APOESC (Associação de Poetas Escritores Simpatizantes e Colaboradores)

A APOESC (Associação de Poetas Escritores Simpatizantes e Colaboradores), criada em 03.2010 em Santa Cruz -RN, existe para congregar amantes da cultura, apologistas e produtores da arte da palavra.


quinta-feira, 20 de novembro de 2014

CRACK EM SANTA CRUZ/RN

Ativistas Articulam uma Intervenção Cultural na Epidemia do Consumo de Crack em Santa Cruz


          Reunido ao meio-dia deste 18 de novembro de 2014, no restaurante Refúgio, um grupo de ativistas, formado pelo cineasta Robson Ramon, pelo ator Wallace Medeiros, pelo professor João Maria e pelo médico psiquiatra e pesquisador social Epitácio de Andrade Filho iniciou as articulações para promover uma intervenção cultural na epidemia do consumo de crack em Santa Cruz, principal cidade da região Trairy do Rio Grande do Norte, distante 120 km da capital.

         Uma das estratégias da intervenção é o apoio ao projeto: Curta na Escola, do grupo teatral Lua Serena, que visa levar a projeção do Curta: De Quem é a culpa? , do cineasta santa-cruzense Robson Ramon aos ambientes escolares, nesse sentido o professor João Maria Medeiros iniciou articulações para viabilizar a apresentação do Curta-metragem na Escola Estadual Cosme Marques. O grupo de ativistas também vai propor aos vereadores a realização de uma audiência pública sobre a Epidemia do Consumo de Crack em Santa Cruz a ser realizada na Câmara Municipal. 

Robson Ramon e Epitácio Andrade mostram cartaz  Curta na Escola

Sineasta Robson Ramon, médico Epitácio Andrade e ator Wallace Medeiros

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

MENTIRA DE PESCADOR - Zé Acaci

Na foto, o cordelista José Acaci no lançamento de seu livro GOZANDO RIMANDO E RINDO, de onde extraímos o poema abaixo:

Tem gente que é bom de prosa...
Não joga conversa fora...
Pra qualquer situação
tem a resposta na hora.
Escuta conversa alheia
e se infiltra na teia
daquilo que está ouvindo.
E é tão bom na lorota
que tem gente que nem nota
que o sujeito está mentindo.

Certa vez um pescador
vinha chegando do mar,
quando um fiscal à paisana
chegou pra lhe interrogar.
Disfarçado de turista,
que era pra não dar na vista,
ele estava investigando
a pesca nas plataformas,
para descobrir as formas
que o povo estava pescando.

O fiscal puxou conversa,
foi pra lá e foi pra cá...
chegou perto e levantou
a tampa do samburá.
Tinha um peixe voador.
Com pena do pescador
ele perguntou baixinho:
- O senhor foi pra pescada
desde as três da madrugada
e só traz esse peixinho?

O pescador disse: - Não,
eu já tirei o meu ganho.
Já vendi um caminhão
de lagosta "destamanho".
Eu pesquei no compressor
e vendi pr'um comprador
a lagostinha pequena.
O trabalho é perigoso,
mas é bastante rendoso.
É crime, mas vale a pena.

Quando o fiscal escutou
o desenrolar da trama,
apresentou-se dizendo:
- Eu sou fiscal do IBAMA.
Tá no tempo do defeso.
O senhor esteja preso.
A multa é dois mil reais.
Pela lagosta pequena
vai pagar mais uma pena
de uns três anos a mais.

O fiscal admirou-se
depois de dizer aquilo
e notar que o pescador
ficou sorrindo tranquilo.
Quando o fiscal se calou,
ele se apresentou
esticando sua mão:
- Prazer, eu sou Zé Mimoso,
o cabra mais mentiroso
daqui dessa região!


Parabéns, poeta, por mais este excelente trabalho!

sábado, 15 de novembro de 2014

OS OLHOS DE RUBEM ALVES - Gilberto Cardoso dos Santos


Quando Rubem Alves cerrou para sempre as pálpebras, eu me perguntei: Onde haverá, na face da Terra, alguém capaz de vislumbrar o mundo exatamente como o Rubem via? Quanta aptidão tinha ele em despir uma cebola e ver-lhe a alma desnuda.

Por um tempo ele viu o mundo como nós; teve vista fraca para o que é essencial. Foi pastor protestante sedento por epifanias, professor universitário obcecado pela cientificidade da expressão linguística... mas, como aconteceu com o apóstolo Paulo, escamas caíram-lhe dos olhos.

Não se sabe exatamente quando, foi elevado até o mais alto céu e teve encontro pessoal com a poesia. Aprendeu a pressenti-la em tudo. O ouro descoberto por ele, que a tudo permeava, pertencente a um reino encantado, seria distribuído entre os educadores. A “aura” das coisas, aquilo que traz transcendência ao que é comum, que sempre escapa aos olhos enfeitiçados por bijuterias. Rubem, duplamente mineiro, sempre soube cavar no lugar certo. Mas não se sabe ao certo se ele de fato encontrava ouro ou descobrira a pedra filosofal. 

O que se sabe é que sua poesia, por ser tanta, não cabia em versos e alargava a forma das estrofes. A poesia se espalhou em sua prosa, decretou posse de seu ser e contaminou todo seu discurso. Não havia mais lugar para o pastor condicionado por viseiras religiosas, para o acadêmico árido, fanatizado por uma outra Bíblia, manietado, cioso do que deveria escrever. Nascia o Zaratustra da educação, aquele que nos falaria no idioma dos anjos.

Cerrávamos as pálpebras para ouvi-lo porque gostávamos de ver o mundo através de seus olhos. Cá embaixo, nos vales de nossa rotina educacional, deleitávamo-nos como eco de sua voz, vindo das montanhas. Éramos bem-aventurados.

Resta-nos agora treinar os olhos, adoecê-los, aflitivamente umedecê-los com o ácido das cebolas, pois necessitamos encarecidamente continuar a ver as coisas como ele as via. Do contrário, assim como morreu Rubem, morrerão os educadores. Que todo professor delire ao ponto de ver a aura única, especial, que envolve a cada aluno. O príncipe no sapo, a borboleta na lagarta, o pão na pedra.

Sejamos versos e estrofes onde a poesia livremente possa se despejar. Só assim haverá vida em nossas classes. E Rubem poderá descansar em paz...

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

OS 10 MELHORES POEMAS DE MANOEL DE BARROS - CARLOS W. LEITE



Pedimos aos leitores e colaboradores — escritores, jornalistas, professores — que apontassem os poemas mais significativos de Manoel de Barros, um dos mais aclamados poetas contemporâneos brasileiros. Nascido em Cuiabá em 1916, [FALECIDO EM 13/11/2014] Manoel de Barros estreou em 1937 com o livro “Poemas Concebidos sem Pecado”. Sua obra mais conhecida é o “Livro sobre Nada”, publicado em 1996.


Cronologicamente vinculado à Geração de 45, mas formalmente ao Modernismo brasileiro, Manoel de Barros criou um universo próprio — subvertendo a sintaxe e criando construções que não respeitam as normas da língua padrão —, marcado, sobretudo, por neologismos e sinestesias, sendo, inclusive, comparado a Guimarães Rosa.
Em 1986, o poeta Carlos Drummond de Andrade declarou que Manoel de Barros era o maior poeta brasileiro vivo. Antonio Houaiss, um dos mais importantes filólogos e críticos brasileiros escreveu: “A poesia de Manoel de Barros é de uma enorme racionalidade. Suas visões, oníricas num primeiro instante, logo se revelam muito reais, sem fugir a um substrato ético muito profundo. Tenho por sua obra a mais alta admiração e muito amor”. Os poemas publicados nesta seleção fazem parte do livro “Manoel de Barros — Poesia Completa Bandeira”, editora Leya. Por motivo de direitos autorais, apenas trechos dos poemas foram publicados.

O livro sobre nada

É mais fácil fazer da tolice um regalo do que da sensatez.
Tudo que não invento é falso.
Há muitas maneiras sérias de não dizer nada, mas só a poesia é verdadeira.
Tem mais presença em mim o que me falta.
Melhor jeito que achei pra me conhecer foi fazendo o contrário.
Sou muito preparado de conflitos.
Não pode haver ausência de boca nas palavras: nenhuma fique desamparada do ser que a revelou.
O meu amanhecer vai ser de noite.
Melhor que nomear é aludir. Verso não precisa dar noção.
O que sustenta a encantação de um verso (além do ritmo) é o ilogismo.
Meu avesso é mais visível do que um poste.
Sábio é o que adivinha.
Para ter mais certezas tenho que me saber de imperfeições.
A inércia é meu ato principal.
Não saio de dentro de mim nem pra pescar.
Sabedoria pode ser que seja estar uma árvore.
Estilo é um modelo anormal de expressão: é estigma.
Peixe não tem honras nem horizontes.
Sempre que desejo contar alguma coisa, não faço nada; mas quando não desejo contar nada, faço poesia.
Eu queria ser lido pelas pedras.
As palavras me escondem sem cuidado.
Aonde eu não estou as palavras me acham.
Há histórias tão verdadeiras que às vezes parece que são inventadas.
Uma palavra abriu o roupão pra mim. Ela deseja que eu a seja.
A terapia literária consiste em desarrumar a linguagem a ponto que ela expresse nossos mais fundos desejos.
Quero a palavra que sirva na boca dos passarinhos.
Esta tarefa de cessar é que puxa minhas frases para antes de mim.
Ateu é uma pessoa capaz de provar cientificamente que não é nada. Só se compara aos santos. Os santos querem ser os vermes de Deus.
Melhor para chegar a nada é descobrir a verdade.
O artista é erro da natureza. Beethoven foi um erro perfeito.
Por pudor sou impuro.
O branco me corrompe.
Não gosto de palavra acostumada.
A minha diferença é sempre menos.
Palavra poética tem que chegar ao grau de brinquedo para ser séria.
Não preciso do fim para chegar.
Do lugar onde estou já fui embora.

O apanhador de desperdícios

Uso a palavra para compor meus silêncios.
Não gosto das palavras
fatigadas de informar.
Dou mais respeito
às que vivem de barriga no chão
tipo água pedra sapo.
Entendo bem o sotaque das águas
Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim um atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos
como as boas moscas.
Queria que a minha voz tivesse um formato
de canto.
Porque eu não sou da informática:
eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor meus silêncios.

Retrato do artista quando coisa

A maior riqueza
do homem
é sua incompletude.
Nesse ponto
sou abastado.
Palavras que me aceitam
como sou
— eu não aceito.
Não aguento ser apenas
um sujeito que abre
portas, que puxa
válvulas, que olha o
relógio, que compra pão
às 6 da tarde, que vai
lá fora, que aponta lápis,
que vê a uva etc. etc.
Perdoai. Mas eu
preciso ser Outros.
Eu penso
renovar o homem
usando borboletas.

O fazedor de amanhecer

Sou leso em tratagens com máquina.
Tenho desapetite para inventar coisas prestáveis.
Em toda a minha vida só engenhei
3 máquinas
Como sejam:
Uma pequena manivela para pegar no sono.
Um fazedor de amanhecer
para usamentos de poetas
E um platinado de mandioca para o
fordeco de meu irmão.
Cheguei de ganhar um prêmio das indústrias
automobilísticas pelo Platinado de Mandioca.
Fui aclamado de idiota pela maioria
das autoridades na entrega do prêmio.
Pelo que fiquei um tanto soberbo.
E a glória entronizou-se para sempre
em minha existência.

Tratado geral das grandezas do ínfimo

A poesia está guardada nas palavras — é tudo que eu sei.
Meu fado é o de não saber quase tudo.
Sobre o nada eu tenho profundidades.
Não tenho conexões com a realidade.
Poderoso para mim não é aquele que descobre ouro.
Para mim poderoso é aquele que descobre as insignificâncias (do mundo e as nossas).
Por essa pequena sentença me elogiaram de imbecil.
Fiquei emocionado.
Sou fraco para elogios.

Prefácio

Assim é que elas foram feitas (todas as coisas) —
sem nome.
Depois é que veio a harpa e a fêmea em pé.
Insetos errados de cor caíam no mar.
A voz se estendeu na direção da boca.
Caranguejos apertavam mangues.
Vendo que havia na terra
Dependimentos demais
E tarefas muitas —
Os homens começaram a roer unhas.
Ficou certo pois não
Que as moscas iriam iluminar
O silêncio das coisas anônimas.
Porém, vendo o Homem
Que as moscas não davam conta de iluminar o
Silêncio das coisas anônimas —
Passaram essa tarefa para os poetas.

Os deslimites da palavra

Ando muito completo de vazios.
Meu órgão de morrer me predomina.
Estou sem eternidades.
Não posso mais saber quando amanheço ontem.
Está rengo de mim o amanhecer.
Ouço o tamanho oblíquo de uma folha.
Atrás do ocaso fervem os insetos.
Enfiei o que pude dentro de um grilo o meu
destino.
Essas coisas me mudam para cisco.
A minha independência tem algemas

Aprendimentos

O filósofo Kierkegaard me ensinou que cultura
é o caminho que o homem percorre para se conhecer.
Sócrates fez o seu caminho de cultura e ao fim
falou que só sabia que não sabia de nada.
Não tinha as certezas científicas. Mas que aprendera coisas
di-menor com a natureza. Aprendeu que as folhas
das árvores servem para nos ensinar a cair sem
alardes. Disse que fosse ele caracol vegetado
sobre pedras, ele iria gostar. Iria certamente
aprender o idioma que as rãs falam com as águas
e ia conversar com as rãs.
E gostasse mais de ensinar que a exuberância maior está nos insetos
do que nas paisagens. Seu rosto tinha um lado de
ave. Por isso ele podia conhecer todos os pássaros
do mundo pelo coração de seus cantos. Estudara
nos livros demais. Porém aprendia melhor no ver,
no ouvir, no pegar, no provar e no cheirar.
Chegou por vezes de alcançar o sotaque das origens.
Se admirava de como um grilo sozinho, um só pequeno
grilo, podia desmontar os silêncios de uma noite!
Eu vivi antigamente com Sócrates, Platão, Aristóteles —
esse pessoal.
Eles falavam nas aulas: Quem se aproxima das origens se renova.
Píndaro falava pra mim que usava todos os fósseis linguísticos que
achava para renovar sua poesia. Os mestres pregavam
que o fascínio poético vem das raízes da fala.
Sócrates falava que as expressões mais eróticas
são donzelas. E que a Beleza se explica melhor
por não haver razão nenhuma nela. O que mais eu sei
sobre Sócrates é que ele viveu uma ascese de mosca.

O menino que carregava água na peneira

Tenho um livro sobre águas e meninos.
Gostei mais de um menino
que carregava água na peneira.
A mãe disse que carregar água na peneira
era o mesmo que roubar um vento e
sair correndo com ele para mostrar aos irmãos.
A mãe disse que era o mesmo
que catar espinhos na água.
O mesmo que criar peixes no bolso.
O menino era ligado em despropósitos.
Quis montar os alicerces
de uma casa sobre orvalhos.
A mãe reparou que o menino
gostava mais do vazio, do que do cheio.
Falava que vazios são maiores e até infinitos.
Com o tempo aquele menino
que era cismado e esquisito,
porque gostava de carregar água na peneira.
Com o tempo descobriu que
escrever seria o mesmo
que carregar água na peneira.
No escrever o menino viu
que era capaz de ser noviça,
monge ou mendigo ao mesmo tempo.
O menino aprendeu a usar as palavras.
Viu que podia fazer peraltagens com as palavras.
E começou a fazer peraltagens.
Foi capaz de modificar a tarde botando uma chuva nela.
O menino fazia prodígios.
Até fez uma pedra dar flor.
A mãe reparava o menino com ternura.
A mãe falou: Meu filho você vai ser poeta!
Você vai carregar água na peneira a vida toda.
Você vai encher os vazios
com as suas peraltagens,
e algumas pessoas vão te amar por seus despropósitos!

Uma didática da invenção

I

Para apalpar as intimidades do mundo é preciso saber:
a) Que o esplendor da manhã não se abre com faca
b) O modo como as violetas preparam o dia para morrer
c) Por que é que as borboletas de tarjas vermelhas têm devoção por túmulos
d) Se o homem que toca de tarde sua existência num fagote, tem salvação
e) Que um rio que flui entre 2 jacintos carrega mais ternura que um rio que flui entre 2 lagartos
f) Como pegar na voz de um peixe
g) Qual o lado da noite que umedece primeiro.
etc.
etc.
etc.
Desaprender 8 horas por dia ensina os princípios.

II

Desinventar objetos. O pente, por exemplo.
Dar ao pente funções de não pentear. Até que
ele fique à disposição de ser uma begônia. Ou
uma gravanha.
Usar algumas palavras que ainda não tenham
idioma.

III

Repetir repetir — até ficar diferente.
Repetir é um dom do estilo.

IV

No Tratado das Grandezas do Ínfimo estava
escrito:
Poesia é quando a tarde está competente para dálias.
É quando
Ao lado de um pardal o dia dorme antes.
Quando o homem faz sua primeira lagartixa.
É quando um trevo assume a noite
E um sapo engole as auroras.

V

Formigas carregadeiras entram em casa de bunda.

VI

As coisas que não têm nome são mais pronunciadas
por crianças.

VII

No descomeço era o verbo.
Só depois é que veio o delírio do verbo.
O delírio do verbo estava no começo, lá
onde a criança diz: Eu escuto a cor dos
passarinhos.
A criança não sabe que o verbo escutar não
funciona para cor, mas para som.
Então se a criança muda a função de um
verbo, ele delira.
E pois.
Em poesia que é voz de poeta, que é a voz
de fazer nascimentos —
O verbo tem que pegar delírio.

VIII

Um girassol se apropriou de Deus: foi em
Van Gogh.

IX

Para entrar em estado de árvore é preciso
partir de um torpor animal de lagarto às
3 horas da tarde, no mês de agosto.
Em 2 anos a inércia e o mato vão crescer
em nossa boca.
Sofreremos alguma decomposição lírica até
o mato sair na voz .
Hoje eu desenho o cheiro das árvores.

X

Não tem altura o silêncio das pedras.
FONTE PESQUISADA: http://www.revistabula.com/

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

SOBRE "INQUIETUDES - IELMO MARINHO EM VERSOS" E SEU AUTOR - Gilberto Cardoso dos Santos

Tive o prazer de receber do escritor Gustavo Santos, que além de poeta é comunicador, professor e mestrando em educação, um livro autografado  intitulado Inquietudes – Ielmo Marinho em Versos.

Trata-se de uma leitura agradável, destas que despertam o apetite em leitores fastiosos - 50 poemas ao todo - em que o autor trata de paisagens, momentos e pessoas que falam com eloquência ao seu receptivo coração.

A Gustavo Santos coube o privilégio de ser o pioneiro das publicações literárias em Ielmo Marinho e a grande oportunidade de fotografar a rica subjetividade de uma gente simples, poética em sua essência. Poesia tem que ter alma, e a alma de Ielmo Marinho adquire corpo nestas páginas belamente ilustradas.

Além de merecer parabéns pela qualidade do livro e por sua habitual simpatia, Gustavo é digno de encômios por sua ideia de fazer escambo dos livros por comida - 3 kilos de alimento não perecível generosamente distribuídos -  podendo, assim, nutrir espíritos e corpos com sua obra.

Eis dois poemas de Inquietudes – Ielmo Marinho em Versos:

DOMINGO, EM IELMO MARINHO 

Amanhece o domingo,
Ielmo Marinho se desperta.
A natureza, como sempre,
com sua excelência,
sorri um novo dia.
Nos oferece
sua exuberante beleza

Choveu, um pouco, à noite.
O verde se espreguiça,
lentamente, a acordar.
A pedra fria
espera o sol chegar.

Nós encontramos uma cultura.
Estatuetas e jarros de barro.
Valioso e insaciável,
de nosso próprio respirar!
De nosso próprio viver...

Enquanto...
Um domingo amanhecer!

Foto de Ielmo Marinho meramente ilustrativa, adquirida na internet

EU QUERO

Quero beber
da água cristalina
que chega ao povo ielmo-marinhense...
Sorrisos e gargalhadas.

Quero o abacaxi
desse povo trabalhador,
vendendo na estrada de Umari,
a rotina.

Quero a carne seca
do feijão verde
em caldeirão de barro.

Quero ter boa vista,
boa prosa,
o silêncio que encanta e contagia.

Foto ilustrativa de Ielmo Marinho, maior produtor de abacaxi do RN

O poeta Gustavo Santos distribuindo alimentos adquiridos em permutas por  livros

Orelha do livro INQUIETUDES

domingo, 9 de novembro de 2014

NOVAS PÉROLAS DO ENEM

Proposta de redação do Enem: 

A partir da leitura dos textos motivadores seguintes e com base nos conhecimentos construídos ao longo de sua formação, redija texto dissertativo-argumentativo (de até 30 linhas) na modalidade escrita formal da língua portuguesa sobre o tema “Efeitos da implantação da Lei Seca no Brasil”, apresentando proposta de intervenção, que respeite os direitos humanos. Selecione, organize e relacione, de forma coerente e coesa, argumentos e fatos para defesa de seu ponto de vista.


“A Lei Seca tem esse nome por que sem cerveja a gente dirige com a gaganta seca”

“No rio de janeiro não pode dirigi bebendo mas pode ouvi fank, ainda não existe lei pra isso.”

“Acho a policia muito errado eles são grosso com o trabalhador que quer apenas se divertir com uma ceveginha.”

“A minha poposta é ter carro gratis se vc beber mas não vou candidatar pois sou de menor.”

“as mortes dimunuiram porém tem mais gente viva do que antes. graças a Deus.”

“Eles deviam trocar o bafômetro e mandar fazer o 4 com as pernas pois eu sei fazer o 4 quando estou bêbado”

“Na lei seca dos estados unidos surgiram muitos mafiosos mas no brasil ainda não apareceu isso porque o governo esta de olho nas manifestações.”

“Falta de bebida faz as pessoa dirigir triste”

“Temos que bater palmas para a skol porque fez a lei motorista da rodada para não beber quem dirige.”

“o bafotro é tipu pegadinha. eles manda voce bebê mas num sai nada. a poliça devia ser mais séria.”

“A lei seca também conhecida como lei da fisica ou lei 11-705/2008 melhora os direitos humano.”

“A desingualdade é grande no Brasil até na lei. o Rio de janero consegue comprar etilômetros mas aqui no maranhão a policia só tem dinheiro para bafometro.”

“já que não pode beber a presidente Dilma deveria liberar a maconha que faz dirigir bem relaxado e tranquilo”

“Quem bebe e dirige tem que no minimo morrer.”

“Quando a pessoa morre em acidentes por causa da bebiba além de perder a vida ela pode perder a carteira de motorista.”

“Meu pai inclusive ano passado sofreu um acidente fatal mas infelizmente ele passa bem e hoje está no aa.”

melhor ser preso pela lei seca que ser preso por robo então prefiro continuar bebendo e parar de roba”

“muitas coisas podem ser feitas para melhorar, exemplo: muitas coisas”

“basta ficar esperto e não passar perto da polícia”

 “Se no carro pode colocar alcool por que no motorista não pode?”

“a lei seca deveria valer também para o enem porque o moço que dá as provas parece que está um poco bebado”

“mas não adianta só curtir as fotos sobre lei seca no facebook, tem que também compartilhar”

“como se não bastasse a seca no nordeste”

“a lei seca é muito boa, todos deviam experimentar”

” Para finalizar, na redação do ano passado eu escrevi muito bem e me deram nota ruim, por favor me dê nota boa esse ano.”

“conserteza o pastor marcos felisiano está por tras dessa corrupição que é as multas”

“é como aquele ditado conhecido que eu não lembro muito bem, mas fala exatamente quase sobre isso “

“além do bafômetro é bom usar o etilômetro para ver se a pessoa está com febre”

“minha mãe insiste em dirigir bêbada e eu não sei como faser parar”

“as multas devia ser mais barata. nunca sobra dinheiro para meu pai me dar um playstation”

“o pior não é beber, o pior é beber e dirigir. só é aconselhável beber e dirigir se não beber antes”

“o governo poderia por exemplo criar uns memes”

FONTES PESQUISADAS: http://charlezine.com.br/proposta-de-redacao-enem-2013/

http://batblz.com/corvo/perolas-enem-2013/


sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Vamos nós dois pelejar Mostrar quem é cantador - JARCONE VITAL X ZÉ FERREIRA


Jarcone Vital

Sou um poeta pequeno,
porém não me menospreze,
ajoelhe a Deus e reze,
não provar do meu veneno,
o azêdume é "tereno",
no embate sou terror,
já vi poeta doutor,
me pedindo pra parar,
Vamos nós dois pelejar
Mostrar quem é cantador.

ZéFerreira

Se você se diz pequeno
eu aconselho que cresça
e depois me apareça
fazendo aí um aceno.
Eu te espero, sereno
no peito nenhum temor
só pra Deus Nosso Senhor
é que vou me ajoelhar
Vamos nós dois pelejar
Mostrar quem é cantador.

Jarcone Vital

Todo nordeste conhece
a força do meu repente
se passar na minha frente
ligeiro tu adoece
vai comer pra ver se cresce
magricela sofredor
papagaio falador
aqui não vai se criar
Vamos nós dois pelejar
Mostrar quem é cantador.

ZéFerreira

Já cantei com muita gente,
nunca com contaminado
a dizer que ao seu lado
alguém vai ficar doente.
Porém, preventivamente
tomei imunizador
trouxe um pulverizador
para seu verme matar
Vamos nós dois pelejar
Mostrar quem é cantador.

Jarcone Vital

Se poeta der bobeira,
arranco sua camisa,
lhe dou uma baita pisa,
com um fio de cadeira,
dou cascudo na "moleira",
de tapar o obrador,
eu gosto é de ver a dor,
se acabando de chorar,
Vamos nós dois pelejar
Mostrar quem é cantador.

Zé Ferreira

Enfrento qualquer rival
tentando ser compassivo
mas você me dá motivo
para cobri-lo no pau.
Não tenho fama de mau
porém digo sem rancor,
se despertar meu furor
de ti nada vai sobrar,
Vamos nós dois pelejar
Mostrar quem é cantador.

Jarcone Vital

Rimador véi sem futuro,
lhe peço não me aborreça,
cobra de duas "cabeça",
fumaceiro de monturo,
mijador de pé de muro,
indigente sofredor,
cria que não teve amor,
nascido para penar,
Vamos nós dois pelejar
Mostrar quem é cantador.

Zé Ferreira

Não queira me ver zangado
pois arregaço a munheca
faço de você peteca
jogando pra todo lado.
Vai apanhar um bocado
e não vai achar doutor
que lhe aplaque a dor
na hora de defecar
Vamos nós dois pelejar
Mostrar quem é cantador.

Jarcone Vital

De onde saiu esse incréu,
pra querer cantar comigo,
vou arrancar teu umbigo,
e pisar o teu chapéu,
se esqueça logo do céu,
o cão é teu protetor,
só Jesus nosso senhor,
é quem pode te salvar,
Vamos nós dois pelejar
Mostrar quem é cantador.

Zé Ferreira

Você só cantou bravata
agora vai levar tombo
e vai aprender no lombo
o ensino da chibata.
Aluno que desacata
seu mestre, seu professor
mostra que não tem valor
só serve para apanhar
Vamos nós dois pelejar
Mostrar quem é cantador.

Jarcone Vital

Essa sarna nunca vai,
saí dessa desavença,
hoje voçê pede abença,
me chamando de papai,
a sua casa hoje cai,
junto com o seu fedor,
seu moleque traidor,
aprenda a me respeitar,
Vamos nós dois pelejar
Mostrar quem é cantador.

Zé Ferreira

Poetazinho nanico
De repertório barato
dê nessa boca um trato
pois só parece um pinico
vá escovar esse bico
Minimizar o odor
diga algo de valor
que a gente possa escutar
Vamos nós dois pelejar
Mostrar quem é cantador.

Jarcone Vital

Poetinha sem futuro!
querendo ser menestrel,
nunca conheceu papel,
cresceu escrevendo em muro,
sempre viveu no escuro,
agora quer ser doutor,
tu és um avoador,
que já cansei de pescar,
Vamos nós dois pelejar
Mostrar quem é cantador.

Zé Ferreira

Seu versejar é tacanho
e só dá pra pagar mico
sua idéia é de girico,
a poesia é sem tamanho.
A minha imagem arranho
ao lado dum sem pudor
mas a todo pecador
Vem um cão pra atentar.
Vamos nós dois pelejar
Mostrar quem é cantador.

Jarcone Vital

Pego você no repuxo,
tiro sua valentia,
irás parir uma cria,
não serei pai desse bucho,
pra você seria luxo,
um filho do seu mentor,
não farei esse favor,
só não vou lhe emprenhar,
Vamos nós dois pelejar
Mostrar quem é cantador.

Zé Ferreira

Tô vendo acabar a pilha
desse poeta fracote
Se não podia com o pote
porque pegou na rodilha?
do arco de tordesilha
pra linha do Equador
nunca vi opositor
que pudesse me alcançar
Vamos nós dois pelejar
Mostrar quem é cantador.

Jarcone Vital

Minha pilha vai além,
de âmperes e decibéis,
voçê nasceu pra derréis,
não vai chegar a vintém,
eu estou bem mais além,
do vôo alto do condor,
Honduras e el-Salvador,
é onde eu vou te soltar,
Vamos nós dois pelejar
Mostrar quem é cantador.

Zé Ferreira

Conhece logo o fracasso
quem me vem com desaforo
seu cantar se torna choro
na potência do meu braço.
Volta pra casa um bagaço
pior do que já chegou
e diz nunca mais eu vou
a Zé Ferreira afrontar
Vamos nós dois pelejar
Mostrar quem é cantador.

Jarcone Vital

Esse poeta aprendiz,
querendo cantar de galo,
arrumou foi um entalo,
porque não sabe o que diz,
mando em tu infeliz!
sou o teu amo e senhor,
não canto com perdedor,
Passa pra não enganchar
Vamos nós dois pelejar
Mostrar quem é cantador.

Zé Ferreira

Ainda tá pra nascer
aquele que me derrote
só tenho visto frangote
chegar, apanhar, correr.
Por isso posso dizer:
quem à vida tem amor,
a si faz grande favor
em não me desafiar
Vamos nós dois pelejar
Mostrar quem é cantador.

Jarcone Vital

Nascestes pra levar pêia,
seu filho de chocadeira,
tu vai sair na carreira,
quando vir a coisa feia,
dou-te pisa de corrêia,
poeta gaguejador,
já que tu nunca prestou,
nem perdão irás ganhar,
Vamos nós dois pelejar
Mostrar quem é cantador.

Zé Ferreira

A macaca do repente
ando com ela ensebada
somente pra dar lapada
em poeta insolente.
Quem pisa no meu batente
em tom desafiador,
me saúda com temor
depois do couro provar,
Vamos nós dois pelejar
Mostrar quem é cantador.

Jarcone Vital

Meu menestrel Zé Ferreira,
de ti um fã eu já sou,
porém tudo não passou,
de uma grata brincadeira,
nessa terra Brasileira,
és poeta com louvor,
estou sempre ao seu dispor,
por tanto te admirar,
acabo de confirmar
que és grande cantador.

Zé Ferreira

Caro Jarcone Vital
pra mim foi grande alegria
fazer essa parceria
com um vate genial.
Pra você não tem rival
reconheço o seu valor
sou seu admiradoso não posso negar
acabo de confirmar,
que és grande cantador.

Jarcone Vital

Eu afinando a viola,
um repentista já treme,
e quando meu pinho geme
ele então se descontrola.
Dá branco em sua cachola
na alma sente o temor
seu corpo sofre o torpor
embarga e sai sem cantar
Vem de lá que eu vou de cá
Mostrar que é cantador.


quinta-feira, 6 de novembro de 2014

BELOS VERSOS DE MARIANA TELES


GALOPE À BEIRA-MAR 

Meu verso reúne costumes de um povo
Que nasceu na sombra do sertão valente
Fala das histórias de antigamente
Contadas nas rimas de um poeta novo
Quem ouve uma vez quer ouvir de novo
Que o verso é do mundo do céu e do ar
Tem marcas bonitas do improvisar
Relembra a cadência do rei do baião
O retrato vivo da cor do sertão
Longe das areias da beira do mar

Eu sou de uma terra de gênios poetas
Doutores sem letras, sem togas e anéis
Que às feiras exibem varais de cordéis
Escutando as histórias de antigos profetas
Matutas bonitas e analfabetas
Que aprendem primeiro cortar, costurar
Doutora nas prendas de cuidar do lar
Que prendem cabelo com laço de fita
E quanto mais simples fica mais bonita
Do que essas outras da beira do mar

No pé de uma serra nasci escutando
Aboio, toada, forró, cantoria
Acordava junto com o romper do dia
E na morte dele tava me deitando
Durmo numa rede com o pé balançando
A bíblia que eu leio me ensinou cantar
E se  Deus de novo na terra voltar
Procurando rastros perdidos no chão
Vai achar pegadas no pó sertão
Longe das areias da beira do mar

Nasci envolvida no véu do repente
Sentindo os sopapos do som da viola
Onde o verso nasce parecendo mola
Quando um vai pra trás vem outro pra frente
Meu vestido é feito como antigamente
Vendo a hora a barra no chão se manchar
No couro ou na sola aprendi andar
Criei-me na terra longe do asfalto
De saia comprida sem sapato alto
E não me acostumo na beira do mar.

O shopping da gente é dia de feira
A lona se estira no chão da calçada
Num chapéu de palha já descosturada
Uma banda falta a outra é inteira
Nossa cafeteira é uma chaleira
E um pano limpo pra café coar
Eu inda pastoro pra não derramar
Um fogão de lenha que meu avô fez
Mesmo assim não troco nesse de vocês
Pois café não presta com gosto de mar.

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

PADRE ALESSANDRO CAMPOS NO LIXÃO DE BRASÍLIA- Gilberto Cardoso dos Santos


Estou me sentindo forçado a conhecer mais e mais sobre padre Alessandro Campos. Nas ruas de Santa Cruz, principalmente aos sábados, é impossível não ouvir

"O que que eu sou sem Jesus?
Nada, nada, nada
Sem Jesus o que que eu sou?
Nada, nada, nada"


O povo costuma fazer coro à resposta. Involuntariamente, não resisto à tentação de completar a música. Acho que aquilo faz bem à feira. Traz uma sensação de paz aos que ali circulam, a julgar pelo que vejo nos semblantes. Obviamente, alguns se irritam com o alto volume e repetitividade, mas no geral o saldo é positivo. As músicas que anteriormente tocavam nos carrinhos de cds piratas eram horríveis.

Minha sogra é fã desse clérigo. Costuma ouvir tudo que ele canta e fala. Foi quem me indicou o vídeo, gravado em um lixão de Brasília.

Ao ver a reportagem intitulada "O padre na pele do povo" lembrei do seguinte trecho bíblico:

"De sorte que haja em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus, Que, sendo em forma de Deus, não teve por usurpação ser igual a Deus, Mas esvaziou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, fazendo-se semelhante aos homens; E, achado na forma de homem, humilhou-se a si mesmo, sendo obediente até à morte, e morte de cruz." - Filipenses 2: 5 a 8  

Num certo sentido foi isso que o padre fez: despiu-se do luxo e glórias que a função lhe confere e buscou igualar-se aos menos favorecidos, ainda que temporariamente. Nosso mundo carece mais e mais  dos que se põem na pele dos outros para conhecer mais de perto seus dramas. A empatia parece  imprescindível nos dias de hoje.
Fico imaginando o que este líder religioso pensa ou deveria pensar vendo tantos irmãos - todos católicos - vivendo em condições tão desfavoráveis. 

Chamou-me a atenção o momento em que o padre perguntou a um dos catadores: 

- O que você encontrou aqui de mais importante?

E a resposta:

- Minha família. Foi aqui que eu conheci minha mulher.

A reportagem trouxe-me também à lembrança os seguintes poemas:


Além da Imaginação
,
Tem gente passando fome.
E não é a fome que você imagina
entre uma refeição e outra.
Tem gente sentindo frio.
E não é o frio que você imagina
entre o chuveiro e a toalha.
Tem gente muito doente.
E não é a doença que você imagina
entre a receita e a aspirina.
Tem gente sem esperança.
E não é o desalento que você imagina
entre o pesadelo e o despertar
Tem gente pelos cantos.
E não são os cantos que você imagina
entre o passeio e a casa.
Tem gente sem dinheiro.
E não é a falta que você imagina
entre o presente e a mesada.
Tem gente pedindo ajuda.
E não é aquela que você imagina
entre a escola e a novela.
Tem gente que existe e parece
imaginação.


(Ulisses Tavares)

O Bicho

Vi ontem um bicho
Na imundície do pátio
Catando comida entre os detritos.

Quando achava alguma coisa,
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.

O bicho não era um cão,
Não era um gato,
Não era um rato.

O bicho, meu Deus, era um homem


(Manuel Bandeira)

Em suma, a reportagem nos traz à reflexão uma realidade para a qual pouco atentamos.Há um outro Brasil que precisa ocupar mais as manchetes. Parabéns ao padre e à TV Aparecida.





sábado, 1 de novembro de 2014

PRA QUE TANTA RIQUEZA SE A PESSOA NADA LEVA DAQUI PRA SEPULTURA?


Pra que eu com mansão num litoral
Se num rancho tá bom, num pé de serra?
Se eu fizer playground aqui na Terra
Lá no céu vai faltar material
Minha escola maior foi o Mobral
O meu livro tem sido a Escritura
Pra que eu estudar literatura
Se a Palavra de Deus me aperfeiçoa
Pra que tanta riqueza se a pessoa
Nada leva daqui pra sepultura?

Muitas vezes, sozinho, eu me pergunto:
Pra que tanta riqueza se depois
Que o caixão encostar e couber dois
O amigo melhor não quer ir junto?
Pra que cara fragrância se o defunto
Não exige perfume da “natura”
Mesmo a alma é cheirosa quando é pura
Mas o cheiro do corpo ainda enjoa
Pra que tanta riqueza se a pessoa
Nada leva daqui pra sepultura?

Pra que casa cercada por muralha
Se a cova é cercada pelo pranto
Se pra Deus todos têm do mesmo tanto
Tanto faz a fortuna ou a migalha.
Pra que roupa de marca se a mortalha
Não requer estilista na costura
Se o cadáver que a veste não procura
Nem saber se a costura ficou boa?
Pra que tanta riqueza se a pessoa
Nada leva daqui pra sepultura?

Pra que eu toda hora dar balanço
No que eu tenho ou andar atrás de bingo
Pra que tanta hora extra no domingo
Se Deus fez esse dia pro descanso
Pra que eu trabalhar igual boi manso
Se a chibata do dono me tortura
Pra que eu reclamar da minha altura
Se o que a mão não alcança, Deus me doa
Pra que tanta riqueza se a pessoa
Nada leva daqui pra sepultura?

Não sou dono de ônibus nem de trem
Mas enquanto eu puder me locomovo
Pra que eu invejar um carro novo
Se o transporte final nem rodas tem
Nem me avisa dizendo quando vem
Mas só anda na minha captura
Bem abaixo da sua cobertura
Ele tem quatro asas, mas não voa
Pra que tanta riqueza se a pessoa
Nada leva daqui pra sepultura?

Pra que eu com dois olhos na barriga
Se os da cara já são suficientes
Pra que eu invejar os meus parentes
Se já sei que o retorno é uma intriga
A formiga que evita ser formiga
Cria asas, se torna tanajura
Cresce a bunda demais, cria gordura
Fica muito pesada e cai à toa
Pra que tanta riqueza se a pessoa
Nada leva daqui pra sepultura?

Pra que eu inventar de ser afoito?
Se não tenho coragem pra vencer?
Pra que eu comprar queijo sem poder
Se na mesa tem pão e tem biscoito?
Pra que eu colocar um 38
Entupido de bala na cintura?
Se a razão é a arma mais segura
Que sossego melhor não tem coroa
Pra que tanta riqueza se a pessoa
Nada leva daqui pra sepultura?

Autor: Poeta Zé Adalberto de Itapetim, PE

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