quinta-feira, 11 de agosto de 2022

ENCONTRO DAS ÁGUAS POPULACIONAIS - Heraldo Lins

 


ENCONTRO DAS ÁGUAS POPULACIONAIS


Posicionou-se por trás da jovem que estava na fila da farmácia e ficou a olhar para seus longos cabelos. Ela voltou-se e o encarou enquanto ele retirava a máscara, e, de supetão, beijou-lhe. Ela, por trás dos óculos grandes de lentes finas, ruborizou-se. Virou o rosto beijado e ficou a disfarçar o arrepio do coração acelerado. 

A moça do caixa observou a cena e ficou com água na boca, pois queria também um pouco daquele dengo. Desejava ardentemente que ele a assediasse, e, quando isso acontecesse, faria tudo para passar-lhe o contato.

Ele, com cara de casado, tornaria o encontro bem mais excitante, pensou ela olhando-o, disfarçadamente, de cima a baixo. O trabalho, longe de casa, a deixou com uma grande capacidade de poder escolher homem como num cardápio, e isso ela fazia muito bem, contudo, uma voz lhe dizia: não se meta nisso. Percebeu, enciumada, que os dois já entabulavam conversa. Nesse momento, sem saber porquê, lembrou-se de ter sonhado com a casca da morte. Nunca imaginou que a morte tivesse casca. O sonho se passou dentro d'água numa correnteza giratória onde o rio circulava entre paredões de pedras pretas cobertas por capins-brancos, todavia, ela se afogava, aos poucos, num outro distinto rio voador. Em ato contínuo, acordou lembrando-se da mãe que estava perdendo a memória. Que coisa estranha, disse para si. 

Uma senhora, no meio da fila, pensava nos netos. Estava a comprar antibiótico com a esperança que dali a pouco estaria em casa, porém, ansiava que o seu genro não aparecesse por lá. Não gostava dele, principalmente quando chegava com bafo de álcool, não raro de acontecer. 

De tanto ficar em pé, sua erisipela começava a coçar e ela não queria se baixar para fazer a vontade da carne. Apoiava-se na perna sadia e reclamava por que não havia mais de um caixa aberto. 

Sua vida era viver em filas, além das farmácias havia a dos supermercados, bancos, consultórios... para ela, o mundo se resumia em estar sempre atrás de aglomerados humanos, nada obstante, dava graças a Deus porque significava que ainda tinha um certo poder de compra. Pior era Silaraia, sua amiga de infância, que permanecia presa por tentar passar com pasta de cocaína no aeroporto. Aquela só vivia se vangloriando da vida boa de turista. Bem feito!, disse ela disfarçando uma coçadela com o outro pé. 

Um idoso, que estava no guichê, atrapalhava-se com a senha do cartão deixando a moça do caixa sorrindo num surdo ranger de dentes. Havia sido treinada para suportar aquele engarrafamento de pessoas. Se colocasse um rosto sisudo, correria o risco de ser demitida. O “senhorzinho” só pensava em se lembrar dos números e do filho que mais e mais dizia: papai, anote, e ele, mesmo obedecendo ao filho, esquecera onde havia posto as anotações. 

A bela e atenciosa, do outro lado do vidro, era vista, pelo velho "esquecidor", como sendo sua torturadora. Se fosse há vinte anos, quiçá, tentaria um flerte, mas sua diabetes alta e a conta bancária baixa não lhe permitem maiores extravagâncias.

Ao chegar em casa, colocou as caixinhas em cima da mesa e chorou lembrando-se da falecida esposa que o acompanhava quando organizava a tabela de horários para tomar os comprimidos. 

Já no apartamento, a amiga de Silaraia olhava para a sala vazia e sentia o quanto tinha mentido em suas mais novas edições. Seus netos, genro e filha jamais haviam existido. Sua condição de solteirona a fazia sofrer por não aceitar estar sozinha no mundo, e a única alternativa era mentir para si.

A atendente do caixa, desiludida, percorria o caminho de volta para casa com sandálias de dedo usadas depois de guardar o disfarce de empoderada. 

A modelo, de cabelos longos, ainda hoje se mantém felicíssima pelo marido ter aceitado fazer parte da fantasia de assediá-la e beijá-la na frente de todo mundo como se fossem desconhecidos.

 


Heraldo Lins Marinho Dantas

Natal/RN, 11.08.2022 — 14:17




terça-feira, 9 de agosto de 2022

ANO DA DISSECAÇÃO DA ALMA: 1877 (Impressões sobre o romance Anna Karenina) - Heraldo Lins



 ANO DA DISSECAÇÃO DA ALMA: 1877


Terminei de ler, ontem, o livro Anna Karenina de Leon Tolstói. Oitocentas e tantas páginas de suspense e cansaço. O que me fez adentrar àquela selva de palavras, foi a curiosidade em saber o porquê desse romance ser tão festejado, e realmente comprovei: merece infinitos aplausos. 

Dentre outras genialidades, o autor nos brinda com o pensamento da cadela Laska, pertencente ao proprietário de terras, Levin. Consegue-se ter acesso à concepção da cachorra quando ela questiona as ordens do seu dono, como se o animal fosse gente. Essa é uma demonstração do verdadeiro domínio da escrita criativa.

Através dessa habilidade, Tolstói conduziu-me para o leito de morte de Nikolai, Irmão de Levin, que de tão doente me fez torcer pelo seu sepultamento. Quando todos pensávamos que Nikolai havia morrido... ”ainda não foi dessa vez,” disse ele de supetão, caracterizando-se de autêntico bêbado chato.

O autor fica a "brincar" entre a vida e a morte do alcoólatra, motivo que me fez desejoso de algo mais interessante. Só que não há momentos de alívio. Cada personagem sofre o que deve sofrer e leva consigo o leitor. O difícil não é só ler esse "tijolo," mas fazê-lo sem se envolver com a situação em que cada um se encontra. 

Recebi uma grande chacoalhada no cérebro que ainda estou perplexo. Há um momento em que um personagem falido diz que não está em condições de mandar cantar um cego. Lembrei-me que nas feiras livres da minha cidade, aqui e acolá, havia um cego cantando em troca de esmolas. O interessante é a relação criada pelo autor entre a linguagem dos russos daquela época com a cultura da mendicância atual. 

O mais notável ainda é percebermos que em qualquer época ou lugar o ser humano repete-se nas suas mazelas e virtudes. Muda o espaço, o tempo, a estratificação social, mas continuamos sendo vítimas da condição humana que nos faz carregar ciumeiras, desajustes, dúvidas existenciais, inclusive nas crianças. 

Lá pelo meio, achei que o autor estava “enchendo linguiça,” mas descobri que os prisioneiros da sua pena deveriam ser acompanhados sem maiores alardes. Há um freio do escritor que fala sem se expressar: ou se acompanha o ritmo ou não se vai adiante; o pré-requisito é se envolver, caso contrário, abandone a leitura. 

Mesmo que deixemos o livro fechado por vários dias, o pensamento continua voltado para a história. Mas é necessário o afastamento para se manter com as faculdades mentais funcionando, é o conselho que dou. 

Comecei a lê-lo analisando as artimanhas que Tolstói utiliza para prender o leitor, só que do meio para o final esse meu cuidado perscrutador foi seduzido pela trama tão bem articulada. 

Para se ter uma ideia da lentidão da obra, a narrativa continua vagarosa até mesmo quando Liven vai buscar um médico para fazer o parto da esposa. Minha vontade, escutando os gritos de Kitty, era que ele trouxesse o médico à força, ideia também compartilhada pelo personagem, porém, deixando-me contrariado por não ter sido executada.  

O autor dá corda para depois tomar de volta. Nessa hora, confesso, já estava eu totalmente dominado. Tentei, sem êxito, adivinhar cada final de capítulo, acho que foi por isso que sofri demasiadamente. Não acertava um, é tanto que fiquei satisfeitíssimo quando me identifiquei com o personagem comentando que enquanto muitos morrem o médico se penteia. Comparei com a fila do SUS. Respirei aliviado pela chance de, juntamente com o personagem, criticar o sistema de saúde.

No romance, até quem morre sofre a malquerença dos vivos, nesse caso, expresso na fala da mãe de Vronsk que destila um ódio extravagante à ex-amante do filho, a já “suicidada”, Anna. Até morta, a mulher quase louca não tem sua alma deixada em paz, fazendo-me lembrar do caso dos assassinatos em São Gonçalo do Amarante no RN, em que as autoridades tiveram que enterrar o criminoso em local "incerto e não sabido" para evitar que familiares das vítimas tentassem uma vingança no corpo sem vida. A todo momento, o autor despertava-me recordações, e, ao mesmo tempo, negava que o romance tinha esse propósito, claro, eis a genialidade do escritor em disfarçar.  

Não é à toa que Tolstói ficou rico escrevendo. O cara sabia o que estava fazendo, porém, quando os personagens pensam, o autor utiliza, demasiadamente, a frase "de si para consigo" chegando a me fatigar, mas nem por isso tira o brilho da obra. Reconheço que escrever mais de oitocentas página sem deixar pelo menos uma brecha para que eu possa me deliciar cutucando a falha, é dificílimo e, mesmo assim, isso não tira o mérito da obra.  

Acredito que só consegui terminar essa empreitada porque fui ajudado por uma narradora que encontrei no YouTube. Baixei a narrativa e fiquei escutando-a em velocidade acelerada enquanto acompanhava a grafia no livro. Um fato interessante é que o livro que eu estava lendo foi traduzido por um, e o áudio que escutei era de um outro tradutor. De quando em quando eu detectava termos diferentes com os mesmos significados, o que nem de longe me atrapalhou. 

O que gostei mesmo, além da cadela pensante, foi de uma frase dita por Levin: "o respeito foi inventado para esconder o lugar vazio onde deveria estar o amor." 

Agora sim, sinto-me aliviado em obedecer a Tolstói que passou, em forma de pesadelos, a madrugada inteira insistindo que eu publicasse minha experiência com o seu livro, e ainda acrescentou: não se esqueça da frase inicial. Tudo bem! aí vai o início do romance, senhor Liev Nikoláievitch Tolstói: “todas as famílias felizes são parecidas entre si; as infelizes são infelizes cada uma à sua maneira.”


Heraldo Lins Marinho Dantas 

Natal/RN, 09.08.2022 - 16:44



segunda-feira, 8 de agosto de 2022

UM DIA CHEGAREMOS LÁ! - Heraldo Lins

 


UM DIA CHEGAREMOS LÁ!


Sua profissão é conversar, e, mesmo que não queira, precisa se manter no emprego. Depara-se com um velho dizendo que hoje não aceitará nem um dedo de prosa, pois desconfia que está sendo manipulado pelo desejo de saber as novidades. Vá procurar plateia em outro lugar, disse o velho. 

Ele saiu seguindo a intuição e, mais adiante, depara-se com um lava a jato que aspira a alma das pessoas. Entra no escritório e quer saber como é o processo. A atendente diz que escanea todas as más lembranças e o cliente escolhe quais irá deletar. Ele contrata o serviço e a primeira etapa é realizada. Depois de ver armazenadas suas péssimas recordações, senta-se e começa a escolhê-las. Para facilitar o trabalho, a simpática mulher diz que as experiências em vermelho são as que provocaram e provocam mal-estares, e se ele quiser apagá-las basta selecioná-las e aperta enter. Assim é feito. 

Sentindo-se mais leve, sai dali com o intuito de preencher o vazio deixado pelas deletadas lembranças. Passa em frente a uma garagem onde o proprietário, pressionado por sua esposa, está querendo se ver livre das reminiscências de caminhoneiro. Interessa-se e compra algumas onde viaja ao lado de caronas seminuas e também adquiri as que ele se divertiu com as lindas frentistas na boleia do caminhão. 

Anda mais um pouco e percebe que naquela rua está havendo uma verdadeira feira de lembranças. Procura por bons produtos, mas cada pessoa está querendo, igual a ele no lava a jato, se ver livre das que o perturbam. Para não ficar se sentindo um ser desprovido de cultura, resolve avaliá-las.

Conversa com um homem ranzinza que lhe oferece dinheiro para que leve as suas embora. Tem medo de se tornar também mal-humorado, mesmo assim, aceita-as visando remodelá-las quando chegar em casa. 

Logo em seguida, uma jovem oferece umas de quando era estuprada. Ele, por caridade, as toma para si, recebendo um sorriso de bônus que faz desaparecer nela uma ruga precoce.

Muitos expositores o convidam porque percebem que ele é um bom negociante. Entra na casa de uma viúva. Ela fala que depois que o marido foi assassinado nem consegue dormir recordando a arma em sua cabeça, e, mesmo tomando remédios, os pesadelos continuam. Propõe entregar-lhe as registradas nos últimos três anos. Apertam-se as mãos e logo a transferência se efetua. 

Uma adúltera o chama. Quer lhe passar os momentos em que foi jogada na lama por quem a usava. Sabe que há um desejo quase incontrolável em seduzir, e naquele momento ele sente-se atraído por aquela infalível receita do amor carnal. A sugestão é que ela transfira também a técnica da sedução, ouvindo-a dizer que não, que jamais irá se desfazer da única coisa que sabe fazer bem. Ele ainda argumenta que é preciso que ela largue esse vício, senão daqui a um mês será novamente abandonada pelos que seduzirá. O problema não está em ser abandonada, diz ele, mas em permanecer sendo o que sempre foi. Ela gritou da janela quebrada por pedradas que se ele insistisse chamaria a polícia, e, com certeza, acreditariam em qualquer história que contasse porque sabia manipular as pessoas. Tudo bem, respondeu ele seguindo adiante. 

Ao dar alguns passos, encontrou-se com um afrodescendente. Leve embora estas minhas chicotadas, disse o cultuador dos orixás. Mas isso é estranho! Você é jovem e nunca foi escravo. Essas são as dos meus antepassados que as trago por juramento familiar. 

Ele concordou em recebê-las e, além dessas, ficou com as das vítimas dos reis, monarcas, ditadores, enfim, acolheu as más lembranças que afligiam humanos de todas as idades, credos, cores, etc., e ao sentir-se esperançoso que o mal sobre a terra estava prestes a ser extinto, foi preso e deixado morrer de braços abertos. 


Heraldo Lins Marinho Dantas

Natal/RN, 07.08.2022 — 19:35



sábado, 6 de agosto de 2022

A ASA BRANCA!... - Jair Eloi de Souza










A ASA BRANCA!...


Nos arrulhos seu mito, um canto,
Um apelo, um choro pelo Sertão,
Seu mundo recluso, aba de serra,
Amor telúrico, o pranto da terra.

Voz solitária, una, embora na seca,
Contempla a mata, uma majestade,
Mas o Sertão, ah! no Sertão a sede!
Tem seu canto, sua hora vesperal.

Nessa vida de agruras, faltam grãos,
A sementeira, os frutos até da favela,
Mas não perde a realeza, bate chão,
Não arriba, no torrão abre a cancela!

J.E.S.



SEM PINCEL - Heraldo Lins

 









SEM PINCEL


Podemos comparar o início de um texto com uma tela em branco em que se usa palavras, ao invés de tinta, para compô-lo com pinceladas de caracteres. Vamos começar com um homem sendo tratado na U.T.I. 

Seu semblante assemelhava-se ao de um cadáver e, ao falar, a flacidez tornava-se mais evidente perto da boca retocada com o branco da saliva grossa. Tanto os uniformes dos estagiários quanto o ambiente foram modificados pela crise de tosse do paciente. Seu escarro, vindo de uma tuberculose mal curada, salpicou de vermelho o quadro que estava sendo pintado. 

Uma foto no momento foi feita, impressa e guardada pela dourada da recepção. Ela, vestida no seu vinho uniformizado, lembrava-se do “azul-mar” que testemunhava todo final de tarde na passagem do continente para a ilha onde morava. 

No hospital especializado em outubro rosa, outros atendimentos também eram realizados tais como novembro azul e setembro amarelo. 

Quando não estava consultando, um dos médicos gostava de dar pinceladas de cores variadas no risco cirúrgico dos “cabeças brancas”, que por sua vez deixavam os “cabeças pretas” roxos de inveja. 

Naquele ambiente, cheio de cores, os funcionários da limpeza diziam: a coisa está preta, referindo-se ao tempo decorrido sem ver a cor do dinheiro, mas isso não era motivo para desistirem de tirarem o marrom do chão antiderrapante. Uns varriam com suas amarelas, enquanto outros abriam os azuis para colocar o lixo. 

É triste ver a anemia barrar o vermelho, escrevia, no prontuário, o branco. Apesar do verde ser uma cor muito querida dentro de um contexto ecológico, ela é malvista no rosto humano, por outro lado, aplaudida quando é num camaleão.

A recepcionista, depois de guardar a fotografia, foi se encontrar com os seus. Mesmo fazendo o percurso de volta para casa todos os dias, ela não deixa de se emocionar ao avistar a cor marfim prestes a pisar. Observa a água cortada pela embarcação laranja a poucos metros do píer cerejeira. Ao lado dela, uma amarela praticava o exercício de se tornar invisível com seu marrom-claro cobrindo o corpo de olhos amendoados, cabelo amarrado em coque e os brancos escondidos pelo rosa-claro dos lábios. 

A embarcação é comandada por uma cor de fogo, com um branco na cabeça enfeitado por detalhes pretos. Na frente do quepe, um brasão de prático da capitania dos portos o distingui dos demais tripulantes. O ruivo conta que fica assustado quando se deita lembrando-se do escuro da barriga do peixe que o hospedou por três dias. Nada a ver com Jonas, mas ele também não admite que alguém duvide. 

A dourada desembarcou sem se dar conta que os pequenos a esperavam debaixo do verde de uma árvore comendo o roxo natural da ameixeira. Abraçou-os sem enxergar que cor era o sentimento de mãe para com eles, e assim o quadro permaneceria sendo retocado pela dúvida até mesmo ao adentrar na branca sem reboco. 

Ao jogar a bolsa rodadeira no multicolorido macio, sentiu necessidade vaidosa de aproximar um vermelho vivo nas unhas enquanto preparava a cor laranja na cuscuzeira, o amarelo e o branco estrelados e o preto quente com o branco de vaca. Duas colheres de marrom mascavo foram adicionados ao bule. 

Quão dinâmico é o quadro da vida, pensou, e chegou a uma conclusão logo desfeita: o que não tem cor não existe. E os sentimentos? Não sabe responder, porém, vai para a praça oferecer, aos rosados de fora, o belo quadro em troca de algumas verdinhas. 


Heraldo Lins Marinho Dantas

Natal RN, 06.08.2022 - 11:27




sexta-feira, 5 de agosto de 2022

PURA LÓGICA - Heraldo Lins

 


PURA LÓGICA


Logo ali à frente tem uma história para ser conhecida, porém, o autor não planejou o que iria contar, apenas foi arrumando as palavras no padrão de início, meio e fim, e assim ficou: 

A menina correu por cima de pau e pedra e logo atrás vinha um lobo... É melhor mudar para um touro, disse o editor. O lobo já está com a imagem desgastada por isso nem mais provoca interesse. Dá sono ouvir falar do lobo e mais ainda se ele for mau. 

Muito bem!... Vinha um touro correndo com medo de um guaxinim... Pare! Tire também esse infeliz desse guaxinim do texto... É que o meu repertório é pobre e acho que um guaxinim correndo atrás de um touro, que por sua vez tem uma menina à sua frente, causa frenesi, disse o autor. Não dá certo porque guaxinim é bicho sem carisma, além disso, touro nunca teve medo de guaxinim. Eu sei que existe o sindicato dos guaxinins lutando pela classe, mas guaxinim aqui não cabe. Se fosse pelo menos três porquinhos... poderia ser, mas... guaxinim... troque por um leão. Então... continuando!... 

Vinha um leão atrás do touro, pega aqui pega acolá. Lá vinham!... Ô carreira bonita!... Pense na poeira!... Rapaz! O que é? Deixe de comer castanha e se concentre porque só temos meia hora para entregar esse texto. Ah! Tá! 

O leão trazia, em suas costas, branca de neve e os sete anões. Estes pequenos homens logo pularam para suas "monocletas" e continuaram pedalando no cortejo. Devido ao calor, branca de neve começou seu derretimento matinal, depois, verificou-se tratar-se de um picolé de coco que os anões adoram.

Mais atrás, vinha Cinderela em sua carruagem, cor abóbora, lutando para calçar os sapatos emprestados pelo gato de botas. Ela estava suada e falando de si para consigo: preciso calçar quanto antes estes malditos sapatos, senão o príncipe não vai querer dançar comigo. 

Lá na frente, quando a menina percebeu que seria alcançada pela fila, subiu na árvore e permaneceu estirando a língua. O touro, percebendo os sete anões em seu encalço, subiu na motocicleta e acelerou. Pense numa acelerada! Pare de falar a palavra "pense!" Já está enjoando de tanto "pense!" O leão acelerou sem pestanejar, está bom assim? Está! mas preste atenção que quem acelerou foi o touro! Mas o leão também tinha um triciclo escondido na juba e por isso acelerou. 

Continue, continue! Deixe eles abastecerem. De tanto acelerar faltou gasolina. Também!... com o preço como está... Vai! A carruagem transformou-se em um robô e Cinderela ficou pendurada, não posso dizer onde, vendo a hora cair por cima do guaxinim. Mas o combinado foi tirar o guaxinim de cena, lembra-se? Foi, mas como ele não tinha para onde ir, permaneceu assistindo à corrida e terminou com os ossos quebrados, motivo que fez alguém sugerir sua aposentadoria. 

E daí? Daí o quê? O final!? Deixe eu dormir que quando acordar, termino com THE END, e pronto.


Heraldo Lins Marinho Dantas

Natal/RN, O4.08.2022 — 08:10




quarta-feira, 3 de agosto de 2022

NAS ENGRENAGENS DO CORAÇÃO - Heraldo Lins



 NAS ENGRENAGENS DO CORAÇÃO


Aruel vivia falando alto sobre automóveis. Dono de um carro de praça, estacionava por lá e ficava sem promessa de mudar, tão cedo, de assunto. Lá para as décadas de outrora, num canto recém-saído da carroça de boi, Aruel se achava o melhor entre os melhores, aliás, sua família toda era assim. Seu pai propagava como se o filho fosse o rei das estradas esburacadas ou o príncipe do pneu furado. Ao relatar suas proezas, aproveitava para dar um banho de cuspe no interlocutor. 

No sítio sempre havia festas, e Aruel, quando estava por lá, não perdia a oportunidade de contar histórias das viagens realizadas. Ele era chique, tinha também pressão alta além de um dente de ouro. 

Na verdade, o vocábulo "chique" nem existia por aquelas bandas, ou se existia, era usado da porteira para fora. Chamavam-no de metido, isso sim, sem que ninguém da família soubesse. 

O carro e o próprio dono tinham personalidades distintas, porém, um não vivia sem o outro. Quando o veículo quebrava, Aruel adoecia ficando por conta da mulher providenciar mecânico e peças. 

Ela era muito interesseira, dizem até que se casou com o carro levando Aruel como brinde. Mulher esbelta, dinâmica, e quando o serviço era pequeno ela mesma o fazia. 

O casal vivia sendo convidado para ser padrinho e madrinha de menino buchudo em toda a região, desde que pagassem a corrida de casa para a igreja, eles aceitavam. Lá vai seu padrinho, diziam as mães orgulhosas quando a "Rural" passava. A cada viagem, era necessária uma mão de obra proporcional para tirar a poeira trazida das estradas vicinais. 

Se caso ele fosse perguntado com qual ficaria, com certeza, decidiria deixar a mulher fora de casa do que seu automóvel. 

Aruel fora criado na casa dos avós, e o único aposentado sobrevivente passava boa parte das manhãs jogando milho pilado aos pintos no terreiro. 

A mão de pilão tinha sua cintura levantada, diariamente, pela preta “cachimbeira” que suava para esmagar os dois litros de milho exigido pelos famintos e entregues ao avô taciturno.

 Ao nascer do sol, as aves vinham ciscar perto da água servida da pia de lavar louça, e lá estava o ancião fazendo sua tarefa mais importante do dia. O resto da manhã passava dando nome às moscas que o rodeava. Ele “aboiava” e fazia vaquejada como se os insetos fossem gado. 

Os de casa aceitavam o barulho porque naquela lonjura de tempo e espaço não havia como trancar um idoso com fôlego apressado. Logo de madrugada, ele começava a cantar antes mesmo do galo, e por isso resolveram cozinhar o dono do terreiro na festa de São José por falta de utilidade "despertadora." 

Muitas vezes, um galo forasteiro “cantava de galo,” mas os frangos já o haviam expulsado por diversas vezes. As galinhas, muito galinhas, aceitavam, sem mais delongas, tanto o forasteiro quanto os frangos filhos das comadres poedeiras, razão maior dos conflitos. 

Os pintos também eram vistos, pelo velho, como animais de grande porte. O gavião que raptava-os, ele o chamava de foguete tracionado. Essa mistura do tradicional com o tecnológico teve sua origem desde o tempo que um avião pousou no rio seco na propriedade da família. Nesse tempo, vovô era lúcido e foi quem deu assistência ao aviador, hoje chamado de Piloto. Nenhum piloto quer mais ser chamado de aviador já que se tirar a primeira e última letra o conceito muda completamente. 

A partir de então, o hoje desmemoriado vovô ficou só pensando em tecnologia espacial pregando que Aruel é filho de seres de outro planeta. Enquanto não se resolve essa pendenga, muita gente acredita que essa relação sentimental de Aruel com automóveis tem origem em sua descendência estelar, e não sou eu que vou dizer o contrário. 


Heraldo Lins Marinho Dantas

Natal/RN, 03.08.2022 – 11:56



terça-feira, 2 de agosto de 2022

QUEM FOI QUE MORREU MESMO? - Heraldo Lins

 


QUEM FOI QUE MORREU MESMO?

Sexta-feira... sextou!!!Muita alegria, não só por passar dois dias desocupados, mas também por fazer planos de lazer. Dias de futebol na telinha, churrasco e missa. Não se pode deixar passar em branco! Para quem ama as letras, a melhor opção é colocar leituras em dia ou escrever o que lhe vem à cabeça. O difícil é encontrar aplausos para assuntos sem pé nem cabeça assim como na TV, YouTube ou na esquina.  

Parece que há uma necessidade natural de se expressar, e quem negar isso ficará reprimido e traumatizado para o resto da vida. O que não se deve ter é medo que alguém não queira ler o que se produz. 

Manter o diálogo e escavar assuntos banais é a melhor terapia. O leitor pode se chatear e dizer que irá cobrar cachê porque não tem tempo a perder com algo que não traga conhecimento. Aí a coisa pega. Nem sabe que quem ama o corre-corre está sendo influenciado pela expressão "tempo é dinheiro" que toma conta do juízo sem dar espaço para mais nada. 

Quase ninguém se permite ficar boiando. A receita da globalização prega que ou se é consumidor ou produtor. Ninguém é estimulado a permanecer na calma natural. Queremos ser “Platões” ou “Alexandres Magnos,” menos, Diógenes. Queremos tudo, só não desejamos ficar à toa. 

Quando não se tem o que fazer, opta-se por chorar. A questão não é chorar o leite derramado, o difícil é não ter o leite para derramar. O que diferencia o riso do choro são os diferentes estímulos. Às vezes uma piada causa choro, o tanto quanto uma tragédia causa gargalhada. Depende de qual lado se está. 

Recentemente, eu estava discutindo com um parente que está com labilidade emocional. Vai para frente e vai para trás, chegamos a um consenso. Então, morreu Maria Preá, eu disse. Ele começou a chorar de forma desproporcional: “ai meu Deus, morreu Maria Preá. Maria Preá morreu foi?” Tenha calma, homem... É um “ditado popular.” Uma piada? Sim, é uma forma de dizer que tudo está resolvido. 

Então conte como é a piada, pediu ele enxugando as lágrimas. Foi o seguinte: havia uma beata por nome Maria Preá e o padre tinha um chamego com ela. Certa vez, o padre estava no bem bom com ela e o sacristão os flagra. Desse dia em diante, tudo que o sacristão queria o padre tinha que conceder com medo que seu ajudante espalhasse a notícia. Ao ver que o padre queria se negar, ele ameaçava: e Maria Preá? 

Um ano depois, o padre saiu para uma celebração fora da cidade e o sacristão não foi. No meio do caminho, o sacerdote voltou para pegar as hóstias. Quando abriu a porta, o sacristão estava fazendo o papel de Eva. O vigário ficou sem ação, e quando ia saindo horrorizado, o sacristão, ainda em trajes de freira, entregou-lhe a comida de anjo e disse: padre!... morreu Maria Preá. 


Heraldo Lins Marinho Dantas

Natal/RN, 1⁰.08.2022 — 10:42


https://youtu.be/9oOh5i8mONw










Heraldo Lins Marinho Dantas

Natal/RN, 1⁰.08.2022 — 21:28



domingo, 31 de julho de 2022

CUIDAR NÃO É FÁCIL - Heraldo Lins

 








CUIDAR NÃO É FÁCIL


Ficou aguardando o resultado de um exame. Ao lado, uma mulher falava, em viva voz, que por volta das treze horas já estaria em casa. 

Havia um homem, com aspecto de louco, gritando que era trinta reais uma caixa de comprimido. Pessoal... quem quer ajudar? dizia ele com cara de paisagem. 

Uma vendedora, baixinha e desnutrida, chegou oferecendo uma bandeja de uva por apenas seis pratas. Parou ao lado, escorou-se na porta de vidro e esfregou os pés sujos e suados no tapete da entrada. 

Um velho, com máscara, cambaleava amparado pelas filhas que diziam: tenha calma papai, o senhor já já chega em casa; cuidado com a bolsa coletora.  

Na porta, havia dois guardas impedindo os vendedores e os pedintes de entrarem no salão de espera. Conversavam, distraidamente, sem demonstrar interesse em quem chegava e saía. 

Mesmo o som da cigarra anunciando a vez, as pessoas, tensas, ficavam olhando para o painel como se fosse a melhor programação de cinema, e para não ficar com tédio, um voluntário digitava a ordem de chegada.  

O prédio era uma construção bem moderna com torres de ventilação curvando-se para o subsolo. Na entrada, uma guarita cobrava estacionamento de quem vinha correndo por uma migalha a mais de tempo vivo. 

Lá dentro, um senhor, há duas semanas, respirava com auxílio de máquinas. Sua saúde estava distante da recuperação. Um outro tinha dado entrada logo cedo por estar com pressão baixa. Dois idosos, um, à procura de oxigênio e o outro tomando soro. 

Nesse ínterim, uma jovem com dores preencheu a ficha na urgência. Mãe de uma filhinha, tinha se sentido mal na fábrica. Achava que era um problema de intestino. Depois, a autópsia verificou ter sido outra coisa, menos erro médico.  

Na hora do almoço, muitos veículos do interior já estavam indo embora. A mulher do celular embarcara em um deles, dizendo: daqui a pouco chego! Fez questão de gritar alto como se fosse uma vaidade ir embora. 

O deficiente ainda encontrava-se, aqui e acolá, gritando por ajuda. Sua gordura o impedia de permanecer em pé por muito tempo, e as sandálias, consertadas com pregos atravessados, precisavam de descanso. Ele, rosado e suado, exalava um odor que contribuía para que as cadeiras, por perto, permanecessem desocupadas.     

A mulher das uvas perambulava pensando em comer sua mercadoria. Com um short preto desbotado, deu a entender que conhecia aquele que estava pedindo. Falaram-se em tom baixo e ela foi embora. 

A jovem paciente havia sido medicada. Uma injeção resolveria, procedeu assim o médico. Muitos para atender, horário apertado, já na hora do almoço... é só mais uma dorzinha...

Uma criança, equilibrando-se em dois palitos, entra com um lenço amarrado na cabeça escondendo a queda de cabelo. Está com leucemia, mas os tratamentos modernos fazem milagres, dizem os familiares esperançosos.   

Chegam os maqueiros despejando sua carga humana e partem para ir buscar mais. Saem rindo como se estivessem em uma partida de futebol. Havia disputa para quem fizesse mais viagens?... Devem ganhar por produção, interroga-se alguém desconfiado com tanta rapidez.   

A jovem mãe, depois de ser medicada, levanta-se e caminha, vagarosamente, em direção à saída. Acreditava que tudo havia sido resolvido. Sua aparência é boa, e a dor... que dor?  

Quem quer ajudar? pessoal, é trinta reais! O maluco permanecia recitando seu discurso de carente. A cada pessoa que chegava, ele falava a mesma coisa. Ficava em silêncio até uma pessoa se levantar, e, nesse momento, com mais ênfase: quem vai ajudar?... repetia a ladainha.

A mulher jovem, ao passar pelo salão de espera, sentou-se e arriou ali mesmo. Doutor! grita alguém desesperado. Essa menina está passando mal! Acudam! acudam!

O idoso, consumindo soro no quarto, estava silencioso. Sua acompanhante permanecia dando-lhe assistência e divertindo-se nas redes sociais. 

Os enfermeiros foram chamados às pressas para reanimar a jovem mulher. O que fazer? Alguém teve a brilhante ideia de retirar o oxigênio de um para colocar nela. Morreram os dois. Os familiares foram chorar dentro da sala do velho sobrevivente. 

Segundo o administrador, essa rotina no hospital municipalizado está dentro da normalidade. Amanhã teremos mais, diz ele sem aparentar emoção, e pensa: quem tiver sorte, sobreviverá. 


Heraldo Lins Marinho Dantas

Natal/RN, 30/07/2022 - 08:51



sábado, 30 de julho de 2022

A NATUREZA MUTILADA - Jair Eloi de Souza

 


A NATUREZA MUTILADA


Não vi mais o som da grota. Ela própria encantou-se. Não há mais coaxar de sapos empapados de espumas branquinhas como dantes. O ranger de jovens rãs que martelavam em minhas oiças pra entender aquela alegria pela abundância das chuvas de verão. 

Mas, não era só o contentamento daqueles batráquios naquelas eras. Tinha um personagem do mundo das corujas, o "caboré de orelha", que no quebrar da barra, de tanto repicar num sibilo vexatório numa das oiticicas do "Riacho do Saco", me acordava ainda friorento na madrugada invernosa, nos chãos dos sertões na freguesia da Senhora dos Aflitos. Ainda bem que me aquecia no colo do meu guru Eloi de Souza, esse cuidava de me cobrir com um rústico lençol de algodão e tratava de me desassombrar daquele canto sinistro da inocente coruja.

Os regos cheios de saburás, peixes brancos aflorando o espelho d'agua no Rio Piranhas, não os vejo mais, são imagens longínquas no tempo, mas, presentes no meu quengo, que nunca apagara no pergaminho onde escrevi as peraltices de quando criança aldeã. Rota do abandono, assim vejo meu Sertão, sem assobio de guaxinim no cio lá no baixio do "Velho Chiquinho"*  e que muito me amedrontada.

Lerdo caminhar de solitário carão* no jurenar do trajano*, a procura do mais insignificante vivente, para degustar e matar sua fome,  já que os charcos lacustres haviam secado, já era primavera setembrina, não  mais  o encontrei, sua mãe, a natureza estava no seu último pestanejar. 

Tudo silente, restando apenas o meu olhar em banzo. 


J.E S.




sexta-feira, 29 de julho de 2022

CENSURANDO OS PENSAMENTOS - Heraldo Lins

 


CENSURANDO OS PENSAMENTOS


Como é desalentador não ter um rumo para seguir, pensava a mulher diante de uma vida que ainda prometia muitos anos para ser vivida. Estava sentada na poltrona do chefe que fora do seu avô, balançando-se com um prato em cima da protuberante barriga. Adorava batata saindo fumegante da panela de barro, e muito mais naquele horário de final de tarde. Seu jantar quase sendo feito no alpendre todos os dias transformara-se num quase ritual de esperar a noite chegar junto com o marido. Atenta aos gorjeios dos pássaros enquanto repousava sem estar cansada, percebia o valor imensurável de permanecer relaxando na chácara da família. 

Durante a semana inteira estivera praticamente sem ninguém por perto, e ela gostava assim, sem gritos ou intervenções desnecessárias. Nesse lugar, avistando o canavial, poderia pensar o quanto já havia delineado muitos objetivos dos quais se empolgara e este era mais um deles, dizia para si, acariciando a barriga de oito meses contendo trigêmeos. 

E se forem deficientes? Seus pensamentos pessimistas a perseguiam desde o momento que nascera. Sabia das possibilidades positivas, mas só as declarava para ser chamada de otimista, pessoa com boa energia e tudo mais.

Se os filhos forem normais, menos mal, mesmo assim terá três bocas para lhe sugar iguais aos bacorinhos que correm soltos ao redor da casa. Ela será mais uma leitoa no meio de tantas outras, pensou. Agora tenho que me preparar para vê-los repuxados, disse apalpando-se e lembrando-se do marido. Chama-o de meu cavalinho de estimação, isso sem ele saber. Seus segredos permanecem guardados a bem do bom casamento. 

Tinha vontade de fazer travessuras, mas sabe que ele não concordaria, e até tentou, sorrateiramente, com mão de quem não quer e querendo tendo desistido pela repreensão do olhar. 

O que permitirá que lhe abocanhe, será o hormônio natural que domina o amor nas fêmeas, declarou fugindo um pouco da figura do marido para aquela promessa de futuro incerto crescendo em seu ventre. 

Queria ter nascido macho e deve ser por isso que os admira. Quando vê um que lhe chama a atenção imagina como seria tê-lo em seus braços.

Tem medo de ser denunciada pelos seus desejos sapecas. Muitas vezes olha para o chão quando o marido lhe apresenta um novo amigo.O brilho no olho pode ser muito bem interpretado pelo amigo e muito mal pelo marido, por isso se policia constantemente. 

Após estar à vontade, fica olhando de soslaio através das lentes escuras dos óculos. Adora essa busca, e é através da manobra de jogar o cabelo para trás que encontra brecha para admirá-los. 

Se não fosse seu longo cabelo, nem sabe como seria possível os olhares desviados.

O parto será natural e feito pelo doutor jovem que chegou à cidade recentemente. Ele vai vê-la... e só em pensar, fica agitada. Que bom se mostrar a outro homem sem nenhum pudor e com o consentimento do esposo ciumento. 

Ah! Como seria bom se o médico tivesse o mesmo olhar do caseiro! Dizem que quando o bebê está nascendo, é esse o melhor momento, portanto, está ansiosa para sentir o que diz a literatura, de forma triplicada. Acha que foi isso que a convenceu em sentir cólicas e ter o corpo deformado. 

Conseguiu colocar estimulante no suco do marido e ele está vindo até de madrugada, mas não o deixarei com saudade acumulada, diz e  levanta-se para receber o seu homem.

Entram em casa abraçados e... não me autorizam a continuar.



Heraldo Lins Marinho Dantas

Natal/RN, 28.07.2022.   − 00:33





terça-feira, 26 de julho de 2022

VÁ ENTENDER! - Heraldo Lins

 









VÁ ENTENDER!


Arrastava-se dentro do mangue com o objetivo de manter-se escondido. Sem se importar que o expulsassem do clube dos sadios, saiu para ser atropelado pela enchente da claridade. Ali, juntamente com a ressurreição dos vivos, torna-se contente ao centrifugar ideias e agrupá-las sem maiores pré-requisitos. 

Na segunda-feira chuvosa, em pleno fígado da cidade, observa os semáforos lotados de dores sem vontade de mudar o itinerário viciante. Seu mundo pouco conhecido do palpável pensamento deixa tudo por fazer sem nunca enveredar pela realidade. 

Convive com a poeira das flores subjugadas pelo cheiro de atrair insetos. Eles estudam o néctar que alimenta a sua rainha parideira, e esse estudo não é só instintivo. Quem não conhece os pormenores da inteligência dos outros declara ideias para serem cegamente acreditadas e ai daquele que contestar. 

Tem consciência o quanto é superficial a profundidade do entendimento que tenta, mas não consegue, explicar o que é Saci-pererê fora da fé fertilizada pela conversa fora da lógica. Não é viagem interplanetária, berra alguém concordando de fora. 

Prossegue sem dar ouvidos nem olhos para comentários fugidios. Seu discurso é bloqueado pelo padrão combinado por todos, e ele, mesmo a contragosto, tem que seguir o já imposto pela tradição. Precisa desse padrão para não se tornar um palheiro sem agulha. Quer ser igual aos outros, mas está difícil encontrar a paz diante de tantas mentiras costuradas no blusão da guerra.

Foge para bem distante do morro furado por túneis da vida aleatória. Sua cabeça, a trinta por hora, fica sempre pegando carona na pedra do entendimento dissolvida na grandeza do ser.

Olha para o pulso algemado pelo tic tac estabelecido por quem dorme com os olhos abertos para dentro dos sonhos, e aproveita para medir quantas toneladas de tempo gastou em ficar vivendo num espaço alugado pelos pés calçados de calos.

Prosseguindo dentro da normalidade de ser anormal, vê uma peneira coando palavras para não desagradar os donos das crenças habituais. Muito bagaço fica represado na malha da consciência e esses desvios discursivos, numa segunda olhada, mandam seguir em disparada pelo caminho de algo sem uma clara definição. 

Está mais disposto depois que comeu a gordura excessiva das palavras que deixaram de ser plantadas apenas pela beleza exterior. 

Caminha apedrejado na doutrina enjaulada pelo suor e sangue em forma de ouro brilhante de uma multidão com pedras na cabeça sem destino apropriado para um ser pensante, sendo criticado pelos animais que veem aquilo sendo aberração de gente. Viva os irracionais! Não têm consciência e por isso não colocam seu corpo para penitência. 

O princípio da obediência cega os valores propagados pela força evitando passar pelo alinhamento do discurso da vida. Um pouco mais tarde, torna-se vítima da cobiçada alegria em ter vontade de fazer uma chamada de vídeo para os seres abstratos que vivem nas tumbas, encarcerados pelo sombreamento da película cultivada pela doutrina interesseira. 


Heraldo Lins Marinho Dantas

Natal/RN, 25.07.2022 - 15:07




segunda-feira, 25 de julho de 2022

CONHECE ALGUÉM ASSIM? - Heraldo Lins

 









CONHECE ALGUÉM ASSIM?


Havia morrido há pelo menos sete anos e a família já vendera tudo que o homem deixara. Diziam que cada um tinha uma missão, a do morto foi de juntar, a deles, de espalhar. Em vida o pobre homem rico corria atrás até de uma carona para não ter que ficar nas mãos de mecânicos. 

Segundo sua concepção, todo mundo queria roubar o seu dinheiro, única coisa que dava valor acima do normal. Para ele, as cédulas tinha um encanto a ponto de sentir prazer em apalpá-las igual a uma mãe dá carinho ao filho recém-nascido. Quando saía uma cédula com novo valor, ele corria para o banco tentando ser o primeiro a possuí-la. 

Teve um desgosto grande quando um rival fez de tudo para desbancá-lo. Dizem até que foi o motivo maior de sua morte. Passou a definhar até o encontrarem morto. Acredita-se que não perdoou a nova estampa dentro de bolsos alheios. 

Para ser o primeiro, entrava em contato com o gerente combinando o negócio, e como era o maior depositante, seu pedido era aceito. Pagava uma taxa por fora para que o lote de novas notas só circulassem quinze dias depois. 

Era a única despesa que fazia além do programado e isso ele levava muito a sério. Contratava um motociclista para ficar à disposição levando-o a exibir sua nova aquisição monetária nos quatro cantos da cidade, inclusive, nos sítios e fazendas. Ninguém tinha a honra de segurá-la. Mostrava um pouco afastado da pessoa, e se insistissem, cobrava dez por cento por poucos minuto desde que deixassem, em seu poder, duas notas correspondendo ao valor da nova, e mais a metade para descontar a taxa de segurança. Se quem quisesse ver não dispusesse de tal quantia, ele pedia para colocar as mãos para trás num gesto de respeito, desconfiando de um possível ataque.

O aluguel de uma motocicleta se fazia necessário porque o tempo voava e não podia deixar de mostrar a todos em primeira mão. No dia a dia normal andava a pé utilizando o argumento que Deus tinha feito os pés com esse objetivo, e, para não contrariar o criador, usava-os em todo o seu potencial. Perturbados com o procedimento dele se privar até de uma boa alimentação, muitos filhos foram embora e a mulher morreu tísica. 

Os sobreviventes ficaram de longe esperando ansiosos o dia em que o velho viesse a falecer para gastarem tudo, não por necessidade, mas por vingança ao sovina. Esse dia chegou. Foram avisados pelo vizinho, pois o velho morava sozinho comendo o que sobrava de um parente próximo. Quando não sobrava, ficava em jejum prolongado dizendo que imitava Jesus que passou quarenta dias assim. Em tudo ele usava a bíblia para sustentar seus pontos de vista, inclusive, para se defender em seus atos ilícitos. 

Durante o período que estava em casa, ocupava-se em fechar baús cheios de cacarecos e conferir o dinheiro escondido, ninguém sabe onde. Andava com um molho de chaves a tiracolo gabando-se que cada casa sua estava ali representada. O técnico chaveiro já sabia que a metade eram falsas e que ele comprara apenas para se vangloriar. 

No quartinho escuro, dormia sentado na poltrona porque entendia que cama era objeto de luxo. Só bastava aquela que utilizava de várias formas, enfatizando que não ia gastar dinheiro com um móvel que só serviria para usá-lo durante a noite. A poltrona negociada em troca de um ovelha doente, servia. 

Comer em uma mesa era luxo exarcebado. A poltrona, mais uma vez entrava em cena auxiliada pelo chão. Censurava quem se servia do chão apenas para pisar. Jamais teria gasto cimento para deixá-lo com pouco uso. O chão poderia ser utilizado, como de fato era, na função de armário e guarda-roupa. Sanitário para quê? se tinha um monte de areia! Imitava os gatos, enterrando-os. Nem de cemitério ele precisou. Quando abriram o quartinho, só restava a roupa furada. Os ratos haviam lhe comido todo.


Heraldo Lins Marinho Dantas

Natal/RN, 23.07.2022 -  15:03



sexta-feira, 22 de julho de 2022

LAMPIÃO: O LOBO DO CINZENTO - Jair Eloi de Souza

  


NOTA DO AUTOR: A publicação abaixo, na forma de cordel, trata da saga cangaceira, com enfoque para suas origens, em sede de relato sobre Senhor Pereira, tido como cangaceiro manso, o único homem que liderou Lampiâo, no período de l918 a 1922. Por necessário informar também, que a Obra: LAMPIÃO: O LOBO DO CINZENTO*, de autoria desse velho escriba, sob a forma de ensaio sociológico romanceado, está chegando ao seu final, e será lançada, antes que as eras se vençam. Por enquanto, lanço para o público, a primeira série de versos, para os que curtem os cafundós do meu Sertão. - Jair Eloi de Souza*

LAMPIÃO: O LOBO DO CINZENTO*
Jair Eloi de Souza*
I -
Num cenário da caatinga, o Sertão enfureceu,
Teve início em Pernambuco, no Pajeú e Navio,
violência e tirania, um mundo sem lei nem rei,
Foi uma luta fratricida, ninguém poupou o pavio.
II -
Na Vila de São Francisco, nasceu Senhor Pereira,
De linhagem nobre, rica, presteza e boa conduta,
Mas a infâmia e o destino que a vida lhe teceu,
A honra de homem manso, foi o motivo pra luta.
III -
Após a seca de quinze, veio a crueza dos tempos,
O Sertão abandonado, fome, saque, e desmantelo,
Matam Né da Carnaúba, perdem a frieza os ventos,
Carvalho contra Pereira, a ninguém mais há bedelho.
IV -
Senhor Pereira, o escolhido pela família enlutada,
Logo no terreiro de casa, conversa com Virgulino,
Corre chão vai a Barros, arregimenta a cabroada,
No coice da burrarada, também conta com Livino.
V -
Na vertente dessa saga, do cangaço e do punhal,
deixei de citar Antônio, o mais velho dos Ferreira,
dizem ser o mais violento, nesse cenário mortal,
Contudo a besta fera de longe é Senhor Pereira.
VI -
Em uma noite de samba, quando bateu a leseira,
Lua nova, noite escura, dorme Né da Carnaúba,
Aproveitando a madorna, Age o Negro Palmeira,
Mata Né, tio de Senhor, por traição feito Judas.
VII -
Era um negro alagoano, perverso e sanguinário,
Escafedeu-se na noite, para as terras do além,
esquecendo da justiça, porquanto retardatária,
foi morar no Juazeiro, terra onde se fala amém.
VIII -
Botou morada, comércio, vizinho a um pobre cigano,
Não demorou muito tempo a mostrar sua maldade,
perseguindo o pobre velho, a sua morada tomando,
Mas a justiça divina não falha, faz o bem e caridade.
IX -
Azucrinado da vida, sem parente, nem seu bando,
Aquele pobre cigano firma visita ao velho Pajeú,
À Vila de São Francisco, Pereiras e seu comando,
Palmeira, disse sem cuido, matara Né Carnaúba.
X -
Bem cedo chega na vila, de cabaço e matolão,
Entra na primeira venda, e indaga do seu dono,
Quem era, qual a família, precisava arranchação,
ouvindo Pereira a raça, e Senhor é meu patrono.
XI
Pergunto a V. mcê, se o assuntar lhe interessa,
Não precisa se ofender, conhece o Negro Palmeira?
longa viagem eu fiz, pra resposta não há pressa,
Trato de assunto sério, não vim cuidar de asneiras.
XII -
Sou Sobrinho do velho Né, primo de Senhor Pereira,
Ganjão pode me dispor, do tempo de um olho piscar?
Disse o dono da venda velha, sem perder a estribeira,
Viaje, na volta, apeie-se aquí, temos assunto a tratar.

Cinzento*: "No Nordeste brasileiro, a palavra cinzento, quer dizer sertão".

Jair Eloi de Souza


O CONTIDO NO CONTEÚDO - Heraldo Lins



 O CONTIDO NO CONTEÚDO


Ele queria ir mais longe do que fora da última vez que andou por lá. O local é indefinido com um pequeno córrego saindo do seu interior e a entrada estreita fica constantemente coberta por uma mata “camuflante”. É dali que ele olha indeciso com medo de dar o primeiro passo em direção ao resultado previsível de desenterrar suas dores. A última vez que explorou o celeiro das mágoas, ficou com a alma dolorida durante vários dias. Seus trastes memorizados saíram em forma animalescas que o mastigaram com afiadas presas torturando-o sem o objetivo claro de matá-lo. 

As aberrações apareceram sujas de lama podre em um movimento de ir e vir abrindo e fechando cicatrizes “supurantes,” tendo-o como o legítimo hospedeiro do rancor. Os demolidores misturaram-se com o próprio demolido e a vítima passou a ser o agressor. Aquelas deformações não acontecem por livre e espontânea vontade, e sim, são manipuladas pelo criador que as odeia e as ama ao mesmo tempo, envaidecendo-se em tê-las como patrimônio. 

Ele finalmente entra sabendo que está diante das próprias crias nutridas de longas datas. Quer desenterrá-las e dar um fim com objetivo de ficar livre, mas a experiência abre caminho para surgirem outras mais potentes. Parece que não tem fim aquele criadouro de dúvidas, e cada vez que a água dos segundos é baldeada, mais delas são criadas. 

Olha para o lado tentando se maldizer e percebe que há várias entradas disponíveis usadas por outros. Ele achava que era o único a ter aquele esconderijo, mas não, é bem mais comum do que se imagina. Todos têm um para guardar os ossos do ofício que são protegidos por capas dissimuladas e intransponíveis. Cada problema é acorrentado com vários tipos de material, sendo o do lazer e do trabalho os mais usados. Vez por outra se soltam causando destruição total do hospedeiro.

Com ou sem dedicação, o instinto demolidor sempre demandará cuidados, por isso resolve domesticá-los sem a ilusão de exterminá-los. Vai finalmente encontrando forças que nem sabia que possuía, e mergulha tentando arrancar pela raiz os que lhe perturbam. Quer extirpar as possíveis ações que iria praticar caso não desse um basta e consegue, provisoriamente. 

Nada de bom vem quando alimenta-se com a ração das lembranças de más experiências, e se pudesse ia embora daquele portal, entretanto, não seguir em frente é o mesmo que negar-se. Olha para trás e não ver outra alternativa a não ser continuar. 

A indisposição o transformou em algo característico de quem está pronto para se entregar, depor as armas da vida e se deixar levar. Aceita, nem triste nem contente, ser empurrado para o abismo com seus monstros de estimação a tiracolo.


Heraldo Lins Marinho Dantas

Natal/RN, 22.07.2022 - 06:46