APOESC (Associação de Poetas Escritores Simpatizantes e Colaboradores)

A APOESC (Associação de Poetas Escritores Simpatizantes e Colaboradores), criada em 03.2010 em Santa Cruz -RN, existe para congregar amantes da cultura, apologistas e produtores da arte da palavra.


domingo, 6 de novembro de 2011

ENTREVISTA COM CLEUDIA BEZERRA

Cleudia

Cleudia Bezerra, que entrevistamos no programa APOESC EM
CANTO E VERSO, é uma pessoa simples, profundamente ilustrada
e demonstra, por palavras e ações, ter grande amor à cultura
popular. É a diretora e fundadora do museu Auta Bezerra Pinheiro,
que dista 8 km de Santa Cruz. Certamente os leitores terão
contato, nesta entrevista, com uma grande apologista da cultura.

GILBERTO: Cleudia, comece externando-nos suas impressões sobre
o show APOESC Recitando o Sertão, ao qual a senhora esteve
presente. Em seguida, fale sobre sua pessoa, família, área de
formação e profissão.

CLEUDIA: O show APOESC Recitando o Sertão foi maravilhoso,
de ótimo nível cultural. Só pessoas, como vocês, com tanta
sensibilidade poética, são capazes de tal realização. Passaram
para o auditório, através dos poemas, explicações simples sobre
um tema que é, ao mesmo tempo, específico, amplo e complexo:
recitar o sertão. Considero, como máximas diretivas do show,
lindos poemas, boa organização e rigor na seleção dos poetas. A
partir daquele show, a cultura de Santa Cruz voltou a caminhar em
disparada: voando ágil, veloz e precisa. Estão de parabéns pela
valorização da cultura local com mais sagacidade e penetração do
que qualquer acadêmico poderia esperar fazer.
Resumindo o meu currículum, sou graduada em Geografia, com
especialização em Organização de Espaço e mestrado em Ciências
Sociais, pela UFRN, da qual sou professora aposentada. Integro a
Academia Feminina de Letras do RN. Tenho pesquisas e trabalhos
publicados em revistas e anais de eventos científicos.
Descendo da família Pinheiro Borges, da Fazenda Queimadas de
Lagoa de Velhos (terra do poeta Fabião) e dos Bezerra e Cavalcanti,
de Santa Cruz. Considero-me uma pessoa comum, preocupada
e envolvida com a preservação da memória histórica, com a
pesquisa, com a cultura popular e com a educação. Três pontos
marcam profundamente minha alma: a família, de um modo
geral; o exercício do magistério em todos os níveis de ensino e,
finalmente, a paisagem da Fazenda Boa Hora, onde vivi parte da
minha infância, adolescência e a fase adulta.
Sou filha de Severino Bezerra Cavalcanti e Auta Pinheiro Bezerra,
pessoas que devotaram todas suas vidas ao desenvolvimento da
agricultura, no cenário dramático da seca nordestina, mas que
superaram todos os obstáculos.

GILBERTO: Que motivações a impulsionaram a investir recursos e
tempo na criação do museu que leva o nome de sua mãe?

CLEUDIA: A motivação principal para criação do Museu Auta
Pinheiro Bezerra foi preservar a memória dos meus pais que
tanto trabalharam para educar os seus filhos e para que as novas
gerações conheçam quem foi Dona Auta. Ela foi uma mulher que,
com pouca instrução, escreveu o livro “O Tempo como Testemunha”
e deixou uma lição de vida, de amor e de realizações. Ela deixou-
nos também um exemplo de respeito, ética e valores. Inclusive,
foi essa mulher fantástica que deu os primeiros passos para que o

Cruzeiro de Nossa Senhora do Carmo fosse transformado no atual
Santuário de Santa Rita de Cássia.

GILBERTO: Quantas vezes esteve na Europa e por quais países
andou? Que museus e lugares históricos visitou e que impressões
eles lhe causaram? O que mais lhe chamou a atenção nesses
passeios? Há algo que devamos aprender com os habitantes dos
países visitados?

CLEUDIA: Visitei, na Europa, os seguintes países: Portugal,
Espanha, França, Inglaterra, Bélgica, Alemanha e Itália.
Gilberto, como você sabe, a Europa é o berço da cultura e da
civilização ocidental. Se fosse relatar tudo que vi na viagem, esta
entrevista ficaria muito longa. Vou tentar fazer um resumo. O
turismo na Europa é, principalmente, de cunho histórico, cultural
e religioso. Passei vinte e cinco dias “respirando” cultura nos
palácios de diversas épocas e reinados; nos museus com acervo de
esculturas e pinturas dos mais famosos artistas; nos teatros com
suas óperas fantásticas e orquestras executando músicas clássicas;
nas praças com monumentos históricos e também personagens
de livros clássicos; nas universidades onde estudaram grandes
cientistas e escritores e também nas bibliotecas e livrarias que,
apesar de não terem uma estrutura moderna, despertam a atenção
dos visitantes pelos livros que lá se encontram.
Os costumes e tradições variam de país para país. Mas o que é
comum é o nível cultural do povo. Qualquer pessoa fala três ou
quatro idiomas; conhece em profundidade a história do seu país e
a história da arte; valoriza e preserva a história do seu povo e do
país através dos museus, palácios e mosteiros, com muita seriedade
e sabedoria. Não há analfabetos, e toda a população tem o direito
de frequentar a escola nos níveis básicos de ensino. Chama atenção
de qualquer visitante o fato de as pessoas de todas as idades,
sentadas, à tardinha, na calçada das casas de chá e de café e dos
bares conversando sobre pintores, escultores, poetas, escritores e
músicos famosos. É um povo que mantém as suas tradições, mas
também usa as tecnologias modernas da globalização.
Vale destacar os parques, com um gramado impecável, onde
os habitantes da cidade ficam sentados na grama lendo livros,
pintando, escrevendo, recitando poesias e ouvindo músicas. Isso
sem falar nas praças onde se assiste, diariamente, a todas as
manifestações culturais preferidas.
Fiquei encantada com o alto nível cultural das pessoas desse mundo
maravilhoso... Pretendo voltar para “respirar” o saber e tomar
outro “banho” de cultura...

GILBERTO: Num país em que é popular o dito "Quem vive de
passado é museu", que palavras você diria sobre a importância de
se preservarem elementos do passado e de se fomentar a cultura?

CLEUDIA: Não concordo com esse dito popular. Só as pessoas sem
a mínima noção de cultura podem aceitar tal afirmativa. O conceito
de museu na atualidade é bem diferente. Preservar elementos
do passado é muito importante porque reúne expressões de uma

ou várias épocas. São peças representativas de uma realidade
histórica e sociológica. Ou seja, o museu tem por finalidade
transmitir, através do seu acervo, fatos ligado ao contexto histórico
e sociocultural da comunidade a que pertence.
Fomentar a cultura é importante porque, através da cultura, o
homem identifica, mostra e constrói um mundo diferente, com o
maravilhoso saber que está dentro de si. Nesse sentido, com a
cultura, o homem pode resgatar a sua grandeza oculta.

GILBERTO: Que deve esperar quem pretende visitar o seu museu?
O que há de interessante nesse espaço? Há algo que pretenda
acrescentar? Diga-nos, também, como chegar até ele.

CLEUDIA: Quem pretende visitar o museu deve ir motivado para
assimilar conhecimentos sobre história, economia, cultura popular,
ecologia, geografia, sociologia, antropologia e muitas informações
sobre a história e a cultura de Santa Cruz e da Região do Trairi.
São mais de 1500 peças distribuídas nos cinco espaços com suas
subdivisões temáticas que integram o Complexo Cultural Auta
Pinheiro Bezerra.
Para ir ao museu, você passa pela rua principal do Paraíso e, ao
chegar à subestação da CHESF, entra na estrada de barro, à direita,
onde, em todo percurso, existem placas indicativas – MUSEU. É
aberto aos sábados e domingos. Escolas e universidades devem
agendar a visita.

GILBERTO: Num gesto de desprendimento admirável, a senhora
pretende transformar um dos prédios mais centrais de Santa Cruz
em outro espaço museológico, voltado para a história da cidade.
Que passos já foram dados nesse sentido, e o que a população e as
autoridades podem fazer para que tal sonho se concretize?

CLEUDIA: A transformação da casa centenária em que morou Dona
Auta Pinheiro Bezerra no MUSEU DA CIDADE é um desejo que
ela tinha de que o seu “castelo contasse a história de Boa Hora
e de Santa Cruz” e de que era para pertencer à família, nunca
ser vendida e conservada sempre limpa. Atualmente é não só
um sonho meu, enquanto filha, mas também uma exigência de
todos que fazem cultura em Santa Cruz e da sociedade em geral,
porque ele vai ser o único museu urbano do Trairi a preservar a
história e a cultura da região. O MUSEU DA CIDADE vai exercer
um papel importante como instituição cultural de preservação da
memória das pessoas que contribuíram para o desenvolvimento e
crescimento de Santa Cruz. O objetivo é fazer um museu diferente,
moderno, dinâmico onde vão ficar em exposição fotos e peças
antigas das famílias para que possa ser contada a história de todas
as pessoas que se destacaram pelo trabalho efetuado na cidade e
no município. Também será um espaço para realização de eventos
culturais, cursos e exposições. Será um objeto museológico com uso
variado e dinâmico.
Lamento ter de informar que, para organizar o MUSEU DA

CIDADE, é necessário que Caline, neta de Dona Auta, residente
na casa, concorde em fazer o museu ou alugar a parte da casa
que pertence a ela. Ela foi morar por um ano, e já se passaram
sete anos e não chegamos ainda a um acordo sobre a casa ser
transformada em museu. Atualmente, a metade da casa me
pertence, e a outra pertence a ela. Espero que a justiça decida o
destino de uma casa que luta para ser museu, para ser preservada
a fim de prestar um serviço cultural à população. Essa casa
representa um projeto coletivo da sociedade que deve sobrepor-
se aos interesses individuais. A minha parte será destinada para
edificar uma “pilastra” da cultura (Museu) onde a tradição e os
costumes do povo do Trairi possam ser preservados. Não quero
que um patrimônio histórico como aquela casa, que ainda resiste à
especulação imobiliária, seja transformada em comércio, hotel ou
pousada, o que seria um crime contra a história. A casa ainda é o
maior patrimônio histórico que temos no centro da cidade de Santa
Cruz, já que conserva a sua estrutura original.
Faço um apelo para que as pessoas de Santa Cruz tentem
sensibilizar Caline a compreender o valor histórico do MUSEU DA
CIDADE onde permanecerá para sempre a memória dos nossos
pais, avós, irmãos e primos, que também são os seus parentes.
É de grande importância destacar que o Sr. DUDÉ, que tem um
grande acervo de peças antigas e fotografias, vai colocar todas em
exposição no MUSEU DA CIDADE. É uma pessoa culta, conhece
profundamente a história de Santa Cruz e sabe o valor de um
museu para preservar os costumes e a tradição. Esse acervo será
um marco para se conhecer melhor a nossa história. Vale salientar
que as vestes litúrgicas de Monsenhor Emerson e Monsenhor
Raimundo também vão fazer parte desse rico acervo museológico
do Trairi.
Tenho ainda um propósito maior: incentivar a criação do projeto
Veredas da Cultura no qual será definido um roteiro histórico
onde estão situados prédios que constituem um verdadeiro
patrimônio histórico na área urbana de Santa Cruz. Assim, será
criada uma área de Preservação Histórica evitando que as reformas
e reestruturações urbanas troquem o Antigo pelo Moderno, que é
a tendência dos novos tempos. As Veredas da Cultura já estão
formadas, faltando apenas visualizarem-se enquanto conjunto ou
canal arquitetônico da história e da cultura de nossa cidade. O
roteiro desse conjunto histórico passa pela Secretaria da Educação
do Município, o Fórum, o Teatro, a Escola Pinguinho de Gente, o
Largo da Praça com a Estátua do Cel. Ezequiel Mergelino Ferreira
de Souza, o Museu da Cidade, a Casa da Biblioteca Municipal, a
Câmara Municipal, a Casa de Edivaldo Umbelino, que foi da família
de Theodorico, a Escola Quintino Bocaiúva, a casa de seu Augusto,
pai de Milton, e o Instituto Cônego Monte. São edificações que, no
seu conjunto, vão dar uma identidade histórica e serão preservadas
pela sociedade e pelos poderes públicos constituídos. É necessário
oficializar-se, urgentemente, o caminho do circuito histórico
intitulado Veredas da Cultura, para Santa Cruz ter uma identidade
histórica.

GILBERTO: Como tem sido sua parceria com a Casa de Cultura
Palácio do Inharé e com os artistas locais? Que eventos planeja
realizar?

CLEUDIA: Considero uma parceria perfeita. Trabalhando em
conjunto com essas pessoas inteligentes e que valorizam a cultura,
podemos caminhar com maior velocidade, ir mais longe. Já
realizamos o I Luau Poético e estamos planejando outras atividades
culturais. Aguardem!

GILBERTO: Fale-nos de seus escritos e dos livros que pretende
publicar. Já há prazos estabelecidos para o lançamento de algum
deles?

CLEUDIA: Escrevi os livros: Espaços Criados e Estabelecidos;
Veredas da Miséria: o percurso de moradia dos favelados de
Natal; Apodi: Um Olhar em sua Diversidade. Estou terminando
o livro sobre a família Pinheiro Borges em parceria com Haroldo
Pinheiro e também o livro sobre o Alto de Santa Rita de Cássia.
Pretendo ainda escrever sobre Santa Cruz, destacando os aspectos
socioculturais do município. Não tenho ainda prazos estabelecidos
para lançamento.

GILBERTO: Que escritos ou escritores foram importantes em sua
formação? Cite algum poema, livro ou pensamento que julga digno
de reflexão.

CLEUDIA: Escritores importantes para minha formação acadêmica
foram: Milton Santos, Manuel Correia de Andrade, David Harvey,
Manoel Castells. Livros que merecem ser lidos: A Sociedade Pós-
Industrial, de Domenico de Masi e Cultura e Democracia, de
Marilena Chauí.
Deixo para reflexão o seguinte pensamento: “A Vida é a arte de
desenhar sem borracha” (J. Christian).

GILBERTO: Além do já exposto, que outros sonhos acalenta para
sua própria vida e para a sociedade?

CLEUDIA: Tenho como sonhos: ainda ter tempo para ler todos os
livros que gostaria de ler; escrever os livros que tenho planejado;
que meus netos e bisnetos venham trabalhar pela cultura e pela
educação de Santa Cruz; e o último, o maior sonho, que o Museu
da Cidade seja uma realidade e contribua para o desenvolvimento
cultural e a preservação da história de Santa Cruz. Por fim, almejo
transmitir minhas experiências acadêmicas para os estudantes e a
população em geral.

GILBERTO: Há algo que não foi perguntado e sobre o qual gostaria
de discorrer no final desta entrevista?

CLEUDIA: Neste final, quero lembrar a todos os santa-cruzenses
que um povo sem história, sem memória é um povo sem passado,
sem presente e sem futuro, predestinado a ter pouca expressão na
história do município e do Estado do Rio Grande do Norte. Daí, a
importância da criação do Museu da Cidade.

GILBERTO: Dirija aos leitores suas palavras finais.

CLEUDIA: Por último, convido todos os leitores para visitar o Museu
Auta Pinheiro Bezerra e lhes deixo um provérbio de sabedoria
árabe, que reza assim:
“As nossas obras ensinam melhor que nossas palavras”.
Você é parte importante da história atual. Assim sendo, vamos
juntos organizar o Museu da Cidade.

As peças doadas para compor o acervo museológico do Museu da
Cidade estão sendo entregues na Casa de Cultura e na Farmácia
Tradição Rocha.

Gilberto, o roteiro da sua entrevista é muito bom. Consta de
perguntas importantes e inteligentes.
Continuaremos em outra oportunidade.
Meus agradecimentos,
Cleudia Bezerra Pacheco