A COSTURA DO TEMPO
O fundo é olhado com atenção. Entre os dedos, a ponta da agulha ficou para baixo. Dedos enrugados tentam passar a linha… linha, agulha e dedos se acasalam. O tempo espera essa manobra. Finalmente… não, ainda não foi concluída a tarefa.
É uma manhã de verão. Como era de se esperar, o sol surge com seu protagonismo de secar roupas, enrugar dedos e esquentar agulhas. O vento tímido não atrapalha o fogo, que esquenta a água para o chá — ou melhor, para o café. Chá ou café pouco importa, assim como a vida útil da agulha também tem pouca importância. A linha podre já perdeu seu branco vivo; hoje sobrevive amarelada, assim como o rosto da dona dos dedos enrugados.
A sandália convive com outros tipos de dedos da mesma idade. Dedos que nunca passaram uma linha pela agulha. Para estes, a realidade são bichos-de-pé, esbarrões na quina dos móveis e unhas encravadas. Duas realidades distintas para a mesma nomenclatura, assim como seres humanos das classes A e D.
A água borbulha. O fogo é desligado. O café é coado, bebido e desce pela garganta abaixo da matéria em formato de gente. A cafeína é deslocada para o cérebro, que mantém a atenção na agulha. Neurônios sentem-se confortáveis a ponto de indagarem se não haveria algo mais importante a fazer além de se preocupar em costurar. A hospedeira de tais neurônios não se dá ao luxo de pensar diferente. Sua vida inteira foi fazendo o que está a fazer.
O vento leva os retalhos pelo chão de cimento. Pedaços de linha acompanham o cortejo. Aos poucos, as nuvens cobrem o sol; eis o motivo de se precisar acender a lâmpada do ateliê pouco iluminado. A lâmpada queimada deixa a penumbra fazer a festa. Gavetas são abertas por mãos conhecidas pelas rugas, mas não encontram uma nova para trocar. O cérebro indaga se não seria melhor fugir daquelas necessidades banais. Ir embora para longe daquele corpo que precisa de linha, agulha, lâmpada, café, fogo… Ah!, pensa o cérebro, como seria bom viver apenas pensando, sem precisar executar.
O sol volta. A lâmpada nova é deixada para as próximas compras. Daqui a pouco. Que pouco? Poucos dias, poucos meses? Não há tempo para essa resposta. O tempo seleciona as respostas a cada tic-tac. A fila anda, mesmo estando parada. Esse malabarismo verbal nem chega a ser cogitado. Há pressa em colocar a linha na agulha; por isso, o prazer de questionar é eliminado antes de criar raízes, deformando o ser pensante em uma máquina executora de tarefas.
O vulcão, há milhões de anos inativo, volta a expelir lava. No ateliê, ao pé da montanha, a xícara de café acabara de ser lavada. Tremores dificultam a paz. Toda a atenção é voltada para a capacidade das pernas apreenderem a corrida. Cada um faz sua parte. Tudo pronto para a fuga.
Três anos depois, os bombeiros, retirando a lama dos corpos petrificados, encontram uma estátua tentando colocar a linha numa agulha.
Heraldo Lins Marinho Dantas
Natal/RN, 14.01.2026 - 09h42min.
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