APOESC (Associação de Poetas Escritores Simpatizantes e Colaboradores)

A APOESC (Associação de Poetas Escritores Simpatizantes e Colaboradores), criada em 03.2010 em Santa Cruz -RN, existe para congregar amantes da cultura, apologistas e produtores da arte da palavra.


segunda-feira, 16 de setembro de 2019

PELOS CAMINHOS PRAZEROSOS DA LEITURA: TESSITURAS - Francisca Joseni dos Santos



PELOS CAMINHOS PRAZEROSOS DA LEITURA: TESSITURAS

Francisca Joseni dos Santos
Pedagoga e Psicopedagoga


Eis que fui instigada pelo amigo poeta Gilberto Cardoso para escrever sobre minhas memórias literárias. Relutei. Depois fiquei pensando sobre as diversas formas de escrevê-las. Confesso que comecei escrevendo uma onde elencava a minha trajetória pessoal e profissional interligada às leituras que permearam minha vida, no entanto, achei um texto chato e enfadonho.

Pensei em fazer um texto técnico, desisti também, optei então pelo texto livre das amarras impostas pelo cunho acadêmico e que segue os ditames da famosa e temerária ABNT – Associação Brasileira das Normas Técnicas. Feito esta escolha, optei também em ressaltar as minhas leituras para puro deleite.

Fiz muitas leituras técnicas ao longo da minha vida acadêmica e profissional. Fiz o curso de Pedagogia (graduação) e pós-graduação em Psicopedagogia e em Gestão Escolar, trabalhei 32 anos em escola, tempos alternados entre sala de aula, coordenação pedagógica e gestão, então há de convir que o contexto de leituras técnica é muito amplo, vasto e serviram de alicerce e de arcabouço para que eu faça a minha leitura de mundo mesmo considerando que “a leitura do mundo precede a leitura da palavra” como afirmou Paulo Freire em A Importância do Ato de Ler(1988).

Fui alfabetizada aos 4 anos de idade, pois tive o privilégio de ter na minha casa uma Escola Isolada (Sítio Ipueira – São Bento do Trairi – RN). Eu era o desassossego da turma, não deixava a professora e os alunos quietos, subia na mesa, pegava os lápis e demais apetrechos dos alunos e atrapalhava bastante o desenvolvimento das aulas. Meu pai vendo tal situação achou por bem comprar material escolar pra mim e de posse deste rico material a paz reinou no local, fiquei quietinha e logo fui alfabetizada.

Como nasci em 1965 as lembranças de tempos difíceis de seca e de dificuldades para viver no meio rural são bastante fortes dentro de mim, no entanto, tenho lembranças memoráveis sobre a vivência com os meus tios, primos e com os meus avós, em especial, a minha avó paterna (Vó Maria Vital) que me inseriu no contexto maravilhoso de contação de histórias.

Era comum Vó Maria reunir os netos ao seu redor para à boquinha da noite, sentada no chão com seu cachimbo de fumo debulhar suas maravilhosas histórias de trancoso, assombração, de princesa e príncipes, e de “Camonge”.

Tive o privilégio de conviver com uma contadora de histórias nata na minha infância e em parte da minha adolescência, adorava estes momentos apesar de muitas das vezes ficar com medo de dormir com as histórias de assombrações que ela tão sabiamente nos contava. Estes momentos fazem parte do arquivo especial das minhas memórias.

Então a leitura e o universo mágico de contação de histórias se fez presente na minha vida muito cedo, embora tivesse dificuldades em ter acesso aos diversos portadores de textos, e estas dificuldades estivessem ligadas as questões financeiras, a disponibilidade de material à venda; pouca variedade, entre outros.

Sem ser saudosista ouso dizer que tempos atrás não tínhamos as facilidades que temos hoje para ter acesso à leitura. Os tempos são outros (graças a Deus!). De acordo com as condições financeiras pessoais podemos adquirir revistas, livros físicos, livros digitais, e também podemos ler nos tablets e smartphone de forma grátis além de adquirir livros e revistas em sebos por um preço bem mais barato.

Na minha infância e adolescência não tínhamos estas facilidades e nem tampouco condições financeiras para adquirir portadores textuais. Mas isto não foi impedimento para que eu cultivasse o hábito pela leitura.

Lia livros emprestados de amigas que tinham poder aquisitivo para comprá-los, frequentava as bibliotecas públicas existentes em Santa Cruz. Li praticamente toda a literatura clássica brasileira tomando livros emprestados na Biblioteca Municipal, bem como li muitos livros da Biblioteca Monsenhor Emerson Negreiros da E. Estadual Prof. Ribeiro. Além dos empréstimos de livros para leitura de deleite e era nestas bibliotecas que eu realizava, quando necessário se fazia, as pesquisas na famosa Enciclopédia Barsa, o equivalente ao google de hoje, e em outros livros e enciclopédias.

Faço parte da turma que para ingressar na 5ª série ginasial precisava prestar o Exame de Admissão, embora que depois de fazê-lo e ser aprovada, saiu uma determinação para que todos fossem matriculados independentemente do resultado alcançado.

Para fazermos este exame precisávamos estudar num livro grosso de capa verde e que continha umas quatro disciplinas chamado “Preparatório”, pois bem minha mãe que era costureira colocava-me na frente dela numa cadeira de balanço para estudar neste bendito livro. Olha o que eu fazia, na época existia uma revista chamada “Love Story” que tratava de assuntos voltados para adolescentes e dentro dela vinham 5 contos. O formato dela correspondia ao formato do já citado livro.

Eu me sentava seríssima diante da minha mãe colocava a revista dentro do livro e ia ler estes contos. No dia do concurso me deu uma crise de consciência tão grande que você nem imagina, mas consegui passar em 4º lugar.

Trabalhei uns 5 anos no comércio local e o dono do estabelecimento comprava revistas usadas para embalar as barras de sabão, eu separava os exemplares para ler, tomava emprestado estas revistas, sem contar que chateava as pessoas que tinham condições de comprar revistas pedindo-as emprestadas.

Talvez por gostar tanto de ler e de ter tido dificuldades para ler no período da minha infância e da adolescência e parte da vida adulta hoje eu compro muitos livros e não faço questão de emprestá-los.
Sempre tenho livros que não consegui ler, ainda. E, sempre tenho livros espalhados pelo “mei do mundo”. Sem medo de ser feliz.

Faço questão de ressaltar que os meus pais sempre se esforçaram para comprar os livros didáticos para mim e minhas irmãs, nunca mediram esforços. Nunca tivemos dificuldades neste sentido. Eles sempre valorizaram a educação. Viam através do acesso a educação nossa melhoria de vida.
Li muito. De Cassandra Rios a Jorge Amado. De Zélia Gattai a Antonio Callado. De Gabriel Garcia Marques a Jojo Moyes. De George Martim a Monteiro Lobato. De Antoine de Saint Exupéry a Padre Fábio de Melo. De Patativa do Assaré a Hugo Tavares Dutra. Li diversos gêneros textuais. Como era difícil a aquisição de livros e revistas, eu lia o que aparecia. Sem preconceito. Uns eu escondia para que a minha mãe não visse.

Li os clássicos da literatura infanto-juvenil mundial. Li-os por puro deleite e também por dever profissional. Li muitos autores regionais, Câmara Cascudo, Marcos Cavalcanti, Gilberto Cardoso, Rosemilton Silva, Adélia Costa, Jeanne Araújo, Nailson Costa, Salizete Freire Soares, Jair Eloi de Souza, Hermano Amorim, Chagas Lourenço, Alessandro Nóbrega, entre outros escritores do RN.

Não sei baseado em que teoria era comum no meu entorno acreditar-se de que as pessoas que estudavam muito e liam muito poderiam perder o juízo, tal mito era ilustrado com diversos exemplos de pessoas que tinham ficado “loucas” por estudarem ou lerem demais. E este mito fazia com que a minha mãe desligasse as luzes de casa e me proibisse de ler até altas horas. Como a casa na qual morávamos era enorme eu pegava uma vela ia para a cozinha e ficava lendo a luz de velas. Fiz muito isto. Não enlouqueci.

Lembro-me das revistas de fotonovelas em preto e branco, semelhantes aos gibis, o mesmo formato editorial. Depois veio as fotonovelas coloridas, uma verdadeira revolução, um deleite para os olhos. Lia os livros de Barbara Cartland publicados pelas Edições de ouro em formato de livro de bolso, depois as edições da Harlequim (Sabrina, Julia, Bianca). Revistas Tex. Sim, li muitas revistas TEx. Li também uns livros de faroeste que vinham em formato pocket. Eram leituras maravilhosas, eu fazia viagens estupendas pelo mundo do Texas. Como diria a contemporânea cantora de funk era “tiro, porrada e bomba”.

Também li muitos cordéis. Por dominar a leitura era costume ler cordéis para as pessoas da família quando nos reuníamos. Adentrávamos nas sagas nordestinas  e no mundo romanesco presente nos escritos dos expoentes desta literatura.

A leitura me proporcionou e me possibilita viagens incríveis.

Ainda hoje continuo diversificando a minha leitura. Leio jornais, revistas, encartes, bulas, textos na internet, aliás, tudo o que publico na página do meu facebook, eu leio.

No momento estou com diversos títulos de autores contemporâneos para ler, estou de licença prêmio do meu trabalho, portanto, com tempo livre para me dedicar a leitura e, elegi como prioridade, leituras de romances leves da editora Harlequim. Sempre estou visitando os sebos aqui em Natal e adquirindo novos exemplares.

Meu sonho de consumo é fazer uma releitura dos clássicos da literatura brasileira. Um dia eu farei. Terei um novo olhar sobre estes grandes escritos do acervo bibliográfico brasileiro.
Considero ler uma das coisas mais gostosas da vida.

Inclusive defendo que a leitura deve ser incentivada e não obrigatória; tenho um filho de 12 anos que adora ler gibis, mangás, literatura de ficção científica e Júlio Verne, Harry Porter, entre outros. Nunca o obriguei a ler um livro. O processo pelo gosto de ler foi natural, possivelmente me viu como exemplo e está incentivando o pai a ler.

Leiam. Leiam sempre. Leiam por prazer. Leiam por necessidade. Leiam romance, poesia, cordéis, revistas, artigos científicos, ficção, novelas, artigos informativos, textos de autoajuda, autores contemporâneos, autores clássicos, leiam. Leiam o que lhes convier. Afinal, a leitura nos proporciona viagens inimagináveis.





Natal(RN), 15 de setembro de 2019

AS TORMENTAS DO SENHOR CAPITÃO


AS TORMENTAS DO SENHOR CAPITÃO

No exato momento em que ele transpôs a rampa do palácio de vidro para brindar um copo de café com a turba alvoroçada no primeiro boteco da esquina, souberam que o povo estava no poder, não por quaisquer adivinhações cósmicas e conspirações das américas, mas pela faixa verde-amarela que ele exibia tal qual uma rainha de baile.
E foi assim, com sua duvidosa majestade metida numa camiseta surrada e num chinelão de dedo, que arrancou aplausos de todas as gentes, continências de todos os generais, reverências dos presidentes de todos os países reais ou imaginários e benzeduras dos papas de todas as religiões da terra e do céu.
Prometeu ali que, sob o risco da sua caneta, redesenharia fronteiras, provocaria a abjuração dos sábios e doutores de todas as ciências, alteraria os alfarrábios das leis irrevogáveis, desnudaria os juristas mais togados e mandaria à puta que os pariu os que se interpusessem ao risco providencial da sua trajetória.
E foi assim que, na sua odisseia delirante, ordenou que fuzilassem os comunistas, incréus de deus; que queimassem os índios cujo deus é outro; e estraçalhassem os bandidos, viados e drogados, sobre os quais o deus verdadeiro não confere importância.
E quando, na escuridão da noite no centro do mundo, ouvirem da suíte presidencial os gritos delirantes, deixem logo a postos a Guarda Nacional, acordem o ministro da justiça e despertem os Dragões da Independência, pois que os comunistas lhe puseram uma lingerie vermelha no lugar da faixa da pátria e trocaram-lhe as armas de grosso calibre por batons e beijos carmins. E cuidem!! Que no estrangeiro esses inimigos da ordem já destruíram muitas pátrias, famílias e propriedades e agora querem destroçar a paz presidencial.
Logo eu, que fui o escolhido para seguir os passos do outro messias, como ele também tive o meu ventre perfurado por aquele Longinus insano e providencial, como ele segui a mesma sina de andarilho por essa terra em que judas perdeu as botas. E agora não me venham desenterrar esses fantasmas que afoguei com a minha dor, nem venham corromper a força, o tamanho e a potencia da minha caneta crepuscular.
E se a merda dos números da inflação teimarem em subir, o poder da minha pena há de devolvê-los a sua insignificância; e se preciso for substituam o substituto do substituto até que as estatísticas oficiais sejam apenas aquelas que invento. Pois a minha missão é criar um país sem pobre, nem que para isso seja necessário mata-los de raiva, de fome e de susto de bala; que o meu desígnio é a destonar a corrupção, nem que precise furar os olhos da lei, porque eu não tenho vocação para banana, nem fui eleito para ser a rainha da Inglaterra.
E, quando for propício, desviem os terremotos, tsunamis e cometas e os redirecionem para as terras e os céus de Cuba e da Nicarágua, onde a única coisa que prospera é o ateísmo. Eles estão confabulados com os demônios, que não respeitam credenciais de autoridade constituída e invadem o mundo com seus pijamas vermelhos escatológicos, foices, martelos e outros instrumentos impróprios para assim profanarem os vasos sagrados com as promessas do paraíso.
E aprontem as fogueiras para o churrasco, e que a comida seja na largura da boca; mas aproveitem as chamas para queimarem os livros dos hereges desiludidos, os alfarrábios dos cientistas equivocados e os baralhos dos sábios erráticos, cujo evangelho está escrito na língua do passado. Só assim a terrível paz de deus será estabelecida.
Aproveita e queima também esses sorrisos insanos desse povo que finge que ama, que finge que rir e finge que goza, porque isso só pode ser coisa do demo, de drogado, de puta e vagabundo.
E, enfim, quando chegar a era das incertezas com as suas ruidosas multidões, eu estarei vigilante, com meu fuzil de mira automática, protegendo os lares dos homens de bem, estarei nos outdoors promocionais, estarei marchando com Jesus no seu exercito da vingança e da redenção.
E em todos os alto-falantes do país irão repetir que o Estado Sou Eu, e estarei onipresente em todas as vagas de estacionamento, nas matérias da escola, nos labirintos da cabeça e nos calabouços da alma. E de lá vou governar o mundo, estender as leis da pátria, endurecer a ordem e os costumes e regular os esfíncter para que o progresso campeie e os tempos não voltem jamais.
____________________
*Esse texto foi livremente inspirado no livro de Gabriel Garcia Marquez, publicado em 1975, ¨O Outono do Patriarca¨, na qual traça uma belíssima caricatura das ditaduras que á época prosperavam na América Latina. Essa foi a única inspiração.

domingo, 15 de setembro de 2019

MEUS LIVROS, MINHA VIDA - Nelson Almeida


Meus livros, minha vida

Meus pais nasceram na Paraíba, sendo minha mãe de Araruna e meu pai de Solânea. Eles migraram para o Rio Grande do Norte ainda muito jovens e cá vivem há mais de cinquenta anos. Eles já moravam na pequena e colhedora cidade Barcelona/RN quando, em 12 de abril de 1981, eu nasci no hospital da cidade São Paulo do Potengi.

Minha infância foi difícil qual infância de qualquer menino pobre. Mas meu pai sempre se orgulhou em dizer que seus filhos jamais passaram fome e que todos estudaram. A bem da verdade, meus pais são analfabetos, mas sempre nos incentivou estudar. Meus irmãos e eu frequentamos a escola e tivemos uma razoável educação formal.

Eu recebia em casa lições de Língua Portuguesa e Matemática. Estas ficavam sob a responsabilidade de minha irmã mais velha e meu irmão do meio, respectivamente. Apesar das dificuldades, e das agruras que a vida em si nos impõe a todos, eu tive uma infância feliz.

Amigos verdadeiros, banhos de rio, aventuras na mata que circundava minha casa; muito embora em minha imaginação eu estivesse desbravando o mundo. A pequena mata se transformava numa imensa e perigosa floresta. A floresta mais selvagem do mundo, pensava eu.

Cresci ouvindo literatura de cordel em minha casa. Tarefa atribuída, mais uma dentre tantas, à minha irmã mais velha. Papai criou uma regra muito interessante, todas as segundas-feiras à noite nos reuníamos após o jantar para assistirmos minha irmã ler e interpretar algum cordel. Ouvíamos os grandes cordelistas da Paraíba, tais como Apolônio Alves dos Santos e sua Maria cara de pau e o Príncipe Gregoriano; o grande Aderaldo Ferreira Araújo – vulgo Cego Aderaldo –, sendo cearense este autor. Havia também Chico Pedrosa, autor de O erro da vendedora, Meu sertão é assim, Filosofia de Cabôco... dentre tantos outros cordelistas geniais cujas obras são vastas e agora me custa recordá-las todas.

Aos dez anos de idade tive o meu primeiro contato com o famoso livro do poeta, também paraibano, Augusto dos Anjos. Este poeta publicou um único livro cuja primeira versão foi intitulada Eu. Em 1919 Órris Soares, amigo do profícuo  poeta, organizou e ajudou na publicação do livro Eu e outras poesias. Trata-se de uma reedição do primeiro e único livro de Augusto dos Anjos no qual foram acrescidos poemas inéditos.

Foi nesta reedição do livro de Augusto dos Anjos que me deleitei em suas lindas e cortantes palavras. Psicologia de um vencido foi o primeiro poema dele que li. Confesso não ter entendido quase nada. Mas os últimos versos desse poema produziram em mim um efeito incrível. Fiquei extasiado ao ler:

Já o verme – este operário das ruínas –
Que o sangue podre das carnificinas
Come, e à vida em geral declara guerra,

Anda a espreitar meus olhos para roê-los,
E há de deixar-me apenas os cabelos,
Na frialdade inorgânica da terra!

Senti meu corpo inteiro se arrepiar. Anos depois, já na fase adulta, eu compreenderia que, em linhas gerais, a arte não deve ser explicada. Bastando somente sentir a sua essência.

Eu senti tudo isso naquele dia de tarde ensolarada. Levei alguns anos para começar a compreender Augusto dos Anjos. Isso porque sua poesia nos remete a inúmeras outras leituras e pesquisas. Pesquisas filosóficas, literárias, científicas. É preciso viver além de uma vida para descortinar este autor em sua grandiosidade.

Aos dezesseis anos de idade tomei conhecimento das obras de Gregório de Matos. Seus poemas satíricos, sacros e até mesmo os seus poemas eróticos me deram uma versão mais madura dessa difícil fase hormonal chamada adolescência. Ainda no universo do barroco, li Padre Antônio Vieira.

Poucos anos depois Cruz e Sousa me ensinou que através da escrita é possível libertar-se de qualquer prisão. Já adulto e cursando Física, passei a compreender melhor outros autores clássicos já vistos durante o ensino médio. São eles Machado de Assis, Eça de Queiroz, Fernando Pessoa, Manuel Bandeira, Guimarães Rosa – que até hoje luto e tento compreendê-lo –, e tantos outros.

A literatura russa causa em mim grande fascínio. Fiódor Dostoiévski, Liev Tolstói, Nicolai Gogol, Alexandre Pushkin são geniais. Livros como Guerra e Paz, Humilhados e Ofendidos, Memórias da Casa dos Mortos, Crime e Castigo, A filha do Capitão, The Queen of Spades, The Tale of the Fisherman and the fish, me moldaram como leitor e espectador da vida.

Sou hoje em dia um apaixonado pela leitura. Não consigo ficar sem ler um único dia sequer. Tenho relido Humilhados e Ofendidos, uma obra magistral de Dostoiévski, e lido paralelamente The Institute, o mais recente livro de Stephen King.

Você pode até se perguntar como eu estou a fazer leituras paralelas e tão distintas uma da outra, ou como me dedico tanto à leitura uma vez que leciono física há mais de 16 anos.
Acreditem em mim quando vos digo que a resposta é bastante simples. Amo livros, adoro ler. Também digo que Física, Matemática, Química, bem como outras manifestações do conhecimento humano passam pelo mesmo filtro singular, a linguagem. É tudo linguagem, afinal.

Tenho navegado em outros mares. Fernando Sabino, José Saramago, João Ubaldo Ribeiro, Charles Baudelaire, Arthur Rimbaud. Também tenho lido bastante Stephen King, Edgar Allan Poe, Arthur Conan Doyle e Agatha Christie. Sempre me divido entre, no mínimo, dois autores, entre duas leituras.

Comecei a escrever há mais ou menos 6 anos e já publiquei dois livros. O primeiro é um livro de poemas intitulado Poucas Palavras, o segundo livro é destinado aos que se preparam para a Olimpíada Brasileira de Física das Escolas Públicas (OBFEP). Tenho outros quatros livros já escritos e ainda não publicados. Estou escrevendo outros dois livros de poemas, sendo um deles em Inglês.

Acredito que o gosto por escrever tenha sido consequência do amor que tenho pelos livros e pela leitura. Porém, a motivação para iniciar tal aventura se deveu a um momento muito difícil de minha vida. Quando nuvens negras e pesadas pairavam sobre mim, encontrei o livro Escrever Para não Enlouquecer do escritor Charles Bukowski. Nunca mais parei de escrever.

Não quero aqui, com estas singelas palavras, parecer um pedante. Tampouco dizer a todos que sou um ávido leitor. Não, claro que não! Quem pensa assim incorre em grande engano. Quero brevemente dizer-lhes que os livros transformaram a minha vida para melhor e com certeza farão o mesmo com a sua.



Natal, 15 de setembro de 2019.

segunda-feira, 9 de setembro de 2019

AS SEDUÇÕES DE RITINHA E A ASTÚCIA DO AVARENTO


AS SEDUÇÕES DE RITINHA
E A ASTÚCIA DO AVARENTO


Quando Ritinha voltou
À sua terra natal,
Depois de quase três anos
Morando na Capital,
Foi aquele rebuliço!
Pois ela tinha o feitiço
Da beleza original.
Bem feita, cintura fina,
Morena cor de canela,
Uma boca sedutora,
Que não tinha igual à dela,
As pernas bem torneadas,
As mãos bastante afiladas,
Só a tornavam mais bela.
Foi para a cidade grande,
Ainda com pouca idade,
Partiu em busca da sorte,
Dinheiro e felicidade.
Por ser muito preferida,
Resolveu ganhar a vida
Sem muita dificuldade.
Abraçou a profissão,
Neste mundo, mais antiga.
Porém, se cuidava muito,
Sem preguiça nem fadiga.
Era mesmo uma escultura,
Sem um grama de gordura
Em sua linda barriga.
Inteligente e esperta,
Evitava a malandragem.
A nobreza se encantava
Com a sua bela imagem,
De modo que em torno dela
Formou-se uma clientela
Da mais alta grã-finagem!
Mas, como a cidade grande
Está sempre em pé de guerra,
E quem é da roça nunca
Esquece seu pé de serra,
A Ritinha, certo dia,
Juntou sua economia
E voltou pra sua terra.
Lagoa Verde viveu
O seu maior alvoroço,
Quando Ritinha voltou,
Bonita igual um colosso,
Cheia de ostentação,
Mexendo com o coração,
Dos mais velhos ao mais moço!
Para a pequena cidade,
Pacata e provinciana
– Um recanto de beatas,
Cada qual mais puritana –,
Sem agito e sem embalo,
Foi mesmo um tremendo abalo
O retorno da mundana.
Indiferente às cantadas
Do rico e da populaça,
Com seu nariz empinado,
Ritinha era uma ameaça
Aos homens conceituados,
Que deixavam seus cuidados
Pra vê-la passar na praça.
Já recebera recados
Do prefeito e do juiz,
Com propostas tentadoras
De fazê-la mais feliz.
Recusou um coronel
Para se manter fiel
Ao empinado nariz!
E continuou assim.
Mas o tempo foi passando.
Ritinha então percebeu
Os seus recursos minguando.
Como a vida é um cassino,
Aos caprichos do destino,
Aos poucos foi se curvando.
Foi quando lhe apareceu
O Isaac Samuel,
Um agiota avarento,
Um mão-de-vaca cruel,
O qual não abria a mão,
Nem pra pedir a benção
À sua mamãe fiel.
Porém, quando viu Ritinha,
Não escondeu seu desejo.
Vencido pelo seu charme,
Aproveitou o ensejo,
E já na ponta dos pés,
Propôs um conto de réis,
Por uma sessão de beijo.
A proposta tentadora,
Ritinha então aceitou,
E um encontro, no escuro,
Com Isaac combinou.
No mesmo dia, à noitinha,
Lá na casa de Ritinha,
O homem logo chegou.
Foi beijando-a como um louco,
Sem limite de beijar.
Já sufocada, Ritinha,
Quase não pôde falar:
– Seu Isaac, por favor,
Quero dizer ao senhor
Que eu preciso respirar!
Na total escuridão,
O homem disse: – Qual nada!
Meu nome não é Isaac,
Eu sou Zé da Farinhada.
Fique sabendo a senhora,
Que o Isaac está lá fora,
No portão, cobrando entrada!
© 𝓟𝓮𝓭𝓻𝓸 𝓟𝓪𝓾𝓵𝓸 𝓟𝓪𝓾𝓵𝓲𝓷𝓸
09/09/19
*Adaptado do conto “Astúcia de judeu”,
de Humberto de Campos (1886–1934).

domingo, 8 de setembro de 2019

ALTOS E BAIXOS DO DESFILE CÍVICO DE 2019



ALTOS E BAIXOS DO DESFILE CÍVICO DE 2019

A cultura nordestina, potiguar e municipal esteve em alta nos desfiles de 07 de setembro de 2019. A representação foi bem ampla, como mostra o cronograma abaixo, referente à cidade Santa Cruz-RN:


Escolas públicas e particulares deram o melhor de si para fazer jus aos temas. Praticamente nada de nossas riquíssimas tradições ficou de fora!

A cultura local teve boa representatividade no desfile. O cordelista e cronista prof. João Maria de Medeiros foi escolhido pela assessoria do poder municipal para representar os seus pares ocupando  lugar de honra ao lado de outras autoridades durante todas as apresentações. Parabéns  pela escolha apropriada.

A Escola Estadual Rita Nelly Furtado desenvolveu o tema "Os poetas de nossa terra: Revisitando a poesia de Santa Cruz". Quinze nomes foram escolhidos (alguns in memorian) para representar o todo dos artistas santacruzenses. Alguns importantes nomes, infelizmente, ficaram de fora, mas isso seria inevitável, uma vez que não dava para colocar os nomes de todos os artistas no formato proposto.
Adriano Bezerra, Hélio Crisanto, Gilberto Cardoso, Edgar Santos e Débora Raquiel participaram do desfile. Outros convidados não puderam comparecer.

Agradecemos à instituição e ao poder municipal pela feliz escolha do tema geral para este ano.


"Não há dinheiro que pague esse reconhecimento. Fui um dos poetas homenageados pela escola Rita Nely Furtado no desfile cívico de Santa Cruz/RN. Minha eterna gratidão a todos os responsáveis."  - Adriano Bezerra


"Alguns poetas que receberam homenagens ontem, já estão com Deus, mas daqui a gente celebra em nome dos grandes vates do Trairi. A poesia vive em nós!
Nossa gratidão aos profissionais que projetaram com êxito o desfile cívico da escola- Rita Nely Furtado.
 - Débora Raquiel Lopes





Representação do imortal Patativa do Assaré declamando versos.


Críticas ao evento

O desfile a cada ano parece superar-se, mas, infelizmente, alto é o preço a se pagar. Nem falo de dinheiro, mas da dinâmica do evento, precedida por dias de ensaios exaustivos.
 Difícil encontrar alguém satisfeito. Não é fácil para quem assiste, muito menos para quem dele participa. Creio que até mesmo para o prefeito, a primeira dama e demais autoridades não seja fácil ficar das 3 da tarde às onze da noite o tempo inteiro praticamente em pé, prestigiando uma apresentação  após a outra, por mais belas que sejam. 

Muitos da plateia estão ali exclusivamente para dar assistência a algum familiar que desfila  e reclamam da demora. Outros apreciam o evento como um todo, mas o consideram fatigante. Nem se fala no sofrimento dos que tornam o desfile possível -  alunos, professores e demais funcionários de cada escola.

Imagino que seja  do interesse do poder local dar condições mais favoráveis à comemoração da data. Sugiro o seguinte:
O evento do próximo ano poderia ser segmentado em dois turnos: matutino e vespertino. Pela manhã, por exemplo, poderiam desfilar as escolas municipais, as da Zona Rural ou restringir-se às apresentações dos pequeninos. À tarde, os demais segmentos. Na hora mais quente, dava-se uma pausa para o almoço e às 3 h se retornaria para a conclusão. Decerto há seus inconvenientes nessa proposta, mas significaria um avanço. 

Finalizo, agradecendo ao CEDAP por incluir no  desfile um cordel de minha autoria sobre O Auto da Compadecida; ao Centro Municipal de Ensino Rural Tequinha Farias pelo honroso convite para representar Patativa do Assaré e à Escola Rita Nelly Furtado pela inclusão de meu nome no rol de artistas homenageados.

A APOESC agradece por tudo!

Gilberto Cardoso Dos Santos


quarta-feira, 4 de setembro de 2019

Memórias de um Leitor: Joel Cana Brava


Memórias de um Leitor: Joel Cana Brava

Tentando fazer uma viagem no tempo das lembranças, consigo encontrar-me no primeiro dia de aula chorando. Não queria ficar na sala de aula. Hoje se nomeia com nome bonito, Pré- I, Pré-II, Pré-III da Educação Infantil. Creche? Nunca ouvirmos falar. Nós aqui do Magu, região de um rio de mesmo nos longínquos distantes do Maranhão, chamávamos de Carta de ABC- fraca, forte e havia ainda a Cartilha que antecedia a 1ª série do fundamental. 

Na educação formal, tenho essas reminiscências- o que se aprendia? As vogais, as consoantes, o alfabeto completo e sua ordem, através de cópias e memorizações. Formar sílabas, palavras e os primeiros textos rudimentares. Tinha também a tabuada para os primeiros contatos com os números.Não tive tanto problema com a escola depois dos choros em consequência da primeira semana de aula.
Na verdade, meu contato com a leitura começa bem antes. Minha mãe era umas das professorinhas da escola na região- a única – só até a 4ª série. Então o contato era sempre com os livros, mas como disse dessa parte não tenho propriedade memorial para falar. Mas posso dizer que desde a  barriga da minha mãe já tive o contato com leitura. Ou quem sabe bagunçando, rasgando, molhando ou sujando com resto de comida os papéis dos alunos dela com os quais eu dividia o espaço da mesa.
Vejo-me também neste instante na casa da minha avó, revirando as caixas e caixotes com livros de quando minha mãe estudava o normal superior- peguei todos os livros para mim, uns até hoje guardados. Gostava de mexer nos livros católicos da minha avó que ficam no oratório dela: Bíblia de bolso e o catecismo com todas as principais histórias da Bíblia e da Igreja. Ainda hoje a Bíblia e a história das religiões me encantam.
Professora Silé (Salete, na verdade) e Francidenes na Carta de ABC e Cartilha. Elza, Jesus, Célia e Tia Socorro no fundamental. Lembro-me com tanto carinho de todas e dos meus colegas de sala e situações significativas. Socorro, Paulinho, Elza, Chaguinha, Eurideia, Nonata, Marcio e outros no Ginásio- época fantástica, inesquecível de amigos e professores da 5ª a 8ª série. Dessa época, tenho mais lembranças de grandes leituras: os contos fantásticos, os poemas, parábulas – com inúmeras dramatizações que fazíamos, havia os musicais.
É dessa época meu primeiro livro –“Histórias colegiais”  - tenho até hoje- proposta da professora Socorro Rocha de Português. Ela escreveu quando devolveu o livreto que eu digitei na máquina de datilografia da escola onde minha mãe trabalhava: “Queridos alunos, a vida é feita de oportunidades. Oportunidades, grandes, pequenas, sagradas e triviais. Alegrias e felicidades rondam à nossa volta, a cada hora. É melancólico demais jogar fora tantas chances de ter e SER MAIS!”. Não joguei fora aquele comentário no final do livro e eis-me hoje. Um grande leitor e arranhando na poesia e prosa.
Depois mais maduro, fui fazer outras leituras agora na cidade grande- Parnaíba-PI, pois no meu povoado só tinha até 8º ano. No médio, já era um leitor bem mais maduro. Já lia de tudo e escrevia poema, prosa. Nessa época minha grande paixão era mitologia. Sou fascinado por essas narrativas. Ela tem muita criatividade.
Hoje sou amante da leitura de maneira geral. Gosto de ler e escrever sobre minha região. Mas confesso, que tenho me dedicado mais de ler e ouvir memórias. Mais maduro, tenho me dedicado a elas. São mais fáceis depois de um tempo. É só fechar os olhos e deixar a pena teclado correr....



domingo, 1 de setembro de 2019

EU VI A BESTA DO TEMPO...


COMO SUPERAR NA VIDA AS PERDAS E FRUSTRAÇÕES Marciano Medeiros


COMO SUPERAR NA VIDA
AS PERDAS E FRUSTRAÇÕES

Marciano Medeiros

Num mundo competitivo
Tem muita gente a sofrer,
Tropeçando nos conflitos
Num  marcante padecer,
Porque a nossa cultura
Não nos ensina a perder.

Vemos donos das verdades
Num desfile de ilusões,
Suas revoltas afogam
Os sonhos das multidões,
Que se debatem nadando
No mar das decepções.

Ter tristeza é um bom mergulho
Nas águas da consciência,
Entre as mais antigas sombras
Desvendamos com prudência:
Ser feliz o tempo todo
Não nos dava consistência.

Se tivermos prejuizos
Pensemos com realismo,
Tendo uma atitude nobre
Pra fugir do comodismo,
Conforme ensinou Epíteto
Um pensador do estoicismo.

Vamos supor que alguém quebre
Em casa acidentalmente,
Uma porcelana rara
Num corriqueiro incidente,
Aceitar logo o desastre
Será mais inteligente.

Só teremos dois caminhos
Nos dramas acontecidos,
Assimilar muito rápido
Os problemas ocorridos,
Ou vivermos muito tempo
Neuróticos e ressentidos.

Nas rejeições afetivas
Pensemos corretamente,
Não é nada pessoal
Ocorre diariamente,
Milhões de pessoas buscam
Um caminho diferente.

Quem for colocado a margem
Não pense futilidades,
Nossa vida é um livro denso
Repleto de novidades;
E não esqueça, colega:
Foque em suas qualidades.

Cultive paz e leveza
Elimine a dependência,
Afetiva das pessoas
Busque equilíbrio e decência,
Mas entenda que o egoismo
Também se chama carência.

Use a razão com vigor
Para manter o sossego,
Jogue a autopiedade
Pra fora e não peça arrego,
Medite que o sofrimento
É consequência do apego.

Maturidade é conquista
Dos desafios brutais,
É preciso ter cuidado
Com atitudes banais,
Pois somos analfabetos
Nas lutas emocionais.

Formule novos projetos
Dos erros guarde as lições,
Não mate a luz da esperança:
Mostre as novas gerações,
Como superar na vida
As perdas e frustrações.


quinta-feira, 29 de agosto de 2019

TROVAS ECOLÓGICAS DE CHICO GABRIEL




Francisco Gabriel Ribeiro está para a trova como Gabriel "o Pensador" está para o rap e Gabriel García Márquez está para a prosa. Não é por acaso que tem recebido diversos prêmios, nacionais e internacionais! -  Gilberto Cardoso Dos Santos



Uma gota de tristeza
brota da face da aurora
quando, em busca de riqueza,
o homem empobrece a flora.

Quando nos falta decoro,
e no chão fazemos furo,
estamos plantando choro
na colheita do futuro.

Cessa a escassez por inteiro,
antes do seu nascimento,
quando matarmos primeiro
pobreza de pensamento.

A fome, sem grandes obras,
não matará suas presas,
quando doarmos as sobras
do que sobra em nossas mesas.

Se pensarmos no futuro
e nas futuras plateias,
não plantaremos no escuro
as sementes das ideias.

A família educativa
vislumbra sempre a inclusão,
mantendo a esperança viva
na força da educação.

Grande conquista virá
quando unirmos desiguais,
pois o talento não está
nas aparências iguais.

Na gestão d’água convém
meditarmos, num segundo,
se estamos cuidando bem
do bem mais caro do mundo.

Será mais alto conceito,
se o progresso for fecundo,
e a todos der o direito
à energia do mundo.

Para um futuro feliz
plantemos no chão fecundo
trabalho... a grande raiz
que mata a fome do mundo.

Pensemos bem no futuro,
evitemos rumo triste…
Sem ter um pilar seguro,
a construção não resiste.

Quando nossas mãos se unirem
pensando em nossos irmãos,
não os veremos sucumbirem
pela carência de grãos. 

Merecem as nossas palmas
os que enxergam lugarejos
sendo redutos com almas,
e não quartos de despejos.

Um consumo consciente
não fere a aba da serra,
projeta o meio ambiente
para o futuro da Terra.

Nosso clima ressequido
merece reparo urgente,
acalentando o gemido
das dores que a Terra sente.

Se nós cuidamos dos mares
com afinco mais profundo,
fugiremos dos pesares
pela falência do mundo.

Matemos a motosserra, 
trilhemos no rumo certo,
para que o peito da Terra
não se transforme em deserto.

Matemos o ódio e a cobiça,
plantemos amor profundo,
pois, florescendo a justiça,
desabrocha a paz no mundo.

Criemos uma fortaleza
da força que a união faz,
globalizando a riqueza
pela construção da paz.

Francisco Gabriel Ribeiro (Chico Gabriel)

__________________________

Concurso principal nacional/internacional  - Tema:  Proteger, recuperar e promover o uso sustentável dos ecossistemas terrestres, gerir de forma sustentável as florestas, combater a desertificação, deter e reverter a degradação da terra e deter a perda de biodiversidade.


Trova 1 – Classificada em 3° lugar

Uma gota de tristeza
brota da face da aurora
quando, em busca de riqueza,
o homem empobrece a flora.

Trova 2 – Não foi classificada

Quando nos falta decoro,
e no chão fazemos furo,
estamos plantando choro
na colheita do futuro.

Concurso paralelo: Conjunto com os 17 objetivos. 

Objetivo 1 – Acabar com a pobreza em todas as suas formas, em todos os lugares;

Cessa a escassez por inteiro,
antes do seu nascimento,
quando matarmos primeiro
pobreza de pensamento.

Objetivo 2 – Acabar com a fome, alcançar a segurança alimentar e melhoria da nutrição e promover a agricultura sustentável;

A fome, sem grandes obras,
não matará suas presas,
quando doarmos as sobras
do que sobra em nossas mesas.

Objetivo 3 - Assegurar uma vida saudável e promover o bem-estar para todos, em todas as idades; 

Se pensarmos no futuro
e nas futuras plateias,
não plantaremos no escuro
as sementes das ideias.

Objetivo 4 - Assegurar a educação inclusiva e equitativa de qualidade, e promover oportunidades de aprendizagem ao longo da vida para todos;

A família educativa
vislumbra sempre a inclusão,
mantendo a esperança viva
na força da educação.

Objetivo 5 - Alcançar a igualdade de gênero e empoderar todas as mulheres e meninas;

Grande conquista virá
quando unirmos desiguais,
pois o talento não está
nas aparências iguais.

Objetivo 6 - Assegurar a disponibilidade e gestão sustentável da água e o saneamento para todos;

Na gestão d’água convém
meditarmos, num segundo,
se estamos cuidando bem
do bem mais caro do mundo.

Objetivo 7 - Assegurar a todos o acesso confiável, sustentável, moderno e a preço acessível à energia;

Será mais alto conceito,
se o progresso for fecundo,
e a todos der o direito
à energia do mundo.

Objetivo 8 - Promover o crescimento econômico sustentado, inclusivo e sustentável, emprego pleno e produtivo e trabalho decente para todos;

Para um futuro feliz
plantemos no chão fecundo
trabalho... a grande raiz
que mata a fome do mundo.

Objetivo 9 - Construir infraestruturas resilientes, promover a industrialização inclusiva e sustentável e fomentar a inovação;

Pensemos bem no futuro,
evitemos rumo triste…
Sem ter um pilar seguro,
a construção não resiste.

Objetivo 10 - Reduzir a desigualdade dentro dos países e entre eles;

Quando nossas mãos se unirem
pensando em nossos irmãos,
não os veremos sucumbirem
pela carência de grãos. 

Objetivo 11 - Tornar as cidades e os assentamentos humanos inclusivos, seguros, resilientes e sustentáveis;

Merecem as nossas palmas
os que enxergam lugarejos
sendo redutos com almas,
e não quartos de despejos.

Objetivo 12 - Assegurar padrões de produção e de consumo sustentáveis;

Um consumo consciente
não fere a aba da serra,
projeta o meio ambiente
para o futuro da Terra.

Objetivo 13 - Tomar medidas urgentes para combater a mudança do clima e os seus impactos;

Nosso clima ressequido
merece reparo urgente,
acalentando o gemido
das dores que a Terra sente.

Objetivo 14 - Conservar e usar sustentavelmente os oceanos, os mares e os recursos marinhos para o desenvolvimento sustentável;

Se nós cuidamos dos mares
com afinco mais profundo,
fugiremos dos pesares
pela falência do mundo.

Objetivo 15 - Proteger, recuperar e promover o uso sustentável dos ecossistemas terrestres, gerir de forma sustentável as florestas, combater a desertificação, deter e reverter a degradação da terra e deter a perda de biodiversidade;

Matemos a motosserra, 
trilhemos no rumo certo,
para que o peito da Terra
não se transforme em deserto.

Objetivo 16 - Promover sociedades pacíficas e inclusivas para o desenvolvimento sustentável, proporcionar o acesso à justiça para todos e construir instituições eficazes, responsáveis e inclusivas em todos os níveis;

Matemos o ódio e a cobiça,
plantemos amor profundo,
pois, florescendo a justiça,
desabrocha a paz no mundo.

Objetivo 17 - Fortalecer os meios de implementação e revitalizar a parceria global para o desenvolvimento sustentável.

Criemos uma fortaleza
da força que a união faz,
globalizando a riqueza
pela construção da paz.
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Obs. Trova de n° 11 foi classificada em 2°, entre as trovas isoladas. O meu conjunto de trovas não ficou entre os três vencedores.