segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

LUCIDEZ EM RUÍNAS

 


LUCIDEZ EM RUÍNAS


A luz penumbrada deixa-o consciente de sua insignificância. Já não tem a preocupação de que alguém esteja prestando atenção no que faz ou diz. Sua latinha de aguardente fora ingerida, e só lhe restava esperar que o sono cumprisse seu papel de tirá-lo daquela realidade da qual quer fugir.

Ao longe, um barulho alternado de gritos eufóricos o faz relembrar a juventude passada naqueles ambientes festivos. Que valor teria agora? Suas antigas namoradas estão idosas — algumas mortas, outras dementes — e ele ali, remoendo os tempos de glória.

Embaixo da cama, dormindo ou fingindo dormir, um cão cego, companheiro de tantos anos, já quase não late; geme, coberto de carrapatos a lhe sugar.

Agora ele brinca com os pensamentos. Ainda bem que tem vasto material para explorar. Lembra-se dos quatro caminhões consumidos na farra. Isso já não tem importância, nem para ele nem para os colegas atuais, que sabem de cor as histórias por ele repetidas.

A madrugada é cruel. Mata aos poucos, torturando-o com a falta de plateia e de sono. Pensa em levantar o braço para coçar a cabeça. Esse movimento torna-se motivo de entretenimento. Pensa, espera alguns segundos, abre a mão, levanta o braço imaginando ser um guindaste erguendo a Torre Eiffel. Toca a cabeça e, finalmente, massageia o couro cabeludo. Aos poucos, vai descendo o braço, exatamente como alguém que aguarda a cadeira elétrica. Precisa desses truques para manter o pensamento no tempo presente. Tudo de que gosta consome sua aposentadoria lentamente, a ponto de contar os centavos restantes para suprir sua vontade de permanecer gordo. Uma das tarefas que lhe restam é andar dentro de casa, contando os passos, sentindo o peso do corpo produzir dores nas articulações gastas pelo esforço de peladeiro de fim de semana.

Ninguém mais para esbarrar nele. Olha para uma rede, enrolada em um gancho, esperando que ele a desenrole, retire-lhe o mofo e as teias de aranha que servem de enfeite. Pelo menos algo para relembrar a importância do trabalho. Será que a aranha está estressada pela falta de mosquitos? Finge ser uma delas ao lembrar quanta teia precisou para segurar uma amante: joias, carros, restaurantes… Suas teias despedaçaram-se. Ele se sente uma aranha sem teia.

Isso é depressão? Antes fosse; pelo menos se divertiria olhando nos olhos da estagiária de psicologia. Observaria sua pele jovem, seus olhos cheios de esperança; testemunharia a ingenuidade do início de carreira. Mas ele é inteligente, e cada tristeza é logo diluída pelas interrogações que faz sobre o próprio estado de espírito.

Ah, como era bom quando se iludia com os sentimentos amorosos. As decepções eram levadas a sério. Acreditava que o amor existia só porque sofria a cada romance desfeito. Era tudo jogo de interesse. 

Quanto tempo precisou para perceber o quanto era escravo dos hormônios?

Perceba ele ou não as limitaçoes humanas, a madrugada permanece, dizendo-lhe que está preso a outro tipo de experiência. É como se fossem molduras, enquadrando-o em realidades encaixadas de acordo com a idade. Parece estar em uma esteira de linha de produção biológica que vai acrescentando memórias, rugas, dores — tudo isso com o único objetivo de moldar o pensamento. Mas ele está maduro demais para cair nessas ciladas armadas pela condição física, pelas repetições do sol nascer, do galo cantar ou da chuva batendo no telhado.

Será que a capacidade de perceber as armadilhas não é, ela própria, uma armadilha?

O senso crítico o aprisiona. Sente-se vítima do sistema digestivo, tão complexo quanto o financeiro. O corpo pede descanso. Ele se dá fadiga ao ir ao mercado buscar restos de fim de feira. Tem vontade de catar lixo, de sentir o olhar discriminador dos que catam milhões na bolsa de valores, mas é orgulhoso demais para isso.

Os dias se arrastam enquanto ele passa invisível no meio da multidão, lotada de caras deformadas pelo trabalho. As maquiagens derretendo-se ao sol escaldante têm, para ele, o mesmo significado do rosto suado do estivador. Como é cansativo se deixar assar pelo sol. Analisa a corrente de ar e chega à conclusão de que o papel dela é infectá-lo de vírus. A natureza usa suas armas sutis para exterminá-lo. As estações do ano, com seus choques térmicos, também lhe tiram a força.

Permanece prisioneiro da missão de ser educado, pedindo desculpas até por ainda respirar sem ajuda de aparelhos. Tem consciência de que está sendo assassinado pelo tempo. Cada segundo é como uma punhalada em seu coração, que bate distante e sem pressa até na hora do medo.

Tem vergonha de não ter tido coragem de ver a mãe sendo dilacerada pelos vermes. Preferiu que isso acontecesse debaixo da terra; por isso fez com tanto esmero o enterro dela. Ninguém para fazer o seu.

Olha para uma banca de verduras ao lado de um esgoto a céu aberto e percebe o ambiente gritando “Fracassado” em seus ouvidos. Ninguém precisa relembrar sua atual condição de morador do fundo do poço. O bêbado, dormindo na calçada, faz isso sem muito esforço.


Heraldo Lins Marinho Dantas

Natal/RN, 29.12.2025 – 07h01min

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