasiões, por maioria de pessoas da Galiza.


 GCS.: Imagino que, assim como ocorre comigo em relação ao vosso idioma, os defensores do idioma galego sintam-se atraídos pelo português e vejam com bons olhos o fato deste contar com tão grande número de falantes. Aliás, penso que vocês, devido a discriminação, tenham um interesse superior. Qual o nível de presença e de influência da literatura e da programação televisiva luso-brasileira na Galícia?


Isabel: Certamente, o número de falantes de língua portuguesa, este sim conhecido, é um argumento poderoso para quem procura a continuidade do uso da língua na Galiza. Além do galego ser a nossa língua própria e isso ser em si um valor absoluto que não precisa de outros valores, é evidente que na sociedade galega atual produz-se uma luta entre uma língua internacional como é o castelhano que avança com toda a sua presença mediática, e a fala dos galegos tratada pelo governo regional como um idioma pitoresco e contestada por parte da população civil que, organizada no movimento reintegracionista, procura quebrar essa visão isolacionista da língua para podermos estabelecer uma igualdade com o castelhano. Para uma luta eficaz contra a imposição do castelhano, o português é um aliado indispensável. Atualmente a presença da língua nativa nos meios de comunicação galegos é mínima em comparação com a presença da língua do Reino. E a presença dos meios de comunicação portugueses e brasileiros na Galiza é inexistente. De novo, o governo regional incumpre as suas próprias leis, que desde 2014 mandam promover a língua portuguesa. Quase nada foi feito nessa direção. O nosso governo nos envergonha e nos mata como sociedade.


 GCS.: Foi feito um acordo ortográfico assinado pelos países de Língua Portuguesa. Que sabe e pensa a respeito disso?


Isabel:
O Acordo Ortográfico é uma necessidade de primeira magnitude para todos os países e regiões onde a língua portuguesa tem raízes. A unificação ortográfica permite construir na escrita uma bandeira internacional que nos identifica na nossa diversidade. A oralidade nunca deveria ser fundamento das mudanças ortográficas. A ortografia pertence ao mundo da escrita, que é um mundo diferente ao das pronúncias e os sotaques. Na escrita as regras vêm dadas pela tradição escrita, a história das palavras, a etimologia. Até a paleografia tem mais a ver com o Acordo Ortográfico do que o sotaque de qualquer cidade brasileira ou portuguesa. A oralidade é outro mundo fascinante, revelador, mas não tem a ver com o ato da escrita. Falar não é escrever, dizia o ferrolano R. Carvalho Calero, professor na Universidade de Santiago de Compostela, poeta, gramático e romancista. Portanto, escrever não é falar, não tem de haver univocidade absoluta entre as letras e os sons que pronunciamos. Dentro de umas margens, pode haver alguma falta de correlação. Podemos escrever "uma" e pronunciar "um-ha", como fazemos na Galiza. Podemos escrever "facto" e pronunciar "fato". Podemos escrever "mas" e pronunciar "mais", escrever "sub" e pronunciar "subi", escrever "cantar" e pronunciar "cantare", escrever "flauta" e pronunciar "frauta". Ninguém deveria fazer um drama com isso. Nem tampouco ao invês. Se houver vontade de manter diferenças nalgumas palavras, podem manter-se sem problema, incluem-se no texto do Acordo e aplicam-se. As diferenças são mínimas, mas tenho a sensação de elas estarem a ser exageradas pelos detratores que parecem mais procurar a falência da iniciativa do que fornecer ajuda para a melhorar. Na minha humilde opinião, as divergências na interpretação do que é e para que serve a ortografia refletem uma deficiência na formação linguística dentro dos próprios países de língua portuguesa, que concede um excesso de importância ao costume e demonstra falta de generosidade pelo bem comum. Os galegos que, ensinados a escrever Xeografía estamos dispostos a dá-lo tudo por aprendermos a escrever Geografia, vemos com certo assombro as guerras que se produzem pela queda de um c etimológico ou pelo uso do hífen. Guerras que às vezes acham mais clara explicação em lutas partidistas do que em questões filológicas e que mantêm o processo estancado sem hipótese de avanço.


Duas delegações de intelectuais e professores galegos trabalharam nas reuniões do AO de 86 e de 90. É importante lembrar que mesmo Galiza não sendo um país independente, foi convidada a fazer parte daquelas reuniões técnicas em que foram admitidas duas palavras típicas galegas (brêtema, névoa, e lôstrego, relâmpago). Depois, já em 2015, a Academia Galega da Língua Portuguesa contribuiria com o Vocabulário Ortográfico da Galiza para integrar o projeto, ainda inacabado, do Vocabulário Ortográfico Comum, com mais de cento e cinquenta mil palavras, que está a ser preparado pelo Instituto Internacional da Língua Portuguesa, IILP. Atualmente, a Lei Paz-Andrade, aprovada em 2014, que estabelece o ensino de língua portuguesa na Galiza, foi produto da movimentação social que reuniu os apoios necessários para a apresentação de uma Iniciativa Legislativa Popular que, finalmente, foi bem sucedida ainda que, como disse antes, carece de impulso orçamentário.


GCS.: Isabel, no Brasil temos lutas um pouquinho parecidas com a do povo da Galiza para manter vivas as vertentes regionalistas de nosso idioma; em minha dissertação de mestrado defendi a inclusão de escritos representativos dos diversos falares da linguagem regional nos conteúdos escolares das respectivas regiões em que vivem os educandos. A ideia é não sucumbir às imposições da norma culta nem às influências estrangeiras, mas manter a unidade na diversidade. Citei a frase de Ariano Suassuna, saudoso defensor do regionalismo nordestino, que disse: “Eu não troco meu “oxente” pelo ok de seu ninguém”. Gostaria que tecesse considerações a esse respeito.


Isabel:
Acho maravilhosa a ideia de aprendermos as expressões próprias da nossa região. É uma riqueza que torna a língua ainda mais poderosa ao ser alimentada em toda a sua diversidade. As pessoas ficam mais integradas no seu contexto e ao mesmo tempo aprendem as diferenças com o padrão comum. Manter a unidade na diversidade é, sem dúvida, o grande objetivo da língua portuguesa para o século XXI. Só acrescentar que era bom não termos de aguardar ao final do século para atingirmos alguns alvos nesse sentido. Na Galiza temos demasiado do próprio e uma falta imensa do comum. Na hora da integração galega na Comunidade de Países de Língua Portuguesa teremos de saber temperar bem aquilo que queremos manter da nossa especificidade com os traços comuns que devemos assumir como próprios em bem de tod@s.


GCS.: Li bons textos produzidos por escritores galegos e ouvi músicas do cancioneiro folclórico, da época do trovadorismo. Ouvi UN CANTO A GALICIA JULIO IGLESIAS e Graças a você, conheci  a excelente cantora Helena de Alfonso, que brilha em língua galega. Fale-nos dela e de outros artistas, compositores e escritores fiéis às raízes.


Isabel:
Na Galiza atualmente temos duas grandes orquestras clássicas e mais duas de câmara, há nove conservatórios oficiais com mais de 5000 alun@s, escolas e academias privadas de todos os estilos musicais, e um grande número de valores da nossa música que destacam em diferentes âmbitos como a composição, a interpretação, a investigação e a edição musical. Uxía Senlle e Ugia Pedreira, duas cantoras excepcionais; Abe Rábade e José Nine, mestres do jazz e a fusão; Iria Cuevas, Alejo Amoedo, Samuel Diz e Sergio Franqueira na música clássica galega; a Central Folque, na pesquisa sobre música popular; Resonet, Martim Codax, Capela Compostelana, na música medieval; e músic@s doutros países que vieram cá contribuir para o desenvolvimento da música galega, como a excelente cantora polaca de música medieval, Paulina Ceremuzynska, ou o irmão brasilego (sic) pois já é meio brasileiro, meio galego, Sérgio Tannus, e também o Fred Martins, entre tantas outras personalidades musicais que amam Galiza e fizeram sua a nossa música. Uma última lembrança para um galego internacional que nos deixou há pouco, guitarrista como poucos e imenso na sua vitalidade, o grande Narf (Fran).


Helena de Alfonso é uma cantora extraordinária de todos os pontos de vista. Ela e o seu companheiro, José Lara Gruñeiro, ambos os dous de Madrid, vieram morar à Galiza há uns anos. Assentaram em Rianjo, uma vila costeira das Rias Baixas, berço natal de uma boa parte da melhor intelectualidade galega, e rapidamente se integraram na vida social, na música e na língua. Junto com José Luís do Pico, intérprete e pesquisador excepcional, integram o grupo Barahúnda que interpreta desde cantigas medievais galegas até cantos saarauís, desde música sefardi até García Lorca.


No âmbito da literatura, para conhecer o que se faz em português galego é preciso não perder os livros da Através Editora, que na atualidade é a única editora a promover maciçamente a língua portuguesa na Galiza.


GCS.: Fale-nos das variações dentro do próprio idioma, de como encara a presença de estrangeirismos. No vídeo Comedia - Diferenzas/Diferenças entre o galego e o portugués/português brasileiro aprendi que para alguns galegos “gato” grafa-se como “ghato” e corresponde à pronúncia “rato”.  Neste vídeo, que você bem conhece, são estabelecidas diferenças que nos parecem curiosas. Por favor, fale um pouco a respeito dele.


Isabel:
Esse vídeo aborda o problema do desconhecimento da diversidade língua entre os utentes de diferentes países. A palavra galega para o felino mencionado é "gato", igual que no Brasil. Mas nalgumas zonas da Galiza existe uma pronúncia que verifica o som do "g" como "gh" e dá "ghato", o que, como você diz, soa igual que a palavra "rato" pronunciada por uma pessoa do Brasil. Se soubermos isto, a situação colocada nesse vídeo desaparece imediatamente. Ao sermos cientes das variantes, a confusão que pode dar-se não chega nunca ao extremo, pois sabemos que estamos a falar com uma pessoa galega, ou portuguesa, ou brasileira e conhecemos as suas especificidades. Um menino galego que aprende na escola que o seu jantar é o almoço da menina brasileira nunca chegará fora de hora a um convite. É uma questão de conhecimento mútuo, de educação na língua comum e na diversidade sociocultural dessa língua. Acontece o mesmo aos ingleses que vão para a Austrália ou para os Estados Unidos. E o mundo ainda não caiu por causa disso...



GCS.: Que obras literárias e escritores de fala portuguesa lhe parecem dignos de leitura? Quais deles mais a influenciaram?


Isabel: Para uma galega que tem de aprender a forma internacional da sua língua de maneira autodidata a experiência de começar a ler em português é um acontecimento revelador. As pessoas devoram os livros. Depois de mergulhar na literatura portuguesa e brasileira que podemos conseguir fazemos as nossas escolhas. Eu fico com os Pessoas, as Clarices, os Guimarães Rosa, mas também os Camões e as Rosálias, os Meendinhos e as Maria Balteiras. Prefiro sempre aquela literatura que, a um tempo, é diferente e me reconhece na língua. A fascinação é a literatura brasileira que, redigida tão longe, consegue traçar o elo da união com o nosso mundo cá, como quando Guimarães Rosa põe os bois a falar no seu Sagarana, ou escachamos a rir com o Macunaíma do Mário de Andrade, que por ter ele tem até o apelido galego.


GCS.: Achei curioso o emprego que faz do @ em seus escritos. A causa feminista também está no centro de seus interesses. Qual a situação da mulher dentro de sua cultura? Há algum dispositivo legal parecido com a nossa Lei Maria da Penha?


Isabel:
Os movimentos à procura de igualdade e liberdade de género têm experimentado o uso de diferentes signos linguísticos para suprimir, no possível, a dualidade terrível (o/a) que construiu a nossa língua. Em português não temos artigo neutro como sim têm o inglês e o alemão, e isso é um problema grave na hora de abordar a linguagem inclusiva. O arroba -@- é, dos elementos disponíveis (x, a/o, e), um dos que mais gosto, por representar os dous géneros num signo unitário e por essa difusão maravilhosa que tem experimentado graças à Internet. Mas também gosto desse -e, que por não significar nenhum género concita todos os géneros possíveis e a curiosidade de todes.


A situação da mulher na cultura galega é, para mim, a da vivência de um patriarcado brutal misturada com a reminiscência de um passado longínquo onde a mulher era a fonte de poder. O crescimento urbano e a sua estranha relação com o mundo rural, os mundos do mar e do campo, a cultura tradicional afastada por uma modernidade incompleta e preconceituosa, os meios de comunicação imediatos e a sua situação quase colonial, o alheamento em geral das pessoas galegas do seu senso comum e próprio, o machismo assassino, fazem com que as mulheres atravessem situações dramáticas. Em 2016 registaram-se na Galiza mais de 5.600 denúncias por violência machista. Desde 2004 no Reino da Espanha há uma lei contra a violência chamada "de género", mas nem o governo espanhol nem o galego colocam os meios nem dão a atenção necessária para abordar o problema. A revisão e melhora da lei, dados mais transparentes e maior informação sobre o estado da situação são reclamações constantes do movimento feminista.


GCS: Com base na situação política da Galiza, comente o pensamento de Max Weinreich: “Uma língua é um dialeto com exército e marinha."


Isabel:
O poder político faz uso das línguas para incutir nas populações o seu discurso. Na península ibérica historicamente o poder político dividiu-se em dous polos que foram representados pela língua castelhana e a língua portuguesa. Nos territórios abrangidos pelo poder que tomou o castelhano como língua veicular encontravam-se outras nações com língua própria, como catalães e bascos, que carecendo de exército e marinha, viram dramaticamente reprimida a sua evolução moderna. Além destes, os galegos, de língua portuguesa, ficamos da parte de fora do poder político que tomou o português como língua veicular e, como catalães e bascos, também sofremos o abafamento da parte espanhola. O processo de assimilação do português da Galiza ao castelhano está em andamento. O reintegracionismo é a única oposição a este processo político-linguístico que procura a dissolução ou desaparição das outras línguas nativas do território do Reino da Espanha. Na península somente Portugal, hoje república independente, a pequena Andorra e o anglófono Gibraltar, do Reino Unido, mantêm a soberania suficiente para não ver em perigo a sua integridade linguística.


 GCS. Você também é exímia em outro tipo de linguagem, a musical. Fale-nos deste dom extraordinário e de como o tem utilizado para difundir a cultura galega.






Isabel:
A música pode ser um dom, mas há que o ganhar a pulso. De regra, só uma percentagem muito pequena é de talento entanto que a maior parte é de trabalho. Eu aprendi a ler e tocar guitarra (violão) com o meu pai, que era acordeonista e aprendeu música no Brasil, e meu irmão mais velho, guitarrista amador e cantor. Depois disso segui a carreira no conservatório e, após tocar durante muitos anos o reportório canônico agora dedico-me a interpretar a música galega para guitarra que fui descobrindo nas minhas pesquisas. Também preparo uma tese de doutoramento sobre a guitarra na Galiza, que me está a proporcionar as chaves para compreender o que aconteceu com a música galega ao longo da nossa história.


GCS.: Diga-nos, em generosas palavras finais, os grandes sonhos que tem para sua gente e para o idioma galego; dê-nos dicas de filmes; exponha algum pensamento marcante e deixe-nos links para suas produções pessoais e sites que julga interessantes.


Isabel: O sonho que tenho para a minha terra é o mesmo que tenho para o resto do mundo: sermos capazes de construir vida digna de ser vivida. Vida liberta de poderes opressivos. Vida humana e humanizadora. Na Galiza isso passa, entre outras muitas cousas, por levar a nossa língua, o português galego, ao mais alto nível de desenvolvimento. A língua somos nós, cuidemo-nos.

Um filme: Fronteiras, de Rubén Pardiñas (2007).
Um pensamento marcante: A verdade é sempre revolucionária (Gramsci).
Um disco (o meu): A viola no século XIX: Música de salão na Madeira.

Sites interessantes:
Cantigas Medievais Galego-Portuguesas: http://cantigas.fcsh.unl.pt/
Portal Galego da Língua: http://pgl.gal/
Academia Galega da Língua Portuguesa: https://www.academiagalega.org/
Diário Liberdade: https://gz.diarioliberdade.org/
Novas da Galiza: http://www.novas.gal/hemeroteca.htm
O Dicionário Estraviz, dicionário feito pelo lexicógrafo galego Isaac Alonso Estraviz, é um dos mais completos em língua portuguesa disponível gratuitamente na rede:
http://www.estraviz.org/