APOESC (Associação de Poetas Escritores Simpatizantes e Colaboradores)

A APOESC (Associação de Poetas Escritores Simpatizantes e Colaboradores), criada em 03.2010 em Santa Cruz -RN, existe para congregar amantes da cultura, apologistas e produtores da arte da palavra.


segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

AMOR - Joel Canabrava



Amor...
Não é como o sol
Que nasce toda manhã;
Que brilha o dia todo,
Mas que nem sempre brilha;
Que, às vezes, esquenta,
Às vezes, esfria;
E que no final do dia
Sempre vai pôr-se.

Amor...
É como uma rosa,
Que se planta;
Que se rega,
Floresce,
Machuca-nos com seus espinhos,
Mas no final traz felicidade
Com sua delicadeza

E incomparável beleza.

As Lembranças do Sertão Vão Comigo Aonde Eu For - Marcos Medeiros



No raiar da madrugada
acordo a ouvir passarinhos
anunciando dos ninhos
mais uma linda alvorada.
Da janela escancarada
percebo a jurema em flor
exalando seu odor,
por toda imediação,
as lembranças do sertão
vão comigo aonde eu for.





Música de Cantor Patuense Fará Parte do Repertório do novo CD de Dudé Viana - Epitácio Andrade




Dudé Viana, cantor Anísio Neto e Epitácio Andrade

                    Já está em fase de gravação  ¨A Flor Musical de Dudé Viana¨,  novo trabalho artístico do cantor-compositor caraubense  Dudé Viana. O CD será composto por 14 canções inéditas, românticas e composições com apelo à preservação ambiental. No repertório estarão: a romântica ¨Oh! Dany¨, ¨Oração pela Terra¨, poema do imortal Diógenes da Cunha Lima, musicado por Dudé Viana e ¨Dor de Calúnia¨, música vencedora do 4º ParnaCurta, festival de cinema de Parnamirim/RN, na modalidade videoclipe. Uma novidade deste novo trabalho acústico é a presença no repertório da vibrante música ¨Nadir¨, de autoria do cantor patuense Cezário Anísio Neto, em parceria com o escritor Epitácio Andrade. Para esta faixa Dudé Viana formará um dueto com o cantor também patuense Cláudio Saraiva. Neste dia 07 de fevereiro de 2016, Anísio Neto recebeu Dudé Viana e Epitácio Andrade, em sua residência em Natal, capital potiguar, para gravar um vídeo apresentando a música ¨Nadir¨ e autorizando a sua gravação.


Dudé Viana com Anísio Neto


sábado, 6 de fevereiro de 2016

O VELHO NA PONTE - Gilberto Cardoso dos Santos


Quando cruzava a pé a ponte do Paraíso em caminhada vespertina rumo à rua da feira, deu-se algo digno de registro.

Um senhor de chapéu, vestido à moda antiga e aparentando sessenta e poucos anos, estava parado no estreitíssimo espaço destinado aos pedestres, escorado no muro de proteção do lado direito, olhando em direção ao lado oposto da ponte como se mirasse com interesse algo fora dela.  À sua frente, estacionada na calçadinha, uma bicicleta vermelha, em bom estado; parecia ser dele.

Desde a entrada da ponte, preocupei-me com o desfecho daquela cena. O trânsito era intenso; imóvel como estava e próximo à bicicleta, ele dificultaria a passagem de qualquer um. Quem necessitasse atravessar aquele ponto, deveria descer da calçada e arriscar-se na área destinada aos veículos, perigosíssima àquela hora.  A situação dele pareceu-me temerária, desde o começo. Os carros e motos passavam velozes, rentes à bicicleta; qualquer movimento errado de sua parte poderia ser fatal. Mas, ele, como se inconsciente do perigo, continuava a cruzar a ponte com seu olhar, como a buscar algo fora dela.

Enquanto rumava em sua direção, sentia-me tenso e a sensação era intensificada a cada veículo que rente passava, produzindo lufadas de ar quente e fazendo barulho.
Como faria para atravessar o trecho em que ele se achava com sua bicicleta?

Ao aproximar-me, duas surpresas: ele distanciou-se do guidão tornando possível a minha passagem, ainda que precariamente; sem conhecer-me, dirigiu-me a palavra e disse algo que parecia haver ensaiado ao ver-me ainda longe, para explicar-se:

- Estou olhando aqueles passarinhos ali. Olha que coisa bonita.
Olhei, e de fato encantei-me com a cena bucólica: centenas de garças pousadas na copa de três ou quatro árvores nutridas pelo esgoto que escorre para debaixo da ponte, num suave agitar de asas contrastando com o verde intenso. Não muito distante dali, andorinhas faziam um sincronizado voo, hipnotizante.

- Verdade, muito bonito! – concordei e acrescentei: – pena eu não estar com o celular aqui para tirar umas fotos!

Escorei-me na varanda da ponte enquanto ele, com a mão um pouco trêmula, tirou  do bolso um celular tecnologicamente defasado, desgastado pelo uso. Disse: - Esse meu não presta, num é? Mas eu liguei pra uma filha minha pra ela trazer o aparelho dela e tirar uma foto. O dela é bom, depois bota no computador.

Nesse instante o celular tocou e ele atendeu: - Tou aqui, na ponte. Venha ou mande alguém pra tirar a foto. Tá muito bonito mesmo.

Avisei a ele que, como já estava escurecendo, as garças estavam se preparando para prosseguir no voo; se não desse para tirar a foto naquela tarde, daria certo num outro dia, pois elas costumavam parar ali ao entardecer quando retornavam do açude.

Tive a intuição, desde que entabulei conversa com ele, de que estava tentando ocultar alguma coisa de mim, desviar minha atenção de algo mais sério. As garças, de fato, pareciam encantá-lo, mas parecia haver uma razão maior para estar parado ali.

Havia, de fato: Timidamente revelou-me que caíra da bicicleta e estava ferido. Escapara por pouco, disse-me. A sorte é que quando caiu não havia nenhum carro passando e ele pôde levantar-se a tempo. Pedi-lhe que mostrasse onde estava ferido e muito custosamente puxou a perna esquerda da calça até mais ou menos à altura do joelho onde se via uma mancha preta em redor da pele rasgada e algum sangue a escorrer.

Perguntei-lhe como se dera a queda e sua resposta surpreendeu-me: Disse que ouvira uma voz a dizer: “Vamos derrubá-lo.” Certamente, explicou ele, era alguma mandinga feita contra ele! Quase morrera.

Percebi, então, que era com força que ele segurava o amparo da ponte. Estava paralisado pelo medo, à espera de algum familiar. Temia subir na bicicleta e cair mais uma vez.

Em resposta à minha indagação, disse onde morava, relativamente longe dali. Depois, entregou-me o celular e pediu que eu procurasse o nome de Vicente, um neto seu. Na tela, li “Célia”, um de seus contatos, Quis saber quem era. Tratava-se de uma filha. Perguntei se era esta que estava vindo buscá-lo. Disse-me que não. Célia mora em Natal.

Imaginei: A filha daqui, aflita, ligara para de Natal, falando sobre o pai que se achava na ponte. A de Natal, desesperada sem saber o que estava acontecendo, havia ligado mais de três vezes. Ou, no desespero, ele mesmo ligara para Célia. Perguntei se havia comunicado aos familiares que estava ferido, disse-me que não.

Quando buscava o nome de Vicente, em seus contatos, chegou um jovem descalço, sem camisa e apenas de calção numa cinquentinha, supostamente um neto, ou namorado da filha dele. Seria Vicente? Estava visivelmente aborrecido. Tinha uma tatuagem enorme um pouco abaixo do peito direito e outra na perna. Falou alto e em tom de repreensão com o senhor que ainda tentava disfarçar apontando para as garças e sugerindo que ele tirasse uma foto.

Ofereci-me para vigiar a bicicleta, caso quisessem, enquanto o rapaz o levaria para casa. Mas o melhor para ambos foi decidido: ele iria empurrando a bicicleta sob o olhar do jovem motorizado.

Antes de ir, o senhor voltou-se para mim e me agradeceu por ter ficado ali com ele, à espera de alguém. O rapaz, também, contorceu-se na moto para mirar-me e, num meio sorriso, disse palavras de agradecimento.

Saí dali ruminando pensamentos sobre dramas comuns à terceira idade: à medida que os anos avançam, os movimentos vão cada vez mais perdendo a precisão, os músculos já não obedecem plenamente nem na velocidade esperada, o raciocínio e a percepção já não são tão confiáveis. Creio que quase todo idoso, à semelhança daquele, busque esconder essas fragilidades e finja que está tudo bem em situações semelhantes. É duro conformar-se com as debilidades físicas e mentais, admitir isto para a família e correr o risco de passar a ter a vida restrita à casa, feito criancinha, ou ser repreendido duramente por familiares mais novos e insensíveis. É difícil aceitar as limitações da velhice.


Não tive a chance de fotografar a cena proporcionada por garças e andorinhas. Busquei, ao menos, retratar aquele instante memorável em crônica; o drama daquele idoso, no fundo no fundo uma frágil criança assustada com medo de cruzar a ponte.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

APRENDIZAGEM - Hélio Crisanto


QUANDO CHOVE NO NORDESTE - José Roberto Rosa


Quando chove no nordeste Que molha nosso torrão O seco logo floresce Causando admiração A todos que aqui vivem Nesse tão seco Sertão.

Tudo se faz mais bonito Quando o inverno vem O agricultor faminto Se vale do melhor bem Planta a semente no chão Sem esperar por por ninguém.

Quando chega a colheita De fava, milho ou feijão Ele agradece a Deus Na mais sincera oração Rezando o "Pai e Nosso" Com os joelhos no chão.

"Gloria a Deus nas Alturas" Por toda graça me dada "O Pão Nosso de Cada Dia" Tá na mesa consagrada Com a benção do meu Deus Espero não faltar nada.

ROBERTO ROSA DA SILVA EM 03 DE JANEIRO DE 2016.

SONETO DE SAUDADES - Professor Ismael André



Quando o ar respiro com fulgor
E ao olhar no espelho minha face
Eu grito ensandecido com uma dor
Implorando que a lágrima me abrace

De repente ao redor tudo é motivo
Para o espinho da solidão me alfinetar
Na minha porta como um louco intempestivo
Vejo um devaneio se adentrar

Trazendo reminiscência de um alguém
Que porventura me tornou foi um refém
De um sentimento tão louco e consternado

Confortado com a dor do não poder
Presencio a vida sem querer
Alimentando um ego do passado.


Escrito em 28 de janeiro de 2016.


quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

BICHO NOTURNO - Nelson Almeida


BICHO NOTURNO


Não sou averso à luz
Sequer a conheço
Nasci pelo avesso
Sou da noite, da escuridão
Transcendo mundos
Desobedeço a ti, meu pai
Cai diante a mim, atos vis tão banais
Do ódio, da inveja, da cobiça, me alimento
Soberbo a cada instante, a dor e o tormento
Sou o mais imundo dos mortais

Nelson Almeida.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

BUSCANDO SONHO - Chagas Lourenço


De vez em quando
em algum momento
se for alegria
ou um desalento
sempre aparece
com o pensamento.

Em cada dia
que a vida alcança
seja dureza
ou seja bonança
aparece a música
e traz a lembrança.

Vivendo a vida
como melodia
tratando a rotina
com muita alegria
derrama a alma
como poesia.

Neste mundo cruel
as vezes medonho
as energias perdidas
eu sempre reponho
como o poeta
procurando um sonho.

Chl

A INFÂNCIA NORDESTINA E A CARREIRA DE FUZILEIRO - Ubirajara Rocha


Vivia solto na caatinga, atravessando as capoeiras;
Eu andava muito a pé, com minhas canelas ligeiras;
subia correndo os montes, corria descendo ladeiras!
Bebia água na poça, no riacho ou no lajeiro,
comia o fruto da palma,  e também do umbuzeiro!
Não sabia que meu destino, era ser um  fuzileiro!
Aos 17 anos, um emprego eu buscava,
 queria ser militar, era com isso que sonhava!
Possuía espingarda e gostava de atirar;
Mas eu nunca imaginei, que um fuzil iria usar!
Concurso para fuzileiro, fiz e fui aprovado;
sem saber do que se tratava, fiquei logo aquartelado;
a ralação foi intensa, o dinheiro era suado;
e depois de quatro meses, eu já estava formado!
Operações especiais foi a escolha que eu fiz,
fui Montanhista, Comandos, Paraquedista,
conquistei o  meu espaço, muito além do que eu quis.
Armeiro e Guarda-costas, um combatente como se diz,
missões foram cumpridas, tive uma carreira feliz!
Trinta anos se passaram e a reserva chegou,
é a nova fase da vida, que o fuzileiro alcançou,
retirando o uniforme,  o seu coturno pendurou!
Desde os tempos de menino, que nasceu no interior,
a liberdade na infância serviu como ajudador!
Vim, vi e venci, como disse o pensador;
desafiei meus próprios medos e sobrepujei a dor!
Mas não lutei sozinho, da família tive carinho,
e de Deus eu tive amor!

Hoje sigo pelo caminho, de Jesus meu Salvador!



LÁGRIMAS DE DOR - Professor Ismael André


LÁGRIMAS DE DOR
Professor Ismael André

A alma chora o voo perdido
A lágrima filtrada da dor
Evapora num ser esquecido
Que já não sabe o que é mais amor

A alma clama pelo beijo perdido
A um coração áspero, sem muito valor
Obsoleto, insensato, destemido
A própria morte é seu grande penhor

A lágrima que rega o padecimento
Será a causa do sepultamento
De um ser tão viril e tão promissor

De futuro instigante que sonhava alegria
Sucumbiu seu amor com tanta agonia
Que se afogou nas lágrimas da dor!


Escrito em 26 de janeiro de 2016.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

CARTA A MEU JUIZ (Resenha) - Nailson Costa



Há homens que levam a vida toda a depender dos cuidados de uma mulher, mãe, quando criança e adolescente; esposa, quando adultos, a ponto de sua própria sombra não se fazer notar, inclusive por ele próprio, com o passar dos tempos

Há mulheres que sentem a necessidade, até maternal, de comandar, de administrar a vida doutrem, esposo ou filhos, dedicando-se, exclusivamente a eles e se esquecendo, inclusive, de viver a sua própria vida.

CARTA A MEU JUIZ, romance psicopassional, mais psicológico do que passional, de Georges Simenon, escritor belga do século passado, é ambientado na França do século XVIII e se propõe a essa viagem no labirinto psicológico de seus personagens.
Romance escrito em primeira pessoa pelo protagonista Charles Alavoine, seu enredo não adentra os meandros de seu crime, com investigações policiais, mistérios, suspeitas em potencial, testemunhas, debates intensos e acalorados entre as partes envolvidas etc, e não se caracteriza como sendo romance policial. 

Charles Alavoine, médico, viúvo, 40 e poucos anos de idade, pai de duas, garotas e responsável por sua mãe, que não apenas administra a vida de suas netas, como, também, a dele, comete um crime e escreve, na prisão, uma carta para o “seu juiz”, não para pedir perdão por seu crime cometido, nem apresentar quaisquer contestações à acusação lhe feita, até porque é réu confesso e não pretende obter do magistrado uma possível sentença absolutória, escreve uma carta a seu juiz, no entanto, para desabafar, dizer-lhe de sua angústia, de não ter sabido viver a vida de forma plena, deixando-se levar pelos cuidados de excessivos de duas mulheres, sua mãe e Armande, mulher elegante, também viúva, extremamente educada, com quem se casara, não por amor, mas por necessidade de suas filhas ter uma mãe dedicada, presente, amorosa e tomadora de absolutamente todas as decisões, econômicas, familiares e, sobretudo, pessoais, de todos da família, sobretudo, de Charles, que não enxergava, além de sua rotina de médico medíocre, a sua própria sombra.

Charles conhece Martine, jovem de vida desregrada e de amores muitos, por quem nutre uma paixão arrasadora e doentia, separando-se de Armande, para viver, agora sim, depois de mais da metade de sua vida, viver com todas as forças de sua paixão, uma vida verdadeira, roubada por duas mulheres, sua mãe e Armande.
Martine, essa terceira mulher, não é dominadora, não dá as determinações domésticas, econômicas, sociais e pessoais na vida de Charles, pelo contrário, se mostra submissa e em tudo é o oposto das mulheres anteriores dominadoras de Charles... Martine não era dominante... não era? Charles nascera para viver sem vontades suas e ser presa fácil dos fantasmas femininos? 

Com 207 páginas e de leitura agradabilíssima, CARTA A MEU JUIZ é uma verdadeira obra-prima da literatura universal, não pelo seu desfecho, de certo modo previsível, mas pelo ritmo intenso dado às ações passionais na narrativa e, sobretudo, pela brilhante análise psicológica (falta de determinações, seus arrependimentos, sua mente doentia etc) de seu personagem central. 

(Nailson Costa, 01.02.016)

O SERTÃO SÓ PRECISA DE UM AGRADO - Gilberto Cardoso dos Santos



Feito moça nascida na pobreza
De beleza sublime angelical
Só carente de um toque sensual
que emoldure a sua natureza
Essa terra sem luxo, sem riqueza,
Quando hiberna na seca degradante
Vira um reino encantado, deslumbrante,
Ao banhar-se no líquido sagrado
O sertão só precisa de um agrado,
pra ficar mais bonito e verdejante.

Glosa: Gilberto Cardoso dos Santos
Mote: Hélio Crisanto


TAPERA ESQUECIDA - Hélio Crisanto


Essa tapera esquecida
Nos confins desse sertão
Guarda uma história de vida
De descaso e precisão.
Um pé de côco gigante
Ficou como vigilante
Pastorando seus escombros...
Nessa cisterna rachada
Ficou água baldeada
Onde bebe os malassombros
(Hélio Crisanto)

domingo, 31 de janeiro de 2016

DOIS BELOS POEMAS DE JOSÉ MARTI


Meu Cavaleiro 

De manhã cedo
meu pequerrucho
me despertava
com um grande beijo.

Logo montado
sobre meu peito
freios forjava
com meus cabelos.

Ébrios de gozo
tanto eu como ele
me esporeava
meu cavaleiro:
que suave espora
seus dois pés frescos!

E como ria
meu cavaleiro!

Como eu beijava
seus pés pequenos
dois pés que cabem
juntos num beijo!


Cultivo uma rosa branca

Cultivo uma rosa branca,
em julho como em janeiro,
para o amigo verdadeiro
que me dá sua mão franca.

E para o cruel que me arranca
o coração com que vivo,
cardo, urtiga não cultivo:
cultivo uma rosa branca. 

sábado, 30 de janeiro de 2016

O carnaval de Mané da Viúva - Rosemilton Silva


A personagem que pretendo retratar, como muita gente sabe, é meu pai que deu nome a rua onde hoje estão os galpões de fabricação têxtil. Manoel Ferreira da Silva ou simplesmente Mané da Viúva, era fotógrafo, devoto de Santa Rita e seu maior e melhor leiloeiro até hoje. Nem mesmo nós, especificamente Romualdo Silva, conseguimos sequer amarrar a “chuteira” dele. Por isso, espero não ser chato e ter a isenção necessária para não enaltece-lo, simples e puramente, por ser meu pai. Dito isso, vamos as memórias.
No sábado de Zé Pereira, cedinho ele arrumava a “lambe-lambe”, tomava seu café e me pedia ajuda para leva-la até a esquina da nossa rua, a Ferreira Itajubá, para armar a máquina ao lado da parede do mercado onde estendia o pano, já desbotado pela ação do tempo, que servia de fundo para as fotos 3x4 ou em tamanho maior.
Lá pelo meio dia com a feira já quase acabando e a grande maioria das pessoas voltando para os sítios, as cidades vizinhas, eu desarmava o equipamento, levava pra casa e ele ia até a Prefeitura ver com estavam os preparativos para o baile da noite. Durante muito tempo ele cuidou da arrumação, das necessidades da orquestra que – no tempo que alcancei – era dirigida pelo maestro Oscar. As vezes, vinha um pessoal de fora principalmente músico da banda da Polícia Militar.
Chegava pra almoçar e não descansava como fazia costumeiramente. Tinha uma rotina que eu sabia de cor, mesmo ainda com meus 4, 5 anos de vida. A casa da professora Neném Galdino e sua sobrinha, Júlia, ficava praticamente atrás da nossa, mas era preciso descer pra Frei Miguelinho e pegar a rua do Vapor ou Cagô como alguns chamavam. Ia combinar a saída do bloco, que nem tinha nome mas todos chamavam-no de bloco de Mané da Viúva e Neném Galdino. O baile na prefeitura era para os ricos enquanto que o bloco era para os pobres como nós.
Mané da Viúva não ficava no baile da Prefeitura, mesmo que fosse convidado como sempre acontecia, até para uma emergência. Preferia ficar em casa e, se houvesse alguma emergência, estaria pronto para atende-la. Coisa que nunca, que eu me lembre, houve. Essas são as recordações que tenho do baile de carnaval na Prefeitura.
E aí vamos para o carnaval de rua. No domingo de Ze Pereira, logo cedo, ele saía no caminhão de Faustino para Campo Redondo. Feira menor, com menos tempo e de volta lá pela uma hora da tarde. Almoçava em casa e não na sua comadre dona Ana do compadre Joca, e o papo com Manoel Norberto era menor. No caminho, já vinha conversando com Faustino sobre o roteiro do bloco que saía em cima da carroceria do caminhão de Faustino, embora já fosse conhecido de cor e salteado.
Assim que chegava, mamãe colocava – e ela nunca foi muito de carnaval, relutava e acabava não indo – o almoço. Ele não se demorava muito, saía para conversar com Zé Galdino, o sanfoneiro do bloco e de outras festas. Nisso ia juntando os amigos, conversando com um, com outro até coisa de quatro horas da tarde quando ele chegava em casa para um banho, trocava de roupa que não era uma fantasia porque ele não gostava e já estava pronto esperando Faustino chegar com o caminhão na porta da nossa casa. Era um carnaval simples, sem muita bebedeira. Era um passeio pela cidade pequena e isto se repetia ao longo dos outros dias de carnaval, mas sem se descuidar das obrigações do baile da Prefeitura. Ele costumava dizer que reunir os amigos era algo impagável, fosse no carnaval, fosse na festa da padroeira, no São João, no aniversário...
Interessante porque no bloco só saiam duas mulheres: Neném Galdino e Júlia. Não tinha estandarte nem fazia muito barulho. Entre os amigos de Mané da Viúva que eu me lembre na brincadeira, estavam Michael, os sapateiros Chicó Flor e Matias, o açougueiro Zé Vicente, o flandeleiro Juvenal Pé de Copa. Mesmo sem ouvir absolutamente nada, Miguel Doido não deixava por menos, estava lá firme e gritava a vontade.  Alguns outros que não lembro.
O bloco tinha algumas paradas obrigatórias. A primeira delas e me lembro que o dono da casa fazia questão que fosse a primeira, era em Jácio Fiúza, situada na esquina onde foi o INSS, onde os foliões encontravam Jácio na porta com dona Aidé, sua esposa, com uma mesa onde havia algumas bebidas e o bloco ficava no espaço do terreno se divertido por uns 20 minutos. Depois era na outra esquina, em Miguel Farias. Nada diferente e Miguel se divertia com todos eles. Mané da Viúva tinha uma amizade muito grande com os dois. O primeiro pelo lado político e da prestação de serviço durante o alistamento eleitoral e também prestação de contas de obras realizadas com recursos dos governos Municipal e Federal, quando era necessário comprovar com fotografia. O segundo, Miguel Farias, pela convivência natural da cidade, da organização do leilão e da festa da padroeira, Santa Rita. Ele tinha o maior respeito pelos dois e ainda Odorico Ferreira de Souza.
Saindo dali, passavam onde hoje é o Trairy Club e seguiam no rumo da casa de Clodoval Medeiros, aliás passagem obrigatória de qualquer farra que se prezasse na cidade. Mas não demoravam muito, seguiam o trajeto descendo a rua no rumo da cadeia pública, subiam a Eloy de Souza, davam uma volta na praça, entravam no beco das Almas, cumprimentavam monsenhor Emerson Negreiros com um toque de Zé Pereira e desciam até a cadeia para passarem o rio, se não estivesse cheio e para alcançarem o Paraíso. Subiam a Padre Antonio Rafael e desfilavam por duas vezes, atravessavam novamente o rio e chegavam a Frei Miguelinho indo até a Padre João Gerônimo para entrarem na Rua Daniel, hoje Augusto Severo e Mossoró. Em frente a igreja encerravam o desfile e cada um seguia para suas casas até retornarem no dia seguinte.

Há uma curiosidade interessante. Na terça feira de carnaval, o bloco fazia todo o mesmo percurso mas não parava em frente a igreja, descia na Camilo José da Rocha, entrava na rua do Vapor ou Cagô, hoje Dr. Jácio Fiúza, fazia uma parada em frente a casa de Neném Galdino. Ela e a sobrinha desciam, e os homens seguiam pela rua, entravam na Frei Miguelinho novamente e dobrava a direita na Ferreira Itajubá, no rumo do cabaré. Lá, todos desciam e as prostitutas vinham se agregar ao bloco no meio da rua onde dançavam até por volta das 7 da noite, todos na rua, não entravam nas ditas casas de recursos. Quando perguntado porque isso, Mané da Viúva dizia que elas também eram filhas de Deus no que minha mãe, dona Rosa, concordava. Ele dançava o tempo todo abraçado com Adelaide, sua irmã, uma mulher esguia, bonita, inteligente mas muito frustrada. Acabou cometendo suicídio, jogando álcool em todo o corpo e tocando fogo. Nunca mais Mané da Viúva encerrou o carnaval no cabaré. Os amigos iam, ele descia na curva da rua, alí onde ficava a bodega de Maria do Carmo de um lado, do outro a casa do trombonista João Leão e na frente a bodega de dona Chiu.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

Passa um vento zumbindo no telhado, Parecendo um sinal do fim mundo - Glosas












(Hélio Crisanto)

O céu negro coberto de poeira
Entre raios, trovões e nevoeiro
Anuncia de longe o aguaceiro
No momento daquela barulheira.
O relâmpago formando uma lareira
Parecendo um ciclone bem ao fundo,
Derrubando em menos de um segundo
Pé de árvore, casebre e até gado;
Passa um vento zumbindo no telhado,
Parecendo um sinal do fim mundo


(Jarcone Vital)

Na frieza das noites de inverno
Quando a prole descansa em seu regaço
Eu debulho a diária de cansaço
Rabiscando nas folhas de um caderno
De uma força maior sou subalterno
Que me faz cair num sonho fecundo
E desperto a pensar por um segundo
Que lá fora tem algo de errado
Passa um vento Zumbindo no telhado
Parecendo um sinal do fim do mundo...


(Don Itanildo)

Tava em casa sem ter o que fazer
Sossegado e tranquilo nessa noite
De repente o vento deu um açoite
Que fez o meu corpo estremecer
Não sabia o que iria acontecer
Pode crer tomei um susto profundo
Me deitei parecendo um moribundo
Nas cobertas fiquei apavorado
Passa um vento zumbindo no telhado
Parecendo um sinal do fim do mundo.


(Gilberto Cardoso)

Vejo um raio a cortar o céu escuro
e a poeira a subir no vendaval
é de chuva um nítido sinal
A tormenta me deixa inseguro 
mia um gato correndo sobre o muro
A gemer ouço a voz de um vagabundo
Das montanhas distantes oriundo
Vem um sopro gigante inesperado 
Passa um vento zumbindo no telhado
Parecendo um sinal do fim do mundo.

Nem todo poeta rima, nem toda terra é sertão - Glosas



Nem todo canto é lugar Nem todo gato é felino Nem todo deus é divino Nem toda dupla faz par Nem tudo pode explicar A ciência em expansão Nem todo não é um não Nem toda casa é da prima "Nem todo poeta rima nem toda terra é sertão."


Nem todo sonho é de trigo
Nem todo dólar é real
Nem todo mau faz o mal
nem todo fogo é amigo
nem toda pena é castigo
nem toda cela é prisão
nem todo deus tem perdão
nem toda crença sublima
"Nem todo poeta rima
Nem toda terra é Sertão"

Gilberto Cardoso dos Santos
Cuité - PB/Santa Cruz - RN



quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

Epitácio Andrade Ingressa na ABDC

Escritor Epitácio Andrade Ingressa na Associação Brasileira de Documentaristas e Curtametragistas

ESCRITOR EPITÁCIO ANDRADE

            Neste dia 27 de janeiro de 2016, o escritor Epitácio Andrade participou de sua primeira reunião como filiado da Associação Brasileira de Documentaristas e Curtametragistas (ABD e C) Sob a presidência da jornalista e especialista em cinema Dênia Cruz, a reunião ocorreu no auditório do Instituto Federal de Educação Tecnológica do Rio Grande do Norte (IFRN), na Cidade Alta, em Natal, capital do Estado.

 
COM DÊNIA CRUZ
            Na ocasião, o escritor discutiu com o musicista Roberto Damasceno sobre a sua recente pesquisa sobre a biografia do violinista e pesquisador da rabeca Luiz Mário da Rocha.

COM ROBERTO DAMASCENO

             Em conversa com o cineasta Rômulo Sckaff falou sobre seus documentários: O Doido do Saco e O Lugar da Morte de Jesuíno Brilhante, que serão apresentados ao pesquisador de documentários Marcelo Duainain. 

COM RÔMULO SCKAFF

COM DIRETORIA DA ABD e C

            No próximo dia 05 de fevereiro de 2016, o escritor foi convidado para participar de uma reunião com a equipe técnica do CAPS (Centro de Atenção Psicossocial) e com Alexandre Dantas, secretário de saúde do município de São José de Mipibu, na área metropolitana de Natal, capital do Rio Grande do Norte, quando apresentará projetos cinematográficos para 2016. Com a filiação, Epitacio Andrade está tendo oportunidade de trânsito cultural por parcela importante da intelectualidade potiguar.   

COM MARCELO DUAINAIN

OBRA DE RONILSON FERREIRA