APOESC (Associação de Poetas Escritores Simpatizantes e Colaboradores)

A APOESC (Associação de Poetas Escritores Simpatizantes e Colaboradores), criada em 03.2010 em Santa Cruz -RN, existe para congregar amantes da cultura, apologistas e produtores da arte da palavra.


quinta-feira, 30 de julho de 2015

ENTREVISTA COM O ESCRITOR THEO ALVES


Entrevista com Theo Alves

GCS: Theo, comecemos este bate-papo com você nos falando sobre suas origens, formação e trabalho.

TA: Nasci em Natal, embora tenha poucas lembranças de lá. Cresci em Currais Novos e essa é a cidade que me dá uma noção mais próxima de casa, de lar. Gosto de muitos lugares, mas só sei morar em Currais Novos. Sou filho único, sem pai, criado por minha avó, que foi meu esteio e que ergueu todos os pilares sobre os quais construí o que aprendi e o que acredito. Fui um menino de poucos amigos e de algumas alegrias. Não foram muitas, mas foram suficientes.
Embora minha área de formação acadêmica seja Letras, fui um aluno indisciplinado academicamente.
Hoje sou servidor público e atuo como Coordenador de Extensão no IFRN Currais Novos. Continuo lecionando literatura e língua inglesa, duas coisas que me divertem mais do que me dão trabalho.

GCS: Desde quando passou a se interessar por literatura e em particular pela poesia?

TA: Entrei na Literatura pela porta da poesia. Foi uma entrada pretensiosa ainda que não planejada.  Quando nos mudamos para a casa de uma tia que havia deixado a cidade – eu tinha por volta dos oito anos – encontrei uma caixa de livros que ela não levou. Entre eles estava o Espumas Flutuantes, de Castro Alves. Eu me encantei pelo livro, ainda que entendesse muito pouco dele. Gostava da sonoridade, das combinações de palavras e sentia uma elegância ali, algo que fazia da palavra um universo maior do que eu podia prever.

GCS: Fale-nos dos seus escritores preferidos, prosadores e poetas.

TA: a lista é enorme. Sempre li muito melhor do que escrevi. Mas para citar alguns, tenho de começar por André Gide e Jorge Luis Borges, Juan Rulfo, Fernando Pessoa e Manoel de Barros, Jonathan Safran Foer, Kafka, Zvi Kolitz, Gabriel Garcia Marquez, Machado de Assis, José Gomes Ferreira e Vicente Franz Cecim. São alguns. A lista é muito maior, muito maior.

GCS: Qual o papel e importância da leitura em sua vida?

TA: a literatura é o que permite que eu não me afogue, que não me consuma de dentro para fora. É através da literatura que eu encontro um caminho entre mim e o mundo. Mas não é algo apenas pessoal, é também estético, é minha maneira de contribuir com o mundo,

GCS: O que é poesia, Theo, e qual a importância dela para o mundo? Seria dispensável?

TA: eu vou repetir o José Gomes Ferreira, poeta português que adoro: a poesia são os nervos do entulho. O poema não tem utilidade prática. Quem tem isso é o alicate, o botão liga/desliga. A poesia tem existência. Ela não precisa de utilidade prática. Aliás, eu nem sei que paranoia da praticidade é essa em que a gente vive. O poema serve pra ser poema, pra gente pensar, sentir, entender as questões enormes da vida, que podem ir de temas como a morte, a vida, o amor, deus ou outras coisas igualmente grandiosas, como besouros, lodo e poeira. Se um poema nos enternece, nos comove, nos tira da maquinaria objetiva dos dias, esse poema cumpriu seu papel.

GCS: Que livros nos recomendaria?

TA: eu prefiro começar dizendo o que não recomendo: qualquer um das famosas listas de “10 mais”... esses livros não valem a pena. Saber ler e ler essas coisas, é como ser um cozinheiro talentoso e se limitar a cozinhar batata e fazer arroz. É importante ler os bons, os melhores: Cervantes construiu em Dom Quixote um anti-herói imortal. Esse herói sobrevive há séculos e isso não pode ser á toa. É preciso ler A Metamorfose, do Kafka; o Poema Sujo, do Gullar; Memórias Póstumas de Brás Cubas, do Machado de Assis; Crime e Castigo, do Dostoievski. Na poesia, é sempre bom começar por Drummond e Pessoa. Acho que deve-se ler poesia potiguar também: Adriano de Sousa, Márcio de Lima Dantas, Iara Carvalho, Wescley J. Gama, Tatiana Morais,Antonio Fabiano, Paulo de Tarso Correia de Melo, Marize Castro, Risolete Fernandes, e tanta gente boa.

GCS: Quando começou a escrever e se sentiu verdadeiramente um poeta? Fale-nos do seu primeiro livro publicado.

TA: Até hoje não sei se me sinto um poeta. Acho bonito as pessoas me chamarem assim, embora às vezes me constranja, porque costuma estar associado ao “título” de poeta a imagem de um sujeito aéreo, distante da realidade, que trabalha pouco e bebe vinho. Eu não sou esse sujeito. Eu trabalho muito, faço muitas coisas e, embora seja um tanto introspectivo, estou longe demais do estereótipo do poeta alimentado pelas musas. Mas se o poeta for como João Cabral, como Zila Mamede, trabalhadores, poetas com uma foice nas mãos para desbastar o canavial que cerca a palavra, então me sinto um poeta.
Eu escrevi algumas coisas há quase 15 anos que foram publicadas artesanalmente. Os livros eram escritos, depois diagramados, impressos em casa e recortados com estiletes e tesouras. As capas, coladas a mão. Era um processo bruto e que não permitia muitos exemplares. Assim vieram à tona Loa de Pedra (poesia) e A Casa Miúda (contos). Depois, em 2009, a Flor do Sal lançou o meu Pequeno Manual Prático de Coisas Inúteis, também de poesia. Um livro que me custou cerca de 10 anos de trabalho e indisciplina. Mas um livro do qual não me envergonho, o que já significa muito e é uma declaração de amor.

GCS: Gostaria de ver seu parecer sobre o prefácio intitulado SOBRE 118 ENVELOPES DE UM CONCURSO DE POESIA. Após ler uma análise tão rigorosa, fiquei curioso por saber mais sobre os gostos poéticos do autor e quais poetas teriam seu aval. Qual não foi minha surpresa ao deparar-me com seu nome, entre os poucos que ele citou! Que significou para você saber-se incluído neste seleto rol?

TA: Quando um poeta, Professor e crítico do quilate de Márcio Lima Dantas escreve, é preciso lê-lo com atenção e respeito. Márcio não é um aventureiro. Tem crivo muito exigente e é de uma coragem extrema, quase suicida, num universo de muito corporativismo e masturbação intelectual como o da produção literária. Não tenho estofo como poeta ou como leitor para julgar um texto como esse. Mas admiro imensamente a coragem, a lucidez e o embasamento do crítico para escrever o que  escreve. Márcio tem meu respeito e admiração.
Quanto a estar no rol de preferências de Márcio Lima Dantas, eu me sinto honrado. E espero não ter saído desse grupo tão seleto. Eu confesso que também fiquei imensamente surpreso ao me deparar com a declaração. Surpreso e feliz. Ter o respeito dos leitores é ótimo. Ter o respeito de um leitor exigente como Márcio é uma glória.

GCS: Tendo em mente a análise feita no prefácio do poeta Márcio de Lima e com base em seus próprios gostos, o que considera poesia de boa qualidade?

TA: não é tão difícil quanto possa parecer dizer o que é bom ou ruim em poesia. É diferente de dizer o que eu gosto ou não, claro. Mas a poesia precisa atender a alguns critérios: não se pode ter nos dias de hoje uma poesia que cheire ao mofo do Romantismo, por exemplo. A poesia é a vanguarda da palavra, então não podemos viver de evocar símbolos e comportamentos perdidos num recorte temporal passadista. É preciso buscar originalidade, fugir das armadilhas do que já foi experimentado, está calcificado. A boa poesia não pode ser prosaica e casual, tem de ser pensada, arquitetada e distribuída na página com cuidado. Há muita poesia cheirando a mofo nos dias de hoje.

GCS: Cite (alg)uma(s) das poesias que mais ama.

TA: Não tenho coragem! Sou frouxo pra essas coisas. Há poemas demais que eu amo e não teria coragem de uma traição pública assim. O Gide diz que escolher não é eleger, mas preterir. Vou dizer apenas que, dos autores que citei anteriormente, leiam tudo. E de alguns que eu não citei, leiam também.

GCS: Fale-nos de seu novo livro, da repercussão que tem tido e diga-nos como é possível comprá-lo.

TA: Meu livro mais recente é “a máquina de avessar os dias”, que reúne poemas escritos entre 2009 e 1014, muito marcado pelo olhar sobre a vida nas cidades, sobre o que humaniza ruas, prédios, construções... também pelo que a memória traduz da vida miúda, das lembranças pequenas, daquilo que é matéria-prima para a construção que somos, em que resultamos. É um livro que também trata um tanto de metalinguagem, do trabalho sobre a poesia, sobre o processo de elaboração da escrita. Enfim, é uma máquina orgânica, viva. É uma máquina do mundo, pra citar Camões através do Fabio Ulanin, que escreveu o prefácio do livro.
Quanto à recepção, ela tem sido boa do ponto de vista pessoal. Tenho recebido excelentes retornos de quem o leu, seja em contato direto com as pessoas, seja através das redes sociais ou dos amigos dos amigos. Acho que a crítica praticamente não o notou, mas isso não me surpreende.

O livro pode ser comprado através do contato pelas redes sociais, ou pelo site www.maquinadeavessarosdias.blogspot.com.

GCS: Que conselhos daria a um poeta iniciante?

TA: Acho que há dois conselhos primordiais: leia, leia muito; sinta e busque compreender o que sente. Há outras regras importantes: viva; escreva; entenda que o poema é posterior ao sentimento; reescreva; leia de novo; reescreva; continue sentindo; busque; descubra; encontre; maravilhe-se; perca-se...

GCS: Deixe-nos suas palavras finais.


TA: Prefiro a esperança das próximas palavras. Um abraço!


INSPIRAÇÃO - Chagas Lourenço


Onde estás inspiração
te ofuscastes n'algum outro sentimento
o amor, talvez
ou na angústia da espera?
Do frenesi
da doce agonia
que envolve o corpo
até a morte,
que me faz
divagar.
Divagar
como música
como felicidade
como tudo que é bom.

Chl

Abr/1978

quarta-feira, 29 de julho de 2015

SETE LIVROS DE AFORISMOS - Zé da Luz

Pequena amostra de meus aforismos (e desaforismos!)
São sete livros de aforismos (frases, pensamentos, fragmentos). - José da Luz


1.   GRAVETOS E VEREDAS (1990)

Tudo que escrevo faço-o por uma finalidade. É óbvio não poder agradar a todos. Mas, qual o pescador que lançando a rede ao mar e, ao suspendê-la, vê que pescou peixes grandes e pequenos, e, ignorando o tamanho de seu barco, jogará fora os peixes pequenos?
Y
Não é surrando o boi que ele arrastará o arado continuadamente, mas alimentando-o bem.
Y
Mesmo curvado, todo homem caminha para o alto.
Y
Aquele que não tem dúvidas, não caminha muito tempo com a verdade.
Y
Lançada a semente ao solo, esta floresce; os homens, lançados ao chão, nem sempre se renovam.
Y

2.   MARAVALHAS ARDENTES (1993)

Quem não vive seu tempo a cada idade, perde o tempo e a felicidade.
Y
Quando se acende uma fogueira, ilumina-se a escuridão e se aquece os que estão a seu redor, embora haja sempre alguém a irritar-se com a fumaça.
Y
O bajulador de hoje se transforma compulsivamente no debochador de amanhã.
Y
Honestidade não se adquire com decretos. Nem se pratica com promessas. Nem se comprova com discursos.
Y
De tanto viver entre asnos, a raposa finda comendo capim.
Y

3.   GRÃOS DE AREIA (INÉDITO)

     O perdão é o amor em exercício.
Y
     Se você quer captar os sinais de Deus, seja verdadeiramente uma antena da humildade.
Y
     As nuvens são cheias e leves, os homens são vazios e pesados.
Y
     Há políticos que burilam o verbo com o único objetivo de burlar a verba.
Y
     Há um pouco de Cristo e um excesso de Judas em cada homem.
Y


4.   MEANDROS E MELINDRES (INÉDITO) Já tem o prefácio escrito por prof. Marinho

Uma guerra começa com palavras e termina com palavras.
Y
País sem lei e sem leitura, assim nascem as ditaduras.
Y
O regime político democrático, associado ao modelo econômico capitalista, constrói um paradigma excludente: individualiza as liberdades, mas elitiza as oportunidades e populariza as responsabilidades.
Y
O voto é o mais poderoso politicida.
Y
Não quero um futuro entre muros, nem com olhos cheios de medo; não quero caminhos escuros, nem sussurros de segredo.
Y

5.   ALGARAVIAS LINGUÍSTICAS (INÉDITO)

A palavra é o instrumento ímpar de toda cultura, de toda civilização, por ser o mais seguro meio de contato e intercâmbio entre os homens: ela rompe o círculo encantado da solidão que os aprisiona.
Y
Eu escolho as palavras e compartilho os sentidos: a linguagem é uma ponte que me leva ao outro e/ou traz o outro até mim.
Y
Não se pode abnegar o papel do trabalho com o funcionamento do sistema linguístico, pois sem a engenharia de fixação de dormentes, planificação do solo, estudo de declives e graus de elevação, temperatura e resistência, tudo isso inviabilizaria a sustentação dos trilhos (estrutura), sem a qual o trem (discurso) não partiria da estação (falante/autor) e não chegaria a destino algum (ouvinte/leitor).
Y
Sem o talento da palavra, o parlamentar, o pregador, o professor e o poeta não visitam o céu nem fogem do inferno.
Y
Uma cidade é um texto polifônico. As ruas são alinhamentos de frases. As casas são conjuntos de palavras. E as pessoas são átomos verbais vivos, que habitam e interagem neste universo sociocultural, construído e mediado pela linguagem.
Y

6.   BAÚ DE MILACRIAS (INÉDITO)

A língua é como um avião: tem a primeira classe, a classe executiva e a classe econômica. Todas são diferentes, mas todos estão juntos no mesmo voo. Sob o signo da mesma sorte. A morte ensina a mesma gramática, eternamente.
Y
CNVC – Carteira Nacional de Vergonha na Cara
Y


A norma não orna o poema.
A regra nega asas ao verso.
A norma ordena o passo.
A regra quebra o compasso.

Y
GRAMÁTICA DA DEMISSÃO NO SERVIÇO PÚBLICO

Comentário > Sugestão > Opinião > Orientação > Aviso > Conselho > Advertência > Suspensão > Exoneração > Aposentadoria

Y
Como diz o bom sertanejo: o poeta é um fio de Deus.
Y

7.   PASSE DE CRAQUE, PASSE DE LETRA (INÉDITO)

O craque sabe que quanto mais rápido brilha o talento, mais rápido ele se extingue.
Y
O craque não nasce feito. Como diamante em estado bruto, ele vai se lapidando no percurso de sua carreira.
Y
O craque fala com prudência, pois sabe que quanto menos palavras, menos boatos e intrigas.
Y
Um campeonato é uma guerra longa e um jogo é apenas uma batalha; não use, pois, todas as suas armas potenciais numa única partida. A menos que seja a partida decisiva, final.
Y
O craque tem consciência do grau de responsabilidade pessoal, da equipe, do técnico. Não faz corpo mole. Não afronta a torcida. Não joga contra seu próprio time.
Y

terça-feira, 28 de julho de 2015

MEMÓRIAS - Carlos Medeiros


Recordas, oh memória a trama do já esquecido,

O presente do que já se tornou há muito ausência,

O retorno da saudosa companhia do pleno infinito,
Guardado na lembrança o desejo do não vivido.


O trajeto costumeiro que fazia existir com simplicidade

Renova o espírito daquilo que nunca se foi de fato.

Descendo a ninar o adeus disperso jamais dado até hoje.

Na espreita... o convívio é  inesperadamente arrancado.


O abandono de respirar o que não é mais completo,
A sintonia desses rabiscos revelam o que já se consumiu
Na rocha a sinapse de recor-dança desse destino. 
Na mente a relação firme mas tão extinta de mim


Mas permanece existente o valor do tão ensinado
O exemplo que muito me faz em cortesia
a pérola da parábola é encontrada e guardada

Com júbilo a memória daqueles raros dias.





segunda-feira, 27 de julho de 2015

Menino Lua - Isaac Luz


Menino Lua

Vai menino lua
Que orbita meu espaço silenciosamente
Que brilha no céu misteriosamente.
Tua luz, mesmo que emprestada, deixa as estrelas com inveja
Desse brilho cor de prata.
E vai girando
Contornando-me com teu brilho
Seu sorriso em buraquinhos
Tão perto e tão distante de mim
Se soubesses o quanto és importante
Que nem outro astro gigante poderia afastar você de mim.
Vai menino lua
O sol vem aí
Teu brilho roubado, agora do outro lado
Faz-me esperar mais um pouco
No dia que começa, na noite que me espera, pra te ver de novo.
Isaac Luz

domingo, 26 de julho de 2015

Uma noite inesquecível: As Crônicas de Marcos - João Maria de Medeiros


Tem coisas que a gente não pode deixar de fazer e, mesmo estando fortemente gripado, não estando no melhor de mim, não posso deixar de fazer; de escrever sobre o evento que participei ontem a noite no Teatro Candinha Bezerra, o lançamento do livro de crônicas "ACONTECÊNCIAS: RETRATOS DO MEU INHARÉ" do meu amigo Marcos Cavalcanti.
Em noite inesquecível, Marcos nos brindou, além do lançamento do seu livro, com um momento cultural exuberante, onde diversos artistas locais se apresentaram e deram exemplos de como se faz cultura e arte.
Vimos, logo na abertura a sutil e bela apresentação do musicista Washington Silva, depois os impressionantes versos improvisados do talentoso rapper Don Itanildo. E intercalando com o vai-e-vem do escritor (ao ser também, ao mesmo tempo, sendo mestre de cerimônia, no lá e cá com a venda e autógrafos dos seus livros, como o jogador que cobra o escanteio e ainda corre pra fazer o gol de cabeça acabou levando a plateia a risos), se apresentaram ainda o Geração Perdida e os artistas do Arte Viva, com homenagens a Hugo Tavares. As filhas de Marcos também, provando a máxima de que filho de peixe, peixinho é, também deram um show.
Ao apresentar sua obra, Marcos citou várias pessoas que, assim como ele nesse momento, têm prestado grandes serviços de registro do nossa memória, como Padre Severino Bezerra, Armando, prof. Nailson Costa, Prof. Edgar Santos, Mestre Camilo, Gilberto Cardoso, estes e tantos outros. Fiquei muito feliz e o ego foi lá pra cima, quando também citou minhas poesias e crônicas como de grande importância.
Disse ainda que o livro "ACONTECÊNCIAS: RETRATOS DO MEU INHARÉ" nasceu quando, em abril de 2014, ao participar de uma mesa redonda a convite da DIRED sobre a crônica literária com os escritores Gilberto Cardoso, João Maria de Medeiros e Gilvan, num debate envolvente, confessou a sua esposa Sueli a intenção de publicar uma crônica.
Como disse no início, não poderia deixar de homenagear Marcos por tão grande feito..Percebemos que o evento foi além das expectativas e que a obra foi bem-vinda e contribuirá com nossa história, com nossa cultura. 
Quem for vivo verá...


Sou da Terra Nordestina - Lançamento


A Editora LerMais, a Casa do Cordel e os Poetas e Poetisas 
convidam todos para o lançamento da  Coletânea:

                         Sou da Terra Nordestina

     “Coletânea com 76 Poetas e Poetisas de várias partes do Brasil”
Data: Sábado 22 de agosto de 2015 (Dia do Folclore)
Horário: A partir do meio dia
Local: Casa do Cordel, Rua Vigário Bartolomeu,
Cidade Alta, Natal-RN

Organizador: Gélson Pessoa 



sábado, 25 de julho de 2015

Poema do amor derradeiro - Débora Raquiel




Poema do amor derradeiro



Não há quem roube de mim

O que se imprimiu na textura da carne nossa...

Dos diamantes incrustados no céu da língua tua,
Da saliva contida, do beijo gosto de prata,

Do tempo plural nos enchendo de afeto,
De pernas entrelaçadas,

Do mundo gritando vermelho,
Dos teus lençóis, de tua cama apertada...

De teu suor gosto de sol alimentando entranhas,
Parindo poesias...

Foi o mar do teu corpo derramado em mim que se fez oceano.

Disfarce - Cecília Nascimento

***

Hoje, já não me dói a solidão
Hoje está ermo e calmo meu coração
Hoje, em mim, já não habita a ilusão
Que outrora preenchia-me o viver...

Minh’alma já não busca teu olhar
Resignou-se já à tua sonolência
Nem se inquieta mais com a indiferença
Pois é a senha na Arte de esquecer...

E esta paz, produto de ilusão,
É dor que cala, ao fundo, o coração
É só vontade tímida de fingir...

Não tendo mais com o que me distrair
Neste meu ócio de te respirar
Levo a vida a não lembrar de ti.


(Cecília Nascimento)

sexta-feira, 24 de julho de 2015

AFONSO BOCA RICA - Chagas Lourenço


Afonso Costa Soares, resolveu colocar um vistoso dente de ouro na boca o que lhe valeu o apelido para o resto da vida : Afonso Boca Rica.

Componente de uma família grande, "Os Costa", Afonso, casado com Ritinha com quem teve duas filhas, era um dos mais novos de uma série de irmãos, como Juvenal Costa, também chamado de Juvenal Pézinho, pois uma sequela de paralisia infantil, o deixou com um defeito no pé, que o fazia caminhar auxiliado por uma bengala, Bilo Costa, Zé Costa, chamado de Doutor Costa, Lindalva de Severino da Silva...etc.

Todos procedentes da zona rural de Santa Cruz, com pouca escolaridade, mas com muita inteligência, se tornaram comerciantes e proprietários rurais.

Afonso foi o primeiro a falecer acometido de uma insuficiência renal crônica, que o obrigou a fazer um transplante de rim, mas a rejeição ao órgão, o levou a óbito.
No dia do seu velório, Lindalva chorando muito, dizia:

- Meu Deus, porque levar Afonso que é o mais novo e não Juvenal que já tá véio e sambado ?

Juvenal deu um pinote, escorado na bengala e respondeu, " vai te danar Lindalva, deixe Deus escolher quem ele quiser".

Afonso era como um líder da família, viajado, foi algumas vezes a São Paulo, comprar carro pra vender na região.

Em uma das viagens, ele levou Piaca, que ficou deslumbrado com a viagem de avião e dizia que essa é que era a viagem boa, pois daqui pra São Paulo, não viu nenhum avião quebrado na oficina e de lá pra cá de carro, viu mais de trezentos jipes no prego nas oficinas.

Em São Paulo, foram ao Mappin, que era o magazine da moda na época, no centro da cidade, ao lado do viaduto do chá. Passearam pela loja de oito andares, olhando todo tipo de mercadoria, bonita e barata. Quando estavam saindo, na sobreloja, resolveram descer pela escada rolante, que era mais rápido e todo mundo estava usando. Piaca ficou meio cismado, mas resolveu encarar. Se segurando em Afonso e no corrimão, desceram. Do meio pro fim, ele viu que a escada desaparecia dentro do chão, aí ficou assombrado e faltando uns três degraus, Piaca, pulou com medo de ser engolido pela escada. Como era fim de ano, tinha uma árvore de Natal enfeitando o salão, no pé da escada e ele espatifou-se no chão agarrado com a árvore.

Afonso gostava de futebol e mandou fazer um campinho na fazenda pra jogar bola com os moradores e uma turma de Santa Cruz. No domingo era o melhor programa, a pelada no sítio dos Costa.


Tinha um tambor de duzentos litros, cheio d'água e um caneco, pra abastecer os jogadores e algum torcedor sedento.

Um dia numa partida acirrada, houve uma disputa de bola que terminou com um dos atletas com a perna quebrada. Imediatamente Afonso pegou o rapaz colocou dentro do carro e correu para o hospital na cidade. Quando o médico viu o desmantelo disse, "Afonso, que jogo violento é esse ? O rapaz está com a perna quebrada.

- Pro sinhô vê dotô, e num foi nem falta.

Em uma exposição em Natal, no Parque Aristófanes Fernandes, ninguém conseguia vender nada, porque estavam em plena seca e comprar gado era muito arriscado. Afonso, sempre muito otimista, andava de um lado pra outro tentando vender um curral de vacas .
Um sujeito passou e pileriou, "Ô seca da gota, né Boca Rica" ?

- Pra mim tá atolando em todo canto, respondeu Afonso.

Dirigiu-se ao curral do vizinho e perguntou :
- Qual o preço das vacas ?

- Qual vaca, disse o vizinho de curral, escolha uma que digo o preço.
- Quero saber do curral todo.

Depois de ouvir o preço, Afonso disse: - Tá comprado.
Saiu pro Bandern, foi direto para a carteira rural, que o diretor era Sílvio Procópio e falou.

- Dotô Silvo, quero esse valor aqui emprestado que comprei um curral de gado.
- Meu amigo Afonso, quem é seu avalista ? Indagou Silvio procópio.

- Ora dotô Silvo, o avalista é o sinhô, tem avalista mió ?

Afonso comia de tudo, tinha uma vida agitada, pra cima e pra baixo, vendendo e comprando. Tudo isso foi trazendo um esmorecimento, uma fraqueza, sintomas de doença. Ele muito durão, não queria se entregar, mas um dia em Bom Jesus, encontrou-se com Dr. Gotardo Fonseca e Silva, médico urologista, fazendeiro, que gostava muito de dele e comprava e vendia muita vaca a ele.

Quando ouviu as queixas de Afonso, pediu pra ele comparecer ao consultório no dia seguinte, para examiná-lo, pois achava que ele não estava bem.

Logo cedo Afonso chegou e foi o primeiro a ser atendido. Gotardo examinou e fez uma pergunta.

- Boca Rica, você sente alguma coisa ? Afonso respondeu em cima da bucha.
- Ao redor de mim, uma braça, dói em todo canto.

Foi essa doença que vitimou o grande Afonso Boca Rica.


Chl
Abr/2008

A lua é a deusa diáfana da noite ... Dulce Esteves

Mote : A lua é a deusa diáfana da noite O resto é astronomia. .. ( Marcos Luedy). Glosa : Dulce Esteves.

Qual noiva ao despedir-se do amado
Tímida surgindo em noite de escuridão
Observa com os olhos cegos de paixão
Como astrólogo sozinho e apaixonado
sem brilho cego ,opaco ou emprestado
A luz fraca que parece poupar energia
Um luscufusco nenhuma coisa alumia
E mais um vento cortando como açoite
A lua é a deusa diáfana da noite
O resto é astronomia. ..

quarta-feira, 22 de julho de 2015

OS ESFOMEADOS, parte 3 - Rosemilton Silva

PARTES ANTERIORES:



III

       Nos arredores da cidade se articulava um movimento. Centenas de homens sem líder procuravam uma maneira de conseguir comida. A cidade já não podia mais dar as migalhas que até então tinha dado a quase todos eles. Não havia mais como contornar a situação e, exaltados, boa parte dos homens procurava a forma mais fácil de conseguir comida. O Homem do Cavalo, na sua busca para encontrar alguém conhecido, segue dois homens e acaba chegando também ao local. A figura estranha chamou a atenção de todos.
       — Lovado seje nosso sinhô Jesus Cristo!
       Um coro de vozes sonolentas — é assim que as pessoas falam quando estão com fome — respondeu o “prá sempre seje lovado” que mal se ouviu. Apeou-se, ficou de cócoras e perguntou:
       — Qué qui vocês tão fazendo aqui?
       — Tamo querendo cumida. Tá todo mundo cum fome.
       — Intonse, chegou mais um. Num tem jeito não. Na cidade os home num tem mais tomém o qui cumê e nois num tem mais salução, vamo morrê de fome.
       — Só tem um jeito: é assartar os armazém.
       — Mais os donos num tem curpa disso. É o dinheiro deles. É o qui eles tem prá sustança da famia. O guverno é que divia de mandá cumida pra nois.
       O Homem do Cavalo aos poucos ia assumindo a liderança do grupo que a cada minuto recebia mais um camponês. Calados e pensativos todos convergiam seus olhares para o menor movimento dos olhos ou da boca dele. Não se sabia explicar, mas o Homem do Cavalo tinha um carisma. Certamente pela sua mansidão e segurança no falar ou talvez pelos olhos vivos e os gestos marcantes, com força, com vigor mesmo que estivesse com fome.
       O pesado corpo levantou-se mansamente, com gestos perfeitos e uma rigidez impressionante. Ninguém podia imaginar que aquele homem estivesse há alguns dias sem comer.
       — Tô cum fome derna da sumana passada. O último xique-xique dividi cum meus fios teuça feira, antonte.
       Os outros esperavam mais uma palavra dele. Furiosos pela falta de comida só pensavam em assaltar os armazéns da Ferreira Itajubá. O Homem do Cavalo fez várias caminhadas de um lado para outro debaixo daquele grande e seco umbuzeiro. Passadas algumas horas a cidade se descortinava ao meio dia com os estudantes começando o burburinho do vai-e-vem a procura de colegas e das salas de aulas. Os homens viam todo aquele movimento.
       — Tão vendo aqueles minino? Fizeru um’a rivulução onte a noite em frente a cadeia. São o cão, esses mulestados, pode inté sê qui eles ajude a nois. Tem um tá de Zé do Bode, cabra macho dos seiscentos mil diabo. Apois ele brigou inté cum o capitão coroné seu delegado. Vamo lá. Vamo cunversá cum  eles e mostrá nossa situação.

     **********

       Na esquina de Dona Noca, os estudantes da noite estavam a postos. A velha e brava senhora fazia polis sem igual, melhor que os de Pedro de Tico com sua geladeira a gás novinha em folha. O sol causticante contrastava com a sombra e o vento encanado do outro lado da rua, passando por trás da sinuca de seu Henrique. O poli refrescava as idéias da rapaziada.
       Na verdade aquela reunião diária tinha um sentido: ver a saia azul das meninas da Escola Normal cobrir a blusa branca na entrada da esquina. Curioso é que todas elas sabiam do vento “traiçoeiro” mas raramente tomavam a providência de segurar a saia,  coisa que jamais os estudantes souberam explicar. Mas Zé do Bode dizia que as mulheres sempre têm esses mistérios e por mais que tentemos entendê-las jamais vamos conseguir.
       Zé do Bode não perdia uma tarde na esquina de dona Noca com seus velhos amigos João Bosco, Márcio Marques, Manu e mais alguns chegados a ver frente ou fundo de calcinhas com aquela “carreira” de botões do lado esquerdo. A conversa geralmente girava em torno da poesia de Márcio ou da paixão eterna de João Bosco, os dois, infelizmente mortos tragicamente.
       Rompe ferro costumava dizer que naquela esquina estava o retrato fiel da quantidade de empregos que a cidade proporcionava aos jovens.
       — Todos vagabundos registrados na CIT — Companhia Inimiga do Trabalho.
       Zé do Bode estava sempre com um violão debaixo do braço para acompanhar as canções, sempre em castelhano, que João Bosco costumava cantar. Era o ensaio da seresta da noite que se prolongaria madrugada a dentro disputada com outros grupos formados por José Domingos, Dinarte, Hildebrando, Breno, Deusdedith, e os demais chegados a boemia.
       Entre um vento forte e outro, uma subida de saia, o pessoal se deliciava com as duas coisas: as calcinhas das meninas e os polis de dona Noca e discutiam quem teria direito a uma serenata a noite.
       Mas naquela dia o clima era diferente. O pessoal mal olhava uma ou outra calcinha. A preferência só recaia para as mais esperadas, as mais boazudas. A conversa girava em torno de uma possível invasão na cidade. Alguns aproveitavam para descer o malho nas promessas feitas no comício da noite passada, como sempre, cheio de demagogias.
       A construção do açude passava a ser uma grande polêmica estudantil. Uns contra pela localização do futuro mundo de água. Outros a favor pela criação de empregos. E os indiferentes. Embora os últimos fossem poucos o pessoal dava sempre ouvidos a qualquer tipo de opinião. Todos tinham direito a voz naquela esquina democrática.
       — Rapaz, esse negócio aqui vai pegar fogo. Dizem que está cheio de homens lá no umbuzeiro de “seo” Manoel esperando só a hora para atacarem a cidade.
       A frase foi o bastante para que o pessoal passasse a discutir a validade ou não de uma invasão e o que poderia ser feito para evitar que isso acontecesse. Zé do Bode era de acordo que houvesse a invasão, acreditando ser a maneira mais correta para chamar a atenção do Governo e assim as providências virem imediatamente. O grupo não concordava, afinal o pessoal já estava no tempo da “base do amor” onde tudo se resolveria mais pacificamente e sem criar problemas mais sérios.
       Aos poucos Zé do Bode foi se dobrando diante da opinião geral e, todos de acordo, passaram a raciocinar em termos de como ajudar os homens que estavam no umbuzeiro. Iriam até o padre, o delegado, o juiz e o prefeito. Sairiam nas ruas angariando comida; enquanto isso outros iriam até o local e procurariam convencer aos camponeses que a violência não levaria a nada e, quando já estivessem de posse dos alimentos para ser entregues, o prefeito aproveitaria a oportunidade para garantir que teria uma palavra oficial do Governo no dia seguinte, pela manhã.
       Tudo estava arquitetado. O grupo se dividiu em dois. Um liderado por Zé do Bode, que não tinha muita experiência em pedir, se encaminhou para o lugar onde os homens estavam passivos diante da presença do Homem do Cavalo; o outro saiu a procura das casas do prefeito, do juiz, do delegado e do padre. Como tinham mais intimidade com o padre trataram de ir primeiro a sua casa, de lá sairiam, já com ele “debaixo do braço”, para a casa dos outros.
       Ao chegaram na casa do vigário encontraram-no dormindo em sua cadeira de balanço. Era um homem gordo, branco, faces coradas e falava alto quando necessário. Sempre estava metido em sua batina preta, que mesmo acumulando muito calor não conseguia acabar com a redonda barriga do cura. Na casa os estudantes tinham liberdade suficiente para, ao chegarem a porta, entrar sem pedir licença ou bater palmas anunciando-os. Naquele barulho de noviços em revolução, acordaram o padre antes mesmo de chegarem a ventilada sala de engenhosidade dele próprio para os dias de maior calor. Levantou-se assustado, certamente estava sonhando com os camponeses invadindo a cidade.
       — Vocês estão loucos? O que foi que aconteceu para virem me acordar em hora de sesta? Não sabem que meu sono a esta hora é sagrado assim como são os Santos Óleos e a Hóstia?
       No ímpeto de comentar os últimos acontecimentos, as decisões do grupo, todos falaram ao mesmo tempo. O padre ficava louco quando alguém queria explicar-lhe algo com outro dando “pitaco” de lado, imagine todo o grupo falando ao mesmo tempo. Enfurecido e bravo, quase “sai no braço” com os estudantes.
       — Calma, seus merdas, um de cada vez que aqui não é casa de sogra e quem manda sou eu. Agora fala primeiro você e só você.
       — É que nós estamos sabendo que um grupo de homens está reunido lá no umbuzeiro para vir atacar a cidade. Zé do Bode juntou mais um pessoal aí, turma de estudante, e foi lá para acalmar os homens dizendo que a gente aqui falaria com Vossa Reverendíssima...
       — Vossa Reverendíssima é a mamãezinha viu, meu filho?!
       O padre não gostava quando os estudantes o chamavam assim porque sabia que eles estavam fazendo gozação.
       — Continue sem querer me sacanear.
       — Desculpe seu vigário, não quis ofendê-lo. Como eu ia dizendo, Zé do Bode foi lá dizer aos homens que a gente vinha aqui na casa do senhor e iria ao juiz, o prefeito e o delegado para arranjar comida para todo mundo.
       — Vocês são uns loucos! Como é que vão prometer uma coisa que não está ao alcance de vocês e sim de terceiros? E agora, já que trouxeram o problema, me digam também como é que vamos fazer para resolvê-lo? Já não bastavam os homens lá no umbuzeiro?
       Não havia resposta para aquelas perguntas nem tampouco uma solução de imediato. Rumaram para a casa do juiz. Àquela hora a cidade estava adormecida, exceto o barulho de alguns estudantes no rumo da escola e mais apressados para uma prosa com as namoradas antes do início das aulas. Curiosos os estudantes acompanharam a pequena procissão e, aos poucos, iam se inteirando do assunto. Convidavam outros colegas a fazerem parte da pequena comitiva na esperança de terem um feriado forçado pelas circunstâncias. A comitiva aumentava entre as duas esquinas do Beco das Almas que separavam a casa do padre da praça onde estava a casa do juiz.
       O padre, aflitíssimo  em ter que acordar o juiz àquela hora sagrada para ele e tantos outros abastados da cidade, não estava preocupado com os homens mas sim com o fato de ter que tirar do seu leito o juiz. Como não havia outra alternativa tinha que fazê-lo. Afinal era a segurança da cidade que estava sendo desafiada pela lei seca da fome.
       O boato já tomava corpo e como todo boato que se preza já chegava na próxima esquina com mais ingredientes, maior. Na esquina da Cooperativa, alguns homens já estavam reunidos discutindo as possíveis providências que o Governo tomaria. Partidários da situação alardeavam providências que até hoje não chegaram; contrários a facção situacionista, riam dessas providências e aproveitavam a oportunidade para tirarem suas “casquinhas”. Nessa discussão, que não levaria a nada exceto ao  exercício da imaginação, a atenção se voltou para o padre acompanhado pelos estudantes, sempre na frente coçando a cabeça com os estudantes quase cochichando para não incomodarem o raciocínio do cura.
       As meninas da Escola Normal assistiam passivas a tudo o que acontecia. Sentadas nos bancos da praça debaixo de frondosos fixus benjamin não entendiam nada. Afinal, elas eram educadas para ser donas de casa e nada mais além dessa atividade. Não faziam outra coisa, exceto assistir passiva e mansamente a tudo o que acontecia em seu redor, nas “suas barbas” como costumava dizer Rompe Ferro.
       Sequer estavam preocupadas em saber o que estava acontecendo. As conversas giravam em torno do “sarro” da noite anterior, dos beijos mais ousados, das paixões “arricoídas” que ainda não tinham dado certo apesar de todas as simpatias já feitas com muita crença e fervor. Tudo isso, para elas, era mais importante do que estarem preocupadas com invasão da cidade.

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       Os rapazes, tendo sempre a frente o rechonchudo padre, atravessaram a pracinha em procissão sob o olhar inerte das meninas da Escola Normal. A porta da casa do juiz estava com a parte de cima entreaberta. O pequeno barulho chamou a atenção da “piniqueira”, fofoqueira juramentada, chegada a “brechar” pelas frestas da janela para ver o movimento de moças e rapazes, veio de imediato ver o que estava acontecendo. Era uma senhora dos seus 40 anos beirando os 50.
       — O juiz está?
       — Dormindo.
       — Pois o acorde imediatamente. Diga-lhe que é um caso de segurança nacional e que merece a maior urgência.
       Entre sonolento e com cara de raiva pelo desaforo de ter sido acordado por aqueles insignificantes estudantes, e que só lhe davam trabalho, o juiz chegou-se a porta. Eram uns cabeças ocas e que só pensavam em sacanagem e perturbar a ordem, mas o padre estava com eles e, como toda cidade do interior, o vigário sempre merece respeito. Não tinha outra alternativa e já que o chamamento dizia respeito a segurança nacional tinha que ser atendido a qualquer custo.
       Chegou-se à porta da casa.
       — Entre seu vigário mas os rapazes gostaria que ficassem do lado de fora. Não quero barulho aqui dentro porque meu filho pequeno está dormindo.
       O vigário adentrou a casa e iniciou sua fala dizendo o problema criado por Zé do Bode e sua turma e que, aquela altura, não havia muitas alternativas. Os dois saíram da sala e foram para a calçada onde um número bem maior de estudantes os esperavam impacientes. Teriam que ir de imediato à casa do prefeito para depois saírem a procura do delegado. O juiz, que havia chegado há pouco tempo, ainda não estava acostumado com a falta de telefone e achava horrível quando tinha que caminhar. Não podia pegar seu carro, um dos poucos da cidade, porque tinha medo que os estudantes quisessem ir nele o que seria um absurdo e, certamente, o veículo se quebraria com tanto peso.

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