APOESC (Associação de Poetas Escritores Simpatizantes e Colaboradores)

A APOESC (Associação de Poetas Escritores Simpatizantes e Colaboradores), criada em 03.2010 em Santa Cruz -RN, existe para congregar amantes da cultura, apologistas e produtores da arte da palavra.


segunda-feira, 20 de abril de 2015

LIVRO DOS SONHOS, A MORPHEU - Islla Moreira


Caminhamos, risos, conversas. Grama. Sol. Arvores. Alguma luz passa por entre seus galhos. Folhas correm, agitadas. De repente, o infinito convida a observar. Palavras. Dúvidas "existenciais". Toque. Rubor. Sorriso. Um beijo. Outro. Um desenho, feito no ar e de repente em minhas costas. Lentamente, deslizam em minhas trajetórias. Trêmulos, arredios. Encontros. O encantamento existe em suas palavras e ele me leva ao sonho sem que eu diga sim ao convite. Estou presa ao seu fôlego que termina em minha nuca. Suspiro. Descompasso. Braços amoldam-se. Arrepios. O plano de seus dedos mudam de trajetória e percorrem por outras geografias. Lábios que se aproximam. Mãos que se tocam. Calor. Calor dos lábios. Minhas mãos se perdem, assim como outra parte dos outros sentidos teimam em ir embora. Estou desarmada. Sou leve demais para pesar sobre o seu corpo. Armadilha. Não há busca pela liberdade. Mas não existem algemas. Não preciso me confessar frágil. Toques delicados, parecem adivinhar os caminhos. Nada me faz sair. Teus braços. Minha estrada é permanecer. Não consigo reunir mais meia dúzia de palavras coerentes. Ouço pássaros. Meu rosto queima, cora. Não existe uma distância segura e não pretendo me afastar.

domingo, 19 de abril de 2015

Cordelzinho narcisista - Rogério Almeida



Sou vaqueiro, tradutor
navegante, seresteiro
caçador e pé-de-cana
vigário raparigueiro
mentiroso, escritor
democrata ditador
bom beato e mau zagueiro
comedor de tapioca
repentista sem viola
pescador e garimpeiro
dançador de xote e polca
sommelier de taboca
cantador e rabequeiro
taxista e feirante
pai-de-santo retirante
ermitão itinerante
rapsodo e até padrinho
de menino véi buchudo
ordenança de ceguinho

Quando amanso burro brabo
meto a espora e solto o arreio
chega o bicho dá pinote
da altura de um coqueiro
planto milho na invernada
colho fava em fevereiro
e na hora do aperreio
lá na serra da Tapuia
pego uma macaúba
três pitombas
rapadura!
de farinha, uma cuia.

frito um ovo de codorna
que é pra dar a frevioca
abro a boca da cabaça
bebo a água que é de graça
mais gostosa que já vi
do jeitinho da morena
que só brota na nascente
lá no alto, minha gente
das serras do Cariri!

LOUCOS POR DISCOS DE VINIL


            Loucos Por Vinil é um documentário curta, produzido e exibido na TV Cultura em 2010. Curiosos personagens como o lendário Kid Vinil, o jovem Guilherme Petelincar e Luís Calanca, proprietário da tradicional loja de discos Baratos & Afins, tentam explicar a paixão que nutrem pelo bolachão em pleno século XXI.


sábado, 18 de abril de 2015

A POESIA E A LIBERDADE (Celso Cruz)


A POESIA E A LIBERDADE
Eu invejo a liberdade
Gozada pela poesia
Ela tem autonomia
Inclusive do poeta
Ela se porta inquieta
Ele se vai e ela fica
Nem o tempo a erradica
Viaja por corações
Desnuda as emoções
Do livre não abdica

Imortaliza o belo
Respiração de pensamentos
Transborda dos sentimentos
Buscando a liberdade
Sempre guarda lealdade
E é da alma a expressão
Desentende-se com a razão
Se tomada por amor
Chega a dar cheiro e sabor
As coisas do coração

A poesia não envelhece
E dá brilho a lembrança
Viaja pela esperança
De mão dadas com o sonhar
Alimenta-se do amar
Se espalha com o bem querer
Amenizando o sofrer
Como um sussurro que acalma
Sua morada é na alma
E o seu amante, o viver. (Celso Cruz)

sexta-feira, 17 de abril de 2015

"A VIDA É UM PAU-DE-SEBO COM NOTA FALSA NA PONTA" - Gilberto Cardoso dos Santos


Há tempos conheço esse mote cuja autoria desconheço. Acho-o bem expressivo. 
Resolvi glosá-lo.

Eu já vivi iludido
buscando a felicidade
vejo agora, na verdade,
que foi um tempo perdido
hoje estou envelhecido
sentindo dores sem conta
são peças que a vida apronta
e finalmente concebo
"que a vida é um pau-de-sebo
com nota falsa na ponta"

A morte é ponto final
onde o homem vira pó
ali ele fica só
não se sente bem ou mal
eis o destino fatal
que à nossa  vida afronta
por isso só faço conta
do tempo que hoje recebo
"a vida é um pau-de-sebo
com nota falsa na ponta."

A vida é traiçoeira
Não passa duma quimera
Quando menos se espera
Ela vem e dá rasteira
Feito uma mulher chifreira
Que ao marido desaponta
Mas isso a gente desconta
Prossegue no amancebo
"a vida é um pau-de-sebo
com nota falsa na ponta."

Um menino vem ao mundo
e cheio de sonhos cresce
mas depois que envelhece
sente um desgosto profundo
vai ficando moribundo
a cabeça fica tonta
o seu corpo se desmonta
por isso é que eu percebo
"que a vida é um pau-de-sebo
com nota falsa na ponta."

com choro a vida começa
com pranto a vida termina
esta é a nossa sina
e a vida passa depressa
o sofrimento não cessa
de repente a dor aponta
a gente se desaponta
e não há nenhum placebo
"a vida é um pau-de-sebo
com nota falsa na ponta."

Quanta gente vaidosa
acha que é no planeta
o rei da cocada preta
e se sente orgulhosa
vem a morte pavorosa
e por fim o amedronta
numa verdadeira afronta
aos intuitos do mancebo
"a vida é um pau-de-sebo
com nota falsa na ponta."

Vejo gente a se drogar
Devido os muitos problemas
Tentam vencer seus dilemas
Mas só fazem piorar
o homem deve encarar
quando a tristeza o confronta
se o desengano desponta
eu não me drogo nem bebo
“Mas a vida é pau-de-sebo
Com nota falsa na ponta.”


quarta-feira, 15 de abril de 2015

A Eleita - Cecília Nascimento





Ela é...
Uma flor que perdeu a aparente formosura
Uma pétala esmagada por seus pés
O espinho ressecado pelo vento
Uma árvore infrutífera em plena estação
Um tesouro encontrado e não usufruído
Uma linda canção jamais fruída
Um poema que um anjo rabiscou
Um livro tão incrível que ninguém jamais lerá
Uma candeia escondida no alqueire
Uma ceia farta sem convidado algum
Uma escuridão em pele viva escondendo a luz do Sol
Um grito preso não na garganta, n’alma
Uma constante inquietação desde a nascença
Uma vida que jamais será plena enquanto viver
A Eleita para ser tudo isso sem ao menos parecer
Aquela que parece ter tudo menos você!
Quem?

Cecília Nascimento
(15/04/15)


terça-feira, 14 de abril de 2015

A MORTE (GALOPE À BEIRA-MAR)

O POETA TEM QUE FALAR DE TUDO, ASSIM RESOLVEMOS FALAR DE MORTE ( GALOPE A BEIRA-MAR)

LUCÉLIA SANTOS (PATÚ-RN) x JONH MORAIS ( ACOPIARA- CE/JOÃO PESSOA-PB )
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Tem coisas na vida que eu não sei fingir
Tipo a dor que sente quem perde um alguém
Que eu sou tão sensível que choro também
E as dores dos outros consigo sentir
Quem é desumano não pode medir
A dor de uma mãe que ficou a chorar
A morte é cruel e só vem pra levar
Quem tanto na vida tinha o que viver
Mas quem mata um dia também vai morrer
Nos dez de galope da beira do mar.

Lucélia Santos

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Eu noto que é bem difícil dizer
Palavras sensatas na luz desse assunto
Lembrando do choro por quem é defunto
E das duras formas que fazem morrer
Mil vidas ceifadas eu vi perecer
Findadas no fogo do incêndio a queimar
E a morte cruel rondando a espreitar
A vida com planos que são consumados
Eu lembro a família de muitos finados
Que perdem suas vidas por dentro do mar!

Jonh Morais��
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Já vi muitos corpos serem sepultados
Deixando parentes e amigos em prantos
Não lembro o total porém sei foram tantos
Que de suas casas foram retirados
Por vícios cruéis com destinos traçados
Pela violência que vem pra matar
Por drogas por armas em qualquer lugar
As vidas se vão sem ter grande importância
E a morte percorre uma grande distância
Deixando o seu rastro na beira do mar.

Lucélia Santos

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A morte circunda meus atos com ânsia,
Tentado fazer minha vida sumir,
Sem dúvida um dia, nos iremos se unir
Mas pesso que Deus alargue a distância,
Que assim me proteja de cada uma instância
Que o pútrido abutre vier me buscar,
Existem projetos que quero lavrar
E ainda preciso viver muitos anos
Pra assim consumar sem haver desenganos
Nos dez de galope na beira do mar!

Jonh Morais��
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Algum dia a morte irá contra os meus planos
Porém não pretendo ir embora com ela
Prefiro ficar nessa vida que é bela
Vivendo os meus dias difíceis insanos
No bingo da vida ganharei mais anos
Pra todos meus sonhos poder realizar
Por mais que ela insista eu não vou me entregar
Que todo poeta se torna imortal
E eu quero viver sempre no auto-astral
Cantando meus versos na beira do mar.

Lucélia Santos
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As vestes escuras, na mão tão fatal
A foice cortante sedenta por vidas,
As marcas nos olhos das almas perdidas,
O frio que carrega seu ódio e o seu mal,
A sua recompensa é ver no funeral
Lamentos e choro, tristeza e penar,
0 pranto que desce de um olho a chorar
E a dor sufocante de quem perde um ente,
Que fica na face de cada parente
Nos dez de galope da beira do mar!

Jonh Morais��
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Conheço essa dor bem detalhadamente
Que grita no peito com voz de saudade
A morte levou minha felicidade
E eu fiquei sozinha assim bem de repente
Meu peito choroso hoje vive carente
Tentando esquecer quem não pode ficar
A morte é severa e não manda avisar
Não tem dia e hora e nem lugar marcado
Mas quando ela chega dá logo o recado
Nos dez de galope da beira do mar.

Lucélia Santos
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O meu coração também vive abafado
Tirando os escombros que a morte deixou
Meu pai para sempre com ela viajou
Eu sinto meu peito ficar apertado,
Foi duro perder mas ficou bem gravado,
Que tudo no mundo um dia vai se findar
As vezes pergunto quem pode matar
A morte, pra ver se a tristeza suprime
Pois quem mata a morte não é preso por crime
Nos dez de galope da beira do mar*

Jonh Morais��
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FIM***
 —

domingo, 12 de abril de 2015

Meu verso é murro na mesa onde a Justiça é vendida


O SUPREMO TRIBUNAL
JULGA POR CONVENIÊNCIA
ROUBA NOSSA CONSCIÊNCIA 
ACHANDO QUE ISSO É NORMAL
MAS O PONTO PRINCIPAL
DESSA MÁQUINA CORROMPIDA
É QUE A NAÇÃO TÁ FALIDA
E A MÍDIA ESBANJA BELEZA
MEU VERSO É MURRO NA MESA
ONDE A JUSTIÇA É VENDIDA.
-HENRIQUE BRANDÃO-




Angústia Asmática! (Cecília Nascimento)


***

Angústia Asmática!

Afoguei-me numa folha em branco
Agarrada a uma caneta
E não matei minha sede.
Matei a inspiração
E a ideia de não poder parar me sufoca
Sentada de castigo
No martírio deste não compor permaneço
Só saio quando romper a bolsa
Quero o parto já!
Chega de contração!
Venha o Benoni... Filho da dor!
Só respirarei ao compor...

Luto...
Aborto prematuro...

(Cecília Nascimento)


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sexta-feira, 10 de abril de 2015

MITOS QUE VOVÓ CONTAVA CARLOS DANILO DA SILVA TEIXEIRA.


12/03/2015. VOVÓ JÁ CONTAVA HISTÓRIAS DO CONTEXTO CULTURAL FALAVA VÁRIS MEMÓRIAS DA MULA SACI LOBO MAU. EU QUE TENHO CERTO MEDO OUVIA COM MUITA ATENÇÃO POIS NÃO É NENHUM SEGREDO HISTÓRIAS DE ASOMBRAÇÃO. VOVÓ NOS CONTAVA HISTÓRIAS DO LUGAR ONDE VIVIA TINHA TUDO NA MEMÓRIA SEM PRECISAR DE CALIGRAFIA. DIZIA QUE CERTO DIA OUVIU CUMADRE FULOSINHA ASSOBIANDO BASTANTE AO VER O RAIAR DO DIA E ASSIM ACABA O POEMA MITOS QUE VOVÓ DIZIA

quarta-feira, 8 de abril de 2015

UM TEXTO QUE PODERIA MELHORAR O MUNDO


Escutatória
Rubem Alves
Sempre vejo anunciados cursos de oratória. Nunca vi anunciado curso de escutatória.
Todo mundo quer aprender a falar... Ninguém quer aprender a ouvir.

Pensei em oferecer um curso de escutatória, mas acho que ninguém vai se matricular.
Escutar é complicado e sutil.
Diz Alberto Caeiro que... Não é bastante não ser cego para ver as árvores e as flores.
É preciso também não ter filosofia nenhuma.
Filosofia é um monte de idéias, dentro da cabeça, sobre como são as coisas. Para se ver, é preciso que a cabeça esteja vazia.
Parafraseio o Alberto Caeiro: Não é bastante ter ouvidos para ouvir o que é dito.
É preciso também que haja silêncio dentro da alma.
Daí a dificuldade:
A gente não aguenta ouvir o que o outro diz sem logo dar um palpite melhor...
Sem misturar o que ele diz com aquilo que a gente tem a dizer.
Como se aquilo que ele diz não fosse digno de descansada consideração...
E precisasse ser complementado por aquilo que a gente tem a dizer, que é muito melhor.
Nossa incapacidade de ouvir é a manifestação mais constante e sutil de nossa arrogância e vaidade.
No fundo, somos os mais bonitos...
Tenho um velho amigo, Jovelino, que se mudou para os Estados Unidos estimulado pela revolução de 64.
Contou-me de sua experiência com os índios: Reunidos os participantes, ninguém fala.
Há um longo, longo silêncio.
Vejam a semelhança...
Os pianistas, por exemplo, antes de iniciar o concerto, diante do piano, ficam assentados em silêncio...
Abrindo vazios de silêncio... Expulsando todas as idéias estranhas.
Todos em silêncio, à espera do pensamento essencial. Aí, de repente, alguém fala.
Curto. Todos ouvem. Terminada a fala, novo silêncio.
Falar logo em seguida seria um grande desrespeito, pois o outro falou os seus pensamentos...
Pensamentos que ele julgava essenciais.
São-me estranhos. É preciso tempo para entender o que o outro falou.
Se eu falar logo a seguir... São duas as possibilidades.
Primeira: Fiquei em silêncio só por delicadeza.
Na verdade, não ouvi o que você falou.
Enquanto você falava, eu pensava nas coisas que iria falar quando você terminasse sua (tola) fala.
Falo como se você não tivesse falado.
Segunda: Ouvi o que você falou. Mas, isso que você falou como novidade eu já pensei há muito tempo.
É coisa velha para mim. Tanto que nem preciso pensar sobre o que você falou.
Em ambos os casos, estou chamando o outro de tolo. O que é pior que uma bofetada.
O longo silêncio quer dizer: Estou ponderando cuidadosamente tudo aquilo que você falou.
E, assim vai a reunião.
Não basta o silêncio de fora. É preciso silêncio dentro. Ausência de pensamentos.
E aí, quando se faz o silêncio dentro, a gente começa a ouvir coisas que não ouvia.
Eu comecei a ouvir.
Fernando Pessoa conhecia a experiência...
E, se referia a algo que se ouve nos interstícios das palavras... No lugar onde não há palavras.
A música acontece no silêncio. A alma é uma catedral submersa.
No fundo do mar - quem faz mergulho sabe - a boca fica fechada. Somos todos olhos e ouvidos.
Aí, livres dos ruídos do falatório e dos saberes da filosofia, ouvimos a melodia que não havia...
Que de tão linda nos faz chorar.
Para mim, Deus é isto: A beleza que se ouve no silêncio.
Daí a importância de saber ouvir os outros: A beleza mora lá também.
Comunhão é quando a beleza do outro e a beleza da gente se juntam num contraponto. 

Esse texto faz parte do livro de crônicas:

Rubem Alves. O amor que acende a lua.