quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

TRÊS HOMENAGENS A TUIÚ (Marcos Cavalcanti, Hélio Crisanto e Lucivânia)


TUIÚ, PATRIMÔNIO IMATERIAL DE SANTA CRUZ (Marcos Cavalcanti)

Se eu pudesse conjugar a pouca habilidade de fotógrafo e meus parcos recursos de escrevinhador para pintar, em homenagem, o melhor retrato de Tuiú, eu o faria com muito gosto, mas reconheço que nem as fotos que fiz nem o texto que agora faço são suficientes. Se Sanderson Negreiros guiasse-me a palavra no teclado e se Jaeci Emerenciano apertasse junto comigo o obturador de minha velha Zenit, talvez eu pudesse com a ajuda destes dois notáveis de saudosa memória, dar ao personagem desta crônica de saudades, as cores certas na composição ideal da figura inolvidável que a sociedade santacruzense gestou, viu crescer e agora vê findar os seus dias. O certo é que Santa Cruz está mais pobre, pois perdeu toda a riqueza demasiadamente humana de Tuiú. Quanto isso representa? A nossa sã ou vã imaginação não pode imaginar, não pode calcular ou converter em cifras ou cifrões a falta que ele fará. Todos os Bancos da cidade não estão agora e para sempre órfãos de sua onipresença em suas filas? Estará presencialmente ausente das conversas dos caixas e não mais adentrará as portas giratórias para driblar vigias e seguranças no ímpeto de seus depósitos imaginários. Todos os Bancos deveriam hastear bandeiras a meio mastro em reverência póstuma ao seu maior cliente, aquele cujo rico capital, nenhuma caixa forte ou cofre poderia conter ou reter, nem multiplicar ou subtrair. Tuiú era correntista de si mesmo, era em si mesmo um milionário, porque indigentes são ou foram apenas aqueles que lhe insultaram, aqueles que lhe pilheriaram, os que não entendem nada de humanidade ou de educação.
Tuiú carregava em suas capangas e bolsas várias, seu mundo imaginário, suas angústias e sonhos: promissórias amarrotadas, talões de cheques, cartões de créditos ilimitados e os saldos estratosféricos de velhos comprovantes encontrados em suas andanças. Era um andarilho nato, e por isso mesmo, mais empurrava a sua enfeitada bicicleta do que nela montava. Tinha-lhe um ciúme danado e não deixava que ninguém a tocasse. Tuiú também não se deixava fotografar facilmente, detestava os papparazis. Uma selfie? Nem pensar. Se alguém tiver uma selfie com Tuiú, eu mesmo compro a preço de ouro de Tuiú.
No pingo do meio dia, Tuiú desafiava o clima com seu surrado paletó e fazia charme olhando por cima de seu “Rayban”. Era irmão de Buluca, outra figura icônica de nossa cidade. Segundo soube, Buluca ora se refugia na capital.  Poucos entendiam as suas falas e queixas, sendo as de Buluca, quase indecifráveis e dificultadas ainda mais pelo filtro dos pelos longos de seu inconfundível bigode. Tuiú, tinha de singular, a barba, que jamais viu lâmina de barbeiro. Seu semblante me fazia lembrar de figuras como Antônio Conselheiro ou do místico Rasputin.
O meu último encontro com Tuiú se deu no restaurante de Dona Zefa. Falávamos de saudades, da saudade dos entes queridos que nos deixam, por vezes, assim, tão repentinamente. Aproximou-se e perguntou por papai e por mamãe, prometendo um dia visitá-los na Serra da Tapuia. Assenti que fosse mesmo e que seria, como todos, muito bem recebido. Foi-se embora e a visita ficou só no desejo, na imaginação, e agora, não poderá se realizar mais, porque repousa Tuiú no cofre da mãe terra, na condição onde todos somos iguais. Tuiú, o sonho etéreo fez de ti o mais rico dos homens santacruzenses e o teu saldo, nenhum dos bancos tem lastro ouro suficiente para aquilatar. És credor de nossas saudades, de nossas lembranças, pois tua riqueza é imemorial e imaterial!

P.S.: Faço um reparo, segundo outra informação que tive, posterior a publicação de meu texto, Buluca continua residindo em Santa Cruz, fazendo parte, portanto, do nosso cenário geográfico de figuras icônicas.



O TRISTE FIM DE TUIÚ (Hélio Crisanto)

Hoje recebi a notícia da morte de Tuiú. Um Santa-cruzense do bem, que talvez não tenha deixado grandes feitos ou grande legado, a não ser suas contas bancárias imaginárias e seus carros possantes guardados na garagem da sua imaginação. Como diria Shakespeare, só os mendigos conseguem contar suas riquezas. Pela sua deficiência mental foi vítima da hipocrisia humana e da exclusão social. Morreu sozinho, sem alarde, suplicando socorro à própria dor, como um indigente, carente de afeto e calor humano, sem honrarias e sem homenagens. Agora sim, irás conhecer o reino dos justos. Descanse em paz.

TUIÚ, UM HOMEM SENSÍVEL (Lucivânia Souza)

Tuiú vez por outra aparecia na oficina de meu pai (Everaldo). Chegava com sua Mobilete, como se fosse seu alazão branco, desejando que retornasse à vida para economizar uns passos seus em suas andanças. As vezes chegava no sábado até quase antes do sol apontar e lá ia pai atender Tuiú. Um dia, quando a oficina de pai ainda era na rua da feira, eu caí de bicicleta e parei quase debaixo de um carro. Tuiú estava do lado, saltou de um susto e prontamente me socorreu. Tuiú me pegou pelo braço, ajudou a tirar a poeira da roupa e demonstrou preocupação por eu ter me machucado. Mas quem era Tuiú além de mais uma pessoa em mais um dia como qualquer como outro? Tuiú, eu não o conhecia. Tuiú, o muito obrigada que dei a ele naquele dia, agora ecoa no universo diante de sua mortalidade. Tuiú com tão pouco ou quase nada, investiu cuidado com meus arranhões. Depois disso, agora guardo na memória a feliz cena de Tuiú indo embora com um bisaco de lado (certamente contendo seus tesouros) em sua Mobilete, contente da vida porque sua magrela agora andava. Tuiú, se neste mundo fostes pobre, agora Deus te dará as reais riquezas que todos esperam.


domingo, 7 de janeiro de 2018

AS FACES DA PAIXÃO (Nailson Costa)


AS FACES DA PAIXÃO  
       (Nailson Costa)

“É hoje! Esta noite será especial”, pensava Pedro em Marieta, que sumira da vida dele havia três longos e sofridos anos, sem deixar rastro, perfume, recado. Pedro apaixonara-se pelos olhos alegres-esverdeados de Marieta. Apaixonara-se, também, pelas covinhas de suas bochechas sensuais, quando de seu sorriso contagiante. Pedro sofria de amor por aquela mulher madura, inteligente, educada, simpática e linda! E a coisa mais patética de um ser humano é o sentimento de um varão apaixonado! Os homens são bobões, não têm a leveza, a discrição e a camuflagem feminina no campo das grandes batalhas passionais.  Revela-se um fraco! E Pedro, havia três anos, perguntava por Marieta aos amigos próximos e obtinha deles os seus silêncios frios como resposta. Marieta sumira da sua cidade, de sua rua, das redes sociais... nada de notícias dela! Sumira. Pedro até pensou em procurar a polícia, mas algo lhe dizia que Marieta estava fazendo uso daquele charminho característico do DNA feminino, aquele semelhante à própria sombra, que, quando de frente ao seu par, foge, afasta-se, com aproximação deste, mas se este, ao lhe dar as costas e sair, desistir do contato direto com a sombra,  esta corre à sua procura. Era assim que Pedro pensava e confortava-se com isso, a certeza de que Marieta o amava! As mulheres são como as sombras: cheias de charminhos e frescuras. E era assim que Pedro pensava a respeito do sumiço de Marieta.
Pedro tinha uns feelings fiéis aos seus bons pressentimentos e, na manhã daquele  31 de dezembro, ele teve a certeza de que  ela apareceria linda, alegre, com seus olhos alegres-esverdeados e suas covinhas no engaste de suas bochechas sensuais a sorrir e a dizer-lhe “Feliz ano novo, meu amor”.
- Tenho que me fazer lindo, também – disse Pedro a ele mesmo.
Diferentemente das mulheres, e possivelmente de Marieta, ele não foi ao salão de beleza , mas foi à academia, malhar os músculos, para apascentar a alma.  Pedro não aguentaria mais aquelas poucas horas de distância do seu amor.   E três anos de espera nunca são como as horas que antecedem a festa, o baile, o encontro, o abraço, o “Como você está linda”, o beijo tão esperado. Essas horas são os doces, as entradas, são o avant-prémiere, as deliciosas preliminares do momento ansiosamente aguardado.
 Pedro toma banho, canta no banheiro, bota um perfume másculo, aquele com o cheiro de todos os espinhos verdes da natureza e ameaça dar algumas rodadas diante do espelho, mas desiste e veste um branco amarelado pela espera, penteia os fios compridos de sua paixão e toma um  uber, que  vai ao encontro de Marieta, depois de três longos e sofridos anos de sua ausência .
Pedro adentra o salão sem a leveza, a sagacidade e a discrição das mulheres belas. É que os homens não têm o dom dos fingimentos necessários! Sequer sabem disfarçar a angústia de suas procuras. Baile animado, lotado de bebidas quentes e de comidas sensuais, com as suas mesas todas fartas de pessoas fáceis e Pedro sério e ansioso, com  a sua angústia destoando da alegria daquele momento. Era um senta, levanta, estica o pescoço ... as horas passando,  “Opa, ela chegou!”, toma  uma, não era ela, toma outra, olha pro relógio e uma garota ri, toma mais uma,” Agora é ela”... Cadê Marieta?
Amanhece o dia, salão vazio e triste. Pedro, sentado, sozinho, à mesa lotada de comidas frias e das bebidas dela, sente a mesma dor de três anos antes, quando o excesso de bebida levara-o, às pressas, ao hospital , infartado, para não mais acordar. Acorde, Pedro. Pedro havia falecido havia três anos, e Marieta chorara muito a sua partida, mas refizera a sua vida, casando-se com Leandro, que amava Marieta com as mesmas forças de Pedro e que lhe dera dois lindos filhos, Ilana Larissa e Pedro Felipe.
 - Acorde, Pedro, precisamos descer o segundo UMBRAL do salão de sua outra pena! Vamos? 

sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

DOIS POEMAS, DOIS POETAS

PAISAGEM ÁRIDA 1

(Franciolli Araújo)

Árida é a paisagem que percorro
Na beira da estrada 
Sonhos mortos se acumulam
Só a esperança prevalece


PAISAGEM ÁRIDA 2
         (Nelson Almeida)

Árida é a paisagem que percorro
Onde o lamento sertanejo pede socorro nos cânticos entoados à galope
Às margens da estrada, sonhos mortos se acumulam
A realidade sobrepuja sonhos infantis
Quem vive a seca do sertão jamais a esquece 
Nestes torrões de terra, somente a fé e a esperança prevalecem

"Agradeço a Franciolli Araújo pelo texto que me inspirou" - Nelson.


UM CONVITE MAIS QUE ESPECIAL


Dia 20 de janeiro,
data mais que especial
para o o cordel brasileiro
para a cultura local.
Imortais da academia
Trarão música e poesia
Nessa noite sem igual.


segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

Mar Adentro - Débora Raquiel


Mar Adentro

Voz do oceano ecoando seus abismos,
Enquanto os alísios empurram da bruma seus mares,
Lavando os pés do poeta, ao último pôr-do-sol…
Pisando conchinhas entre cascalhos, ele costura suas poesias, circunspecto...um verso é pouco para o mundo nas mãos.
Um barco seguiu, um veleiro seguiu, menos o poeta, que de um salto mortal se espatifou liberdade adentro... nunca mais voltou ao cais.
De tão vasto, sem fim, confundiu-se com o mar…
Perdeu-se por entre os corais, foi recitar nas profundezas.

Santa Cruz, 31 de Dezembro, 2017.

Débora Raquiel Lopes

domingo, 31 de dezembro de 2017

PROPÓSITOS HOMILÉTICOS


HOMENAGEM EM PROSA E VERSO A LAJES PINTADAS - Gilberto Cardoso dos Santos


HOMENAGEM EM PROSA E VERSO A LAJES PINTADAS  (Gilberto Cardoso dos Santos)
Em 2008 foi exibido pela Rede Globo, no Programa do Jô, uma bela reportagem sobre Lajes Pintadas. Como os fins da matéria eram humorísticos, Jô Soares chamou a atenção para o exotismo do nome, razão de ser da reportagem. Um pouco antes, naquele mesmo ano, a repórter Tatiana Resende veio à cidade munida de pegadinhas verbais do tipo:

“Quem nasce em Lajes Pintadas é pintor?”;
“Quem pintou as Lajes de Lajes Pintadas?”;
“A senhora também pinta as lajes de sua casa?”

Várias pessoas, comuns e autoridades locais, foram entrevistadas. Os que foram interpelados pela equipe de tevê reagiram com bom humor às perguntas e aproveitaram bem a ocasião para mostrar a todo o Brasil a natural simpatia de seus habitantes e um pouco de sua encantadora história. Certamente houve aqueles que, zelosos por sua identidade, reagiram posteriormente com indignação, como bons munícipes, às interpelações de teor irônico da jornalista. Mas no geral, percebeu-se, o saldo foi  positivo. O Brasil teve oportunidade de rir e de se encantar com uma gente de boa índole e hospitaleira.

Aquele que então era prefeito levou a repórter até o leito do Rio das Lajes, berço do município, e falou das imagens e desenhos rupestres que anteriormente ali existiram. 

Pessoas de diversos lugares então vinham vê-los, movidos por pura curiosidade ou com intenção de decifrá-los. Conforme acreditavam alguns, quem decifrasse o sentido daqueles caracteres teria acesso a um reino encantado. De fato, metaforicamente se veria no futuro um fundo de verdade nesta crença.
Nesse tempo, era comum ouvir dos habitantes de regiões circunvizinhas: “Vamos ver as Lajes Pintadas.”; “Vamos pras Lajes Pintadas”.
E foi assim, pelo constante e unânime uso, que o apelido ganhou força e se transformou em nome próprio.
Emancipada de Santa Cruz, a aconchegante cidade, emoldurada e refrigerada pela vegetação catingueira, conserva, em grande medida, a beleza e a simplicidade de seus antepassados.  O amor à cultura popular, por exemplo, é belamente demonstrado em suas obras artesanais. É prazeroso ver, ainda em nossos dias, a cidade reunida em praça pública para prestigiar cantadores de viola e poetas populares. A modernidade ganhou espaço, é verdade, mas ainda há lugar para o que realmente importa. O respeitoso silêncio e aplausos calorosos revelam o bom gosto dessa gente que vive sua vida simples, pautada pela moral e pelo bom senso.
Significativo é que uma cidade, marcada em suas origens pela busca de prosperidade material, tenha como padroeiro São Francisco de Assis, aquele que se despojou dos bens para alcançar o Bem. Que bom, porém, que o tenham escolhido, pois isto trouxe-lhes um contraponto magnífico, uma correta perspectiva acerca do que realmente importa.
Esgotaram-se, é verdade, os tesouros minerais de outras décadas. Restam, todavia, as riquezas interiores que fazem de cada um de seus habitantes uma preciosa gema.
Enquanto escrevo estas palavras, vem-me à mente “Gente humilde”, de Chico Buarque, que descreve realidades brasileiras similares às de Lajes Pintadas. A docilidade de sua gente me encanta. 
Desejo muito que Lajes Pintadas progrida, mas na medida certa. Que aprenda com os erros e acertos próprios e de cidades circunvizinhas. Que seus habitantes, frente aos apelos do comodismo e das fáceis soluções, lembrem-se sempre que a emancipação, em seu sentido lato, jamais termina.
Vida longa e de qualidade ao povo de Lajes Pintadas!

Gilberto Cardoso dos Santos

Santa Cruz, 31.12.2017


sábado, 30 de dezembro de 2017

Reflexões sobre um poema para Ademar Macedo - Gilberto Cardoso dos Santos


Reflexões sobre um poema para Ademar Macedo

Quando penso em Ademar Macedo e em Manoel Cavalcante, no convívio sereno que tiveram e mútuos benefícios adquiridos, vêm-me à mente os personagens bíblicos  Gamaliel e Paulo de Tarso. Disse Paulo que em sua juventude fora instruído "aos pés de Gamaliel". O mesmo diria Manoel Cavalcante acerca de Ademar pois, quando este ainda engatinhava na arte de versejar, teve o privilégio de conviver com o inesquecível versejador e por ele foi instruído sobre o necessário respeito e devoção  à trindade do cordel "Rima, métrica e oração". Não foi instruído aos pés, mas ao único pé de Ademar e aprendeu a revestir seus insights poéticos com botas de sete-léguas. Por benefícios mútuos refiro-me ao seguinte: Ao lado de Manoel, Ademar mantinha desperto seu lado criança; Manoel, por sua vez, amadurecia como ser humano e como poeta ao lado dele. 

Mais que professor voluntário, Ademar foi tudo em um: pai, amigo, muso, poema humano, livro e irmão. Se hoje Manoel desfila belamente em passarelas de versos e nas academias, é porque o aleijado Ademar, que jamais admitiria um verso de pé quebrado, foi um andajá em sua  formação - aquela mão que o sustentava quando perigava cair. Foi um espelho mágico no qual ele, Manoel, narcisisticamente se mirou tentando assemelhar-se ao que via. Sempre que  o invocou com um repetido "espelho meu", ouviu palavras de incentivo, impulsionadoras de tudo que ele viria a se tornar. Os olhos do trovador fizeram-se lentes e, através destas, Manoel mudou radicalmente sua forma de perceber o mundo. 

Um dos momentos mais tristes da vida do jovem vate deu-se quando foi-lhe noticiado que Ademar recebera do médico um diagnóstico aterradoramente negativo. Infelizmente, a realidade sobrepunha-se à poesia; a distopia dardejava a utopia. Todavia, à semelhança do que ocorre na  antológica cena do filme Luzes da cidade  em que o vagabundo chora e ri ao se revelar à ex-cega a quem amava, o jovem Manoel, a um tempo querendo expressar sua dor e aliviar a do mestre, deu certa sublimidade ao  momento através de um agridoce poema; misturou em doses equilibradas riso e choro. Aspirou o suave perfume da rosa oferecida ao mestre enquanto se feria em seus espinhos. Este foi o modo que encontrou para solidarizar-se com o mestre e consigo mesmo.

O "Poema a Ademar" carinhosamente escrito por Manoel Cavalcante para o saudoso trovador Ademar Macedo quando este noticiou a gravidade do estado de saúde em que se achava, tragicomicamente expressa o espanto que todos tivemos naquele instante. Ambos eram amicíssimos e o poema, apesar da pitada de humor negro, foi efusivamente recebido  pelo convalescente poeta. Cúmplices, estavam cônscios dos sedosos e inquebrantáveis laços de afeto que os uniam para além da morte e da vida. Ao ler as estrofes, ao perceber o eu te amo que pulsava nas entrelinhas, Ademar exclamou: O diabo é quem morre mais com um poema desse! - ( Gilberto Cardoso dos Santos)


Poema a Ademar (Manoel Cavalcanti)

Infeliz das costa oca
Você já nasceu com sorte,
Trate de lavar a boca
Quando for falar em morte.
Deixe este mal infecundo
Vá mentir no “mei do mundo”
Dizer que mora em Genebra,
Pois você sabe, aleijado,
Daquele velho ditado
Que vaso ruim não se quebra...

Perante problemas plenos
Já venceu toda parada
Isso agora é o de menos,
Uma coisinha de nada...
“Cê” vai morrer uma ova
Vai desbulhar muita trova
E pode deixar de dengo
Que nada lhe desanima
Você só tem muito é rima
Acumulada no quengo.

Sua presença é eterna
Neste meu coração brando,
Seu juízo é como a perna,
Inda tem, mas ta faltando...
No e-mail, eu vi piada
Vai do céu subir a escada??
Não acha ter nada errado??
A Deus eu vou dar gorjeta
Porque se for de muleta
Vai demorar um bocado...

Nós já morremos de rir
E eu vou morrer de desgosto
Quando a morte decidir
Rir das rugas de seu rosto.
Já foi diagnosticado
Sendo no exame encontrado
Um câncer na dura-máter,
Mas meu ego desafia
E duvida que algum dia
Surja um mal no seu caráter.

Li seu e-mail na sexta
E vi numa história linda
Que dá tempo de ser besta
Por bastante tempo ainda...
Cair todo mundo cai,
Morrer todo mundo vai,
Mas como você não presta,
Eu lhe convido, Ademar,
Vamos morrer de mangar
E rir que só a mulesta...!

Amanhã ligue pra mim,
Como faz, pra dar pitaco,
E me dizer bem assim:
“-Pense num poema fraco
Esse que você me fez...!”
Que aí vai ser minha vez
De eu mostrar minha manobra
E confessar a você
Que eu já entendi por quê
Deus nunca deu perna a cobra...

Que charada mais completa
Dizer assim sem alento
Que vai morrer o poeta,
“Apois” tu és um jumento...
O cão que vai ser defunto,
Pode mudar de assunto,
Mas pensando muito bem...,
Se um dia fores embora
Vai me dar na mesma hora
Vontade de ir também...

Mas vamos seguir brincando
Procuremos outro norte
Que eu num quero nem pagando
Falar em diabo de morte!!!
Eu com você conviver
Pra mim é grande o prazer,
Pois lições você me dá...
Eu já cancelei meu choro
Pode deixar de “algôro”
Minta e se lasque pra lá!!

sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

ACRÓSTICO DE NATAL - Gilberto Cardoso dos Santos


POEMA E CONVITE


Lançamento coletânea poética, Poetize/2017, 30/12, na Escola Municipal 7 de Setembro, São Francisco do Oeste-RN

ESCRITOR  

Manoel Guilherme de Freitas

Ele não precisa estar em todos os lugares fisicamente,
logo precisa, apenas, falar com o coração leve,
livre, solto,
utilizando, apenas: o "eu lírico",
sendo-o emocional, quiçá, racional,
sempre!

O poeta não precisa correr,
deve, apenas, convencer  de que a sua produção é gigante,
grande, 
provocante!

Assim, este não precisa correr,
por que, seu dia,
vai nascer,
chegar,
bem como convencer de que seus textos,
são grandes, enormes, gigantes!

A fama vem assim, 
aos poucos, lentamente,
contudo não se preocupe, 
pois quando tiver sentido, 
ela vai longe...

Dessa forma, não se deve esquecer de que a poesia
viaja a passos lentos,
sempre,
notadamente,
se esta tocar os mais profundos 
sentimentos!






QUEM DERA SER POETA (Abmael Dantas)





QUEM DERA SER POETA (Abmael Dantas) Se Existir mesmo esta tal de Reencarnação Na próxima Vida eu vou vir de coração Vou querer vir como um POETA Frio, sombrio, boêmio, mas sempre em linha reta Quero narrar o mundo, as dores, a Morte e os amores Quero sentar num banco da praça apenas pensando Voar, cantar, Sonhar, Viver amando Quero vir como um Poeta que vive intensamente Que ame a madrugada e ande livremente Os POETAS São os que realmente Aproveitam Limpos, sujos, dia, noite, e nunca se rejeitam Ora! Poetas, quem me dera vir como um Porque vocês aproveitam mais do que um ser comum.

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

Auto do Natal 2017 - Sant'Ana e São Joaquim, uma oração milagrosa

NÃO DEIXE DE ASSISTIR!

A Prefeitura Municipal de São José de Mipibu, por meio da Secretaria Municipal do Trabalho da Habitação e Assistência Social, tem a honra de convidá-los a prestigiar o "Auto do Natal 2017 - Sant'Ana e São Joaquim, uma oração milagrosa", o qual ocorrerá nos dias 22 e 23 de dezembro, às 19h30, no largo da Igreja Matriz.

Direção: Rosinaldo Luna
Texto: Cláudia Borges e Rosinaldo Luna
Apoio: Estúdio Sonorus / Renan Silva



terça-feira, 19 de dezembro de 2017

DOIS POEMAS DE KEL (Cledemilson de Carvalho)

I
No berço braquial e mamas,
Esguia e pálida criança,
Dormia aguardando o sono eterno.

Já nascera com olhos corrompidos,
Sua boca em leporinos lábios,
Seus pequeninos pés torcidos,
Não supria a ausência dos braços.

Com ânsia de vômito comia,
Não demonstrava o comportamento inato,
Do sugar dos mamilos maternos.

Desde sua data natalícia,
Não despertava nas visitas,
Gentil esperança de vida amarga.

Em terra tão árida sofrida,
Qual criança assim nascida,
Pode vencer a força de um deserto?
Cledemilson de Carvalho



II
Também carrego minhas mágoas,
Lágrimas ressecadas de carmim,
Feridas abertas, desejos reprimidos,
Não vejo, almejo sonhos encardidos.

Também carrego pesadelos,
Um sono temperado de fraqueza e azia.
Um telhado furado, uma rede rasgada.
Noite de chuva, enchente, trovoada.

Também carrego minhas lágrimas,
Escondidas por trás de um sorriso,
Do silêncio, da obediente esperança,
No cavalheiresco mimo da última dança.

Também carrego meus fantasmas,
De erros, de rancor, de medo e terror.
Vívidas vivências insignificantes,
Vagando entre pensamentos vagos, errantes.

Não que seja, ou mesmo insensível fosse,
Pelo julgar dos olhos amaldiçoados;
Entregue ao tribunal dos carniceiros,
E condenado por infantes justiceiros.

Por fim, a pena nos ombros fracos cairia,
Materializada na dor muscular intermitente,
No grito surdo estremeceria,
A carne magra de um doente.

                        Cledemilson de Carvalho


sábado, 9 de dezembro de 2017

UM POEMA QUE DESPERTA (AUTOR: VICENTE COELHO)


UM POEMA QUE DESPERTA
AUTOR: VICENTE COELHO

Tem cantador de repente
Confiante no seu grito
Pra cantar alto e bonito
Se julga em todo ambiente
Por querer entrar na frente
Só ele é quem quer cantar
Vive a desclassificar 
Os cantadores menores 
Nos ambientes maiores 
Procura se calar.

Compra logo a prestação 
Uma beca, uma viola
E o cartaz se desenrola
Na imensa região
Por que ele na canção
Tem um jeito ritmado
Por ser muito elogiado
Chama o pequeno de boi
Esquecendo que já foi
Um palhaço no passado.

Os seus primeiros repentes
Nada tinham de certeza
Ele esqueceu a fraqueza 
Dos versos inconscientes
Quando em baixos ambientes
Cantava pouco e ruim
Desgostou mais de um festim
E depois de muito elevado 
Engavetou no passado
Pra ser orgulhar no fim.

Olha vossa majestade
Você começou no A
Passou por B por H
Tornou-se essa sumidade
Hoje na humanidade
É teólogo no saber
Nada mais falta aprender 
Tem tudo em sabedoria 
Quando você não sabia
Também queria viver.

Eu sei que o vaivém
Do tempo lhe desconforta
E você vai bater a porta
De um cantador Zé Ninguém
Olha você hoje tem 
Uma vida admirada
E a mesma rapaziada 
Que lhe tem hoje por fã
Pode dizer amanhã
Que você não canta nada.

Quando a ferrugem dos anos 
Destemperar-lhe a garganta
Você taciturno canta
A dor dos seus desenganos
Seus aplausos soberanos 
Ficarão distanciados 
Quando forem sepultados 
Seus gestos involuntários
Os pequenos solitários 
São por você abraçados.

Medite que canhotinho
Foi cantador aplaudido 
José Alves tão sabido
Hoje está quase sozinho
Leia de Antônio Marinho  
Seus versos penalizados 
Diminua seus pescados
Colega fazendo assim
Julgando seu fim no fim 
Dos companheiros passados.

Hoje para os coronéis 
Fala em ciências empíricas
Canta poesias líricas 
Nas poltronas de hotéis 
Ensina aos coronéis 
As origens dos vocábulos 
As construções dos estábulos 
As fundações dos reinados 
As lágrimas dos recalcados
E os campos vastos dos pábulos.   

Esse seu dom de burguês 
Com o tempo eu sei que muda
Recorde quem foi Zé Duda
Lembra quem foi Milanês
E a lama o que foi que fez
Com grande Rogaciano 
Castro Alves baiano 
Os escombros de Claudino
A lousa de Zé Faustino 
E as proezas de Romano 

Se você por sonho visse 
Sua matéria na cova 
E de Faustino Vila Nova
Em suas cinzas dormisse  
Talvez até que caísse 
Sua besteira singela 
Sua matemática bela 
Media desta maneira
Todos na medida inteira
Ou também meia tigela.

Veja também: AOS POETAS ARROGANTES