terça-feira, 13 de janeiro de 2026

QUARTO VAGO

 




QUARTO VAGO


Devagarinho, procura uma ideia no meio do pensamento, como quem procura uma agulha em um palheiro. Até para pensar dói. Seus janeiros acumulados já somam bastante, e agora mais um está começando. Precisa descansar o dobro do tempo após qualquer tarefa realizada. Isso lhe chegou gritando na ressaca do espumante ingerido no pipocar do Ano-Novo. Doenças genéricas tomaram conta dos convidados, a ponto de um casal se ausentar porque a filha apresentou febre alta. Ninguém escapa da manutenção do corpo, pensa, ainda deitado, com a brisa ensolarada invadindo o quarto do hotel.

Examina as forças restantes e encontra fragmentos de sensatez implorando para que entregue os pontos à aposentadoria. Precisa olhar para a própria existência como um cientista examina uma ameba ao microscópio.

Seus sonhos estão se esvaindo, deixando-o solitário no meio da vida. A floresta dos anos passados, com suas árvores de acontecimentos, contrasta com o deserto do futuro, que se estende a perder de vista. As mesmas árvores brotam a cada segundo, sem apresentar novidades.

Escuta vozes vindas da cozinha. As mulheres preparam o café enquanto ele não quer se levantar. O que lhe faz bem é permanecer inútil, fechando e abrindo o punho para averiguar o restante das forças. Os sinais da desarmonia do corpo vêm em forma de dores. O cotovelo direito pede descanso do jogo com a raquete; as panturrilhas também. O raciocínio lento o impede de devolver a bola rápida que chega pelo caminho tão batido da quadra simulada. Perde o tempo da bola, mas teima em reiniciar quantas vezes for possível, tentando trazer para si o domínio do foco — por enquanto, em vão.

Relembra a conversa da convidada sobre a própria mediunidade, deixando-o entediado. Que besteira é falar de algo que não se pode provar. Isso não traz nenhum benefício prático.

A cor branca dos cabelos torna-se mais branca a cada encontro; a barriga saliente continua a dar a impressão de gravidez. Será que homens barrigudos nutrem esse perfil pelo desejo inconsciente de também poderem engravidar, assim como mulheres que usam calça pelo desejo inconsciente de urinar em pé?

Espanta essas interrogações sem respostas precisas e vai para o limbo. Lá só há anjos que não precisam digerir para sobreviver. Basta um sopro e lá se vão pelo caminho, sem gastar combustível. O ideal humano passa pela capacidade de se fixar no mundo dos deuses, onde não existem dores e, consequentemente, não existem imperfeições.

Volta ao que interessa: seu corpo. Seu desejo de dormir em um banco de praça, longe da praça, está se realizando. No jardim do hotel há um, pouco iluminado. Pensa na canção que fala disso e experimenta, satisfeito, sem receio de que chegue um guarda para impedi-lo de experimentar a decadência humana.

Os dias passam, carregando-o para longe da juventude. Os problemas chegam junto com o sol. São digeridos durante a manhã, vivenciados à tarde e remoídos a cada pesadelo interrompido para beber água. Será que todos da raça humana passam por isso? Insetos, vírus e bactérias também. Estão vivos — e esse é o preço para continuar vivendo, pensa, já sem esperança de se livrar dessas limitações.

Janeiro está indo. Outros virão, trazendo chuva, que o espanta por ter esquecido o que é. Água caindo de cima? Alguém está com uma mangueira. Suas lembranças da chuva foram embora, e a tempestade o impressiona. Como é possível? Sua capacidade de fazer perguntas continua, igual à de uma criança. Ninguém lhe responde, por não ter interesse em conversar com quem pergunta a mesma coisa a cada minuto.

A capacidade de criar problemas ampliou-se. As pessoas se afastam, evitando-o. Os futuros beneficiados torcem pelo seu fim definitivo. Ele, no fundo do cérebro, cata um momento de lucidez; porém, sua autoestima leva-o ao modo economia de energia, como um celular ultrapassado esquecido em uma gaveta de um hotel de repouso.

Vê, ali perto, alguém depositar mais um idoso ao seu lado. A cadeira de rodas substituiu um possível engatinhar. Ninguém aceita ver um idoso se arrastando. Ele pensa que é uma criança. Chora por não o deixarem ir para o chão. Sente-se desconfortável com uma jovem limpando sua baba.

Restabelece a conexão com o presente. Chega a hora da sopa, do caldo com pão e queijo assado. No refeitório, pessoas desgastadas pelo tempo dividem a mesma mesa. Ao lado, alguém se engasga. Correm para salvá-lo, conseguindo uma morte sem sofrimento.

Daqui a pouco, a movimentação será grande. Haverá padre, familiares chorando, mas a vaga no quarto será preenchida já amanhã. A morte passa a ser motivo de festa. As funcionárias receberão gorjetas gordas, e ele se interroga qual será a data em que irão surrupiar seus pertences e vender seu crânio dissecado para colecionadores.


Heraldo Lins Marinho Dantas

Natal/RN, 13.01.2026 – 15h19min.

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