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sábado, 28 de junho de 2025

PARECE E PARECIDO


Nasceu sobre esta terra,

Foi novilho entre o gado, 

Correu, brincou no cercado,

Percorreu toda vazante.

Viveu vida radiante,

Por seu dono conduzido,

Espalhou o seu mugido,

Tornando-se boi de carga,

Nessa velha terra amarga

De Parece e Parecido.


Formou-se junta de bois,

Dois bois e mesmo destino,

Logo cedo o ensino

Foi aprender puxar carro,

Que só transitou no barro

De madeira bem provido,

Nas rodas ferro fundido

Com uma canga lhes juntando,

Cabeçalho separando

Parece de Parecido.


Um carro com a tiradeira

Eixo, mesa, o cocão,

Canzil, brocha, o cambão,

Chumaço, cheda e argola.

Uma vara que controla

Mostrando qual o sentido,

Um carreiro destemido

No Campo Limpo empastado,

Trabalhando sem enfado

Com Parece e Parecido.


Era papai o carreiro

Que com mamãe namorava,

Das histórias que contava

O carro “cantava” alto.

Mamãe ouvia e de um salto

Corria pra seu cupido,

Mesmo ele estando sofrido

Carinho ali se trocava,

Sabe quem testemunhava?

Só Parece e Parecido.

 

Papai assim transitava

Com aquela junta de bois,

Falava tão bem dos dois,

Companheiros das jornadas.

Lembrava das madrugadas,

Das noites tendo cumprido

Com o que tinha prometido

Ao meu avô sem pantim,

Mas papai findou assim:

Sem Parece e Parecido.

 

 

domingo, 20 de abril de 2025

É MELHOR NÃO SENTAR MAIS NO BATENTE (Maciel Souza)

 


É MELHOR NÃO SENTAR MAIS NO BATENTE

(Maciel Souza)

 

Uma cena quase não é mais notada

Por diversos motivos que explico:

De TV a internet com fuxico

Tem tirado os vizinhos da calçada.

Muito medo de que surja assim do nada

De bandido a pequeno delinquente,

Cada um da calçada fica ausente,

Entre grades, cercas de alta voltagem,

Pois pra quem é refém da bandidagem

É melhor não sentar mais no batente.

 

Eu me lembro do meu tempo de criança

Quando à noite na calçada se sentavam,

Conhecidos volta e meia ali passavam,

Esta imagem guardo viva na lembrança.

Lá em casa, depois que se enchia a pança,

Fazia a fila, a meninada contente,

Pra tia Ciada, na calçada já presente,

Esperando minha mãe e vó Maria,

Mas hoje, o conselho que eu daria:

É melhor não sentar mais no batente.

 

Houve um tempo que um vizinho empolgado

Contava histórias que eram de assombração,

Sempre tinha no relato um caixão,

Cemitério ou lugar mal-assombrado.

Meu coração ficava acelerado

Na claridade só da lua reluzente,

O nosso medo era coletivamente

E bem maior só na hora de dormir,

Porém hoje, tenho que admitir:

É melhor não sentar mais no batente.

 

Outras vezes a leitura de cordel

Era pauta e alguém lia pra nós.

Uns adultos já cobertos por lençóis

Transitavam entre outros a granel

Para ouvir sobre o rei que era cruel

E o guerreiro que lutava bravamente,

Se havia ali algum incidente

Era quando uma bufa se espalhava,

Se a mãe visse uma chinelada dava

E o menino não sentava no batente.

 

É preciso hoje em dia ter cautela,

O bom senso precisa prevalecer,

Desde cedo, à tarde, ao anoitecer

Para assim evitar qualquer mazela.

Nesta vida estamos na passarela,

Submissos a tudo infelizmente,

Se o perigo cada dia é crescente

Mais cuidados precisamos sempre ter

Pra começo e o mal não nos deter

É melhor não sentar mais no batente.


MACIEL SOUZA






 

sábado, 28 de dezembro de 2024

PREFERENCIAL - Maciel Souza

 


PREFERENCIAL

(MACIEL SOUZA)


Muito se fala da terceira idade e no meu caso em particular está chegando sorrateiramente. Os que me rodeiam são os que mais sinalizam. Outro dia tropecei na rua, nem cheguei a catar cavaco, mas justamente um senhor idoso bradou de modo vingativo, com satisfação aparente, lavando a alma: Tu cai, Véi!

Embalado para os sessenta, já comecei a aceitar e “naturalizar” o que é natural, mas acredito que estão antecipando, embora reconheço que a capa sem o esforço do marketing pra desviar o foco, queira ou não, honestamente denuncia até como estamos por dentro.

Na fila do Banco, começa a gastura:

- Senhor, sua fila é aquela!

- Não moça, ainda não tenho sessenta anos!

- Mas vá que passa!

Em Natal, peguei um coletivo, entreguei ao motorista uma nota de dez reais, na expectativa de receber cinco reais e cinquenta centavos de troco e, no sufoco da fila, ele pediu minha identidade, RG:

- Não entendi!

- Deixa pra lá.

Entregou-me o troco e só depois a ficha caiu: ele julgou procedente que eu já seria sexagenário e me faria justiça concedendo o direito da passagem gratuita. Para evitar mal entendido, na volta, já me adiantei:

- Ainda não tenho sessenta anos! Desta vez o motorista, jovem ainda, enquanto catava moedas para o troco de cinco reais, sem certificação nenhuma, respondeu com um sorriso soberano:

- Mais tá perto!

Semana passada entrei numa loja a fim de adquirir duas pilhas para controle remoto. Pedi informações ao vendedor que confirmou ter no caixa. Fui pra lá, havia dois deles e um segurança do lado. O segurança me observava, não entendendo, talvez, por que um senhor estava ali, se não tinha um produto nas mãos, uma cestinha do lado, nem empurrava um carrinho, mas, novamente, só depois foi que a ficha caiu: a leitura do segurança certamente resultou numa interpretação equivocada, se do modo como me apresentei estava mesmo esquisito. Neste caso, idade não faz diferença, refiro-me ao fato de se tornar um suspeito em potencial, mas os neurônios que fui perdendo até chegar ali, certamente fazem, até para forçar uma comunicação ágil e produtiva.

Um dos caixas atendia uma senhora e o outro estava livre:

- Posso ir para aquele caixa?

- Não! O preferencial é este! Aguarde a senhora que está sendo atendida! Senti-me duplamente prejudicado com sua ordem: primeiro, porque não precisava ser atendido na fila preferencial; segundo, porque se o objetivo deste tipo de atendimento é agilizar para idosos ou pessoas com comorbidades, se um caixa está livre, por que penalizar estas pessoas? Ou eu, especificamente, estaria sendo punido? Outra hipótese, é que o segurança não queria que eu me distanciasse, já que ele ficava bem mais próximo da fila dos velhinhos.

Enfim, contrariando o segurança e confirmando minhas suposições, a moça do caixa livre me chamou e já fui vendo a mercadoria que queria adquirir:

- Será que você consegue pra mim duas dessas pilhas?

- Não!

Criou-se mais um clima ruim porque ela demorou segundos para se justificar:

- É que só podemos vender a cartela com quatro.

Desta vez fui rápido em me lembrar de Celso Russomanno que fez a vendedora fatiar um maço de caixa de fósforo e se a conversa prolongasse ela teria vendido palitos.

- Eu quero! Fechamos a negociação em cinco reais e setenta centavos e fui embora para alívio de todos nós.

Vez por outra sou pego contrastando com o passado, lembrando de um tempo em que não se falava, eu não sabia e não questionava se era o preferencial, nem quando colava em alguma messalina, num beco escuro com cheiro de mijo. Havia apenas rumores de que a AIDS estava na África e para chegar aqui não foi na velocidade da Covid-19. Não existiam ainda exames de DNA, nem percentual ou possibilidade de acerto, a não ser quando o menino era “cagado e cuspido” e naqueles dias a minha cabeleira pesava a meu favor.

Hoje, mediante as cobranças, dizer que já me aposentei de um vínculo tranquiliza meu interlocutor, torna-me mais leve neste à parte e virou mimo.

sábado, 21 de setembro de 2024

POSSES PARA HOJE - Maciel Souza



POSSES PARA HOJE (Maciel Souza)


Na fila do trânsito, o celular toca, e outro dia na fila do banco. As palavras se repetem: 

- Que horas você volta? Só pra saber. 

Paciência nem sempre temos, mas convenhamos: quem é que me liga só pra saber? Saber onde estou, como estou...

Há quatro anos, era quase meio-dia quando ela chegou, depois de uma manhã com alunos do ensino infantil, olhou para a pia e suspirou profundamente. Desde então, decidi enfrentar todos os dias a tal pia e sua pilha de louça suja. Ela foi bem perseverante, pois só depois me confessou que, no início, quis me desestimular devido à má qualidade do serviço prestado, mas hoje sou expert no assunto e até defendo certas teorias, como a de que a quantidade de louça suja não é proporcional ao número de pessoas, pois, se em vez de dois fôssemos oito, por exemplo, numa refeição seriam acrescentados apenas itens como pratos, copos e talheres.

Na manicure, certa vez fofocavam sobre o novo Ricardão, o mais recente “pé de lã da cidade”:

- Mas vocês sabem alguma coisa sobre Maciel? Se souberem, não me escondam!

- Mulher, Maciel é um santo!

Fugindo dos preceitos de santidade, já passamos dias sem trocarmos uma única palavra, fazendo refeições juntos, dormindo juntos e eu entregando a louça limpa, até que um ou outro decida descer do pedestal do orgulho. Mas a maior prova de consistência no nosso relacionamento foi há trinta e três anos, quando casamos. A nossa casa não tinha piso, nem reboco nas paredes, mas era engraçada, graças ao nosso bom ânimo e perseverança. Hoje, colhemos flores do nosso próprio jardim:

- Pai! Converse com mãe, que não tem condições não. Eu atendendo um cliente, ela liga só pra perguntar se já tomei café.

- Certo! Vou falar com ela!

Cecília, doze anos de idade:

- Vovô, me dá duzentos reais todo mês!

Manuela, cinco anos de idade:

- Vovô, eu liguei pra você, mas você nem atendeu, a riqueza de vô! Esse seu olho, vovô, “tá” ficando azul.

- Eu sei, Manuela, e não enxergo por ele!

- É, vovô, mas olho azul é bonito! – E, quando Adriana reclamou da bagunça que fazem aqui em casa:

- Mas vovô disse que a casa fica feliz.

Só pra constar e para que minha crônica não fique tão curta, existe um contrato com Cecília, cujos repasses mensais dependem de cláusulas assumindo compromissos com relação à escola, afazeres domésticos, autodidatismo, altruísmo e princípios de educação financeira. Cláusula 4: “Por estarem em comum acordo, declaram-se cientes e esclarecidos quanto ao teor deste instrumento e firmam em duas vias para que produza os devidos efeitos legais”. Manuela ainda se contenta com moedas e não reclama de uma dívida já caduca: foi quando propus que contasse a história dos Três Porquinhos e toda vez que falasse a palavra “lobo”, ganharia cinco reais. Quando o lobo estava ainda soprando para derrubar a segunda casa, propositalmente ela já tinha falado oito vezes a palavra de grande valor.

Este parágrafo inteiro dedico a Silmara. Ela cuida tão bem deste trio: Antoniel, Cecília e Manuela. 

É bíblico que “Quem encontra uma esposa encontra uma coisa excelente e alcança o favor do Senhor...” (Provérbios 18:22) e, de minha autoria, retomo um poema antes datilografado, exposto num quadro de madeira, pendurado por último na parede de nossa sala rebocada, engessada e pintada, mas destruído pelo cupim; enquanto que, pelo gênero textual escolhido, a poesia continua intacta, atualizada, de conteúdo blindado, resistindo ao tempo e ainda aqui salva o título da crônica, até então sem nenhuma relação com o que escrevi:


POSSES PARA HOJE

Quero palavras selecionadas, bem comportadas, a falarem por nós, talvez ao tempo.

Quero que sejam rápidas. Às vezes as palavras demoram e nossos significados são de ontem.

Quero a linguagem pura, desprovida do sentimentalismo exagerado e do racionalismo extravagante.

Quero a criatividade aguçada, o entregar-se como ontem.

Quero todos os sentidos, nossos sentidos, nosso concreto e nosso imaginário que se fundem.

Quero a sua simplicidade e a vaidade inibida, que pensa despercebida, entre nós, os transeuntes.

Quero o grito e o seu silêncio.

Quero tê-la para sempre.

Quero amá-la mais que ontem.


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Outros textos de Maciel Souza:


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sábado, 2 de dezembro de 2023

PRAIA DE PONTA NEGRA (MACIEL SOUZA)

 


PRAIA DE PONTA NEGRA (MACIEL SOUZA)


A imagem que nos venderam da praia está atrelada a status, prosperidade, felicidade, sossego e qualidade de vida. Com água de coco, a simbologia se fortifica e, na minha concepção, é um dos lugares que representa bem a diversidade.

Vez por outra, frequento a praia de Ponta Negra em Natal, contaminada pelo espírito mercantilista e o descaso do poder público. Tenho grande respeito por todos aqueles que sobrevivem do seu chão e, graças a eles, enfileirei alguns relatos que me renderam esta crônica.

Soaria meio hipócrita falar de sossego se o rapaz de vestido, vendendo pendrive, não baixa o som, ao menos enquanto acerto o preço da barraca para não ter surpresas no final. Quando sento para desfrutar da paisagem, vem um vendedor de balinhas porque está desempregado e tem um projeto para tirar crianças da rua. Outro oferece chocolate a preço justo para completar o aluguel, depois chega o rapaz que precisa manter a instituição que o recuperou das drogas. Mexem com minha sensibilidade, mas por vezes para por aí, porque neste caso entrego as finanças para serem administradas pela patroa e, só em pensar em fuçar os quatro cantos da bolsa dela, já desanimo. Mas o que me deixa bem penalizado é o agradecimento deles na negociação frustrada e o sorriso de remate, embora, claro, nunca foi minha intenção ir à praia para passar o dia negociando.

Certo dia, em meio a esta tormenta psicológica, do nada surgiu um senhor começando um batuque no pandeiro, vindo em minha direção para um show particular. Minha reação foi fugir para dentro d’água. Tem ainda os vendedores de algodão doce e picolé que exploram o meu lado mais fragilizado, apresentando seus produtos às minhas netas de quatro e onze anos de idade. Eles passam repetidas vezes, tanto quanto elas os fazem recitar todos os sabores para, no final, consumirem o de sempre: pedacinho do céu.

Mas já tenho certa experiência “praística” e, quando estou só com minha esposa, consigo naturalizar minha estada na sombra de uma árvore ou de um barco e, entre os barcos, com a bunda na areia, brigo pelo espaço. Até que, a duras penas, descobri que assim não sou tão importunado pelos vendedores e pedintes, porque a coisa é tão deturpada que, neste caso, eu pareço em estado de mendicância. Foi assim que recebi o benefício do vendedor de coco que me confidenciou dois preços diferentes no mesmo produto: um para os turistas, outro para os pobres. Mas acontece também o inverso: outro dia, um senhor me reconheceu fora do contexto da praia e proporcionou uma interpretação bem generosa a meu respeito. Ele exponenciou meu patrimônio, se referindo a mim como sendo “o cara dos barcos”.

Conto com a simpatia de alguns da freguesia e, deste meio, consigo nomear seu Francisco, Gabi e batia papo frequentemente com seu Zezinho, mas fiquei sabendo que se mudou para a Paraíba. Outro dia, uns cinco ou seis pescadores teimavam em sã ignorância e me consultaram para dar a palavra final. Eu apaziguei a discussão e estiquei minha curta explanação o quanto pude, inspirado no mestre da Galileia, quando instruía os doze. Esta é a parte da crônica de que muito me orgulho e pretendo voltar para concluí-la quando encontrar o sossego prometido. Fico devendo, como fiquei outro dia a um senhor da barraca porque não tinha troco e, depois, quitei a dívida. Nenhum de nós dois sabia ao menos o nome um do outro, mas ele me deu todas as credenciais: O “sinhô” já é “cuincido”. Espero a mesma confiança aqui.

terça-feira, 27 de junho de 2023

MISCELÂNEA DE POESIA


MISCELÂNEA DE POESIA

(MACIEL SOUZA)

 

O narrador esportivo da Globo Luiz Roberto anuncia Vinicius Junior, jogador da seleção brasileira de frente para a bola, que bate o pênalti contra Guiné e faz o gol. Na comemoração o narrador faz a pergunta: “SABE DE QUEM?”. Todos sabemos! Eu achava pobre a frase, bem enjoado o bordão a nível nacional, até descobrir a explicação salvadora: o bordão foi um resgate que virou homenagem ao seu criador, um colega de profissão, Edson Callegares, que morreu aos 62 anos, vítima da Covid-19. Passei a ouvir o bordão com outros ouvidos e para mim agora se tornou poético.

Lá de Caicó, meu filho acompanhou a construção de uma poesia na parede de um muro e procurou me manter atualizado sobre o que foi produzido por lá. Da parede que deu suporte à poesia, separados por duzentos e vinte quilômetros, meu filho repassou pra mim uma primeira leitura, até então de um texto aparentemente não poético, mas conclusivo: “FORA BIBI!”. Menção ao prefeito da época. Em sua releitura, nas entrelinhas, suspeitou de que um simpatizante do gestor municipal fizera poeticamente do F um B: “BORA BIBI!”, dando assim um novo rumo aos fatos e logicamente uma abertura para rotatividade da poesia. Depois, meu filho me fez ciente de que possivelmente aquele que iniciara o protesto voltara lá, pois notabilizou e fez-me ciente do acréscimo de um prefixo e um verbo imperativo, devolvendo o tom da mensagem inicial: “VÁ EMBORA BIBI!”. Meu filho-poeta e leitor atento não manipulou este lápis-pincel, mas anteviu a escrita de um breve e incisivo não: “NÃO VÁ EMBORA BIBI!”, ao que os antagônicos poderiam revidar, acrescentando intercalado depois um possível e simples sinal de exclamação: “NÃO! VÁ EMBORA BIBI!”. Embora não saibamos quem são os autores para apresentá-los aqui e se fazer justiça aos seus nomes, nem sobre o tamanho do orgulho e da satisfação do dono do muro, independentemente de vencidos e vencedores, a poesia esteve ativa com ao menos dois leitores assíduos, expectadores imparciais do poema.

Até trabalhei em sala de aula o contexto de uma dessas frases de caminhão: “O CAVALO É DO PATRÃO, MAS A ESPORA É MINHA” e na frente de uma seguradora de automóveis, a mensagem que li, com minhas passadas de caminhante, “AQUI CONFIAMOS NO SENHOR!”, poderia ser lida por alguém que passasse correndo, tal qual o recomendado no livro sagrado em Habacuque 2:2-4, como uma das primeiras orientações para criação de outdoor e ao lado, dividindo o mesmo espaço, uma outra mensagem, aparentemente inspirada pelo mesmo autor, com letras de tamanho e modelo idênticos, talvez trabalhadas pelas mesmas mãos, que imagino usando o mesmo pincel e a mesma tinta preta: “NÃO ARRISQUE, FAÇA SEGURO!”.

Já em casa, escutei o anunciante do som potente falando de um salão de beleza com um remate irresistível: “AGENDE A SUA TRANSFORMAÇÃO!”. Quem não se interessa? Mais tarde voltou, desta vez para avisar que já tinha bode na Casa do Frango.

Certo dia me levantei do balanço da rede só para olhar na rua, atraído por uma voz fanhosa que pedia calma, não precisava empurrar e me deparei com o vendedor sozinho na esquina, aparentemente sem desânimo algum, anunciando sobre um chinelo que segundo ele dava até para o curioso aqui ir pra festa. Mas convenhamos, contra toda negatividade mesmo, o recado foi dado pela escrita no carrinho de CDs, lentamente empurrado por seu dono: “A SUA INVEJA É A VELOCIDADE DO MEU SUCESSO!”. Com velocidade agora, fui e voltei da minha infância na lembrança das bicicletas marca Bristol e ao menos uma delas com um dos poucos adesivos mais vendáveis: “NÃO CORRA PAPAI, PENSE EM NÓS!”.

Vale a frase que tomava a frente de uma modesta casa de taipa, contrastando poeticamente com imponentes casarões: “PIOR É NADA!”, bem como a citação filosófica por trás da porta do banheiro público: “AQUI SE ACABA O ORGULHO E TODOS FAZEM FORÇA”.

São registros simples do dia a dia que valem pela poesia ou resquícios dela, pela beleza do escrito, do intento, do contraste, do filosófico ou somente em nome do bom humor. Esses vieses poéticos contribuíram na consagração de escritores tais quais Ariano Suassuna, contemplados no além da crítica de Drummond ao estilo literário de época: “NÃO NOS AFASTEMOS MUITO, VAMOS DE MÃOS DADAS... O TEMPO É A MINHA MATÉRIA, O TEMPO PRESENTE, OS HOMENS PRESENTES, A VIDA PRESENTE”. (Do poema Mãos dadas – Carlos Drummond de Andrade).

 

 


quarta-feira, 24 de maio de 2023

O OUTRO LIXO

 



O OUTRO LIXO

(MACIEL SOUZA)

 

O quintal aqui de casa é maior do que o necessário, nele tenho até pista de caminhada e dele acumulo alguns relatos. Outro dia recebi a visita do rapaz da Vivo, sondando o local para instalar uma antena. Foi do quintal que surgiu a crônica Frutos Adocicados, em homenagem a meu vizinho, seu Arlindo, e é de lá que colho pinha, laranja, acerola e flores. Ali nosso cachorro foi sepultado e é onde hoje vive a nossa gata.

O ruim é que ele fica numa esquina, limita-se com um beco. Daqueles que pegam o beco, aparecem latinhas jogadas por cima do muro, garrafas pet e, do nada, insistiram em jogar sacos de lixo. Mesmo assim, prefiro esta certa desordem à organização imposta dos condomínios, onde até espirros precisam ser educados. Mas tudo tem limites, depósito de lixo não dá. Investiguei o lixo e, a exemplo do lixo de Luís Fernando Veríssimo, o conteúdo e as pistas apontaram ao funcionário do seu dono. Chamei o proprietário para uma conversa, ele reconheceu seu lixo com mil pedidos de desculpas, fez a limpeza do local e tudo ficou resolvido.

Outro dia jogaram um gato recém-nascido num dia chuvoso, tomei-o nos braços, envolvi-o com uma toalha, coloquei-o em lugar seguro e fiz um rápido diagnóstico conclusivo de que setenta por cento de seus órgãos estavam paralisados. Ao meio-dia, entendi que esse comprometimento chegara a noventa e cinco por cento e o vi agonizando. À tarde, encontrei-o se arrastando e consegui com que bebesse leite através de uma seringa. A partir daí a recuperação foi instantânea: passeou, brincou dentro de casa e começou a reagir às investidas de ciúmes por parte do meu cachorro. Passamos então a chamá-lo de Vitório porque ressurgiu do nada. Minha esposa ficou surpresa e expliquei-lhe que gatos possuem sete vidas.  Depois foi adotado por uma família e ficamos sabendo que era uma fêmea.

Do quintal para frente da minha casa, vivia sendo importunado com um menino que passava e tocava a campainha: Um dia eu pego! Flagrei! Pra ele estava tão comum que simplesmente cruzou o beco, enquanto o segui até a lotérica. Pedi para que não mais se repetisse, do contrário iria conversar com seus pais. A façanha voltou a se repetir e desta vez era a mãe do menino, neutralizando meu poder de argumentar e até de dizer alguns palavrões.

Mas foi hoje à tarde que palmas infantis na minha porta me motivaram a escrever esta crônica, com o título o Outro Lixo, para não confundir com O Lixo de Veríssimo. Eram quatro crianças:

— O senhor é o dono da casa?

 Sim, sou eu!

— Dá pra o senhor devolver nossas bolas?  São duas que caíram no seu quintal.

— Tá certo, vou procurar e jogo de volta!

 

No momento pensei: Por onde andam os pais destas crianças tão educadas e me imaginei bem velhinho rodeado por elas adultas, lembrando do ocorrido. Depois, passou em minha mente minha própria imagem riscando a calçada de seu Zé Lopes com uma patinete, e de repente ele em pé com um bodoque numa das mãos e quatro bolas de barro cozido na outra. Pra nunca mais! E no dito beco sem muro, eu adentrava a área particular do quintal de seu Hermes Nascimento e colhia limões sem que ele ou meus pais nem sonhassem.

quinta-feira, 18 de maio de 2023

18 DE MAIO DE 2007 - Maciel Souza




Era o dia 18 de maio de 2007 e a aniversariante amanheceu festiva. Na praça pública, homens sonolentos terminavam de montar o palco onde, à noite, quatro bandas se apresentariam em comemoração à sua emancipação política. Numa delas, o paraense Beto Barbosa.

Nesta noite, antes do início do momento mais aguardado pelos japienses, viajei a Santa Cruz, cidade vizinha a trinta quilômetros. Endereço? Teatro Municipal Candinha Bezerra.

Iniciou-se ali, às 20:00 h, a cerimônia de publicação da 4ª Antologia poética da ASPE (Associação Santacruzense de Poetas e Escritores). Foram convidados para este outro palco os autores do livro Cantos e Contos do Trairi: o professor e escritor Nailson de Medeiros, o fundador da Associação da Rádio Comunitária Santa Rita de Santa Cruz, cantor e compositor Hugo Tavares, o professor e jornalista Marcos Cavalcanti, o advogado Marcelo Pinheiro, o poeta Hélio Crisanto, o músico e compositor Hélio Gomes, o escritor Paulo César, o professor Alessandro Nóbrega, o também professor Gilberto Cardoso, e eu, entre outros tantos.

Por considerar que aquela cerimônia seria significativa para a cultura de minha terra, por um elo, dada a minha participação, tentei fazê-la extensiva às nossas comemorações de aniversário. Embora o tenha feito de maneira moderada, para não parecer exibido, ainda divulguei o evento, tentando em vão convencer algumas pessoas a participarem conosco. Entre outros agravantes, eu tinha um concorrente de peso naquela noite: o cidadão de Belém, já consagrado rei, que atrairia nossa multidão à praça pública, o rei da lambada. Assim, especificamente minha esposa e meu filho foram comigo. É certo que meu cachorrinho também queria ir. Após a cerimônia, retornei à minha cidade trazendo comigo exemplares do nosso livro e a alegria de ter participado do seu lançamento, figurando entre pessoas tão ilustres em um evento tão bem organizado e não menos emancipatório.

Aqui chegando, como era de se esperar, a cidade esbanjava alegria, e percebi que a terceira banda já se apresentava, conforme anunciado: "Tum, tum, tum, bum, bum, bum... vai descendo até o chão..." - esse era o refrão. "Tum, tum, tum, bum, bum, bum... vai descendo até o chão..." - o chão era o limite. Até que anunciaram a próxima estreia e estrela da noite, o cantor Beto Barbosa, que já iniciou sua apresentação adocicando as nossas vidas. Minutos depois, abruptamente, o cantor encerrou a sua participação. A justificativa foi que um senhor que residia próximo ao palco precisou ser socorrido, atrapalhando o show, já que o som potente da banda prejudicava o atendimento. A intervenção para transportar o paciente até o hospital foi rápida, mas a saída de Beto de cena foi definitiva.

No outro dia, a cidade amanheceu ressacada dos seus quarenta e nove anos de emancipação política, com cinco livros autografados, doados para açucarar, sem aspas, a vida de pessoas que com certeza cuidarão muito bem deles. Enquanto isso, cidadãos se dividiam diante da postura e cachê do cantor, que não cumpriu o tempo de dance balance previsto no contrato.

18 DE MAIO DE 2007 (Maciel Souza)

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quinta-feira, 4 de maio de 2023

IDA AO CARDIOLOGISTA - Maciel Souza


IDA AO CARDIOLOGISTA

A dorzinha pontuda do lado esquerdo do peito me empurrou para o médico. Há muito não ia ao cardiologista e foi durante a pandemia que, sem peso de consciência, achei que era melhor não arriscar. O cardiologista, mediante os exames preliminares, eletro e verificação da pressão arterial, já me tranquilizou que se tratava de dor muscular. Entendi, apesar de ouvir dizer que o coração é um músculo, e pediu por garantia dezoito exames no particular.  Por minha saúde, comecei a maratona.

Numa das clínicas o ar estava quebrado e um ventilador de parede em vão soprava o calor infernal na recepção. Na falta de uma enfermeira pra socorrer uma velhinha passando mal, meu coração sob investigação me sensibilizou a abanar aquela senhorinha com o envelope de parte de meus exames em dia. Coração que não é de mãe se engana, fui então advertido por sua acompanhante: Senhor, é pior!

No dia que a Croácia eliminou o Brasil na copa do mundo, cheguei à clínica cumprindo o prazo do retorno da consulta, já nos minutos finais. Depois do jogo, entreguei ao médico aquele calhamaço. A boa notícia que pensei ser ruim era que o coração estava zerado, cem por cento; glicemia normal, mas triglicerídeos nas nuvens. Mapeando os exames com seu olhar clínico, o médico me revelou que eu não precisava comer doces nem massas, pois meu próprio organismo se encarregava de produzir carboidrato.

Até então eu não sabia dessa herança genética. Fábrica de carboidrato, capaz de transformá-lo em triglicerídeos armazenando o excesso, pra mim foi novidade. Sinceramente não queria essa "benesse" e saí de lá com a proposta de me tornar cliente assíduo do médico e da farmácia pra controle de qualidade da produção.

Já domino parte da nomenclatura, equações de relação, valores de referência, receitas etc. O desafio é chegar à fórmula ideal entre dieta com alimentação adequada e esforço físico pra queima de estoque.  Por esforço, descobri que a dor muscular do início do texto era do hábito de ficar deitado por muito tempo segurando o celular suspenso com a mão esquerda.

 Jesus disse certa vez que é o que procede do coração e sai pela boca do homem que o contamina e no meu caso particular é também o que fica.

sábado, 29 de abril de 2023

AS LEIS NOSSAS DE CADA DIA - (MACIEL SOUZA)

 


                           

  AS LEIS NOSSAS DE CADA DIA           (MACIEL SOUZA)

 

Certo dia, advoguei a favor do Xote Ecológico do centenário Gonzagão. Ouvi que cantarolavam “que nem o Chico Bento sobreviveu”. Pelo poder da argumentação e persuasão, devolvi Chico Mendes à música, sendo justo com quem de direito. Outra vez foi com Oração Pela Família de padre Zezinho “Que ninguém interfira no lar nem na vida dos bois”. Intervi para que trocassem bois por dois.  Nos dois casos, fiz pelo autor para que sua composição não seguisse com injusta deformação, mas não fui capaz de corrigir meu sogro, aos gritos: “Deem água a esse bezerro que ele também é ser humano”, nem ousaria usar de autoridade para constranger um dos nossos homens de negócio em sua felicidade pela concretização de um diálogo bem sucedido com seu interlocutor:

— Me dê um copo de H2O!   Ao que prontamente em resposta colocou sobre o balcão um copo e o encheu com água, animado e não emudecido:  — Tá vendo, também sei inglês!

Na condição de testemunha, presenciei uma situação representativa daquelas que neste contexto se submetem à legislação gramatical, sem nenhuma transgressão. Foi numa interpelação, quando assisti a um senhor cativando o freguês para ser justo na cobrança da conta, tanto quanto o foi no exercício da linguagem formal: “Foram quantos sequilhos mesmo?”

 

Ouvindo casos contados por meu pai que se passaram em nossa cidade, faço o relato de dois deles e justifico a ação da autoridade policial. Um se deu pela passagem de um sargento, quando junto a sua esposa o policial organizava, participava e era um dos mais animados nas noites de carnaval. Num desses dias seu Zé André puxou da cintura uma faca a fim de fazer um cigarro de palha, logicamente foi abordado pelo sargento em traje carnavalesco e munido do artigo 244 do Código de Processo Penal Brasileiro criado em 1941:

— E essa faca?

— E o senhor, quem é?

— Eu sou o delegado!

— A mim não me consta, pois eu conheço a “poliça” é pela roupa e pra mim o senhor tá nu.

 

Pela letra da lei, o Código de Processo Penal Brasileiro na época dos fatos previa que “A busca pessoal independerá de mandado, no caso de prisão ou quando houver fundada suspeita de que a pessoa esteja na posse de arma proibida ou de objetos ou papéis que constituam corpo de delito...” Em minha insistência na procura achei coerente e lógica a interpretação prevista no citado artigo de que “Diante da fundada suspeita de que uma pessoa esteja na posse de arma proibida, o policial pode e deve realizar a busca pessoal, independentemente de mandado”.

 

O segundo caso foi com um senhor conhecido por Boa Noite. Seu Boa Noite foi abordado pelo Policial Militar diante da denúncia de que estava embriagado e portando um objeto cortante:

— Me dê a faca!

— Num dou!  

— Pois teje preso!

— Num tou!  – O Código Penal no artigo 330 já fixava pena para quem desobedecesse à autoridade, o que neste caso deve ter sido um agravante.

 

Por justiça, atribuo ao meu bisavô Fernando Vazinova a autoria da frase: “A ‘ignorânça’ atravanca o progresso”. A citação é dos dias em que seu Boa Noite obscureceu a autoridade policial e contempla ainda atualmente, desde a reação do senhor que se envolveu num acidente, batendo boca com um transeunte curioso que importunava a sua paciência dando palpites em sua desgraça “E você é da lei? Se não é da lei, cai fora!”, até o seu julgamento nos Tribunais amarrotados de processos longos e lentos, dos debates acalorados em torno das vidas congestionadas, face ao emaranhado de leis, decretos, portarias, estatutos, códigos, regimentos, normas, regras, artigos, acordos, combinados, etc., nos livros, nas placas, nos murais, na vertical, na horizontal, à esquerda ou direita volver, com base no ordenamento jurídico de longas narrativas em parágrafos e incisos para delimitar, organizar, moralizar, corrigir, advertir, coibir, permitir, penalizar, cansar...

 

Todavia, citando Euclides da Cunha quando engenhou Os Sertões, “Resumamos: enfeixemos estas linhas esparsas” que diferentes na obra do escritor—jornalista—militar, na minha ousadia aqui são bem poucas, mas intensamente passíveis de penalidades, tanto quanto quando expostos a simpáticos lembretes: Sorria, você está sendo filmado! ou àqueles bem autoritários: Silêncio!...

 

quarta-feira, 17 de junho de 2020

CONSELHOS PRA TODA VIDA (Maciel Souza)



CONSELHOS PRA TODA VIDA
(Maciel Souza)

Fique forte para a guerra
Jamais seja um coitadinho 
Seja humilde quando erra
Refazendo o seu caminho 
Tente ser organizado 
Reveja o plano traçado 
Nunca perca a autoestima 
Priorize o seu estudo
Faça dele seu escudo 
Na luta parta pra cima.

Se um momento é amargo
Um outro deve ser doce
Entenda que o mundo é largo
Não viva como se fosse
Plantado num só lugar 
Ou que se deixa levar
Por outros sendo guiado
Tenha seu ponto de vista
Seja sim protagonista 
Do seu caminho traçado 

Não queira viver à toa
Só vendo a banda passar
Ou só conversando loa
Como dizem conversar 
Vida tem que ter projeto 
O caminho não é reto
Por isso muito encanta
Prove assim que está vivo
Foque em seu objetivo 
Se cair depois levanta.