APOESC (Associação de Poetas Escritores Simpatizantes e Colaboradores)

A APOESC (Associação de Poetas Escritores Simpatizantes e Colaboradores), criada em 03.2010 em Santa Cruz -RN, existe para congregar amantes da cultura, apologistas e produtores da arte da palavra.


quinta-feira, 9 de junho de 2011

FILOSOFIA DA JUSTIÇA. - Marcelo



FILOSOFIA DA JUSTIÇA.

Aquela era mais uma manhã de sol, cujos primeiros raios dissipavam mansamente a bruma matinal. A abelha bateu suas asas e seguiu seu misterioso instinto em busca do saboroso néctar. As flores, sensíveis por natureza, começavam a se abrir aos leves toques da luz solar.

Seria apenas mais um voo se não fosse aquela teia intransponível. A aranha trabalhara astutamente durante a noite e ao amanhecer a armadilha estava pronta.

A abelha ainda tentava se desvencilhar inutilmente, quando percebeu aquele bicho horrendo a se aproximar. De perto, achou a aranha ainda mais feia: oito patas enormes, oito olhos...

À abelha só restava uma tentativa de saída: o argumento.

“Senhora aranha, por que faz isto comigo? Deveria fazer como eu e se alimentar do néctar das flores; ou como o gafanhoto, de folhas frescas.”

A aranha, que nunca havia parado para pensar porque precisava matar outros bichos para viver, respondeu tentando simplificar a discussão: “Eu não gosto de flores, nem de folhas.”

“Dona aranha, mas isso é injusto. Você tem oito patas longas e fortes, sabe construir uma teia resistente e pegajosa e ainda carrega consigo um veneno mortal. Eu, ao contrário, sou pequena e indefesa diante de suas habilidades e dotes descomunais.”

A aranha parou, pensou, pensou, pensou e se defendeu:

“Acho que você tem razão. É muito injusto eu precisar te matar para garantir minha vida. Outro dia matei e comi um pobre grilo que andava por aqui cantando e alegrando a floresta. Senti-me mal, confesso, ele não fizera nada contra mim.”

Com um pouco de esperança, a abelha arrematou:

“Pois bem, tampouco eu te fiz mal algum.”

Já quase sem argumento, mas com o estômago vazio, a aranha desabafou:

“Eu não escolhi precisar da sua vida para viver, já nasci assim. Até tenho piedade de você, mas não tenho escolha, vou precisar te matar para garantir a minha sobrevivência. Ademais, já vi pobres aranhas serem devoradas por pássaros insensíveis. A injustiça parece ser a lei da vida.”

“Antes de te matar, porém, quero te fazer uma pergunta: quem te enganou dizendo que a vida é justa?”

Sem esperar a resposta, a aranha injetou seu veneno mortal na abelha. Sua vida estava, por um momento, garantida.


Marcelo Pinheiro