APOESC (Associação de Poetas Escritores Simpatizantes e Colaboradores)

A APOESC (Associação de Poetas Escritores Simpatizantes e Colaboradores), criada em 03.2010 em Santa Cruz -RN, existe para congregar amantes da cultura, apologistas e produtores da arte da palavra.


quarta-feira, 11 de julho de 2012

ENTREVISTA COM MARTA FERRARO, uma italiana apaixonada pelo Brasil e por Santa Cruz



GILBERTO: Marta, sei do importante papel que teve ao servir de intérprete para a delegação italiana que veio a Santa Cruz. Vi-a  por ocasião da apresentação do APOESC RECITANDO O SERTÃO, no teatro Candinha Bezerra. Lembro-me que fiquei encantado com a musicalidade do idioma italiano aveludado por sua voz. Não estranhe caso se depare com múltiplas indagações em uma só pergunta. Sinta-se à vontade quanto ao tamanho das respostas sem se preocupar com censuras. Gostaria que iniciasse essa entrevista falando-nos sobre sua pessoa, origens, família, profissão e formação.

MARTA: É verdade. Muitas indagações em uma só pergunta! Vai ser complicada esta entrevista. J Então, uma resposta de cada vez. Primeiro, obrigada pelo elogio ao italiano e a minha voz. Eu me lembro da noite no teatro e do show que eu e toda a comitiva italiana apreciamos tanto.
Segundo, eu não sou propriamente uma intérprete. Só estava com a comitiva como jornalista para enviar notícias aos editores de Cassia e da Úmbria, e só depois tentei facilitar a comunicação entre a comitiva da Italia e o povo de Santa Cruz, com o meu básico Português. Acho que foi uma experiência divertida e extraordinária ao mesmo tempo.
E por último, vou responder a pergunta mais difícil. Quem sou eu? Digo de uma só vez, pois não é fácil.
Minha mãe fala que eu sou tudo e o contrário de tudo. A verdade é que sou uma pessoa curiosa, apaixonada pela vida e pelo mundo. Quero conhecer, aprender, ler, explorar, viajar e muito mais. Nasci em Roma, uma cidade que amo muito, mas que agora não moro mais (pode ser que um dia eu volte), em uma família de classe média. Minha mãe foi professora e meu pai trabalhou em uma empresa da telefonia italiana, hoje ambos estão aposentados. Eu tinha um irmão, 18 meses mais velho que eu, profundamente amoroso e com muito ciúme de mim, e que faz mais ou menos dois anos, que me protege do céu, junto com Santa Rita.
Eu terminei a universidade em Roma, na faculdade de Comunicação e Marketing, depois fui morar na Irlanda por alguns meses para melhorar o meu Inglês, depois fui para o norte da Itália em Torino e, por fim, fui para Milão fazer um Master em “E-business and ICT for Managemet ” todo em Inglês e com estudantes de todo o mundo.
Acho que para o momento é bastante, não é? J
 
GILBERTO: Interessa-nos muito, Marta, saber as impressões que teve sobre nossa cidade e que coisas mais lhe chamaram a atenção.

 MARTA: Eu não consigo encontrar as palavras certas para expressar o que sinto por Santa Cruz, nossa cidade. Tudo foi ótimo. Não me lembro de uma só coisa que encontrei e que me pareceu feia. Fiquei apaixonada por S. Cruz. Mas o que encheu meu coração, mais do que qualquer outra coisa, foi o povo da cidade. Pessoas humildes, mas adoráveis, simples, volitivas, e acima de tudo, profundamente religiosas, e que sempre encontram tempo e espaço para se ajoelharem e pedir bênçãos. Que maravilha!!
O momento mais lindo foi a entrada da comitiva italiana pela primera vez na igreja matriz. Todos os santa-cruzenses com uma rosa na mão. Foi um momento de grande amor e fé. É algo que ainda não esqueci e que talvez nunca vou esquecer. Fico muito feliz de ter a sorte de poder escrever uma página da historia da cidade de Santa Cruz juntamente com a sua gente.
Depois, lembro de uma mulher, pequena, vestida de preto, que me falou: “Você é italiana?” e eu lhe respondi: “Sim”. Logo depois ela disse: “é verdade que em Cassia há o corpo de Santa Rita?” Não consigo explicar a minha emoção em entender, pela primeira vez na vida, que tive o grande privilégio de ver Santa Rita sem qualquer mérito.
 
GILBERTO: Percebo que Iranilson Silva, Terezinha, e os demais da delegação voltaram da Itália bastante impressionados com o que viram. Até brinquei com Alessandro dizendo que ele não mais seria o mesmo. O que significou para você reencontrá-los na terra natal de Santa Rita?

MARTA: Acho que ninguém é o mesmo do dia anterior. Encontrar pessoas, falar palavras, ler livros, sentir uma fragrância são experiências que mudam um pedaço de nós mesmos, às vezes imperceptivelmente. Esta foi uma forte experiência e uma mudança profunda, eu acho, que deve ser ainda mais tangível.
Encontrar alguns e reencontrar outros foi muito emocionante. De verdade, eu fui ao aeroporto para receber a comitiva e depois fiquei todos os dias com eles. Eu era seu guia, mas também o seu “pesadelo”. Organizava sua agenda diária e suas visitas todas as vezes. Isso porque queria profundamente que a comitiva pudesse ver tudo que havia para ver e depois contar, de maneira especial, para aqueles que ficaram em Santa Cruz.

GILBERTO: Samuel Johnson escreveu que um homem que nunca esteve na Itália está sempre consciente de uma inferioridade, por não ter visto o que se espera que um homem veja ("A man who has not been in Italy, is always conscious of an inferiority, from his not having seen what it is expected a man should see."): Concorda com isso?

 A Itália é um país maravilhoso, embora seja, em alguns momentos, monótona. Em particular, atualmente está experimentando um momento muito difícil. E, por isso, agora não está atendendo as minhas expectativas e as de pessoas jovens, como eu.
Estou lisonjeada que tenha dito isto de meu país, mas tenho certeza que o mundo tem também lugares e cidades maravilhosas, o Brasil, por exemplo, que eu amo muito.
                                            
GILBERTO: O que diferencia italianos de brasileiros quanto ao modo de ser? Há muito ou pouco em comum?

 MARTA: Os brasileiros são mais agradáveis, acolhedores, simples no relacionamento com os outros. Os italianos são muito hospitaleiros, mas vivem em um frenesi, em uma vida muito rápida, esquecendo-se de dar um sorriso para alguém que passa. Em Santa Cruz vi a humanidade entre as pessoas da qual eu, um pouco, sinto falta.

GILBERTO: Em relação ao modo como os brasileiros manifestam sua fé, notou grandes diferenças e coisas objetáveis? Lembro-me que no início de seu pontificado Bento XVI manifestou o desejo de que a liturgia católica seguisse uma linha mais tradicional. Que pensa sobre isso?

MARTA: Sim, vi algumas diferenças. As celebrações brasileiras são mais animadas, há mais músicas, enquanto na Itália são mais sérias. As pessoas em Santa Cruz ficam duas horas na igreja, na Itália depois de meia hora começam a olhar no relógio. Não acho que a forma da celebração seja a coisa mais importante, mas acredito que ela deve ter em conta a cultura local para trazer os fiéis, e não desviá-los.
 
GILBERTO: Fale-nos de sua fé e devoção a Santa Rita. Houve um momento de iluminação que foi decisivo em sua conduta ou sua fé resulta da educação familiar?

 MARTA: Santa Rita foi uma linda surpresa na minha vida. A minha família era católica, mas não muito. Depois ela se aproximou da igreja um pouco mais, mas tinha uma forte devoção a outros santos: Padre Pio e Santo Antônio.
Um dia minha mãe trouxe para casa um vídeo com o filme de Santa Rita. Eu não parecia muito feliz com o presente e coloquei-o de lado. Não conhecia nada dela. Naquela época eu estava morando sozinha em Roma, e em uma tarde, muitas semanas depois, e sem ter nada melhor para fazer, assisti esse filme.
Chorei de emoção. Como eu sou enamorada pela ideia do amor, me apaixonei antes de tudo pelo romance de Santa Rita, com este homem difícil, mas ele a amava e então o amor a Deus os uniu. Surgiu em mim o desejo de ir para Cascia, mas não foi imediatamente concretizado, só depois de um longo tempo, talvez um ano. E agora se tornou a coisa mais importante da minha vida. Tenho que agradecer a minha mãe também por isso.
 
GILBERTO: A igreja, a julgar pelas reflexões do atual papa, vive uma crise de fé e de identidade, em especial nos países europeus. A que atribui tal crise? Você percebe isto também na Itália?

MARTA: A Europa e a Itália também vivem um momento de profunda crise. Acho que a crise é transversal, econômica, social, cultural.
A crise econômica de que falam tanto é apenas a ponta delicada do iceberg. O mais importante é a crise de valores. As famílias se dividem cada vez mais frequentemente, os jovens não podem pensar no futuro com confiança. Precisamos repensar os valores, antigos ou novos, que estão para restaurar o equilíbrio que o continente perdeu. Talvez a riqueza nos roubou a alma e nos deixou mais pobres do que nunca.

GILBERTO: Aproximadamente quantos corpos santos há preservados nas diversas catedrais de Roma e que papel eles têm em sua fé? Descarta você todas as explicações naturais que os de mentalidade científica apresentam para tal fenômeno? Eu li em algum lugar  que apenas as mãos e a face de Santa Rita estariam em perfeito estado, e que o resto do corpo teria sido coberto com cera. Isto procede?

MARTA: Eu não sei onde você leu essa informação, mas eu posso refutar com certeza. O corpo todo de Santa Rita é incorrupto. Eu, pessoalmente, vi 4 vezes a poucos centímetros, sempre com pessoas do Brasil. Os Padres da Basílica, que conheço pessoalmente, e que participaram da abertura da urna, descobriram que exalava um agradável aroma de rosas. Isso também pode ser, com certeza, um milagre.
Além de tudo, eu não acho que é importante se foram mantidas as mãos, pés ou apenas o rosto. Eu sou apaixonada por Santa Rita pelo que ela representa para mim, para minha família. Se não houvesse corpo não mudaria nada, ainda a estaria amando. Claro, eu sou mais feliz quando chego em Cássia e corro para ela e ela está lá realmente, e eu posso vê-la a poucos metros, como quando alguém faz uma visita a um amiga.
Não sei o número exato dos corpos que são preservados, mas eu acho que é mais importante pensar sobre a mensagem que deixaram.
                                                      
GILBERTO: Das provas miraculosas que você conhece ou vivenciou, quais as que mais a impressionam?

MARTA: Conheço muitas histórias milagrosas, alguns flagrantes. Pessoas curadas de doenças incuráveis​​que são os milagres mais impressionantes. Eu mesma estou estudando os Diários de uma freira de clausura que tinha um diálogo constante com o Senhor. Mas eu amo pensar em todos os milagres que ainda não aconteceram, penso nas palavras de Nossa Senhora Milagrosa, em Paris, na Rue du Bac, quando ela disse que iria conceder muitas graças e que ninguém lembra. Acredito que cada um de nós é um milagre, o milagre da conversão incompleta que, lentamente, acontece através do que fazemos em nossa vida com a ajuda de Deus e nossos santos protetores.
GILBERTO: Dê-nos uma ideia do número de pessoas que visitam a cidade de Cascia e do impacto que ela tem para a localidade. Você acha que o povo italiano dá o devido valor aos seus lugares santos?

MARTA: Cássia não é Santa Cruz. Lembro que as pessoas falam que no dia da festa de 22 de Maio, cerca de 70.000 peregrinos estão reunidos em Santa Cruz. Em Cássia isso é uma coisa impensável. A cidade é muito pequena e não pode suportar esse número de pessoas. Mas o fluxo de peregrinos ainda continua. Ele funciona suficientemente bem, mas certamente pode melhorar. Embora estas coisas não sejam só números, mas almas.
 
GILBERTO: Em que partes do mundo já esteve? A que lugares da Itália e do mundo daria destaque?

MARTA: Eu posso dizer que sei o suficiente sobre a Europa. Eu vivi por um longo período na Irlanda e viajei por toda a Europa: França, Espanha, Portugal, Bélgica, Suíça, Luxemburgo e mais. A primeira vez que saí da Europa foi para fazer a viagem para o Brasil, em Santa Cruz.
Eu gostaria de conhecer melhor o Brasil que é tão grande e, em seguida, meu grande desejo é visitar Nova Iorque e o México. Quem sabe um dia. Eu sempre estou de viagem.
 
GILBERTO: Alguns biógrafos de Santa Rita consideram lendários alguns relatos de sua vida. Cito como exemplo Juan Arias. Se concordar, diga-nos que “fatos” da vida da santa acha que se enquadrariam nesta categoria.

MARTA: Eu tenho minhas convicções resultantes de estudos, leituras, encontros com estudiosos e filósofos, e animadas por uma fé profunda. Mesmo que tudo seja uma mentira, é uma mensagem positiva, bonita, construtora de paz, perdão, sacrifício, amor, algo que o mundo tem uma necessidade imensa. Eu acho que isso já é magicamente suficiente.

GILBERTO: Fale-nos de poetas, livros, músicas, filmes e de artistas italianos que aprecia.

MARTA: É muito difícil falar em poucas linhas sobre a tradição italiana. Eu sou uma leitora ávida, eu amo diferentes autores, e nem todos são italianos, como Guillaume Musso, por exemplo, que é francês. Eu gostaria de um dia voltar a Santa Cruz para organizar um show ítalo-brasileiro, a fim de mostrar à cidade de Santa Cruz a cultura de meu país. Eu vou falar com meu amigo Iranilson.

GILBERTO: Planeja voltar ao Brasil e a Santa Cruz? Quando e por quê? 

MARTA: Assumindo que uma parte do meu coração permaneceu em Santa Cruz e especificamente sobre o Alto de Santa Rita, espero voltar em breve. Meu maior desejo seria voltar para a festa de Santa Rita, em maio, e ficar até o festival das quadrilhas e, em seguida, uma viagem pelo Brasil em janeiro. E depois tem também a necessidade da apresentação do livro que estou escrevendo a 4 mãos com o meu querido amigo Adriano Nóbrega. Eu não sei. No Brasil, eu aprendi que nessas circunstâncias dizemos “se Deus quiser”. Estas são minhas intenções.

GILBERTO: Diga ao povo brasileiro suas palavras finais e deixe-nos algum pensamento ou reflexão.

MARTA: Eu quero lhe agradecer por este espaço que você me deu para falar novamente com o povo de Santa Cruz, que aceitou o grupo italiano com um amor sem igual. Gostaria de agradecer a todas as autoridades da cidade e os seus cidadãos por me dar o título de cidadã. Um título que nunca na vida eu sonhei receber. Liga-me a esta cidade um grande amor por Santa Rita e isso é suficiente para dizer que é um sentimento eterno.
Eu não quero acrescentar nada, mas um pouco de reflexão. Eu gostaria de poder voltar à Santa Cruz e encontrar a mesma fé fervorosa, mesmo que a cidade gradualmente mude e melhore em termos de desenvolvimento económico e turístico, mas que continue humildemente ajoelhando-se diante do Santíssimo Sacramento.
Este é o meu maior desejo para a cidade. Riqueza passa, os valores permanecem. Boa sorte para a nossa cidade de Santa Cruz.