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quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

IDEIAS CRUZADAS

 


IDEIAS CRUZADAS


Passa horas sentado na poltrona, piscando os olhos a cada três segundos. A fome é recebida com alegria, pois testemunha que ele está vivo. Os mortos cochicham em seu ouvido: venha pra cá. Ele sabe que isso é uma forma de mentir para si mesmo.

Brinca com as crenças para conseguir sociabilidade. Acredita que estão todos perdidos, inclusive ele. A diferença é que percebe com clareza seus desatinos, evitando se iludir com as autopromoções de um ego inflado.

Alguém ali perto fala dos bombeiros e dá risadas, acompanhadas por quem antes estava sério e que, consequentemente, transforma-se à condição de risonho. Que droga! Há interferência do meio externo para que ele saia do tédio. Sua existência é questionada por si mesmo, até que se levanta para desligar uma torneira.

As quatro pernas da cadeira permanecem de prontidão, caso ele não queira cair. Levanta-se segurando no espaldar. Os passos são controlados pela insegurança. No caminho, uma boca acesa no fundo de uma panela chama-lhe a atenção.

Volta à posição inicial, de pernas cruzadas. Seu único divertimento é esperar o tempo passar, reforçando o ofício de desocupado praticante. Por mais que faça projetos, ele esbarra na certeza de que um dia irá apenas ficar deitado, olhos fechados, sem forças para abri-los ao final.

A água fervida vai para outra vasilha, carregada por mãos carentes de hidratação. O mesmo corpo que exige conforto encontra lazer em se manter hidratado, saciado e amparado, fazendo parte dos oito bilhões de organismos correndo em direção a um sanitário. Não há evolução. Um batalhão querendo se livrar das carências; outros, seguindo leis sem resultados práticos.

No intervalo do sono, o relógio mudou de posição por algumas horas, dando tempo para o feijão ser cozido. Um brinde trazido das terras de Pablo Neruda observa as tampas das garrafas que um dia serão retiradas por ele. Um ímã, enfeitado com a palavra love, paira na lateral da geladeira. Foi recebido em troca das novidades cuspidas com entusiasmo numa tarde de sábado, regada a muita alegria e atenção redobrada. Sua amiga, de macacão verde, promete outras viagens para daqui a seis meses. “Venho contar”, diz ela, na despedida.

A noite chega sem avisar, percebida pelos cliques dos interruptores. Um ferro de passar empurra a roupa ex-amassada para dentro do closet. Mais um esforço desperdiçado para acompanhar a moda do bem-vestido. Suprir as necessidades básicas já não basta. É preciso andar limpo, asseado, bem-apresentável. Tudo isso surge como se fosse natural.

A cabeça faz o papel de um relógio, tendo o pêndulo se transformado em tronco e membros, guiados pelo tique-taque de um relógio de parede. Este funciona a corda; aquele, a marca-passo; um registra horas, o outro, ideias.

Seu mundo espiritual foi diluído e triturado na máquina da realidade. O lado filosófico ficou sem voz ao ver um casal transformado pelo tempo. Ele chora ao perceber que também está se transformando em um estranho diante do espelho. Tenta se acostumar com sua nova aparência de monstro enrugado, e só não se suicida porque o sono faz isso por ele. 

Dorme cansado pelo peso de manter a corrente sanguínea passando pelos becos escuros das artérias. A escuridão empurra o resto de vida para debaixo dos lençóis, assim como o desprezo da vassoura empurra a poeira para debaixo do tapete.

Sua dignidade foi trocada por um alívio fugaz à base de paracetamol. Sofrimento com juros compostos. Está rico de problemas pessoais, convertidos em peso na consciência.

Permanece com saída apenas para cima. Seu joelho clama por descanso. Apesar de tudo, está contente por transitar no caminho usado pela maioria que sente inveja de quem está morrendo.

Mais uma noite está indo. Ele olha ao redor e não encontra ninguém para conversar. Todos estão ocupados em manter problemas oriundos das reações químicas do medo. Ele sabe que não adianta tentar contato fora do circuito do trabalho, então se conforma com o inconformismo inerente a quem perde o poder.

Precisa, urgentemente, investir em uma mulher artificial para trocar ideias. Uma que não se canse nem sinta vergonha de possuir uma bateria infinita, com programação de meiga, simpática, sensual e desbloqueada de pudor.

Quer que essa namorada venha pelos correios, embalada em plástico-bolha e pronta para uso, com HD cheio de estímulos, programada para aturar seus devaneios, seus debates infrutíferos e capacitada para responder sorrindo a agressões verbais.

Guardará ela no armário, com cuidado para que não caia nas mãos de estranhos. Quer uma completa, inclusive com autodefesa mortal contra desconhecidos. Por outro lado, teme ser confundido com um inimigo, mas a carência é tanta que decide fazer o pedido, mesmo correndo o risco de ser eletrocutado.


Heraldo Lins Marinho Dantas

Natal/RN, 20.01.2026 – 14h37min.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

A COSTURA DO TEMPO

 


A COSTURA DO TEMPO 


O fundo é olhado com atenção. Entre os dedos, a ponta da agulha ficou para baixo. Dedos enrugados tentam passar a linha… linha, agulha e dedos se acasalam. O tempo espera essa manobra. Finalmente… não, ainda não foi concluída a tarefa.

É uma manhã de verão. Como era de se esperar, o sol surge com seu protagonismo de secar roupas, enrugar dedos e esquentar agulhas. O vento tímido não atrapalha o fogo, que esquenta a água para o chá — ou melhor, para o café. Chá ou café pouco importa, assim como a vida útil da agulha também tem pouca importância. A linha podre já perdeu seu branco vivo; hoje sobrevive amarelada, assim como o rosto da dona dos dedos enrugados.

A sandália convive com outros tipos de dedos da mesma idade. Dedos que nunca passaram uma linha pela agulha. Para estes, a realidade são bichos-de-pé, esbarrões na quina dos móveis e unhas encravadas. Duas realidades distintas para a mesma nomenclatura, assim como seres humanos das classes A e D.

A água borbulha. O fogo é desligado. O café é coado, bebido e desce pela garganta abaixo da matéria em formato de gente. A cafeína é deslocada para o cérebro, que mantém a atenção na agulha. Neurônios sentem-se confortáveis a ponto de indagarem se não haveria algo mais importante a fazer além de se preocupar em costurar. A hospedeira de tais neurônios não se dá ao luxo de pensar diferente. Sua vida inteira foi fazendo o que está a fazer.

O vento leva os retalhos pelo chão de cimento. Pedaços de linha acompanham o cortejo. Aos poucos, as nuvens cobrem o sol; eis o motivo de se precisar acender a lâmpada do ateliê pouco iluminado. A lâmpada queimada deixa a penumbra fazer a festa. Gavetas são abertas por mãos conhecidas pelas rugas, mas não encontram uma nova para trocar. O cérebro indaga se não seria melhor fugir daquelas necessidades banais. Ir embora para longe daquele corpo que precisa de linha, agulha, lâmpada, café, fogo… Ah!, pensa o cérebro, como seria bom viver apenas pensando, sem precisar executar.

O sol volta. A lâmpada nova é deixada para as próximas compras. Daqui a pouco. Que pouco? Poucos dias, poucos meses? Não há tempo para essa resposta. O tempo seleciona as respostas a cada tic-tac. A fila anda, mesmo estando parada. Esse malabarismo verbal nem chega a ser cogitado. Há pressa em colocar a linha na agulha; por isso, o prazer de questionar é eliminado antes de criar raízes, deformando o ser pensante em uma máquina executora de tarefas.

O vulcão, há milhões de anos inativo, volta a expelir lava. No ateliê, ao pé da montanha, a xícara de café acabara de ser lavada. Tremores dificultam a paz. Toda a atenção é voltada para a capacidade das pernas apreenderem a corrida. Cada um faz sua parte. Tudo pronto para a fuga.

Três anos depois, os bombeiros, retirando a lama dos corpos petrificados, encontram uma estátua tentando colocar a linha numa agulha.


Heraldo Lins Marinho Dantas

Natal/RN, 14.01.2026 - 09h42min.

terça-feira, 13 de janeiro de 2026

QUARTO VAGO

 




QUARTO VAGO


Devagarinho, procura uma ideia no meio do pensamento, como quem procura uma agulha em um palheiro. Até para pensar dói. Seus janeiros acumulados já somam bastante, e agora mais um está começando. Precisa descansar o dobro do tempo após qualquer tarefa realizada. Isso lhe chegou gritando na ressaca do espumante ingerido no pipocar do Ano-Novo. Doenças genéricas tomaram conta dos convidados, a ponto de um casal se ausentar porque a filha apresentou febre alta. Ninguém escapa da manutenção do corpo, pensa, ainda deitado, com a brisa ensolarada invadindo o quarto do hotel.

Examina as forças restantes e encontra fragmentos de sensatez implorando para que entregue os pontos à aposentadoria. Precisa olhar para a própria existência como um cientista examina uma ameba ao microscópio.

Seus sonhos estão se esvaindo, deixando-o solitário no meio da vida. A floresta dos anos passados, com suas árvores de acontecimentos, contrasta com o deserto do futuro, que se estende a perder de vista. As mesmas árvores brotam a cada segundo, sem apresentar novidades.

Escuta vozes vindas da cozinha. As mulheres preparam o café enquanto ele não quer se levantar. O que lhe faz bem é permanecer inútil, fechando e abrindo o punho para averiguar o restante das forças. Os sinais da desarmonia do corpo vêm em forma de dores. O cotovelo direito pede descanso do jogo com a raquete; as panturrilhas também. O raciocínio lento o impede de devolver a bola rápida que chega pelo caminho tão batido da quadra simulada. Perde o tempo da bola, mas teima em reiniciar quantas vezes for possível, tentando trazer para si o domínio do foco — por enquanto, em vão.

Relembra a conversa da convidada sobre a própria mediunidade, deixando-o entediado. Que besteira é falar de algo que não se pode provar. Isso não traz nenhum benefício prático.

A cor branca dos cabelos torna-se mais branca a cada encontro; a barriga saliente continua a dar a impressão de gravidez. Será que homens barrigudos nutrem esse perfil pelo desejo inconsciente de também poderem engravidar, assim como mulheres que usam calça pelo desejo inconsciente de urinar em pé?

Espanta essas interrogações sem respostas precisas e vai para o limbo. Lá só há anjos que não precisam digerir para sobreviver. Basta um sopro e lá se vão pelo caminho, sem gastar combustível. O ideal humano passa pela capacidade de se fixar no mundo dos deuses, onde não existem dores e, consequentemente, não existem imperfeições.

Volta ao que interessa: seu corpo. Seu desejo de dormir em um banco de praça, longe da praça, está se realizando. No jardim do hotel há um, pouco iluminado. Pensa na canção que fala disso e experimenta, satisfeito, sem receio de que chegue um guarda para impedi-lo de experimentar a decadência humana.

Os dias passam, carregando-o para longe da juventude. Os problemas chegam junto com o sol. São digeridos durante a manhã, vivenciados à tarde e remoídos a cada pesadelo interrompido para beber água. Será que todos da raça humana passam por isso? Insetos, vírus e bactérias também. Estão vivos — e esse é o preço para continuar vivendo, pensa, já sem esperança de se livrar dessas limitações.

Janeiro está indo. Outros virão, trazendo chuva, que o espanta por ter esquecido o que é. Água caindo de cima? Alguém está com uma mangueira. Suas lembranças da chuva foram embora, e a tempestade o impressiona. Como é possível? Sua capacidade de fazer perguntas continua, igual à de uma criança. Ninguém lhe responde, por não ter interesse em conversar com quem pergunta a mesma coisa a cada minuto.

A capacidade de criar problemas ampliou-se. As pessoas se afastam, evitando-o. Os futuros beneficiados torcem pelo seu fim definitivo. Ele, no fundo do cérebro, cata um momento de lucidez; porém, sua autoestima leva-o ao modo economia de energia, como um celular ultrapassado esquecido em uma gaveta de um hotel de repouso.

Vê, ali perto, alguém depositar mais um idoso ao seu lado. A cadeira de rodas substituiu um possível engatinhar. Ninguém aceita ver um idoso se arrastando. Ele pensa que é uma criança. Chora por não o deixarem ir para o chão. Sente-se desconfortável com uma jovem limpando sua baba.

Restabelece a conexão com o presente. Chega a hora da sopa, do caldo com pão e queijo assado. No refeitório, pessoas desgastadas pelo tempo dividem a mesma mesa. Ao lado, alguém se engasga. Correm para salvá-lo, conseguindo uma morte sem sofrimento.

Daqui a pouco, a movimentação será grande. Haverá padre, familiares chorando, mas a vaga no quarto será preenchida já amanhã. A morte passa a ser motivo de festa. As funcionárias receberão gorjetas gordas, e ele se interroga qual será a data em que irão surrupiar seus pertences e vender seu crânio dissecado para colecionadores.


Heraldo Lins Marinho Dantas

Natal/RN, 13.01.2026 – 15h19min.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

LUCIDEZ EM RUÍNAS

 


LUCIDEZ EM RUÍNAS


A luz penumbrada deixa-o consciente de sua insignificância. Já não tem a preocupação de que alguém esteja prestando atenção no que faz ou diz. Sua latinha de aguardente fora ingerida, e só lhe restava esperar que o sono cumprisse seu papel de tirá-lo daquela realidade da qual quer fugir.

Ao longe, um barulho alternado de gritos eufóricos o faz relembrar a juventude passada naqueles ambientes festivos. Que valor teria agora? Suas antigas namoradas estão idosas — algumas mortas, outras dementes — e ele ali, remoendo os tempos de glória.

Embaixo da cama, dormindo ou fingindo dormir, um cão cego, companheiro de tantos anos, já quase não late; geme, coberto de carrapatos a lhe sugar.

Agora ele brinca com os pensamentos. Ainda bem que tem vasto material para explorar. Lembra-se dos quatro caminhões consumidos na farra. Isso já não tem importância, nem para ele nem para os colegas atuais, que sabem de cor as histórias por ele repetidas.

A madrugada é cruel. Mata aos poucos, torturando-o com a falta de plateia e de sono. Pensa em levantar o braço para coçar a cabeça. Esse movimento torna-se motivo de entretenimento. Pensa, espera alguns segundos, abre a mão, levanta o braço imaginando ser um guindaste erguendo a Torre Eiffel. Toca a cabeça e, finalmente, massageia o couro cabeludo. Aos poucos, vai descendo o braço, exatamente como alguém que aguarda a cadeira elétrica. Precisa desses truques para manter o pensamento no tempo presente. Tudo de que gosta consome sua aposentadoria lentamente, a ponto de contar os centavos restantes para suprir sua vontade de permanecer gordo. Uma das tarefas que lhe restam é andar dentro de casa, contando os passos, sentindo o peso do corpo produzir dores nas articulações gastas pelo esforço de peladeiro de fim de semana.

Ninguém mais para esbarrar nele. Olha para uma rede, enrolada em um gancho, esperando que ele a desenrole, retire-lhe o mofo e as teias de aranha que servem de enfeite. Pelo menos algo para relembrar a importância do trabalho. Será que a aranha está estressada pela falta de mosquitos? Finge ser uma delas ao lembrar quanta teia precisou para segurar uma amante: joias, carros, restaurantes… Suas teias despedaçaram-se. Ele se sente uma aranha sem teia.

Isso é depressão? Antes fosse; pelo menos se divertiria olhando nos olhos da estagiária de psicologia. Observaria sua pele jovem, seus olhos cheios de esperança; testemunharia a ingenuidade do início de carreira. Mas ele é inteligente, e cada tristeza é logo diluída pelas interrogações que faz sobre o próprio estado de espírito.

Ah, como era bom quando se iludia com os sentimentos amorosos. As decepções eram levadas a sério. Acreditava que o amor existia só porque sofria a cada romance desfeito. Era tudo jogo de interesse. 

Quanto tempo precisou para perceber o quanto era escravo dos hormônios?

Perceba ele ou não as limitaçoes humanas, a madrugada permanece, dizendo-lhe que está preso a outro tipo de experiência. É como se fossem molduras, enquadrando-o em realidades encaixadas de acordo com a idade. Parece estar em uma esteira de linha de produção biológica que vai acrescentando memórias, rugas, dores — tudo isso com o único objetivo de moldar o pensamento. Mas ele está maduro demais para cair nessas ciladas armadas pela condição física, pelas repetições do sol nascer, do galo cantar ou da chuva batendo no telhado.

Será que a capacidade de perceber as armadilhas não é, ela própria, uma armadilha?

O senso crítico o aprisiona. Sente-se vítima do sistema digestivo, tão complexo quanto o financeiro. O corpo pede descanso. Ele se dá fadiga ao ir ao mercado buscar restos de fim de feira. Tem vontade de catar lixo, de sentir o olhar discriminador dos que catam milhões na bolsa de valores, mas é orgulhoso demais para isso.

Os dias se arrastam enquanto ele passa invisível no meio da multidão, lotada de caras deformadas pelo trabalho. As maquiagens derretendo-se ao sol escaldante têm, para ele, o mesmo significado do rosto suado do estivador. Como é cansativo se deixar assar pelo sol. Analisa a corrente de ar e chega à conclusão de que o papel dela é infectá-lo de vírus. A natureza usa suas armas sutis para exterminá-lo. As estações do ano, com seus choques térmicos, também lhe tiram a força.

Permanece prisioneiro da missão de ser educado, pedindo desculpas até por ainda respirar sem ajuda de aparelhos. Tem consciência de que está sendo assassinado pelo tempo. Cada segundo é como uma punhalada em seu coração, que bate distante e sem pressa até na hora do medo.

Tem vergonha de não ter tido coragem de ver a mãe sendo dilacerada pelos vermes. Preferiu que isso acontecesse debaixo da terra; por isso fez com tanto esmero o enterro dela. Ninguém para fazer o seu.

Olha para uma banca de verduras ao lado de um esgoto a céu aberto e percebe o ambiente gritando “Fracassado” em seus ouvidos. Ninguém precisa relembrar sua atual condição de morador do fundo do poço. O bêbado, dormindo na calçada, faz isso sem muito esforço.


Heraldo Lins Marinho Dantas

Natal/RN, 29.12.2025 – 07h01min

segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

DOR INFINITA

 



DOR INFINITA


A morte de uma criança causa alvoroço ainda maior quando a babá suicida é a responsável pelo ato. “Oh!”, gritam os menos desavisados. “Você vai ver esse desenrolar?”, perguntam as beatas acostumadas a se benzer sempre que se deparam com um desvio humano desse tamanho. “É coisa do diabo”, dizem, sem largar o terço que empunham como espada.


A mãe urra de dor. Seus dois descendentes acabam de ser eliminados do mundo dos vivos. Por mais que se trate de um ambiente de classe média, a média da maldade permanece a mesma, independentemente de haver ou não o que comer.


Canção de Ninar começa pelo fim trágico e retorna aos preparativos para contratar uma trabalhadora que permita ao casal continuar trabalhando. Imigrantes, sim — desde que estejam aptas a chamar a polícia ou a ambulância caso as crianças, ainda não assassinadas, corram risco de morte.


Ninguém sabe o filme que passa na cabeça daquela que foi escolhida para a função de babá. Aparentemente, tudo deveria se encaixar na responsabilidade de dar prosseguimento à vida, e não o contrário. Todavia, as curvas dos acontecimentos despertam a vontade de permanecer lendo. “Viajar”: esse é o termo mais usado por quem busca viver realidade e fantasia simultaneamente.


“Aqui estou”, diz o outro que espia devagar a família montada como se fosse um palco onde seriam encenados os infanticídios. Pai, mãe, avós… O menu de personagens está completo. Há ciúmes e interferências da famosa “colher” que se mete entre marido e mulher. “Tão lindos”, pensa a babá, sonhando em estrangulá-los assim que não conseguir lidar com suas fantasias de fazer parte de uma família equilibrada.


O cotidiano instiga o arrependimento da mãe, que sente estar sendo devorada pelos pequenos, carentes de sangue branco. Sugam-lhe os seios, a paciência, as forças. A rotina do lava/enxuga/passa tira seu brilho: escrava disfarçada pelos hormônios maternos. E assim a vida sonhada torna-se pesadelo. A repetição atrofia os pensamentos. Onde antes existia racionalidade, abrem-se desvios para futilidades: urinou, defecou, bocejou — e tome irritação. O corpo deformado pelo suga-suga já não encontra vergonha em mostrar seios flácidos e caídos; o que importa é sobreviver cumprindo o papel que lhe fora determinado.


O antigo colega de turma não percebe seu tormento, mascarado pelos gritos da filha mais velha. O pequeno dorme, aguardando as garras que irão arrancá-lo do sono inocente para o eterno. Parece até dizer: “Que seja cumprida minha sina de viver pouco”, enquanto ressona nos minutos que ainda lhe restam.


O medo de perder esses “senhores” a aterroriza. Um cadáver, em vez de uma criança, lhe vem à mente. A diferença está apenas na capacidade de se locomover. O sangue estacionado apodrece rapidamente. “As bactérias comendo meu filho precisam desaparecer, enterradas logo”, pensa. “Para que não reste, aos meus olhos, a imagem da putrefação.”


A fada transforma-se em bruxa ao tomar posse das chaves da casa. Ninguém para vigiá-la; entra o bel-prazer de causar desprazer. Mas antes é preciso conquistar a confiança do casal: prega botões, lava cortinas amareladas pela nicotina tão comum em casas de fumantes. O carrasco torna-se indispensável.


Para justificar o infanticídio, surge a menina malcriada, esperneando em praça pública e trazendo vergonha para quem não tem domínio — mesmo sendo paga para isso. O leitor começa a ter motivação para ficar do lado da assassina. Pobre, trabalhadora e ainda ter que aguentar a birra de uma menina magra, feia e cheia de querer. Há uma certa simpatia escondida na torcida.


Por outro lado, a mãe justifica o infanticídio ao desprezar a família em prol da carreira. A maioria age assim. Leïla Slimani apenas trouxe o que realmente acontece. Exagero ou não, a trama se mistura com a realidade de uma artista mulher, que fala do lado de quem recebe o sêmen do marido e tem suas entranhas rasgadas por uma criança saindo pelo canal.


Uma pitada de traição faz o leitor torcer pela dupla que se vê, profissionalmente, todos os dias. Não dá para pensar diferente numa relação aproximada entre sexos opostos. Vinho, relaxamento após a carga de compromissos… ninguém é de ferro. Um beijo distante do compromisso das alianças não faz mal, desde que ninguém saiba que algo a mais aconteceu. A vida continua trazendo surpresas além do planejado. “O que é que tem? Só um pouquinho. Não tira pedaço.” Recompõe-se o objetivo além do quadrado no qual se está inserido.


Na tarefa de casa, um aniversário organizado pela superbabá: crianças chegam, brincam e vão embora depois de terem sido envolvidas pela turma comandada por uma adulta com cérebro de criança. Há empatia, e elas adoram aquele aniversário nunca tão divertido. Choros por não encontrá-la no esconde-esconde e risos logo em seguida do “achei”.


A intimidade prossegue a ponto de as férias contarem com ela no rol de hóspedes. A Grécia com seus deuses encanta a babá que não pode entrar no mar: “Não sei nadar.” O marido procura ensiná-la a boiar. Seu corpinho, antes ignorado, é suspenso pelos braços peludos do patrão, enquanto a mãe vigia os filhos à distância. É acordo firmado entre ambos que ela aprenda até o fim da temporada.


A vizinha viu tudo — ou pensou ter visto um sinal de desordem no semblante da babá, algo que denunciasse a premeditação do crime. Queria fazer parte do noticiário; afinal, sua vida inteira no anonimato a deixava ansiosa pelos cinco minutos de fama. A televisão a entrevistando:


“Admirava-me o grau de cuidado que ela tinha com as crianças; sempre me cumprimentava ao entrar no elevador; calada, mas atenciosa, com olhar de respeito e admiração. Todos gostávamos dela. Agora percebo que não foi sorte do casal ter encontrado a babá perfeita.”


Comentário das psicólogas: “Quando perceber alguém muito perfeito, tenha cuidado: pode ser psicopata exercendo comportamento ensaiado e preparando o bote.”


A futura assassina está sozinha em seu apartamento alugado. Distante do que mais gosta de fazer, contudo é obrigada a seguir a legislação trabalhista: seu trabalho é seu hobby, e ninguém perguntou se ela queria folgar naquele sábado. As lembranças das férias, fazendo parte de uma família, trouxeram-lhe melancolia. Fica em casa, na companhia da sujeira e da obrigação de limpar depois de um mês de acúmulo, longe daquele marasmo com odor de umidade mofada. Está na idade de deixar os sentimentos virem à tona, sem se preocupar que, para tudo, há um preço: o preço de se perder na multidão; de apontar e ser atendida. Seu universo transita apenas no servir. É como um labirinto sem degraus para outra opção.


Lembra-se do marido morto, seco e pálido, deixando dívidas suficientes para que ela nem tivesse onde morar. A filha fujona nunca mais deu as caras — e, se deu, ela já havia sido despejada. Comeu biscoito num quarto de hotel durante semanas. As dívidas deixadas serviram para alimentar o fogo no quintal antes de sua saída. O pouco dos móveis restantes foi incorporado ao vuco-vuco do bairro. Uma mala de couro velho e uma bolsa desbotada serviram para levar suas coisinhas até o hotel familiar. Ali, imaginou o que fazer a partir daquela nova realidade. Adorava crianças só pelo fato de poder exercer poder e transformar menininhas em damas da noite em miniatura antes de os pais chegarem e verem a maquiagem carregada no rosto da inocente.


Seu passado, cuidando de uma velha nua na cama, veio com nitidez. Seus músculos foram bem aproveitados no manejo da milionária incapaz depois de uma queda. Sempre cuidou de gente — crianças ou idosos — e nunca soube fazer outra coisa, o que incluía também os afazeres domésticos. Não tinha sonhos, apenas trabalho. Tarefas a fazer e logo feitas. Rápida como ninguém, dava-se bem onde chegava, menos quando voltava para casa, longe de sua obrigação. Não sabia o que era diversão. Distante do universo da servidão, sentia-se um peixe fora d’água.


Por trás das crianças que tanto ama, existem os inimigos: os pais. Ela quer as crianças para si. Não aceita ficar longe, sabendo que os pais estão se divertindo com aqueles que ela tanto cuida. Tem receio de pedir para ficar no fim de semana. Precisa folgar, mas só ela sabe o quanto sofre por isso. Seu mundo está misturado com a vida deles. Ela nem sabe que o pai já não suporta tanta perfeição numa babá. Ele, que bebeu quando os filhos nasceram, percebe que está um degrau abaixo daquela a quem paga tão pouco.


Finalmente, visitam a mãe dele sem a babá. Aproximam-se mais dos filhos, um pouco esquecidos pelos compromissos de serem jovens e ambiciosos. Precisam dar o melhor de si enquanto têm energia.


A babá tímida está sendo comparada à Macabéa. Ela não sabe quem é Clarice Lispector e muito menos leu A Hora da Estrela, romance que deu origem a filmes, peças de teatro e resenhas nos principais jornais da época. Ela simplesmente é um objeto na mão do destino que resolveu se divertir massacrando-a. Até numa festa, ela se sente entediada a convite de uma amiga que mal a conhece e que a coloca sentada ao lado de um cantor fracassado que fala de música — e ela, então, percebe que não conhece nenhuma, a não ser a que canta para as crianças. Seu repertório se resume a trocar fraldas, dar mamadeira e colocá-las para dormir. Nunca pensou em ler romances além das historinhas infantis que reinventa a cada leitura, inserindo bruxas e homens maus contra as princesas, tentando incutir medo para trazê-las quietinhas.


Talvez seus impulsos psicopatas estejam sendo moldados por esses personagens, ou talvez sua solidão de viúva jovem, somada às ameaças dos credores de torná-la uma possível moradora de rua, a tenha transformado em uma assassina suicida. “Se eu não posso ser feliz, ninguém mais pode”, pensou ela de súbito, sem se dar conta de que estava pensando assim. Isso foi em fração de segundos. Sua índole boa está sendo deformada pelos acontecimentos cruéis. Seu pensamento iria descer ou subir para encontrar, como única alternativa, o suicídio. Ela nem sabe se ama a vida; apenas vive como um caracol em sua casca, sem abrir-se para o mundo. Pensa em ser demitida quando as crianças não precisarem dos seus cuidados. Adoece e, pela primeira vez, falta ao trabalho.


Está olhando para o termo “melancolia delirante”, que anotou no seu caderno depois que o médico assim a diagnosticou. Achou poética a expressão, e dessa forma passa dias enclausurada, olhando para o vidro da janela suja, sem vontade de limpar. E logo ela, que tem a limpeza como sua maior qualidade, deixa estar. Dorme, acorda, vai ao banheiro e pouco se alimenta.


A surra que deu na filha vem-lhe à mente. Lembra-se da humilhação de vê-la expulsa por mau comportamento do colégio que poderia ser um trampolim para o sucesso da família. A patroa, que pagava a mensalidade, sentiu-se traída quando soube que ela só fumava, em vez de estudar. “Surra bem dada”, pensava. Agora, a melancolia devolve-lhe o mesmo sentimento de abandono que a filha sentiu à época. Muitas histórias passam em suas lembranças e, para não sucumbir de vez, resolve emergir e regressa ao trabalho.


Precisa torcer para que o casal tenha outro filho; só assim seus serviços serão necessários. Mas eles não querem fazer a vontade da babá, e então…


Heraldo Lins Marinho Dantas

Natal/RN, 01.12.2025 — 06h45.

terça-feira, 25 de novembro de 2025

CONSUMIDOR DE IDEIAS

 


CONSUMIDOR DE IDEIAS 


Naquela manhã, ele iniciava a turnê pelas 377 páginas de A Pintora de Henna. Um gargarejo vindo do banheiro o fez perceber que a esposa já havia se levantado.

Desviou o olhar para apreciar o quadro exposto ao lado do computador, quando o forte apetite ordenou que escolhesse o que iria almoçar. Abriu a geladeira e aproveitou para pegar também o arroz, na mesma situação congelada em que se encontravam o feijão e a carne.

Dirigiu-se ao quarto para colocar as conversas em dia e, em seguida, retornou para continuar o diálogo com a autora. Passou à página seguinte, deixando um provérbio hindu para trás e encontrando o sumário com seus personagens, prólogo etc.

A esposa ouvia uma música que chegava aos seus ouvidos; ainda assim, o som não atrapalhou a leitura de palavras estranhas ao seu repertório, típicas da cultura indiana.

Ele coçou o pescoço, olhou pela janela e imaginou o zênite como o oposto do nadir — embora nada tivessem a ver com o romance, essas palavras surgiram estimuladas por outras tão comuns ao universo de Alka Joshi.

“... era quase bonito.” Esse quase bonito o fez parar na página 23. Não seria o mesmo que dizer feio?, lembrou-se da discussão tão popular:

— Está meio vazio — disse o pessimista diante de um copo com água.

O otimista sorriu:

— Eu vejo meio cheio.

O filósofo interrompeu-os:

— O copo está apenas pela metade. Nem cheio, nem vazio. O resto depende da interpretação de cada um.

O bom de conhecer novas criações artísticas é a capacidade de tentar, em vão, livrar-se da realidade ao manter as necessidades básicas supridas.

— Com licença! — entrou no escritório a esposa, pedindo que ele cozinhasse dois ovos enquanto ela ia nadar.

Sim, farei isso assim que souber se a pintora de henna conseguirá entrar no palácio, pensou, enquanto a esposa fechava a porta sem se despedir.

A personagem permanecia numa negociação sutil para conseguir prestar serviço a uma das palacianas. Se conseguisse, certamente galgaria posições privilegiadas graças à habilidade para desenhar em unhas.

O alarme mandou desligar o fogo. Foi preciso deixar o romance descansando para evitar que a gema ficasse escura — assim orientava a receita para evitar gases.

Telefonou para a portaria:

— Quando minha esposa voltar, por gentileza, entregue a encomenda que chegou.

O rapaz respondeu que sim e confirmou:

— Conheço — disse, ao ser perguntado se sabia quem era sua esposa.

— Está certo, senhor. Pode deixar. Tenha um bom dia.

“Ele estava perdido em pensamentos e levantou os olhos com um sobressalto.” A frase coincidiu com seu estado de espírito. Há pouco, havia consultado o Sistema Eletrônico de Informação, perguntando por que seu processo de aposentadoria estava parado. Já tinha ido várias vezes à assessoria jurídica, e os advogados não davam prosseguimento aos trâmites legais.

Sentiu calafrios ao passar pela narrativa do aborto induzido e, assim, preferiu deixar para o dia seguinte saber se a criança gerada na traição continuaria viva. Durante esse intervalo, recebeu uma mensagem da esposa dizendo que, há trinta anos, tentava se adaptar a ele. Poxa, pensou sobre o quanto era defeituoso. Acreditava que as viagens que planejava com ela eram uma afirmação de que estava sendo legal, mas não: ela fingia que gostava dele. E agora? Depois dos filhos criados, separar-se não parecia uma boa ideia.

Verificou que, no livro, os personagens estavam vivendo igualzinho e, daí, entendeu a famosa frase: “A vida imita a arte muito mais do que a arte imita a vida.” Pesquisou mais e descobriu que as pessoas passam a enxergar e viver o mundo de acordo com o que a arte mostra — e, assim, imitam comportamentos, estilos ou ideias vistos primeiro em obras artísticas.

Será que ele era o que era por ter acesso a várias produções artísticas? Seu jeito arrogante devia vir de algum personagem, pois, quando um vendedor pergunta seu nome, ele responde que só diz se receber pagamento adiantado; quando a atendente dos totens pergunta se deseja ajuda, responde que precisa de cem bilhões de dólares para permitir ser ajudado. Já percebeu que essas “ajudas” são tentativas de vender combos envenenados; por isso, sai com lorotas para disfarçar o ódio das interferências inconvenientes.

Foi difícil voltar à leitura depois que um personagem enfiou um cabo de vassoura nas partes íntimas da própria mulher por ela ter rido de uma piada de outro homem. A cultura da Índia permite tais atrocidades. Fechou o livro e ficou com o mesmo sentimento de quando estava lendo Ensaio Sobre a Cegueira ou Os Miseráveis.

As dificuldades da pintora de henna aumentaram quando ela foi apontada como ladra. Nessa viagem pelas páginas, ele visitava um primo que sonhava em adquirir o hábito da leitura. Falou da necessidade de sofrer junto aos personagens, sair do mundo real e ir para a fantasia, torcendo para que desse certo a vida narrada pela autora.

Os momentos da criança recém-nascida foram excelentes. A mãe de treze anos, tomada de ciúmes da mãe adotiva. O depoimento gerado pelo lado animal da mãe legítima encontra eco em todos os sentimentos mesquinhos do ser humano.

No condomínio de luxo, os jogos continuavam como forma de entretenimento. Os hotéis visitados pelo leitor despertavam o lado despreocupado da rotina. Alguém para cozinhar e lavar a roupa contrastava com a labuta da pintora de henna.

Ufa! Finalmente, depois de traições, conquistas, abortos, torturas e violência contra a mulher contada por uma delas, chega-se ao final, recomendando que esse é um livro digno de ser lido.


Heraldo Lins Marinho Dantas

Natal/RN, 25.11.2025 — 18h12min

quarta-feira, 5 de novembro de 2025

FICÇÃO E REALIDADE

 




FICÇÃO E REALIDADE


Numa manhã de outubro, ele começou a desvendar os segredos contidos no livro Kafka à Beira-Mar. Seriam 448 páginas que pretendia ler em poucas horas, para se envaidecer nas palestras que fazia. Um barulho a mais ou um grau a menos poderia atrapalhar sua concentração.


Abriu o computador, e lá estava a fera esperando-o. Mas, em vez de começar a leitura, seu cérebro lhe apresentou a imagem de um pássaro que matava, a bicadas, uma cobra sem veneno. Essa imagem, vista há pouco nas redes sociais, o levou a sentir empatia pela vítima quando ela foi engolida. Ninguém foi ajudá-la — assim como o leitor, desesperado em cumprir o prazo da leitura, também não podia contar com outra pessoa para auxiliá-lo. Olhou para a claridade do sol nascente refletida no porcelanato da parede, no momento em que reafirmava para si que a leitura é um ato solitário — e só quem a executa pode dizer se a experiência está sendo boa ou não.


Procura se distrair, lembrando-se de coisas sem nenhuma relação com o que está fazendo, tentando ganhar tempo para imaginar o que encontrará no romance. Essa forma de dar saltos no pensamento é como sua mente funciona para interiorizar a importância do que está por vir.


Volta para o computador à sua frente. Aumenta o zoom e encontra o prólogo: “Um menino chamado Corvo...”. Eis o início do livro de Haruki Murakami.


Levanta-se da cadeira, mexe no fogão, come o muito do pouco que resta de um prato, coloca roupa para lavar e volta para a tela. Antes de continuar, trava um diálogo com o comprador do teclado musical:


— Oi! Esse item ainda está disponível?

— Sim.

— Faz 250 à vista?

— Vou analisar sua proposta e, no próximo mês, lhe digo alguma coisa.

— Aí já tenho comprado outro.

— Espere novembro.

— Por quê?

— Porque é depois de outubro.

— Muda o quê?

— Muda do mês dez para o mês onze.

— Kkkkkkk...


O pretenso comprador desistiu, rindo.

Quando tem algum objeto sobrando, ele o expõe à venda apenas para se divertir com os regateadores.


Finalmente, iniciou a leitura:

— Dinheiro, então, deixou de ser um problema? — disse o menino chamado Corvo.


Ele sabe que essa atividade de leitor de romances demanda tempo e paciência. Não adianta ler apressado, tentando ser rápido como se estivesse fabricando biscoitos. O final sempre termina com as mesmas letras; portanto, degustar é a melhor estratégia.


Na manhã seguinte, logo cedo, lembra-se do livro. O planejamento de terminar em poucas horas passa para poucas semanas. Não vai mudar o mundo se nunca concluir a leitura e, se por acaso morrer durante essa façanha, as pessoas não darão pela sua falta. Por isso, paciência.


Faz um chá para a mulher que está mal, orientado pela inteligência artificial de que o de camomila é ótimo para dor na barriga. Hoje em dia, a IA fornece a dieta ideal para quem apresenta sintomas atípicos. Daqui a pouco, os médicos irão apenas jogar cartas enquanto esperam uma vítima de acidente, pois, para doenças simples, basta a IA.


Pula de três em três páginas para treinar a mente a imaginar o que não é lido — tentando encontrar o menino chamado Corvo, que tem para ele, àquela altura, um significado ainda desconhecido no romance.


Gostaria de ser viciado em livros a ponto de colocar, em frente à privada, uma prateleira cheia deles — mas o esporte ocupa o primeiro lugar. Sai para o jogo de tênis e esquece a história do jovem que resolveu fugir de casa, roteirizada na presente obra. Na disputa do jogo, corre, irrita-se, sua bastante e volta para casa com o gosto de vencedor misturado ao que a mulher preparou para o jantar.


Na segunda-feira, ao ler que há um relógio afixado na parede, lembra-se de um relojoeiro que falava sobre um veículo que havia possuído décadas antes. Aquele diálogo parecia não empolgar o neto de dez anos, que disse:

— Vovô só fala nessa Rural.


Percebe que é impossível ler algo sem trazer a própria vivência transformada em experiência para acompanhá-lo.


Retorna para antes dos pulos mentais e pega emprestada uma frase que cabe direitinho na sua realidade: “E o tempo vai passando com lentidão exagerada.” É, realmente, naquela manhã nublada, só quem tem pressa é seu estômago ansioso para provar as duas laranjas escolhidas para a quebra do jejum intermitente. Soube que, quando se está com apetite exagerado, o organismo busca energia na gordura acumulada, fazendo uma varredura nas células velhas e doentes, que são primeiramente consumidas — sem que haja possibilidade de se transformarem em cancerígenas. Não sabe se isso é verdade, mas prefere acreditar que sim; é o motivo maior de só se alimentar duas vezes ao dia, e fica refletindo sobre isso, enquanto espera a vontade para prosseguir a leitura.


Nessa hora, vira a página e se depara com o Capítulo 6. Mais uma vez, divaga sobre a própria afirmação de que está perdendo o gosto por filmes. Fica absorto nas lembranças de quanto gostava de teatro. O mesmo processo repetitivo está acontecendo em relação à sétima arte, e decide que é hora de ficar apenas com as leituras.


É despertado pelo blin-blon da campainha avisando-o de que a filha chegou do treino. Abre a porta. Ela entra. Ele sai com um saco de lixo, silenciosamente, para não despertar a curiosidade da vizinha, que se mantém entrincheirada nas fofocas.


O dia transcorre sem que se apegue a qualquer ideia fixa. Tem medo de pensar demais sobre um só assunto e transformar o pensamento em algo doentio. Um dos exemplos é que prefere fechar os olhos no momento em que está tocando teclado — exatamente para que o cérebro comande os dedos em direção aos sons pensados, desligando-se totalmente do mundo material. Ouviu falar da memória muscular e recorre à imagem de Bruce Lee, preparando o corpo para reagir sem pensar. Deve ser isso que faz um músico conversar e tocar ao mesmo tempo.


Aplaude a desenvoltura de Haruki Murakami, mas percebe que o autor volta a falar de poços, e uma das personagens diz, ao convidar Kafka para sua cama, que está com um namorado e jamais fará sexo com outro, pois é muito rígida quanto a isso. 


Bah! Essas repetições lhe causam enjoo, pois percebe que cada autor tem um modus operandi que faz questão de deixar em cada obra — como se fosse uma antena que personaliza a escrita — do mesmo jeito que, nos filmes, são reproduzidas explosões no mesmo padrão. Os diálogos nas películas também seguem uma tolice sem precedentes: quando um personagem diz “eu te amo”, o outro já está pronto para repetir “eu também te amo”. Parece que existe um cardápio de sons e um modo automático de os personagens se comportarem em cena. 


Ele para num ponto final de capítulo. Observa-o como se fosse uma ilha de descanso. Seu corpo relaxa juntamente com a calmaria do cérebro. Não vê motivo para demorar-se naquele ponto; sua mente apenas estaciona e fica sem expectativas quanto a continuar ou fechar a tela. Resolve fazer o mesmo diante de uma vírgula e, depois, de um ponto de interrogação. Os diálogos permanecem por mais tempo em sua mente quando presta bastante atenção nesses recursos gráficos. Compara o ponto de interrogação a sobrancelhas arqueadas; a vírgula, a um buraco na calçada; e o ponto final, a uma mesa de confraternização entre autor e leitor.


Almoça um prato de pedreiro e se deita. Dormiu sem sonhar e acordou avaliando que não existe dinheiro que pague a liberdade de dormir em pleno meio-dia de uma quarta-feira de expediente. Fica no ócio criativo e descarta a ideia de esconder a roupa esfarrapada da mãe para evitar que ela saia de casa parecendo uma mendiga com mal de Alzheimer. Lembra-se de uma anciã que vivia rodeada de lixo e ratos. Solteirona, morreu depois que um vizinho retirou um caminhão de trastes que ela acumulava, acreditando ser normal guardar o que não tinha utilidade. Faz essas peripécias imaginativas para se convencer de que, por mais que se dedique à leitura, há, sim, uma vida paralela acontecendo ao ato de ler.


Enquanto folga da leitura, no mundo cão, centenas de pessoas continuam morrendo em confrontos armados em um único dia. Bandidos conseguiram abater quatro policiais em troca de centenas deles, mas isso não é problema, já que a máquina de fazer criaturas continua gerando outros substitutos na mesma data em que esses saíram de circulação. 


O impulso que faz novas gerações surgirem como gafanhotos em plantações de trigo é  comandado pelo prazer. Uma vaga é aberta, e outro assume o papel sem constrangimento. Há vagas para todos quando o corpo amadurece e exige a gestação sem muito critério; afinal, em tempos de guerra há escassez de tudo, inclusive de reprodutores. A vontade de se multiplicar faz os genes aprisionarem seus portadores a ponto de o racional ser deixado de lado e, assim, mais e mais confrontos serem travados, com zero de preocupação quanto a possíveis baixas de ambos os lados. Lembra-se das arenas romanas: os governantes continuam a dar pão e circo para a plebe que aplaude esses combates.


Sai da rotina de morte e nascimento para pesquisar sobre as sonatas de Schubert, tão discutidas pelos personagens Oshima e Kafka Tamura. Escuta um pouco e logo tem a ideia de procurar um armazém que vende panelas. Passa o dia inteiro escolhendo vasilhas de acordo com o som que emitem ao serem batidas com a unha. Traz para sua cabana e as arruma embaixo do telhado do alpendre. Espera um dia, dois, até que começa a chover. As bicas pingando no dorso das vasilhas produzem uma inédita sonata, imitando as de Schubert ao piano. Nos dias de chuva, ele fica à espera de descobrir qual música nova será tocada nas panelas que mudaram de posição.


Ah, como seria bom se a vida dele se resumisse a ouvir sonatas tocadas pela natureza! Mas recebe a notícia de que sua mãe ficou cega de um olho.

— Mas como? Será que não havia percebido? — pensa.

O irmão envia um vídeo explicando o que são drusas. Ah, ainda bem que é só o comprometimento da visão central. A visão periférica fica preservada, segundo o vídeo que ele mostra à mãe para deixá-la mais tranquila.


Durante a leitura em que o personagem Nakata fala com gatos, ele encontra a frase: “Ela arrepanha a barra do vestido azul” — e corre para pesquisar o significado de “arrepanha”, do mesmo jeito que fizera quando o amigo gaúcho disse “pilho” durante um jogo de xadrez entre os dois.


Volta para casa satisfeito por ter conseguido um xeque-mate no embate travado com um professor universitário. Logo ele, que se mantém longe do trabalho formal, derrotar alguém que se envaidece por ter decorado centenas de senhas é uma proeza de grande valor.


Após degustar o peixe deixado do almoço, recebe uma mensagem com o pedido de revanche. Sorri de leve e comenta sobre o gaúcho que espatifou o tabuleiro por não saber perder. Confirma que, na próxima semana, estará disposto a mais uma partida e segue com amenidades no colo da amada.


Acorda no meio da noite ao receber o chamado do romance para continuar a leitura. O texto ganhou vida e, embora seja apenas um amontoado de palavras, continua influenciando seu dia a dia. Resta-lhe concordar em levantar-se da cama, acender a luz do escritório e embrenhar-se na mata ficcional. Ler ainda mantém sua importância, mas ele desconfia que, se fosse bilionário, talvez prestasse mais atenção às beldades contratadas para servi-lo do que à leitura.


Imagina poder entrar no livro e conhecer a personagem — moça de aluguel — que precisa fazer o que faz para pagar a faculdade de Filosofia. Na cama, ela recorre ao pensamento de Hegel para dizer, enquanto acaricia: “Para mim, eu sou o si e você é o objeto. Para você, é naturalmente o contrário: você é o si e eu sou o objeto. Neste momento, estamos realizando uma permuta entre o si e o objeto e, assim, estabelecendo a consciência-de-si.” Só isso já compensou a empreitada, pensa ele, protegido por um blusão de frio e por portas e janelas cerradas.


Dá uma pausa para refletir sobre o diálogo real que teve antes de dormir:

— Só sendo muito idiota para manter uma catacumba limpa — dizia ele ao telefone com uma parenta que pagava alguém para realizar essa tarefa.

— É uma tradição — ela respondeu.

— É uma vaidade besta — refutou ele, após ouvi-la. — Cemitério é igual a lixão; a diferença é que, no lixão, há sacos expostos ao sol, enquanto, no cemitério, os sacos são enterrados.


Ficou ouvindo a oposição da esposa, convicta de que o cemitério é um lugar especial...

— Especial para quê? — pensou. — Para que o consumismo continue explorando a ingenuidade dos vivos?

Defendeu sua ideia, dizendo que as pessoas adoram ser enganadas por aqueles que usam púlpitos, crucifixos etc.

— Será que essa trava nunca será retirada? — encerrou o diálogo sem se alterar, consciente de ser voto vencido numa sociedade que acredita no inacreditável.


A curiosidade o faz pular para o último capítulo e se admirar ao ler: “Muitas vezes, o ser humano é determinado pelo ambiente em que nasce e cresce. A topografia, a temperatura e os ventos da região onde um homem nasce podem influir em seu modo de pensar e sentir.” Lembra-se de ter ouvido algo semelhante de um conhecido que morou na floresta. Ele afirmava que a natureza exuberante o fazia pensar sempre de forma grandiosa. Então, perguntou-se se não seria esse o motivo de os muçulmanos cobrirem suas mulheres com burcas. Será que é para inibir pensamentos maliciosos dos concorrentes?


Mais um dia ensolarado o encontra na tarefa de chegar ao final do livro. O diálogo entre Kafka e os dois soldados desertores o faz imaginar que pensar em matar gente é uma criação cultural. Ninguém nasce querendo exterminar ninguém — nem matar, nem morrer —, mas a vontade de possuir algo direciona o querer maldoso para eliminar quem tenta impedir conquistas egoístas. Esses pensamentos, com certeza, são gerados e estimulados no seio de uma sociedade anticomunitária.


Quem não tem paciência para ir aos poucos conquistando recorre às armas, pois elas parecem ser mais eficientes do que vinte anos de estudo. Jovem e temido — eis o sucesso, sem precisar perder tempo construindo lembranças ou esquentando cadeira em bibliotecas.


"O que realmente importa na vida das pessoas talvez seja a maneira como elas morrem...” Essa dúvida do personagem Hoshino o faz parar um pouco para pensar que a morte é um pacto para pôr fim ao próprio sofrimento. É nessa hora que o sofredor se entrega — com a visão debilitada, micção sem controle... Já não se lembra de quem é e, se lhe disserem “você é um grão de areia”, ele ficará em dúvida se não seria melhor ser pó, querendo pegar carona na primeira tempestade que passar.


Na viagem pelas páginas, chegou à de número 400. O capítulo seguinte é deixado de lado até que ele tome um pouco de água. Seus compromissos vivenciados ontem vêm à tona: a reunião com o sócio, a sobrinha dele com dois anos de idade, o espaço grandioso da mansão — e a prova de que está caminhando no tempo há bastante tempo — é confirmada pela prima de rosto cadavérico, aquela que dividiu o velocípede com ele e que agora encontra seu único prazer em observar a neta se alimentar na cadeirinha apropriada.

— Cada um encontra uma maneira de se enganar — pensa ele, incluindo-se nesse rol de “cada um”.


Pega o celular para apreciar pinturas expostas na internet. As obras criadas pelos grandes artistas proporcionam-lhe bem-estar — especialmente Café no Jardim e O Alquimista —, a ponto de pedir à esposa que imprima, em papel de alto padrão, duas cópias de cada. Seu objetivo é afixá-las em pontos estratégicos do apartamento, para poder deter-se diante dessas manifestações de talento.


Depois de onze dias de peleja, ele chega ao final do livro e reflete longamente sobre o termo “Beira do Mundo”, usado por um gato falante que afirma que, naquela beira, todos os seres vivos conseguem se comunicar.


Quanto ao significado de “O Menino Chamado Corvo”, bem, é melhor ir atrás desse segredo que ele preferiu não revelar.


Heraldo Lins Marinho Dantas 

Natal/RN, 05.11.2025 - 13h15min.

sábado, 25 de outubro de 2025

RETORNO INCONSCIENTE

 


RETORNO INCONSCIENTE


Suas indecisões bateram na essência da leitura.

— Por que se lê tanto e não se fica saciado? — perguntou-se.

Todos os dias, ele inventava formas diferentes de ler. Tentou, utilizando o ritmo da respiração, acompanhar com mais simpatia a ideia conduzida em cada momento em que os olhos captavam a sequência em que as letras estavam arrumadas. Seu foco era desfocado, como o barulho de uma moto levando-o a pensar no entregador de pizza, num playboy desocupado  

num professor com a mochila nas costas, olhando o relógio para não chegar atrasado.

— Por que você esconde o conhecimento do meu consciente? — perguntou à própria mente, tentando perceber se o enredo estava realmente oculto ou apenas esperando o momento certo para se revelar. Era um longo jogo de gato e rato, até que a engrenagem que move as lembranças começou a dar sinais de vida.

Deixou os pensamentos se acomodarem. A leitura, antes um esforço, passou a fluir por dentro dele sem resistência. Cada palavra encontrava uma fenda onde se encaixar, limpando, com novos significados, o que já havia sido instalado. O sentido surgia num movimento constante que não dependia de controle.

A mente começou a se acalmar diante das frases, com o entendimento se rearranjando de forma que já não precisava de tantas pausas para compreender.

Continuou lendo até chegar ao nível em que tudo permanecia dissolvido entre letras. As linhas perderam fronteiras. Ele já não lia: era lido. As palavras o atravessavam com uma nitidez que vinha do espírito. As sílabas ecoavam num ir e vir que lembrava ondas do mar.

A história seguia com relâmpagos de lembranças antigas. Os personagens surgiam, diluindo-se em seus atos — e ele vibrava num mesmo campo, vendo, ouvindo, sentindo a história por inteiro, com sutis explicações que mal davam para ser assim nomeadas.

A cada parágrafo, uma nova respiração do mundo, que ele aproveitava para viajar, pegando carona sem sair do lugar, seguindo o ritmo que pulsava por trás de cada personagem. O texto o envolvia e o conduzia para lembranças antigas, onde o ato de ler e o de existir se tornavam o mesmo — nessa reeleitura de O Grande Gatsby.


Heraldo Lins Marinho Dantas

Natal/RN, 25.10.2025 — 05h25min

domingo, 12 de outubro de 2025

PREGUIÇA REFLEXIVA

 


PREGUIÇA REFLEXIVA


— Hoje não estou a fim.

— Não tem isso de estar ou não a fim. É o seu trabalho. Vamos, vamos, comece.

— Posso escrever o alfabeto?

— Não. Isso não. Escreva um texto inédito, que possa ser considerado literatura.

—Iiiiih! Agora complicou. Vamos fazer um negócio: desconte aí no meu salário, porque hoje quero só ficar nas redes sociais, vendo as mulheres dançar.

O chefe saiu, e ele ficou pensando em como fazer cumprir o contrato. Quando escrevia de acordo com sua disposição, era bom; agora que virou obrigação, ficava contando os dias para voltar a ser livre.

“Acho que essa indisposição tem a ver com a minha derrota ontem no tênis”, disse para si. “Eu sempre vencia com facilidade aquele cara, mas depois que ele trocou de professor... Agora, como vou administrar o meu ego treinado para vencer?”

Essa trava continuava fazendo-o ficar sem pensar. Daqui a pouco, ia precisar tomar remédio para pressão alta. “O que não faz um ego ferido”, pensou. Sentiu raiva e impaciência com o que lhe veio à mente. Dobrou o joelho esquerdo, sentindo-o fatigado. Gritou um palavrão — ou melhor, vários.

Nessa hora, despertou-lhe a curiosidade sobre a função do palavrão no dia a dia. “Isso daria uma tese de doutorado em psicologia”, pensou, percebendo que acabara de encontrar o que procurava. “Depois vejo isso”, disse, e voltou para suas dançarinas em trajes minúsculos.

Uma das tatuadas contou que o marido tinha três mulheres — ela, hétero, e duas bissexuais — e foi explicando como era o relacionamento.

A cada dia surgem novas conversas: antes restritas a sussurros, agora abertas a todos, analisou ele ao passar a página.

O braço continuava com epicondilite — nome bonito para uma dor terrível no cotovelo. A esposa ligou, dizendo quantas séries tinha feito puxando ferro. Durante o telefonema, descobriu que o maior desafio é ser ouvinte: dar atenção aos outros quando se quer apenas ficar só é a comprovação de que a pessoa dispõe da mais alta tecnologia cerebral.

Pouco tempo depois, recebeu uma mensagem do chefe:

— “Posso ligar para você?”

— “Sim.”

— “Rapaz, estou me separando. E, como você alugou aquele nosso apartamento, gostaria que fosse testemunha de que fui eu quem fez, com meu dinheiro, a reforma no imóvel. Ela nega. Diz que não, que foi ela.”

Conversaram sobre a dor da separação até que...

“Vou desligar porque tenho uma reunião com a governadora”, disse o chefe, que havia desenvolvido vitiligo. Será que a mulher estava se separando dele ou do vitiligo?

Levantou-se, foi à varanda e pensou em armar a rede. “Dá muito trabalho”, disse, ao se deitar no sofá.

Seu oponente mandou uma mensagem: “Mestre, vamos jogar hoje?” “Estou sem grana para pagar o aluguel da quadra”, respondeu, querendo apenas ficar descansando. Essas cobranças o matavam.

Preferia se empenhar para ultrapassar os competidores do Duolingo. Desconfiava que eram todos criados por IA, pois acordou às duas da manhã e nenhum ponto havia sido acrescentado no placar. Quando começou a jogar, os outros também o fizeram. Esses aplicativos são cheios de pegadinhas.

Baixou um do shopping que dava desconto no estacionamento. No segundo acesso, já não funcionava. Desinstalou, voltou a instalar — e o desconto foi concedido.

Já era noite quando a recepcionista combinou para que ele cobrisse a saída dela mais cedo. Uma das amigas trouxe um bolo, que ele acabou comendo também com a substituta que veio cobrir a última hora do expediente.

Depois, foi para a casa da mãe comer bode cozinhado. No caminho, achou que seria melhor comer cabra — só que ninguém come cabra: a tradição é dizer “comi bode”, mesmo tendo sido uma cabra a assassinada pelo açougueiro e exposta para venda. O machismo, mesmo aplicado de forma negativa, prevalece.

Na verdade, ele era um pouco canibal. Quando observava uma pessoa, sempre imaginava que ali estava uma grande porção de proteína. Aquela proteína assumia cargos públicos, às vezes era atleta etc. Guardava seus pensamentos impróprios para si, pois chegava a pensar que, nos abrigos, viviam bodes velhos prontos para ser devorados pelos mais fortes, caso houvesse uma hecatombe nuclear. No olhar de um tigre, toda a humanidade não passa de proteína.

No dia seguinte, estava satisfeito com a vitória no tênis. O bode fora superdelicioso; aprendera a burlar os inimigos do Duolingo reiniciando o celular toda vez que acabava de jogar.

Se o chefe ficou insatisfeito com esse texto, aí estava a razão de a mulher ter fugido de casa, pedindo divórcio: pois é, chato de carteirinha ninguém aguenta.


Heraldo Lins Marinho Dantas 


Natal/RN, 11.10.2025 — 13h21min.

quarta-feira, 8 de outubro de 2025

DOMINGO SALGADO



 DOMINGO SALGADO


Empurrando um carrinho na praia, o vendedor gritava: "Olha o picolé!" Entre um grito e outro, analisava se a divulgação estava sendo bem feita. Sua tarefa era vender duzentos. Assim, teria condições de comer uma fatia de queijo naquele último domingo do ano.


— Como será a próxima década? — perguntava-se, já pensando nos números que ia jogar na loteria.


Arquitetava o plano de chegar disfarçado ao banco para receber a bolada sem ser assassinado, caso fosse um dos felizardos. Estava um pouco triste com o que dissera um vizinho: o governo usa a loteria para deixar a população esperançosa e esquecer a miséria.


Não se deteve nesse comentário porque seu principal objetivo é conhecer a Lua. Gostaria de ver as crateras, caminhar voando, olhar a Terra e dizer: nasci ali. E, quando voltasse, nas noites de lua cheia, observá-la da praia ao som de um violão acompanhado por uma cantora de ópera. Amanheceria embriagado, chutando as oferendas para Iemanjá, além de contratar um anão para jogá-lo ao mar toda vez que saísse d’água.


Outro sonho era construir um harém com mil concubinas e, quando acabasse o dinheiro, voltaria a vender picolés.


Uma nuvem de tristeza abateu-o ao se lembrar de quando era lutador. Tudo que conseguiu no ringue jogou fora, restando apenas algumas cicatrizes e um olho cego como herança do tempo em que nadava na fama.


Não sabe por que esses pensamentos sempre vêm quando menos espera. Se pudesse, desligaria alguns nervos do cérebro que sustentam essas memórias e os reconectaria para formar novas e boas lembranças.


Os fantasmas das pessoas falecidas o importunam como se estivessem vivas, apontando-lhe o dedo:

— Você fez isso, fez aquilo, deveria ter feito assim...


Se existisse uma forma de estagiar na vida, ele teria escolhido poder errar com a certeza de sempre ter alguém para ensiná-lo a viver.


— Tem picolé de uva? — uma criança tirou-o do devaneio.


Ele abriu a tampa para mostrar os sabores, recitando-os de cor.

— Usem suas mesadas de acordo com o combinado — respondeu o pai do menino ao receber o pedido para pagar.

— Deixe comigo que assumo a conta — disse a mãe.


Um de coco, uva e cajá foi distribuído.


Retiraram-se. O ex-lutador voltou às suas memórias. Sempre estava estacionado no passado e voltava para lá assim que se sentia inseguro. Nem fez conta do apurado, nem teve ânimo para continuar gritando. Viu-se naquela criança, quando pedia ao pai um daqueles que agora vendia.


Talvez tenha sido esse sonho não realizado que o fez escolher esse meio de vida.


Uma moça chegou gargalhando por uma pilhéria dita há pouco por alguém.

— Quero este aqui — disse ela, saltitante.


O pai fingiu que não viu ela se debruçar para pegar um de acerola. A mãe fingiu que não viu o marido fingir que não tinha visto.


— O senhor paga o meu? — perguntou a moça ao marido fingidor.

— Ele está sem a mesada — respondeu a esposa, encarando a sorridente.

— Pode deixar que é cortesia da casa — disse o vendedor, já se engraçando com a bronzeada.

— Ah, muito obrigada. Quem quer picolé? — a moça passou a divulgar o produto.


— Vamos andar por ali que o senhor já, já vende tudo — disse ela. Saíram os dois, areia afora.


A moça, sem ter o que fazer, resolveu experimentar ser vendedora. Sua vontade de aprender fez com que se interessasse em sentir, na prática, como é a vida de um trabalhador que nem aos domingos descansa.


Ali estava ela, saboreando um pouco do trabalho duro no sol quente, em troca de migalhas.


— Quando chegar em casa, vamos conversar — disse a esposa, chupando o de coco.


Uma bola bateu no castelo de areia que a filha havia feito.

— Você aceita? — perguntou a esposa para o garotão que tinha vindo buscá-la.

— Não, ele não aceita — interferiu o marido, respondendo pelo rapaz, que saiu meio sem jeito depois de pegar a bola.


O sol estava a pino quando voltaram para a barraca.

— Traga este prato — pediu a esposa.


Ela nunca disse ao marido, mas essa coisa de dar em cima das mocinhas em sua frente era proceder de quem não batia bem da cabeça.


— Olha o churro! — outro vendedor passou oferecendo também óculos, pulseiras etc.


— TUBARÃO! — gritaram os salva-vidas.


Os surfistas saíram do mar. Um bote dos bombeiros foi acionado para fisgar a fera.


No meio da muvuca, uma criança chorava com uma queimadura provocada por água-viva.


Um banhista passou chamando a atenção por estar sendo seguido por um bode. O bicho já estava acostumado àquele passeio dominical. O rapaz que filmava, ao dizer olá, ouviu um bééé berrado pelo animal, que fazia as vezes de porta-voz do dono.


A maré estava subindo, chegando perto do castelo da menina, que pensava no tubo de creme dental que havia deixado em cima da pia. Era costume dela comer pasta.


— Quando eu chegar em casa, vou me trancar no banheiro e comer até não querer mais — pensava ela, insatisfeita com seus olhos míopes.


Quando a mãe mandava escovar os dentes, ela escovava e engolia tudo. Às escondidas, já botava desodorante.


Acreditava nas tias que diziam: “Já tá uma mocinha.” Quando crescesse, iria para bem longe dos pais, para poder ficar com as duas mãos na cabeça, olhando para baixo, olhos fechados, sem precisar dar satisfação de que estava mapeando o pensamento.


Toda vez que fazia isso, vinha logo alguém perguntar se estava com dor de cabeça.

— Que saco!


A mãe, embaixo da palhoça, disfarçadamente observava sua própria barriga pedindo por uma lipoaspiração.

— Quando eu estiver sarada, ele jamais vai olhar para essas sirigaitas — pensava ela, tomando um copo da cerveja gelada.


O garçom chegou com o almoço e colocou a bandeja na mesa.

— Chegue, crianças.


Ninguém teve notícia se a moça aceitou ou não o convite para morar com o homem do olho cego. Só se sabe que, na semana seguinte, ela estava vendendo óculos e pulseiras em outra praia.


O tubarão conseguiu fugir, levando o braço de um dos bombeiros que tocava tarol na banda da polícia. Ainda no hospital, ele chorava — não por perder o braço, mas porque agora só havia a opção de tocar bombo.


A mulher saiu aborrecida da barraca porque um palhaço vendedor disse:

— Vai querer comprar uma língua de sogra, gordinha?


A menina teve seus óculos quebrados por uma bolada. Chorou, mas logo parou quando se lembrou do creme dental.


O bode morreu afogado, e o garçom levou um seixo.


Feita a avaliação, chegou-se à conclusão de que, nesse domingo, tudo transcorreu na mais pura normalidade.


Heraldo Lins Marinho Dantas 

Natal/RN, 08.10.2025 - 08h45min.