APOESC (Associação de Poetas Escritores Simpatizantes e Colaboradores)

A APOESC (Associação de Poetas Escritores Simpatizantes e Colaboradores), criada em 03.2010 em Santa Cruz -RN, existe para congregar amantes da cultura, apologistas e produtores da arte da palavra.


domingo, 18 de setembro de 2011

UM POETA ULTRA-ROMÂNTICO - por Nailson Costa

Os anos 70 testemunharam ainda poetas, como Márcio Marques, filho de Cosme
Marques, que nada devia a seu pai, quando se tratava de poesias, músicas e crônicas. Dele,
diz-se que, quando exagerava na bebida, pegava o seu violão e dirigia-se ao cemitério local,
onde, na cova de seu inesquecível pai, dedicava-lhe suas mais belas canções, versos e
crônicas. Segundo sua irmã, Maria do Rosário, Lalo, “o show juntava algumas dezenas de
curiosos e só terminava quando, tarde da noite, o coveiro nos comunicava o fato. Com muita
luta, nós o rebocávamos para casa”.
José Márcio Marques, que nascera no dia 2 de janeiro de 1950, era um poeta ao estilo
de Álvares de Azevedo. Sua angústia, seu pessimismo em função da realidade de injustiças
sociais, bem como o vazio que sentia de um amor verdadeiro aproximam esse poeta dos ultra-românticos da segunda geração do Romantismo. Lord Byron, Alfred Musset e Álvares de
Azevedo exerceram, sem dúvida nenhuma, influência não só no eu-lírico deste jovem poeta,
como também em suas atitudes. Marques cantou o silêncio, a noite, a indiferença, a
melancolia, a morte. A evasão, a egótica, o spleen, o erótico caracterizam sua obra. Aliás,
Marques, assim como Álvares de Azevedo morreu muito jovem. Ele, como muitos poetas
ultra-românticos, evadiram-se, não só nas suas obras, como também no seu tempo e espaço
reais. Suicidara-se o poeta, no dia 23 de agosto de 1980, fazendo da morte a saída para as
crises de depressão de que muito constantemente era acometido. Os poetas ultra-românticos
vêem nessa atitude radical o único momento de paz. É de Márcio Marques:

Silêncio, espera

Noite tristonha dos beirais do rio.
Rio meu pranto-descanto. Alheia
Alma penada mística se enleia
Noutros fantasmas comungando o frio.
Mágoa teórica, trêmula vagueia
Teia sensível em que me contrario.
Pio gemido temeroso e esguio
Do meu desgosto, fina-se na areia
Palavras que se vão nas reticências
Marcadas, ressentidas das ausências.
Desesperanças que maltratam mais;
Incertezas da espera, a estrela apagada
Só silêncio, só eu à procura de nada
Na estrada infinita da noite em que vais.


Encontro
Foi seu olhar sereno
Que abriu o meu espírito
E o meu corpo
Para outros anseios;
Foi seu primeiro beijo,
O mais ameno,
Que fez luzir na noite dos meus olhos
A primeira,
A maior,
A grande esperança.
Querida,
Minha doce querida,
Ao enlevo do seu abraço de fada
Eu quero sentir
Todas as sensações desejadas
E reprimidas no meu medo.
Ah! Mas você for somente
Um momento breve,
Um sonho fugidio,
Perdure em minha emoção
Criança
Tempo e vida e amor
Sentidos
Antes do nada
Antes do desencontro

Pégaso

Pégaso do meu ocaso
Leva-me
Por entre as estrelas da noite
Do infinito,
Onde o amor não seja
Uma mentira,
Onde os sorrisos sejam abertos
E sinceros,
Onde as mãos se apertem
Sem nojo,
Onde a caridade existe
Sem egoísmo;
Lá onde os homens são realmente
Humanos
Leva-me ao cair da tarde
No aconchego das tuas asas


Muitos outros artistas literários com suas emoções, que só a arte das palavras sabe
traduzir, perderam-se no tempo, foram sepultados no túmulo do esquecimento. Só nos resta
dizer que eles existiram, e, mesmo que nesta pesquisa não constem, escreveram o seu
passado, viveram o seu presente, inspiraram o seu futuro e tornaram-se, como os aqui citados,
em UM PRESENTE DO PASSADO.


Extraído do livro LITERATURA SANTACRUZENSE, da autoria de Nailson Costa.