APOESC (Associação de Poetas Escritores Simpatizantes e Colaboradores)

A APOESC (Associação de Poetas Escritores Simpatizantes e Colaboradores), criada em 03.2010 em Santa Cruz -RN, existe para congregar amantes da cultura, apologistas e produtores da arte da palavra.


terça-feira, 18 de junho de 2019

GALOPE À BEIRA-MAR (José Alves Sobrinho)

Você se deliciará  com um dos mais extraordinários poemas de José Alves Sobrinho; Ao lê-lo, entenderá  melhor a razão de meu amor por este livro, o Sabedoria de "caboco". Trata-se de um galope por excelência que nos dá um claro vislumbre da genialidade do autor. Não poderia deixá-lo de fora nesta busca por resgatar o que Zé Alves Sobrinho nos deixou de melhor.   Gilberto Cardoso Dos Santos



GALOPE À BEIRA-MAR (José Alves Sobrinho)

O mar é um príncipe muito bem trajado
Que vem galopando em busca da praia,
As ondas são finos coxins de cambraia
Que ornam o corcel do príncipe sagrado,
A praia é uma virgem de olhar levantado
Esperando o noivo que tem de chegar,
O vento é um pajem que vem avisar
A noiva do mar que está esperando
O príncipe marinho que já vem chegando
Pra casar com ela na beira do mar.

O mar é famoso, bonito e elegante,
Afoga em seu bojo o rosto da Lua,
No verde das águas o vento flutua
Balançando o corpo do grande gigante
Que se movimenta num embalo constante
Subindo e descendo, sem nunca parar,
A praia o espera no mesmo lugar,
Sem temer a fúria do monstro orgulhoso
Que vem resmungando, ciumento e queixoso
Dar-lhe umas palmadas na beira do mar.

É belo escutar-se da onda o barulho
Em seu movimento sacudindo as brumas,
E o mar estremece jogando as espumas
Recua e avança com força e orgulho,
Levando arrecifes, tangendo vasculho,
Limpando o caminho de Deus viajar,
Se a Lua estiver no espaço a  brilhar
Parece uma virgem de “cabelo louro”
Ou então uma bola maciça de ouro
Saindo de dentro das águas do mar.

A onda é bonita naquele vaivém,
Tem onda pequena, tem onda que cresce,
Tem onda que sobre, tem onda que desce,
Tem onda que vai, tem onda que vem,
Tem onda cansada porque não mais tem
Talento na água pra areia alcançar
Mas sente outra onda por trás a empurrar
E ela se ergue depois de empurrada
Aquela que empurra cai também cansada
E as duas se acabam na beira do mar.

As ondas são finos lençóis de cambraia
Bordados de rendas, de franjas e bicos,
Bem feitos, bem alvos, bem limpos e ricos
Que os ventos marinhos estendem na praia,
Aquilo é bonito que a vista desmaia,
E o homem contente fica a contemplar
A onda investir e depois recuar
Jogando pra fora ostras e mariscos,
Pequenas pedrinhas, retraços e ciscos
Que as vagas arrancam de dentro do mar.

É belo da praia avistar-se um navio
Travessando a costa na sua carreira,
Parece um gigante de ferro e madeira
Enfrentando o mar no seu desafio,
No verão, no inverno, no outono, no estio
Flutuando na água sem nunca afundar,
De popa, de proa, de velas no ar,
Soltando canudos de fumo azulados,
Seus mastros parecem braços levantados
Saudando a quem fica na beira do mar.

Na beira do mar vemos coisa boa
E melhor se torna no tempo do estio,
Barcaça, canoa, paquete, navio,
Paquete, navio, barcaça, canoa,
Ali também vemos mais de uma pessoa
Andando no cais querendo embarcar,
E o grande navio a se balançar,
Saudoso apitando desliza nas águas
Deixando saudades, tristezas e mágoas
Naqueles que ficam na beira do mar.

A terra é esposa, o mar é marido,
A terra trabalha, o mar é guerreiro,
A terra produz, previne o celeiro,
Esperando a volta do esposo querido,
E quando ele vem do desconhecido
Ela vai à praia para o esperar,
Quando ele a avista levanta o olhar,
E logo se olham, sorrindo e se enlaçam
Se atraem, se querem, se amam e se abraçam
Num beijo de espuma na beira do mar.

Extraído de

 

sábado, 15 de junho de 2019

"Devolva meu São João" - Mariana Teles



Não é contra o sertanejo,
Maiara nem Maraísa
Mas no São João precisa
Tocar "lembrança de um beijo",
É contra a máfia que eu vejo
Ganhando licitação,
Usurpando a tradição,
Vendendo a identidade
Pelo forró de verdade,
"Devolva meu São João"

Imaginem Salvador
Pátria do axé brasileiro,
Colocando um violeiro
Num trio do parador,
Leo Santana e um cantador
Dividindo a percussão
Vila Nova num cordão,
Sem tocar mais Preta Gil
Pelos ritmos do Brasil,
"Devolva meu São João"

Cultura é identidade!
É patrimônio de um povo,
E nenhum sucesso novo
Compra originalidade.
Não discuto a qualidade
Mas discuto a tradição,
Quem quiser ouvir modão,
Ou a Festa da Patroa,
Vá pra terra da garoa.
"Devolva meu São João"

Se quiser ouvir Marília
No mesmo tom da sofrência,
É comprar com antecedência
Villa Mix de Brasília...
Mas no São João tem família,
Que não desce até o chão
Vai pra ouvir Assisão,
Forró sem som de "breguismo"
Não dê lucro pra o modismo.
"Devolva meu São João"

Pela pátria nordestina!
Pelas nossas tradições!
Vamos romper os cordões
De camarote em Campina,
São João é na concertina,
Não se divide em cordão
Para quê segregação
Numa festa popular?
Ninguém pode separar!
"Devolva meu São João"

E as próximas gerações,
O que irão conhecer?
Irão "curtir e beber"
Como ensina esses modões?
Que será das tradições,
Com o som de apelação?!
De Wesley Safadão
Que o forró não promove
É brega noventa e nove...
Só um por cento é São João

Mariana Teles

Mariana Teles

sexta-feira, 14 de junho de 2019

VIDA DE “CABOCO” (José Alves Sobrinho)



VIDA DE “CABOCO” (José Alves Sobrinho)

I
Eu também fui cantador
Repentista e violeiro.
Todo norte brasileiro
Inda lembra, sim senhor,
O meu nome, o meu valor,
A minha voz estridente.
Porém, repentinamente
A mão do destino atroz
Arrebatou minha voz,
Deixei de cantar repente.

II
Fui pelos fãs desprezado
Depois que a voz ficou feia
Mas a opinião alheia
Não me fez complexado.
Embora um pouco afastado
Da viola e do improviso,
Ainda sinto no juízo
O talento da palavra
Se tenho verso de lavra
Do que é alheio não preciso.

III
Deixei de ser violeiro
Porque cantar não podia
Mas não deixei a poesia
Da qual também sou herdeiro,
Fui trabalhar de carreiro,
Amansar bois, ter trabalho,,
Ferrar e botar chocalho.
As mãos que tanto tocavam
Agora se habilitavam
Ao peso do cabeçalho.

IV
Aprendi todo trabalho
Da profissão de carreiro:
Encangar, fazer tanoeiro,
Relho, ferrão, cabeçalho,
Chave, cabresto, chocalho,
Mesa, travessão, rodeira,
Eixo, cunha, cantadeira,
Brabo, fueiro, cocão,
Corda-de-laçar, cambão,
Chifre-de-olho e esteira.

V
Meu carro era bem zelado,
Bem feito de craibeira,
O eixo era de aroeira
Pra cantar do meu agrado
Do mesmo jeito era o gado:
Quatro juntas de boi mansos
Ordeiras nos meus avanços
Obedientes ao grito:
Mimoso, Castanho, Bonito
Era a voz para os descansos.

VI
Cansado de ser carreiro
A convite de meus manos
Eu fui trabalhar uns anos
Na profissão de vaqueiro.
Era esperto, era ligeiro
Tinha boa montaria
Montava no que queria
Sabia andar encourado
E no serviço de gado
Qualquer trabalho eu fazia.

VII
Eu era esperto de fato,
Sabia bem aboiar
Pegava em qualquer lugar,
No limpo e dentro do mato,
Tratava de carrapato,
Adivinhava umbigueira,
Extraía varejeira
De bezerro e de garrote,
Amansava novilhote,
Sabia curar bicheira.

VIII
Do meu patrão fazendeiro
Tive os primeiros auxílios
Recebi os utensílios
Para poder ser vaqueiro,
Cavalo bom e ligeiro,
Estimado na fazenda,
Bonito como uma prenda
E gordo como eu nem sei,
De todos quantos montei
Foi mesmo o bom de encomenda.

IX
Loro, estribo, cilha e sela,
Rédeas, bride, cabeção,
Borraina, guardaba, arção,
Passador, furo, fivela,
Argola transa barbela,
Suador, couro e bruaca,
Uma pequena bisaca
De conduz\ir a mistura:
Carne assada e rapadura
Queijo de leite de vaca.

X
Aprendi tratar de gado,
Assinar, ferrar, castrar,
Tirar couros, espichar,
Traquejar touro raçado.
Zelar com todo cuidado
Os animais do patrão
E conforme a ocasião
Se me fosse necessário
Era até veterinário
Quando havia precisão.

XI
Um dia tive vontade
De abandonar o sertão,
Entreguei tudo ao patrão
O gado, a propriedade.
E retornei à cidade
Pra ver se ainda podia
Recobrar a alegria
De doze anos atrás
Foi tarde, não pude mais
Fazer o que pretendia.

XII
Ao ver-me sem condição
De cantar para viver
Procurei por um dever
Buscar outra profissão.
E a única solução
Era pegar no pesado,
Com a esposa do meu lado
E quatro filhos pequenos
Sem recursos, mais ou menos,
Eu estava desmantelado.

XIII
O meu serviço primeiro
Foi batedor de tijolo
Depois vendedor de bolo
Ajudante de padeiro,
Lambaio de padaria
Limpador de estrebaria
Tangerino de boiada
Fabricante de cocada,
Guarda noturno e vigia.

XIV
Depois disso fui leiteiro,
E vendedor de carvão,
Apanhador de algodão,
Lenhador e cambiteiro,
Fui batedor de pandeiro,
Tocador de concertina
Fui limpador de sentina,
Reformador de chapéu,
Espoleta xeleléu
De posto de gasolina.

XV
Fui mestre de batucada
Almocreve, galinheiro,
Carregador, balaieiro,
E tirador de empreitada
Fui chefe de farinhada
Empregado de cozinha,
Fabricante de bainha,
Fui vendedor de pipoca,
Moedor de mandioca,
E torrador de farinha.

XVI
Fui arrancador de dente,
Charlatão e meizinheiro,
Curador e garrafeiro,
Fui vendedor de aguardente,
Fui criador, fui servente,
Mestre de fazer sabão,
Calunga-de-caminhão,
Amansador de cavalo,
Juiz de briga de galo
Inspetor de quarteirão.

XVII
Fui banqueiro de bozó,
Fui mestre de candomblé,
Porteiro de cabaré,
Mestre-sala de forró,
Fui caçador, fui coró,
Mesmo sem poder dar grito,
Fabricante de palito,
Mas nada valeu a pena,
Fui tirador de novena
E cantador de bendito.


Digitado do livro


INCLASSIFICÁVEIS - Isabel Rei Samartim


INCLASSIFICÁVEIS

Que português, que galego, o que? Que lindos os sotaques, que riqueza a da nossa língua pelo mundo


O galego não é português. Isso constatamos Concha Rousia e mais eu quando ao chegarmos a Brasília para participar na Conferência Internacional sobre o Futuro da Língua Portuguesa no Sistema Mundial, organizada o passado mês de abril pela Comunidade de Países de Língua Portuguesa, vimos que teríamos de nos comunicar com pessoas de quatro continentes. E também foi assim no Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo, e depois na Academia Brasileira de Letras do Rio de Janeiro, e finalmente em Santa Catarina, estado do sul do Brasil onde passamos vários dias participando nos Colóquios da Lusofonia e na apresentação do Instituto Cultural Brasil-Galiza junto do académico Joám Evans Pim. Como Alice no buraco do coelho, as duas enfiamos por aquele universo multicultural onde a toda hora a mesma palavra era pronunciada de muitas maneiras. De repente e sem ajuda de nenhum decreto trilinguista estávamos participando em conversas com mais de oito línguas diferentes tais como o angolano, o timorense, o moçambicano, o riojaneirense, o paulistano, o catarinense, o português, mas sobretudo o galego, a nossa língua de sempre. A cousa semelhava um enorme Babel, ainda que bastante imperfeito porque a intercompreensão era ótima. E não somente isso, senão que o galego, essa «língua-de-seu-diferente-do-português», soava alto e claro nos salões do palácio Itamaraty, no auditório da sede da Academia Brasileira, no Teatro Pedro Ivo de Florianópolis ou na sala de entrada do Instituto Federal de Santa Catarina. E era mais forte a nossa voz quanto mais ouvida era, e virava mais galega quanto mais compreendida por pessoas não galegas. Sermos entendidas na comunicação oral foi uma satisfação imensa. Também o foi comprovar que os assuntos da Galiza são de interesse no Brasil. Donde é que nós vínhamos? A nossa língua portuguesa era bem curiosa, comentavam. Parecia-lhes um português inclassificável, que não pertencia a nenhum dos países lusófonos conhecidos. Acho que foi uma grande surpresa para os africanos. Eles, para além de manterem as suas línguas africanas, adotaram a portuguesa como língua franca dentro dos seus países e para as necessárias relações internacionais. Muitos por primeira vez ouviam e entendiam àquelas mulheres vindas de não se sabe que parte da Europa, mas não de Portugal, a defender com aquele sotaque a língua da sua terra que elas chamavam indiferentemente de galego ou língua portuguesa. Porém para os brasileiros era uma rotina. Reconhecer a sua língua sob a maquiagem dos diferentes sotaques é costume nacional, entra dentro das suas tradições, sejam os falantes da Galiza ou da China. Num país que é quase meio continente, onde moram mais libaneses que no Líbano, a comunicação com índios, mestiços, mulatos, cafuzos, italogermanos, pardos, tapuias, tupinamboclos, americataís, portugalegos e yorubárbaros está na ementa diária e todos conseguem entender-se em língua portuguesa. Conhecendo o Brasil fica muito pobre o mito de uma língua, um país. Agora sabemos que galegos e guaranis, índios da Europa e da América, podemos comunicar-nos em língua portuguesa. Aqueles que ainda não aprenderam têm só de apressar um pouco o passo, que o mundo lá fora aguarda ver-nos chegar alegres e lançais, gaiteiros e violonistas, confiantes e certos, na frente uma estrela e no bico um cantar. Somos o que somos, diz Arnaldo Antunes: inclassificáveis. Que brasileiro, que português, que galego, o que? Que lindos os sotaques, que riqueza exuberante a da nossa língua pelo mundo adiante em bocas de todas as cores e tamanhos. Que traço de união fascinante entre culturas diversas espalhadas por meio planeta. A independência, a maior liberdade, a consciência de não haver barreiras, está dentro de nós. Somos nós a crescer quando nos misturamos com quem a nossa voz entende. E nesse conhecimento e reconhecimento mútuo medramos, como Alice, sem deixar de ser os de sempre, as de sempre. 

Às moças e moços do Félix Muriel de Rianjo.



Isabel Rei é integrante da Academia Galega da Língua Portuguesa 
Mulher, música guitarrista, galega, escritora. Pensa que a amizade é uma das cousas mais importantes da vida. Aprendeu a sobreviver sem o imprescindível.






Intervenção de Concha Rousia, sala San Tiago Dantas



quinta-feira, 13 de junho de 2019

ESTE BRASIL DE CABOCO DE MÃE PRETA E PAI JOÃO



Este Brasil de "Caboco", de Mãe Preta e Pai João" (José Alves Sobrinho)

I
Brasil de agreste, caatinga,
Do cachimbo, e do pitó,
Do chamego, do coió,
Angu, mingau e mandinga
Cachaça, missanga, binga,
Farofa, xerém, pirão.
Leite, queijo, requeijão,
Cuscuz e água de coco
Este é Brasil de "Caboco"
De Mãe Preta e Pai João".

II
Brasil do caracaxá,
Do quengo, do cacareco,
Do fole, do reco-reco,
Do pandeiro, do ganzá,
Do taró, do maracá,
Novena e renovação,
Da fogueira, de baião
Zabumba, batuque, coco,
Este é Brasil de "Caboco"
De Mãe Preta e Pai João".

III
Brasil que faz a fogueira
Ao Senhor São João Batista
Soltando fogos de vista
E balões a noite inteira,
Enquanto amoça solteira
Faz uma adivinhação:
Água num p´rato e carvão
Pra ver se agarra o Tinoco
Este é Brasil de "Caboco"
De Mãe Preta e Pai João".

IV
Brasil da faca-quicé,
Do facão rabo-de-galo,
Peneira, urupema, ralo,
Fojo, quixó e mondé,
Landuá e jereré,
Tarrafa, anzol e arpão
Linha, caniço, cordão,
Inhaca e arroto-choco
Este é Brasil de "Caboco"
De Mãe Preta e Pai João".

V
Brasil do sapo-foi-foi,
Do cururu cardereiro,
Da "orquestra do barreiro"
Do "vem cá, fulano", "oi",
Brasil do carro de boi,
Relho e vara de ferrão,
Canzil, fueiro, cocão
Que canta e não fica rouco
Este é Brasil de "Caboco"
De Mãe Preta e Pai João".

VI
Brasil do mel de uruçu,
Da tubiba, da cupira,
Da rajada, jandaíra,
Enxuí e capuxu,
Onde canta o sanhaçu,
O ruxinó, o carão,
Na mata grita o cancão,
O pio do caboré no oco
Este é Brasil de "Caboco"
De Mãe Preta e Pai João".

VII
Brasil de Antônio Silvino
Que a fama jamais se acaba,
Cirino, João Guabiraba,
E o brilhante Jesuíno,
É o Brasil de Virgolino
Ferreira que é Lampião,
Brasil que dança baião
Numa sala de reboco
Este é Brasil de "Caboco"
De Mãe Preta e Pai João".

VIII
Brasil da mulher rendeira,
Brasil do cipó-bengala,
Brasil dos baús na sala,
Do tear, da tecedeira,
Cama de couro e esteira,
Cabeçote, camisão,
E o cachorro-tubarão
Mijando em cima do toco
Este é Brasil de "Caboco"
De Mãe Preta e Pai João".

IX
O Brasil do mamulengo,
Colher-de-pau e gamela,
Quengo-de-coco, tijela,
Panela, cuité e quengo,
Brasil do choro e do dengo,
Caritó e barricão,
Brasil que passa carão
Num menino dorminhoco,
Este é Brasil de "Caboco"
De Mãe Preta e Pai João".

X
O Brasil da cirandinha,
Coco-de-roda e pagode
Brasil que barba de bode
Serve também de meizinha,
Brasil que se faz farinha
De mandioca na mão
E bota no caldeirão
Peixe com leite-de-coco
Este é Brasil de "Caboco"
De Mãe Preta e Pai João".

XI
O Brasil do aluá,
Do chibé, do tipiti,
Do vinho, do açaí,
Tucupi e tacacá,
Acarajé, abará
Bolo feito de feijão
Pisado a mão-de-pilão
Frito com pimenta e coco
Este é Brasil de "Caboco"
De Mãe Preta e Pai João".

XII
O Brasil da mesa rica,
Do beiju, da tapioca,
Da moqueca, da paçoca,
Da pamonha, da canjica,
Da semente de oiticica,
Do caroço de pinhão
Curando constipação
Dando ouça a quem está mouco
Este é Brasil de "Caboco"

De Mãe Preta e Pai João".


POEMA EXTRAÍDO DO LIVRO


segunda-feira, 10 de junho de 2019

DOENÇAS DE “CABOCO” (José Alves Sobrinho)



Ilustração digitalizada do livro SABEDORIA DE CABOCO

DOENÇAS DE “CABOCO” (José Alves Sobrinho)


I
Caboco trabalhador
Não paga I.N.P.S.
Por isso quando adoece
Não vai atrás de doutor,
Vai atrás de rezador
Que reze o mal que ele sente
Isto vem de antigamente
De muitos anos atrás:
Do tempo de Pai Tomaz,
Preto Velho e Pai Vicente.

II
Curavam ventre caído
E nervo desconjuntado,
Enxaqueca, mal de olhado,
Azia, pé desmentido,
Constipação, dor de ouvido,
Queimadeira, corpo quente,
Mal de monte, dor de dente,
Cobreiro, coceira, antraz,
Levavam pra Pai Tomaz,
Preto Velho e Pai Vicente.

III
Equizema, erisipela,
Empingem, sarna, puxado,
Indigestão, bucho inchado,,
Dor de veado, espiela,
Queimor, ou fogo-de-goela,
Dormência, mal-de-demente,
Coisa botada na gente,
Por arte de Satanás,
Levaram pra Pai Tomaz,
Preto Velho e Pai Vicente.

IV
Cabeça mouca, zonzeira,
Tribuzana, trevalia,
Asma, malina, agonia       ,
Suor frio e tremedeira,
Vermelhão, bouba, frieira,
Gôgo, febre intermitente,
Mordedura de serpente
Papeira e fogo voraz,
No tempo de Pai Tomaz,
Preto Velho e Pai Vicente.

V
Sete-couros, panarício,
Unheiro, cravo, canseira,
Reumatismo, batedeira,,
Catimbó ou malefício,
Extravagância, estropício,
Chega-e-vira, renitente,
Calor de fígado doente,
Ramo e outras coisas mais,
No tempo de Pai Tomaz,
Preto Velho e Pai Vicente.

VI
Leseira e inflamação,
Prisão de ventre, gastura,
Banzo, caxumba, secura,
Dor de cabeça, inchação,
Sapiranga, amarelão,
Mal de cachorro doente,
Tosse braba impertinente,
Coisas subnaturais,
No tempo de Pai Tomaz,
Preto Velho e Pai Vicente.

VII
Tudo isso o rezador
Mais ou menos entendia,
E a reza dele servia
Havendo a fé, sim senhor.
Mas quando o seu portador
Tinha o pensamento mau
Ele passava um quinau
Adivinhando a descrença,
Então curava a doença
Com folha e raiz de pau.



Foto do autor extraída do exemplar desgastado


Poema extraído do livro