IDEIAS CRUZADAS
Passa horas sentado na poltrona, piscando os olhos a cada três segundos. A fome é recebida com alegria, pois testemunha que ele está vivo. Os mortos cochicham em seu ouvido: venha pra cá. Ele sabe que isso é uma forma de mentir para si mesmo.
Brinca com as crenças para conseguir sociabilidade. Acredita que estão todos perdidos, inclusive ele. A diferença é que percebe com clareza seus desatinos, evitando se iludir com as autopromoções de um ego inflado.
Alguém ali perto fala dos bombeiros e dá risadas, acompanhadas por quem antes estava sério e que, consequentemente, transforma-se à condição de risonho. Que droga! Há interferência do meio externo para que ele saia do tédio. Sua existência é questionada por si mesmo, até que se levanta para desligar uma torneira.
As quatro pernas da cadeira permanecem de prontidão, caso ele não queira cair. Levanta-se segurando no espaldar. Os passos são controlados pela insegurança. No caminho, uma boca acesa no fundo de uma panela chama-lhe a atenção.
Volta à posição inicial, de pernas cruzadas. Seu único divertimento é esperar o tempo passar, reforçando o ofício de desocupado praticante. Por mais que faça projetos, ele esbarra na certeza de que um dia irá apenas ficar deitado, olhos fechados, sem forças para abri-los ao final.
A água fervida vai para outra vasilha, carregada por mãos carentes de hidratação. O mesmo corpo que exige conforto encontra lazer em se manter hidratado, saciado e amparado, fazendo parte dos oito bilhões de organismos correndo em direção a um sanitário. Não há evolução. Um batalhão querendo se livrar das carências; outros, seguindo leis sem resultados práticos.
No intervalo do sono, o relógio mudou de posição por algumas horas, dando tempo para o feijão ser cozido. Um brinde trazido das terras de Pablo Neruda observa as tampas das garrafas que um dia serão retiradas por ele. Um ímã, enfeitado com a palavra love, paira na lateral da geladeira. Foi recebido em troca das novidades cuspidas com entusiasmo numa tarde de sábado, regada a muita alegria e atenção redobrada. Sua amiga, de macacão verde, promete outras viagens para daqui a seis meses. “Venho contar”, diz ela, na despedida.
A noite chega sem avisar, percebida pelos cliques dos interruptores. Um ferro de passar empurra a roupa ex-amassada para dentro do closet. Mais um esforço desperdiçado para acompanhar a moda do bem-vestido. Suprir as necessidades básicas já não basta. É preciso andar limpo, asseado, bem-apresentável. Tudo isso surge como se fosse natural.
A cabeça faz o papel de um relógio, tendo o pêndulo se transformado em tronco e membros, guiados pelo tique-taque de um relógio de parede. Este funciona a corda; aquele, a marca-passo; um registra horas, o outro, ideias.
Seu mundo espiritual foi diluído e triturado na máquina da realidade. O lado filosófico ficou sem voz ao ver um casal transformado pelo tempo. Ele chora ao perceber que também está se transformando em um estranho diante do espelho. Tenta se acostumar com sua nova aparência de monstro enrugado, e só não se suicida porque o sono faz isso por ele.
Dorme cansado pelo peso de manter a corrente sanguínea passando pelos becos escuros das artérias. A escuridão empurra o resto de vida para debaixo dos lençóis, assim como o desprezo da vassoura empurra a poeira para debaixo do tapete.
Sua dignidade foi trocada por um alívio fugaz à base de paracetamol. Sofrimento com juros compostos. Está rico de problemas pessoais, convertidos em peso na consciência.
Permanece com saída apenas para cima. Seu joelho clama por descanso. Apesar de tudo, está contente por transitar no caminho usado pela maioria que sente inveja de quem está morrendo.
Mais uma noite está indo. Ele olha ao redor e não encontra ninguém para conversar. Todos estão ocupados em manter problemas oriundos das reações químicas do medo. Ele sabe que não adianta tentar contato fora do circuito do trabalho, então se conforma com o inconformismo inerente a quem perde o poder.
Precisa, urgentemente, investir em uma mulher artificial para trocar ideias. Uma que não se canse nem sinta vergonha de possuir uma bateria infinita, com programação de meiga, simpática, sensual e desbloqueada de pudor.
Quer que essa namorada venha pelos correios, embalada em plástico-bolha e pronta para uso, com HD cheio de estímulos, programada para aturar seus devaneios, seus debates infrutíferos e capacitada para responder sorrindo a agressões verbais.
Guardará ela no armário, com cuidado para que não caia nas mãos de estranhos. Quer uma completa, inclusive com autodefesa mortal contra desconhecidos. Por outro lado, teme ser confundido com um inimigo, mas a carência é tanta que decide fazer o pedido, mesmo correndo o risco de ser eletrocutado.
Heraldo Lins Marinho Dantas
Natal/RN, 20.01.2026 – 14h37min.
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