APOESC (Associação de Poetas Escritores Simpatizantes e Colaboradores)

A APOESC (Associação de Poetas Escritores Simpatizantes e Colaboradores), criada em 03.2010 em Santa Cruz -RN, existe para congregar amantes da cultura, apologistas e produtores da arte da palavra.


domingo, 22 de setembro de 2019

GILBERTO CARDOSO LANÇA "UM MAÇO DE CORDEIS"

Fiquei muito feliz com a vinda surpresa do múltiplo artista Francisco Martins, carinhosamente conhecido como Mané Beradeiro. Veio de Natal com este objetivo e decerto muito me emocionou.
Hoje escreveu em seu blog a respeito do evento.
Gratidão! (Gilberto Cardoso dos Santos)


GILBERTO CARDOSO LANÇA "UM MAÇO DE CORDEIS"



Sábado à noite, às 19 h, estive no lançamento do mais recente 
trabalho literário do poeta Gilberto  Cardoso. Foi o lançamento 
do livro de poema em cordel, que tem a marca editorial da 
CJA e o título é: UM MAÇO DE CORDÉIS - LIÇÕES DE GENTE 
E DE BICHOS. O livro faz parte da Série Versos Populares 
que tem também outros volumes. Ainda esta semana estarei 
resenhando o livro e publicando a postagem por aqui. 
Parabenizo o escritor Gilberto Cardoso pela noite de 
autógrafos tão bem organizada no Teatro Municipal Candinha Bezerra, 
na cidade de Santa Cruz/RN.

A CJA acerta na criação desta Série de Versos Populares e pode através dela, 
fazer um belo e grandioso registro de produções do cordel brasileiro, 
principalmente com autores potiguares. Temos muita gente boa neste campo. 
Adriano Bezerra, Hélio Crisanto são alguns que posso citar no momento, 
como poetas que têm qualidade na poema metrificado e rimado.



O autor me perguntou qual foi o cordel que eu mais gostei. Respondo:  
Fabião das Queimadas - o escravo sonhador;  Um Halloween Diferente; 
Sou tudo que representa as coisas do meu sertão. Por enquanto é isso. 
não quero me alongar, pois irei dizer bem mais na resenha.

LER OU NÃO LER: EIS A QUESTÃO (Maria Marcela Freire)



Ler ou não ler: eis a questão

GLO-BO. Essa foi a minha primeira leitura do mundo estampada em uma tampa de uma panela. Havia acabado de pegá-la em minhas mãos a fim de enxugá-la e, de repente, como uma abrir e fechar de olhos, uma das descobertas mais fantástica do ser humano se instaurou naquele instante, naquele click em que meu cérebro conseguiu decodificar, pela primeira vez, o código da leitura e acendeu a luz do conhecimento por meio das letras.
O que fazer depois de tal descoberta, coube a mim e caberá a todo e qualquer leitor decidir continuar ou não decodificando não apenas o código da língua portuguesa, mas também de outras línguas, bem como e, essencialmente, o código de nossas literaturas, o código das mais diversas leituras que o mundo, de forma globalizada, pode nos oferecer por meio das palavras e de imagens.
Portanto, ler ou não ler não é apenas uma questão de empatia com as letras, com as palavras, imagens e situações que nos rodeiam. Diria, particularmente, que é também uma questão de vida ou de morte. De vida porque através da leitura, renovo-me enquanto ser diferenciado, reinstaurando e edificando minha humanidade e dignidade, ressignificando a minha vida e a de outrem; de morte porque não conhecendo a mim nem ao outro por meio da leitura, cairia no meu próprio esquecimento, seria acometida pela cegueira branca brilhantemente revelada por José Saramago em “Ensaios sobre a cegueira”. E, a fim de evitar tal tragédia em minha vida, resolvo compartilhar com você, caro leitor deste blog, o que fiz da minha vida após o descobrimento da minha primeira palavra lida.
Durante a minha infância, nunca tive acesso a livros, nem mesmo a revistas em quadrinhos. No entanto, inconscientemente, sabia o poder da magia das palavras. Ouvia meus irmãos mais velhos lerem e relerem, enquanto faziam as tarefas de casa, o poema de Cecília Meireles “A chácara do Chico Bolacha”. Na época, antiga 3ª série, o que me marcou foi a história do “Sonho de Pisca-Pisca” – D ´Olim Marote, além do poema “O  Menino Azul” – Cecília Meireles.  Esses primeiros textos que tive acesso estavam contidos em  livros didáticos. Por isso destaco a importância da escolha e do uso destes nas escolas, uma vez que o livro didático é, na maioria das vezes, o único livro/suporte textual que a maior parte dos estudantes têm acesso, pelo menos no início de sua vida estudantil. De modo que o livro, sendo um bem cultural, sempre foi e ainda é um “objeto de luxo”, usado por poucos, dado o seu alto valor aquisitivo.
Sempre fui de origem humilde. Meus pais foram agricultores e depois que saíram do campo e foram morar na cidade, passaram a construir uma família baseada em valores religiosos e sociais. Na época em que comecei meus estudos, meus pais eram semianalfabetos. Entretanto, há uma curiosidade quanto a este aspecto. Meu pai, apesar de quase não ler, passou a comprar livros àqueles “vendedores de porta”: era dicionário, enciclopédias, livros científicos e literatura brasileira e internacional. Minha irmã mais velha se esbaldava no mundo da leitura com tais clássicos. Eu ainda era uma leitora em potencial e continuei sendo-a até entrar na faculdade.
Na época da adolescência, dou destaque a algumas obras que, anos mais tarde teriam maior significado para mim se as relesse: “O Seminarista’, “As Pupilas do Senhor Reitor”, “O vermelho e o negro”, “O Guarani”, “O Quinze”...
Na faculdade, o mundo da leitura, por fim, tornou-se amplo e ilimitado. Conheci os cânones, os clássicos e até mesmo a literatura de massa, bem como textos do Padre Fábio de Melo.
Depois da faculdade passei a ter autonomia quanto às minhas leituras. Tive a curiosidade de ler alguns textos bíblicos e fui seduzida pelo “Cântico dos Cânticos”, bem como pelos textos erótico-poéticos de mulheres potiguares, como: Marize Castro, Diva Cunha, Ana de Santana e Maria Maria Gomes.
O feminismo de Simone de Beauvoir e de Frida Kahlo me encantou. A potência reveladora da falta de humanidade dos homens retratada nos textos de Maria Carolina de Jesus e de Stela do Patrocínio deixou-me sem ar. Mas, antes disso, fui fisgada por Saint-Exupéry em seu livro: “O Pequeno Príncipe” e por “Uma professora muito maluquinha” de Ziraldo. Esses dois últimos ocupam um lugar especial em minhas memórias de leitura, pois são os que mais releio e faço releituras deles em meu dia a dia como Ser humano e como Ser Professora, não exatamente nesta ordem nem mesmo cogitando a possibilidade de haver uma desvinculação entre Ser humano e Ser Professora.
Sei que decepcionei o público leitor desta página ao não mencionar Dostoievski, Kafka, Dante ou Homero, entre outros. Não os li, mas conheci suas contribuições para o mundo a partir de outras leituras também tão significantes quanto. Caro leitor, se confissões lhe alegram, confesso que bebi da fonte de outros grandes: Fernando Pessoa, Shakespeare, Ovídio, Nietszche, Walt Whithman, , Khalil Gilbran, André Gide...e, nesse meio tempo ainda me encantei com Pablo Neruda, Octávio Paz, Eduardo Galeano, Florbela Espanca, Mia Couto, Conceição Evaristo, Adélia Prado, Odete Semedo, etc. Por fim, ainda há muitos desejos em realizar diversas leituras, como: “Cem anos de solidão” e “ O amor em tempos de guerra”, de Gabriel Garcia Marquez.
Entretanto, de nada valeriam tais leituras se antes, não tivesse tido o prazer de ser apresentada, pelos meus grandes mestres da faculdade, aos cânones nacionais: Machado de Assis,  Aluísio Azevedo, Manuel Bandeira, Mário de Andrade, Carlos Drummond de Andrade, Mário Quintana, Manoel de Barros, Clarice Lispector, bem como aos “cantores” da minha terra potiguar: José Bezerra Gomes, Luís Carlos Guimarães, Zila Mamede, Câmara Cascudo, Diógenes da Cunha Lima, Iara Maria Carvalho, Antônio Francisco , entre tantos outros já mencionados e que não foram por motivo de dispersão.
 Entre autores e obras, muitas reticências e muitas aprendizagens. Tornei-me além de leitora - de consumidora de tal bem cultural -, pesquisadora de alguns temas, poetisa, declamadora de versos e professora. Por onde passo, meus alunos conhecem essa minha paixão pelas palavras e sabem que ler ou não ler também pode ser uma questão política mas, antes de tudo,  é uma questão de sobrevivência.


Maria Marcela Freire
Graduada em Letras – Língua Portuguesa/Inglesa e suas respectivas Literaturas
Pós graduada em Literatura e Ensino/ História e Cultura Africana e Afro-brasileira
Coordenadora do grupo de poesia: Flores de Cactus


sábado, 21 de setembro de 2019

A feira - Rosemilton Silva


A feira

Quando o dia vai quebrando a barra, o burburinho na feira toma conta da rua Grande com suas barracas de frutas, verduras, legumes, feijão e farinha em cuia, garajau de rapadura, aqui e acolá um saquinho de arroz.
Mas a madrugada não é menos barulhenta com cabeceiros e feirantes se movimentando para deixar tudo em ordem para quando chegarem os primeiros fregueses. Além disso, eles separam as encomendas dos seus fregueses mais abastados e assíduos que não querem chegar cedo mais gostam do melhor e podem pagar por isso.
Tem os meninos do frete que com suas carroças de mão ajudam no carregar as compras fora e dentro do mercado onde estão as carnes, peixes e até verduras. Meninos em que você pode confiar que até pegam as compras e vão deixar com os valores de cada um dos fornecedores trazendo a quantia exata para o pagamento.
Vem gente de todos os cantos. Se vende de tudo. Tamborete, panela, alguidar, pote, jarra, quartinha, fogão, enxada, vassoura, espanador, meizinhas pra tudo que é doença, mané mago, roi roi, peão, borracha de câmara de ar para baladeira, brilhantina, pó Royal, rouge, pente, espelhinho de bolso, sebo de carneiro capado, lambedor.
Cela, arreios, cangalha, cambito, barril, caçuá, cabresto pra cobra, óculos pra calango cego, peinha de fumo pra embebedar cobra, ciscador, pêia pra jumento que foge, máscara pra boi brabo, fucinheira pra dar milho a cavalo, chinelo e cabresto, sandália franciscana com solado de pneu de caminhão.
Gelada, raspadinha, algodão doce, rolete de cana, pirulito, quebra queixo, pão doce com caldo de cana, cantador de viola vendendo cordel e tem até o “Na feira de Santa Cruz, Tem tudo não falta nada”, homem da cobra vendendo óleo do peixe elétrico e puraquê, licor de tudo que é fruta, cueiro pra menino recém vindo ao mundo.
Mas o bom mesmo do mercado é um cego cantador na porta com sua voz lamuriosa para pedir o sustento. Dentro, o cheiro do café torrado na rapadura entra nas nossas narinas num convite irrecusável para acompanhar com um bolo de macaxeira, de batata doce, da moça ou com uma tapioca molhada na graxa do carneiro torrado.
A feira tem seus sons próprios do anúncio das mercadorias. Um grita que a banana não foi amadurecida no carbureto; outro diz que a manga foi colhida no pé; alguém observa que a jaca pode ser mole para comer ou dura para um doce.
A feira é sempre uma festa. É nela que a gente se encontra com os amigos para falar sobre amenidades ou coisas sérias. Em geral a maioria da conversa descamba sempre para a possibilidade de seca ou inverno, coisa que mexe com qualquer feira das cidades do interior.
Tem Pajeta abrindo caminho imitando o barulho do trem, Migué Doido preferindo duas notas de um cruzeiro em vez de uma de cinco, Chiquita naquele seu vestido impecavelmente branco e não aceita resto de comida, Antonio Vicente que rouba frutas e ainda sai cantando loas contra o feirante roubado.
Tem também a bondade de muitos que não se negam a dar parte de seus produtos para aqueles que não podem compra-los até como forma de agradecer pelas vendas e também porque muitos produtos são perecíveis.
É por isso que a gente costuma dizer que a feira tem cheiro e voz. Seus cheiros se misturam como bálsamo para muitos e suas vozes são música para os ouvidos por isso mesmo os moradores da rua Grande nunca reclamam do barulho que começa antes do galo cantar.

sexta-feira, 20 de setembro de 2019

Considerações sobre o lançamento de meu livro:


Considerações sobre o lançamento de meu livro:
1. Sua presença muito me alegrará, independentemente de adquirir ou não a obra. "Alegrem-se comigo", disse a personagem bíblica que encontrou a moeda perdida. Vá, mesmo sem moedas. Quero que divida comigo este momento de felicidade;
2. Não será apenas um lançamento de livro. Teremos apresentações poéticas e musicais de relevância. Quem for, verá;
3. O livro custará 30 reais. Caso queira as 3 obras que compõem a coleção, “Fazemos qualquer negócio”, como diria o personagem Samuel Blaustein;
4. Você não precisa levar dinheiro. Pode levar o cartão e até parcelar as compras;
5. Caso não possa levar dinheiro ou cartão, leve-se e enleve-se conosco no evento.
6. Se quiser adquiri-lo via correio, será sem custos adicionais.


quinta-feira, 19 de setembro de 2019

Vagas Memórias - Maria Goretti Borges


Vagas Memórias

Os espaços que me remetem a memórias de leitura são poucos, porém, significativos. Os causos, contos, registros relatados nas casas que frequentava, poucas, para mim eram bastante atrativos e interessantes. Alguns, guardo comigo até hoje. Curiosa, assim me defino. Sempre gostei de conviver com pessoas mais velhas, principalmente para ouvir histórias.

Lembro-me, com carinho, de uma senhora, Tá Nené, sempre que podia passava tardes com ela, ouvia longas histórias de pessoas que não conhecia. Herotildes, esse nome ficou registrado na minha memória de tanto que Tá Nené falava. Essa pessoa, nunca vi e nunca verei. Os contadores de histórias foram e são os primeiros livros a que temos acesso, e para muitos os únicos. São também, sem sombra de dúvida, a mais importante biblioteca, pois chega a todos, indistintamente. Podemos associar a biblioteca virtual dos nossos dias aos contadores de história de outrora. Os pais e professores continuam as suas missões apesar do advento da internet ou aliados a ela. Esses personagens são muito importantes, são responsáveis diretos pela propagação e interesse pela leitura.

A música também despertava em mim um grande interesse. Sempre que ouvia uma música procurava saber o significado das palavras. Ex.: Álibi (1979), composição de Djavan. “quando se tem o álibi de ter nascido ávido e convivido inválido mesmo sem ter havido...”;  outro exemplo: Qualquer Coisa (1975) composição de Caetano Veloso. “você já está pra lá de Marrakesh... nem a sanha arranha o carro nem o sarro arranha a Espanha meça tamanha...”. Sempre gostei das entrelinhas, do “jogo do esconde”, da busca, da descoberta. A obviedade cansa rápido e a transparência ofusca a beleza, artisticamente falando. Quando adolescente, gostei de uns versos do livro de Menotti Del Picchia. “ Ai! Coqueiro de mato! Ai! Coqueiro de mato! Em vão tentas os céus escalar na investida... Tua sorte é tal qual a de Juca Mulato... Ai! Tu sempre serás um coqueiro de mata... Ai! Eu sempre serei infeliz nessa vida!”. O Juca sempre sonhando e ao mesmo tempo se conformando com as situações. Uma alma sensível lê a natureza fazendo um paralelo consigo mesmo. No caso de Juca Mulato, contrariando alguns pensadores, nem todo sonho é possível. O que de forma alguma tira a beleza do sonho! O reconhecimento de Juca Mulato das condições que lhes eram impostas não o proibiam de sonhar e ao mesmo tempo de ser realista. Pensando bem, somos todos Juca Mulato!

Gosto da literatura oriental, histórias muito tocantes, bastidores da vida humana, o avesso da alma. No que se refere à literatura oriental, destaque-se, em particular, as mulheres descritas. Em A Cidade do Sol o escritor Khaled Hosseini entrelaça a história de dois personagens, Mariam e Laila num enredo emocionante, de ir às lágrimas. Falar de Dostoiévski, é redundância. Voltando para o início da conversa, posso afirmar que a referência mais importante que tive quanto à leitura foi a minha mãe, principalmente por valorizar a educação formal. Lembro-me dos folhetos de cordel que ela lia para mim. Exemplo: Lourival e Irene; Valdemar e Terezinha... dentre outros. Histórias de amor, porém, com finais tristes. O diferencial era João Grilo, que nos levava a gargalhadas! Quando criança fazia algumas chantagens, tipo: só faço ou permito isso se você contar histórias. Coitada, já não tinha mais como inventar tantas histórias! Gostaria de ter sofrido maiores influências e incentivo à leitura, no entanto, o meu meio familiar não dispunha  de uma boa educação formal.

Moacyr Scliar, numa de suas entrevistas fez a seguinte afirmação: o maior legado deixado para a humanidade, foi um feito do seu povo (judeu). Que foi exatamente um livro, a Bíblia Sagrada. Assim como Moacyr Scliar, tantos outros concordam que os livros são os maiores legados de um povo, a luz da humanidade! Meu primeiro acesso direto aos livros se deu no ano de 1972, quando ingressei na escola, aos oito anos de idade. Minha formação escolar foi sempre precária, com lacunas e, consequentemente a minha formação leitora. O livro é sempre uma boa companhia, espero continuar me apaixonando pelas histórias e ampliando esses espaços em mim.   



"por que não enterramos o cão?" - theo g. alves (Conto vencedor do Prêmio Ignácio de Loyola Brandão)



por que não enterramos o cão? 
- theo g. alves

quatorze foram os anos em que ela esteve em nossa companhia. nos últimos meses, o peso de seu corpo parecia maior que a disposição de suas patas e deitava-se por toneladas sob a goiabeira. a coleira e a corrente a limitarem-lhe os movimentos e o sol a castigá-la sobre o pelo. deixou-se morrer mais do que morreu. cansou-se e foi parando de funcionar aos poucos, como um relógio a definhar cada vez mais lentamente às últimas voltas da corda. não se levantou mais. e só descobrimos sua morte após dois ou três dias, a julgar pelo cheiro e pelas moscas que se começavam a juntar. quatorze anos findos sem dignidade. ao menos, arrefecia-me o peso da culpa pensar que os cães não se importam com dignidade e a vida divide-se em estar vivo ou não. invejo os cães que vivem sem arrastar o peso do passado e sem antecipar a apneia do futuro. depois de quatorze anos, o cão estava morto e isso era tudo. o vizinho encarregou-se de levá-la até a ponte e deve tê-la lançado de cima para o matagal e a pouca água que por debaixo dela corria. depois de quatorze anos, o cão estava morto e não lhe demos minimamente um enterro. a coleira continuava presa ao pé-de-goiaba que já não dava frutos. haveria morrido com o cão? no entanto, esta não era a pergunta. não é ainda o que me pergunto. mas por que não enterramos o cão?
por que não enterramos o cão?
empurro a ossatura do hipopótamo sonolento sobre a cama até que ele esteja de pé, mesmo ainda pouco firme e nada consciente. conduzo-o até o chuveiro, mas sua pele parece impermeável, grossa e bruta como remendos em uma lona de caminhão. os comprimidos ainda não acordaram o animal, que se veste lenta e pesarosamente como quem se apronta para o enterro do pai. desce as escadas lentamente, cansado, sufocado pela tira gasta de sua coleira e o peso das correntes que o atavam ao pé-de-goiaba, sob o sol escaldante de uma cidade feita só de limites e memórias, mais pesada e cansada que o hipopótamo atado.
por que não enterramos o cão?
terá o lodo corroído seus pelos/plumas? terá o cão se tornado rio, como em joão cabral? quanto do capim elefante nascido sob a ponte acima de rio nenhum terá seu húmus? depois que a jogaram de lá, não houve mais cheias e o rio nunca mais lambeu a sola dos pés da ponte. por que não enterramos o cão? por que a lançamos sobre a terra e não abaixo dela? por que não alimentamos as raízes de gerânios e grama com o resto de sua carne, com o cálcio desfeito de seus ossos? depois de tanto tempo, por que ainda há um cão a enterrar?
por que não enterramos o cão?
pendurados às paredes como enforcados em árvores, os relógios estrebucham em quase-silêncio. a ampulheta inane não compreende mais seu ofício e tudo está parado. o hipopótamo corpulento enforcado em sua coleira, amarrado à fonte das goiabas com que minha avó nos alimentava. as vozes soam ao redor do corpo. todos dizem coisas interessantes e engraçadas, frívolas, porque a vida não requer mais que isso se inventada publicamente. o relógio continua parado e ninguém se importa. o hipopótamo cinzento ergue-se e arrasta as correntes lentamente de volta para casa. guia com dificuldade e suas imensas mãos anfíbias o carro, como se vestisse uma armadura intransponível feita toda de ira e vazio. percebe que os relógios voltaram a acelerar o dia. talvez chegue em casa à hora de retornar. a ampulheta quer retomar o dia perdido e corre. trespassa as árvores e os cães de rua, que seguem lentos e magros sobre a terra. não haverá tempo. logo será hora de retornar e as ruas estarão mortas mais uma vez, como o hipopótamo que se arrasta com a corrente ao pescoço, preso ao pé-de-goiaba. os cães ainda estarão soltos às ruas? o meu cão não estará, por certo. imagino agora seus ossos a darem musgo e ramos de capim. queria dizer que dariam folhas de relva, para achar no abandono a poesia de whitman. não direi. porque não enterramos o cão. por que não enterramos o cão?
a alegria de sua companhia e a disposição de sua guarda nos serviu sempre. repetia a ela as palavras novas que aprendia pelo pequeno mundo que me cercava e ela abanava a cauda para me saudar numa oferenda táctil à minha pequena e recém-descoberta solidão. ela deitava-se ao pé de mim e acompanhava as primeiras leituras em que eu ainda claudicava até os primeiros deslumbramentos dos livros mais pesados. eu ainda não sabia de mortes, exatamente. no entanto, eu sabia que deveríamos tê-la enterrado: fiz silêncio, apenas. devo ter ousado perguntar por que não enterramos o cão, mas aceitei o silêncio das respostas. assisti quieto e pesaroso às imensas mãos do homem colocar o cão breve no saco de estopa. pus-me a rezar, porque ainda não sabia que isso valia tão pouco. só precisávamos ter enterrado o cão. por que não o enterramos.
por que não enterramos o cão?
os pássaros alimentam-se do que os parasitas deixaram incrustado ao couro do bicho. os parasitas roem lentamente o dia e sua imundície. o hipopótamo rumina o silêncio de seu caos, de sua casa, de seus traçados. a lama em que chafurda não permite que se mova. não chafurda, afunda-se. sonha com o silêncio das palavras, deseja que nenhuma voz se ouça enquanto a noite escorre por suas patas muito pesadas. arqueja, respira pesadamente e sofre. a couraça feita de aço e musgo é um artifício mentiroso de sua proteção: é frágil como o filhote de um pássaro, como um boi feito de vidro e dobradiças. cruza a ponte, as mãos pesadas sobre o volante, e assiste ao homem grande arrastar um saco em que deve estar o cão quatorze anos atrás. desacelera. passa lentamente pelo coveiro de outro tempo e não compreende porque não enterramos o cão.
por que não enterramos o cão?
o cão está morto outra vez.
o trinado do despertador violenta o sono malcozido. o hipopótamo imenso põe-se a arrumar o dia, corre, engole o café magro e asseia-se parcamente, com o relógio a gritar-lhe pressa. já no carro, o homem de voz bonita anuncia as horas e o dia pelo rádio. é domingo. é domingo, ele pensa, mas que diferença faz? que diferença faz, ele repete, e lembra-se do cão, lembra-se que não o enterraram. muda bruscamente de direção, porque hoje ele botará a ponte abaixo, a qualquer custo: sob os escombros restarão os dentes e ossos de todos os cães do mundo que foram deixados ali: suas almas e pelos brotarão finalmente sob o concreto da ponte, sob a quentura dos anos passados e, ao fim do dia, o cão estará enterrado. finalmente.




SOBRE O AUTOR

theo g. alves é poeta, contista e fotógrafo. nasceu em dezembro de 1980, em natal – rn, mas é radicado em currais novos, cidade do mesmo estado. publicou os livros artesanais “loa de pedra” (poesia) e “a casa miúda” (contos), além de ter participado das coletâneas “tamborete” (poesia) e “triacanto: trilogia da dor e outras mazelas” (contos). em 2009, lançou o “pequeno manual prático de coisas inúteis” (poesia e contos); em 2015, “a máquina de avessar os dias” (poesia), ambos pela editora flor do sal.
Veja também:

Entrevista com o escritor theo alves - Apoesc


segunda-feira, 16 de setembro de 2019

PELOS CAMINHOS PRAZEROSOS DA LEITURA: TESSITURAS - Francisca Joseni dos Santos



PELOS CAMINHOS PRAZEROSOS DA LEITURA: TESSITURAS

Francisca Joseni dos Santos
Pedagoga e Psicopedagoga


Eis que fui instigada pelo amigo poeta Gilberto Cardoso para escrever sobre minhas memórias literárias. Relutei. Depois fiquei pensando sobre as diversas formas de escrevê-las. Confesso que comecei escrevendo uma onde elencava a minha trajetória pessoal e profissional interligada às leituras que permearam minha vida, no entanto, achei um texto chato e enfadonho.

Pensei em fazer um texto técnico, desisti também, optei então pelo texto livre das amarras impostas pelo cunho acadêmico e que segue os ditames da famosa e temerária ABNT – Associação Brasileira das Normas Técnicas. Feito esta escolha, optei também em ressaltar as minhas leituras para puro deleite.

Fiz muitas leituras técnicas ao longo da minha vida acadêmica e profissional. Fiz o curso de Pedagogia (graduação) e pós-graduação em Psicopedagogia e em Gestão Escolar, trabalhei 32 anos em escola, tempos alternados entre sala de aula, coordenação pedagógica e gestão, então há de convir que o contexto de leituras técnica é muito amplo, vasto e serviram de alicerce e de arcabouço para que eu faça a minha leitura de mundo mesmo considerando que “a leitura do mundo precede a leitura da palavra” como afirmou Paulo Freire em A Importância do Ato de Ler (1988).

Fui alfabetizada aos 4 anos de idade, pois tive o privilégio de ter na minha casa uma Escola Isolada (Sítio Ipueira – São Bento do Trairi – RN). Eu era o desassossego da turma, não deixava a professora e os alunos quietos, subia na mesa, pegava os lápis e demais apetrechos dos alunos e atrapalhava bastante o desenvolvimento das aulas. Meu pai vendo tal situação achou por bem comprar material escolar pra mim e de posse deste rico material a paz reinou no local, fiquei quietinha e logo fui alfabetizada.

Como nasci em 1965 as lembranças de tempos difíceis de seca e de dificuldades para viver no meio rural são bastante fortes dentro de mim, no entanto, tenho lembranças memoráveis sobre a vivência com os meus tios, primos e com os meus avós, em especial, a minha avó paterna (Vó Maria Vital) que me inseriu no contexto maravilhoso de contação de histórias.

Era comum Vó Maria reunir os netos ao seu redor para à boquinha da noite, sentada no chão com seu cachimbo de fumo debulhar suas maravilhosas histórias de trancoso, assombração, de princesa e príncipes, e de “Camonge”.

Tive o privilégio de conviver com uma contadora de histórias nata na minha infância e em parte da minha adolescência, adorava estes momentos apesar de muitas das vezes ficar com medo de dormir com as histórias de assombrações que ela tão sabiamente nos contava. Estes momentos fazem parte do arquivo especial das minhas memórias.

Então a leitura e o universo mágico de contação de histórias se fez presente na minha vida muito cedo, embora tivesse dificuldades em ter acesso aos diversos portadores de textos, e estas dificuldades estivessem ligadas as questões financeiras, a disponibilidade de material à venda; pouca variedade, entre outros.

Sem ser saudosista ouso dizer que tempos atrás não tínhamos as facilidades que temos hoje para ter acesso à leitura. Os tempos são outros (graças a Deus!). De acordo com as condições financeiras pessoais podemos adquirir revistas, livros físicos, livros digitais, e também podemos ler nos tablets e smartphone de forma grátis além de adquirir livros e revistas em sebos por um preço bem mais barato.

Na minha infância e adolescência não tínhamos estas facilidades e nem tampouco condições financeiras para adquirir portadores textuais. Mas isto não foi impedimento para que eu cultivasse o hábito pela leitura.

Lia livros emprestados de amigas que tinham poder aquisitivo para comprá-los, frequentava as bibliotecas públicas existentes em Santa Cruz. Li praticamente toda a literatura clássica brasileira tomando livros emprestados na Biblioteca Municipal, bem como li muitos livros da Biblioteca Monsenhor Emerson Negreiros da E. Estadual Prof. Ribeiro. Além dos empréstimos de livros para leitura de deleite e era nestas bibliotecas que eu realizava, quando necessário se fazia, as pesquisas na famosa Enciclopédia Barsa, o equivalente ao google de hoje, e em outros livros e enciclopédias.

Faço parte da turma que para ingressar na 5ª série ginasial precisava prestar o Exame de Admissão, embora que depois de fazê-lo e ser aprovada, saiu uma determinação para que todos fossem matriculados independentemente do resultado alcançado.

Para fazermos este exame precisávamos estudar num livro grosso de capa verde e que continha umas quatro disciplinas chamado “Preparatório”, pois bem minha mãe que era costureira colocava-me na frente dela numa cadeira de balanço para estudar neste bendito livro. Olha o que eu fazia, na época existia uma revista chamada “Love Story” que tratava de assuntos voltados para adolescentes e dentro dela vinham 5 contos. O formato dela correspondia ao formato do já citado livro.

Eu me sentava seríssima diante da minha mãe colocava a revista dentro do livro e ia ler estes contos. No dia do concurso me deu uma crise de consciência tão grande que você nem imagina, mas consegui passar em 4º lugar.

Trabalhei uns 5 anos no comércio local e o dono do estabelecimento comprava revistas usadas para embalar as barras de sabão, eu separava os exemplares para ler, tomava emprestado estas revistas, sem contar que chateava as pessoas que tinham condições de comprar revistas pedindo-as emprestadas.

Talvez por gostar tanto de ler e de ter tido dificuldades para ler no período da minha infância e da adolescência e parte da vida adulta hoje eu compro muitos livros e não faço questão de emprestá-los.
Sempre tenho livros que não consegui ler, ainda. E, sempre tenho livros espalhados pelo “mei do mundo”. Sem medo de ser feliz.

Faço questão de ressaltar que os meus pais sempre se esforçaram para comprar os livros didáticos para mim e minhas irmãs, nunca mediram esforços. Nunca tivemos dificuldades neste sentido. Eles sempre valorizaram a educação. Viam através do acesso a educação nossa melhoria de vida.

Li muito. De Cassandra Rios a Jorge Amado. De Zélia Gattai a Antonio Callado. De Gabriel Garcia Marques a Jojo Moyes. De George Martim a Monteiro Lobato. De Antoine de Saint Exupéry a Padre Fábio de Melo. De Patativa do Assaré a Hugo Tavares Dutra. Não posso deixar de citar as revistas em quadrinhos, os famosos gibis, li de Walt Disney e Mauricio de Souza a Antonieto Pereira. Li diversos gêneros textuais. Como era difícil a aquisição de livros e revistas, eu lia o que aparecia. Sem preconceito. Uns eu escondia para que a minha mãe não visse. 

Li os clássicos da literatura infanto-juvenil mundial. Li-os por puro deleite e também por dever profissional. Li muitos autores regionais, Câmara Cascudo, Marcos Cavalcanti, Gilberto Cardoso, Rosemilton Silva, Adélia Costa, Jeanne Araújo, Nailson Costa, Salizete Freire Soares, Jair Eloi de Souza, Hermano Amorim, Chagas Lourenço, Alessandro Nóbrega, entre outros escritores do RN.

Não sei baseado em que teoria era comum no meu entorno acreditar-se de que as pessoas que estudavam muito e liam muito poderiam perder o juízo, tal mito era ilustrado com diversos exemplos de pessoas que tinham ficado “loucas” por estudarem ou lerem demais. E este mito fazia com que a minha mãe desligasse as luzes de casa e me proibisse de ler até altas horas. Como a casa na qual morávamos era enorme eu pegava uma vela ia para a cozinha e ficava lendo a luz de velas. Fiz muito isto. Não enlouqueci.

Lembro-me das revistas de fotonovelas em preto e branco, semelhantes aos gibis, o mesmo formato editorial. Depois veio as fotonovelas coloridas, uma verdadeira revolução, um deleite para os olhos. Lia os livros de Barbara Cartland publicados pelas Edições de ouro em formato de livro de bolso, depois as edições da Harlequim (Sabrina, Julia, Bianca). Revistas Tex. Sim, li muitas revistas TEx. Li também uns livros de faroeste que vinham em formato pocket. Eram leituras maravilhosas, eu fazia viagens estupendas pelo mundo do Texas. Como diria a contemporânea cantora de funk era “tiro, porrada e bomba”.

Também li muitos cordéis. Por dominar a leitura era costume ler cordéis para as pessoas da família quando nos reuníamos. Adentrávamos nas sagas nordestinas  e no mundo romanesco presente nos escritos dos expoentes desta literatura.

A leitura me proporcionou e me possibilita viagens incríveis.

Ainda hoje continuo diversificando a minha leitura. Leio jornais, revistas, encartes, bulas, textos na internet, aliás, tudo o que publico na página do meu facebook, eu leio.

No momento estou com diversos títulos de autores contemporâneos para ler, estou de licença prêmio do meu trabalho, portanto, com tempo livre para me dedicar a leitura e, elegi como prioridade, leituras de romances leves da editora Harlequim. Sempre estou visitando os sebos aqui em Natal e adquirindo novos exemplares.

Meu sonho de consumo é fazer uma releitura dos clássicos da literatura brasileira. Um dia eu farei. Terei um novo olhar sobre estes grandes escritos do acervo bibliográfico brasileiro.
Considero ler uma das coisas mais gostosas da vida.

Inclusive defendo que a leitura deve ser incentivada e não obrigatória; tenho um filho de 12 anos que adora ler gibis, mangás, literatura de ficção científica e Júlio Verne, Harry Porter, entre outros. Nunca o obriguei a ler um livro. O processo pelo gosto de ler foi natural, possivelmente me viu como exemplo e está incentivando o pai a ler.

Leiam. Leiam sempre. Leiam por prazer. Leiam por necessidade. Leiam romance, poesia, cordéis, revistas, artigos científicos, ficção, novelas, artigos informativos, textos de autoajuda, autores contemporâneos, autores clássicos, leiam. Leiam o que lhes convier. Afinal, a leitura nos proporciona viagens inimagináveis.





Natal(RN), 15 de setembro de 2019

AS TORMENTAS DO SENHOR CAPITÃO


AS TORMENTAS DO SENHOR CAPITÃO

No exato momento em que ele transpôs a rampa do palácio de vidro para brindar um copo de café com a turba alvoroçada no primeiro boteco da esquina, souberam que o povo estava no poder, não por quaisquer adivinhações cósmicas e conspirações das américas, mas pela faixa verde-amarela que ele exibia tal qual uma rainha de baile.
E foi assim, com sua duvidosa majestade metida numa camiseta surrada e num chinelão de dedo, que arrancou aplausos de todas as gentes, continências de todos os generais, reverências dos presidentes de todos os países reais ou imaginários e benzeduras dos papas de todas as religiões da terra e do céu.
Prometeu ali que, sob o risco da sua caneta, redesenharia fronteiras, provocaria a abjuração dos sábios e doutores de todas as ciências, alteraria os alfarrábios das leis irrevogáveis, desnudaria os juristas mais togados e mandaria à puta que os pariu os que se interpusessem ao risco providencial da sua trajetória.
E foi assim que, na sua odisseia delirante, ordenou que fuzilassem os comunistas, incréus de deus; que queimassem os índios cujo deus é outro; e estraçalhassem os bandidos, viados e drogados, sobre os quais o deus verdadeiro não confere importância.
E quando, na escuridão da noite no centro do mundo, ouvirem da suíte presidencial os gritos delirantes, deixem logo a postos a Guarda Nacional, acordem o ministro da justiça e despertem os Dragões da Independência, pois que os comunistas lhe puseram uma lingerie vermelha no lugar da faixa da pátria e trocaram-lhe as armas de grosso calibre por batons e beijos carmins. E cuidem!! Que no estrangeiro esses inimigos da ordem já destruíram muitas pátrias, famílias e propriedades e agora querem destroçar a paz presidencial.
Logo eu, que fui o escolhido para seguir os passos do outro messias, como ele também tive o meu ventre perfurado por aquele Longinus insano e providencial, como ele segui a mesma sina de andarilho por essa terra em que judas perdeu as botas. E agora não me venham desenterrar esses fantasmas que afoguei com a minha dor, nem venham corromper a força, o tamanho e a potencia da minha caneta crepuscular.
E se a merda dos números da inflação teimarem em subir, o poder da minha pena há de devolvê-los a sua insignificância; e se preciso for substituam o substituto do substituto até que as estatísticas oficiais sejam apenas aquelas que invento. Pois a minha missão é criar um país sem pobre, nem que para isso seja necessário mata-los de raiva, de fome e de susto de bala; que o meu desígnio é a destonar a corrupção, nem que precise furar os olhos da lei, porque eu não tenho vocação para banana, nem fui eleito para ser a rainha da Inglaterra.
E, quando for propício, desviem os terremotos, tsunamis e cometas e os redirecionem para as terras e os céus de Cuba e da Nicarágua, onde a única coisa que prospera é o ateísmo. Eles estão confabulados com os demônios, que não respeitam credenciais de autoridade constituída e invadem o mundo com seus pijamas vermelhos escatológicos, foices, martelos e outros instrumentos impróprios para assim profanarem os vasos sagrados com as promessas do paraíso.
E aprontem as fogueiras para o churrasco, e que a comida seja na largura da boca; mas aproveitem as chamas para queimarem os livros dos hereges desiludidos, os alfarrábios dos cientistas equivocados e os baralhos dos sábios erráticos, cujo evangelho está escrito na língua do passado. Só assim a terrível paz de deus será estabelecida.
Aproveita e queima também esses sorrisos insanos desse povo que finge que ama, que finge que rir e finge que goza, porque isso só pode ser coisa do demo, de drogado, de puta e vagabundo.
E, enfim, quando chegar a era das incertezas com as suas ruidosas multidões, eu estarei vigilante, com meu fuzil de mira automática, protegendo os lares dos homens de bem, estarei nos outdoors promocionais, estarei marchando com Jesus no seu exercito da vingança e da redenção.
E em todos os alto-falantes do país irão repetir que o Estado Sou Eu, e estarei onipresente em todas as vagas de estacionamento, nas matérias da escola, nos labirintos da cabeça e nos calabouços da alma. E de lá vou governar o mundo, estender as leis da pátria, endurecer a ordem e os costumes e regular os esfíncter para que o progresso campeie e os tempos não voltem jamais.
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*Esse texto foi livremente inspirado no livro de Gabriel Garcia Marquez, publicado em 1975, ¨O Outono do Patriarca¨, na qual traça uma belíssima caricatura das ditaduras que á época prosperavam na América Latina. Essa foi a única inspiração.

domingo, 15 de setembro de 2019

MEUS LIVROS, MINHA VIDA - Nelson Almeida


Meus livros, minha vida
Meus pais nasceram na Paraíba, sendo minha mãe de Araruna e meu pai de Solânea. Eles migraram para o Rio Grande do Norte ainda muito jovens e cá vivem há mais de cinquenta anos. Meus pais já moravam na pequena e acolhedora cidade de Barcelona/RN quando, em 12 de abril de 1981, eu nasci no hospital da cidade de São Paulo do Potengi.
Minha infância foi difícil qual infância de qualquer menino pobre. Mas meu pai se orgulha em dizer que seus filhos jamais passaram fome e que todos estudaram. A bem da verdade, meus pais são analfabetos, mas sempre nos incentivou a estudar. Meus irmãos e eu frequentamos a escola e tivemos uma razoável educação formal.
Eu recebia lições de Língua Portuguesa e Matemática em casa. Estas lições ficavam sob a responsabilidade de minha irmã mais velha e meu irmão do meio, respectivamente. Apesar das dificuldades, e das agruras que a vida em si nos impõe a todos, eu tive uma infância feliz. Amigos verdadeiros, banhos de rio, aventuras na mata que circundava minha casa – muito embora em minha imaginação eu estivesse desbravando o mundo. A pequena mata se transformava numa imensa e perigosa floresta. A floresta mais selvagem do mundo, pensava eu.
Cresci ouvindo literatura de cordel em minha casa. Tarefa atribuída, mais uma dentre tantas, à minha irmã mais velha. Papai criou uma regra muito interessante, todas as segundas-feiras à noite nos reuníamos após o jantar e assistíamos minha irmã ler e interpretar algum cordel. Ouvíamos os grandes cordelistas da Paraíba, tais como Apolônio Alves dos Santos e sua Maria cara de pau e o Príncipe Gregoriano, Chico Pedrosa, autor de O erro da vendedora, Meu sertão é assim, Filosofia de Cabôco. Havia também o grande cordelista cearense Aderaldo Ferreira Araújo – vulgo Cego Aderaldo – dentre tantos outros cordelistas geniais cujas obras são vastas e agora me custa recordá-las todas.
Aos dez anos de idade tive o meu primeiro contato com o famoso livro do poeta, também paraibano, Augusto dos Anjos. Este poeta publicou um único livro cuja primeira versão foi intitulada Eu. Em 1919 Órris Soares, amigo do profícuo poeta, organizou e ajudou na publicação do livro Eu e outras poesias. Trata-se de uma reedição do primeiro e único livro de Augusto dos Anjos no qual foram acrescidos poemas inéditos.
Foi nesta reedição do livro de Augusto dos Anjos que me deleitei em suas lindas e cortantes palavras. Psicologia de um vencido foi o primeiro poema dele que eu li. Confesso não ter entendido quase nada. Mas os últimos versos desse poema produziram em mim um efeito incrível. Fiquei extasiado ao ler:
Já o verme – este operário das ruínas –
Que o sangue podre das carnificinas
Come, e à vida em geral declara guerra,

Anda a espreitar meus olhos para roê-los,
E há de deixar-me apenas os cabelos,
Na frialdade inorgânica da terra!

                Senti meu corpo inteiro se arrepiar. Anos depois, já na fase adulta, eu compreenderia que, em linhas gerais, a arte não deve ser explicada. Bastando somente sentir a sua essência. Eu senti tudo isso naquela tarde ensolarada. Levei alguns anos para começar a compreender Augusto dos Anjos. Isso porque sua poesia nos remete a inúmeras outras leituras e pesquisas. Pesquisas filosóficas, literárias, científicas... É preciso viver além de uma vida para descortinar este autor e perceber a sua grandiosidade.
                Aos dezesseis anos de idade tomei conhecimento das obras de Gregório de Matos. Seus poemas satíricos, sacros e até mesmo os seus poemas eróticos me deram uma versão mais madura dessa difícil fase hormonal chamada adolescência. Ainda no universo do barroco li Padre Antônio Vieira.
                Poucos anos depois Cruz e Sousa me ensinou que através da escrita é possível libertar-se de qualquer prisão. Já adulto e cursando Física, passei a compreender melhor outros autores clássicos já lidos e estudados durante o ensino médio. São eles Machado de Assis, Eça de Queiroz, Fernando Pessoa, Manuel Bandeira. Sem jamais me esquecer de Guimarães Rosa – que até hoje luto e tento compreendê-lo –, e tantos outros.
                A literatura russa causa em mim grande fascínio. Fiódor Dostoiévski, Liev Tolstói, Nicolai Gógol, Alexandre Pushkin são geniais. Livros como Guerra e Paz, Humilhados e Ofendidos, Memórias da Casa dos Mortos, Crime e Castigo, A filha do Capitão, The Queen of Spades, The Tale of the Fisherman and the fish, me moldaram como leitor e espectador da vida.
                Hoje em dia sou um apaixonado pela leitura. Não consigo deixar de ler um único dia sequer. Tenho relido Humilhados e Ofendidos, uma obra magistral de Dostoiévski, e lido paralelamente The Institute o mais recente livro de Stephen King.
                Você pode até se perguntar como eu estou a fazer leituras paralelas e tão distintas uma da outra, ou como me dedico tanto à leitura, pois leciono física há mais de 16 anos e a vida de professor exige, quase sempre, múltiplas jornadas de trabalho. Acreditem em mim quando vos digo que a resposta é bastante simples. Amo livros, adoro ler. Também digo que Física, Matemática, Química, bem como outras manifestações do conhecimento humano passam pelo mesmo filtro singular, a linguagem. É tudo linguagem, afinal.
                Tenho apreciado outros autores, Fernando Sabino, José Saramago, João Ubaldo Ribeiro, Charles Baudelaire, Arthur Rimbaud. Também tenho lido bastante Stephen King, Edgar Allan Poe, Arthur Conan Doyle e Agatha Christie. Sempre me divido entre, no mínimo, dois autores; entre duas leituras.
                Comecei a escrever há mais ou menos 6 anos e já publiquei dois livros. O primeiro é um livro de poemas intitulado Poucas Palavras, o segundo livro é destinado aos que se preparam para a Olimpíada Brasileira de Física das Escolas Públicas (OBFEP). Tenho mais quatro livros já escritos e ainda não publicados. Estou escrevendo outros dois livros de poemas, sendo um deles em Inglês.
                Acredito que o gosto por escrever tenha sido consequência do amor que tenho pelos livros e pela leitura. Porém, a motivação para iniciar tal aventura se deveu a um momento muito difícil em minha vida. Quando nuvens negras e pesadas pairavam sobre mim, encontrei o livro Escrever Para não Enlouquecer do escritor Charles Bukowski. Nunca mais parei de escrever.
                Não quero aqui, com estas palavras singelas, parecer um pedante. Tampouco dizer a todos que sou um ávido leitor. Não, claro que não! Quem pensa assim incorre em grande engano. Quero brevemente dizer-lhes que os livros transformaram a minha vida para melhor e com certeza farão o mesmo com a sua vida.


Natal, 15 de setembro de 2019.



Natal, 15 de setembro de 2019.