APOESC (Associação de Poetas Escritores Simpatizantes e Colaboradores)

A APOESC (Associação de Poetas Escritores Simpatizantes e Colaboradores), criada em 03.2010 em Santa Cruz -RN, existe para congregar amantes da cultura, apologistas e produtores da arte da palavra.


domingo, 12 de agosto de 2012

PANANANA: SANTACRUZENSE, TRAVESTI, RÉU, VÍTIMA E MUNCTHU MACTHU - Nailson Costa

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“Caba sem veigonhe!”, explodia de raiva João Luca, velho morador da praça Cel. Ezequiel, quando da passagem de Pananana em sua calçada . Como um raio, Pananana saía da sinuca de Lindolfo e abaixava a calça-pijama que usava quando via João Luca (Sr. Já de idade, presepeiríssimo a ponto de autodenominar-se de Papá, gordo, às vezes ranzinza e muito prestativo ) sentado numa enorme cadeira de balanço à beira da porta aberta de sua casa a cochilar, a babar, a peidar e a arrotar alto pra que todos tivessem a certeza de quem mandava naquele pedaço. Os jipeiros-taxistas sabiam fazer a infelicidade do Papá, ou Pé-Roxo, o apelido que detestava, e ainda tinha o de Barrão, por expelir abundantemente por baixo e por cima seus mais perfumosos gases. E seus algozes não deixavam o Papá em paz, vivendo diariamente a grunhir cuchi, cuchi, cuchi em tudo quanto era lugar, inclusive no cinema Santa Rita, quando de sua entrada triunfal com aquele caríssimo e mal cheiroso sombreiro havaiano, momento em que se ouviam sinceras, grandiosas e uníssonas ovações em cuchi cuchi cuchi cuchi ao Barrão, ou melhor, Pé-Roxo, quer dizer, Sr. João Luca . Pananana não, ele verdadeiramente respeitava o velho, apenas tirava sua calça-pijama e, de maneira mui respeitosa, cumprimentava-o, com sua imensa bunda branca. Pananana era galego-branco-sarará, escandaloso, veado, travesti , cozinheiro, violento e, do alto de seus quase 2 metros de altura, vestia-se constantemente de mulher, não porque desejasse ou invejasse essa feminilidade. Ele nem a tinha e não vivia artificialmente esses tão lindos trejeitos de fêmea, simplesmente porque ele era macho. Isso mesmo, muncthu matchu! Ficava por demais óbvio que suas tão malfeitas encenações femininas, bem como seu violento comportamento, eram a sua mais notória linguagem de raiva de uma sociedade incomensuravelmente hipócrita. A galera do cacete, do pau de dar em doido da época, tipo Tõin de Toco, Miguelão, Zé da Besta Fera, Nego do Cu Cagado dentre outros acabadores de forró da época, num se metiam a besta com Pananana não! Este era, na mais pura acepção do termo, de baixar o pau mesmo! Andava constantemente com a sua machadinha antenada, não podia ver um boyzinho da alta sociète que dava em cima, e ai dele se não lhe fizesse os gostos, baixava a machadinha, o cacete, a chibata e etc e pau. E esqueci-me de dizer que Pananana era trabalhador também, além, é claro, de viver derrubando jovens árvores de boas famílias, inclusive, com sua machadinha ( melhor seria nominá-la de machadão ), obrando sempre em tocos e paus variados – o cara tinha um grande sonho: ser cozinheiro na casa duma tradicional família daqui de S. Cruz, o que fora veementemente repudiado e reprovado pelo então coronel chefe da casa. E isso se deu ainda quando ele era adolescente, e talvez tenha sido essa homofobia declarada a razão de suas constantes e violentas erupções vulcânica de pura ira . Pananana não era flor de bom cheiro, mas estava muito à frente de seu tempo. Seus altos tamancos coloridos, seus brincos argolados, seus cabelos pintados com água oxigenada, suas cabeladas rápidas e sua insistência em fazer um grande desfile gay no centro da cidade (não admitido em hipótese nenhuma pelas carolas e o pároco locais) lhe renderam muitas prisões, mas nenhuma se deu via Cabo Miguel e o soldado Andorinha. Era a Rádio Patrulha de Natal a responsável por tão perigosa diligência. Pananana vivia nômade em sua terra, desaparecia do nada e do nada surgia para tentar realizar seus dois grandes sonhos, o do deslife,- mais tarde realizado no cabaré de Maria Gorda com as quengas de lá e seus fiéis escudeiros , Chico de Cãinda, Tereza Cabeção de Japi, Núbia Lafayete e alguns outros que não me recordo, pois era eu muito criança ainda naquela época – e o sonho de cagar dentro do pote da água de beber do Bar Engole Brasa, tradicional ponto de encontro da alta sociedade santacruzense, não realizado por ter sido o Bar fechado em obediência a uma ordem policial do Delegado-Capitão da época (1972) segundo a qual um bar que serve água de merda a mais pura fidalguia santacruzense, causando-lhe grandes infecções intestinais e boguianas, não pode ter as suas portas abertas. Pananana queria apenas ter tido a honra de realizar esse outro grande sonho. Não o teve. Ele tinha um caráter irretocável. Não era hipócrita. Foi embora de S. Cruz para nunca mais voltar, simplesmente porque não admitia que os bogas limpinhos e tratados a papel higiênicos comprados nos grandes supermercados de Natal, contrariamente aos dos plebeus, tratados com papel de embrulhar pão, jornal de ontem, cartão de caixa de sapato, sabugos e folhas de carrapateira, tomassem seu lugar nas mais badaladas fofocas do Bar do Ponto, das sinucas de Lindolfo e de Chagas Farias, do Trairy Clube ou nas belas canções de Gravatá, Zé Domingos e Fabiano & Franklin. Jamais admitiria isso! E foi-se, a ponto dar uma grande foiçada no pescoço de um novo amor, em Guarabira. Depois morreu de desgosto e ficou na nossa história como sendo PANANANA: santacruzense, travesti, réu, vítima e, sobretudo, MUNTCHU MATCHU.

Obs.: este texto é um recorte do meu livro de memórias, ainda em construção, sobre figuras pitorescas e ilustres que escreveram a história de S. Cruz no espaço temporal de minhas lembranças. E, antes que me perguntem, digo que qualquer semelhança com a realidade não é pura coincidência.Nailson Costa