segunda-feira, 4 de janeiro de 2021

TUDO É NOVO PARA O NOVO - Heraldo Lins

 




TUDO É NOVO PARA O NOVO

 

 

Nasci ontem. Encontrei neste novo hábitat gigantes ao meu redor. Olhei para eles... eles olharam para mim. Uma das gigantes me fez chorar. Percebi logo que seria assassinado com o passar do tempo. Fiz rapidamente os cálculos: no primeiro minuto um tapa na bunda. Se as agressões se intensificassem em progressão aritmética estaria eu esfaqueado antes de dez minutos. A sorte é que meu destino foi mudado. Jogaram-me de encontro a uma montanha onde consegui sugar um líquido gostoso. Fiquei fã daquela gigante. Quando uma montanha estava quase secando, transferiam-me para outra. Fiquei confortável.

 

Um outro gigante me pegou e quase estoura meus ouvidos com um amplificador gritando: papai está aqui. Papai está aqui. Eu já ouvi. Dá para parar de repetir. Fiquei atordoado com tantas palavras sem nexo, tipo: é a cara do pai! Não, é do avô! O nariz é do tio. Eu parecia com muita gente, menos comigo mesmo.

 

De repente um relâmpago quase me cega. Mais outro e mais vários. Fechei os olhos. Ouvi mais uma série de estrondos: vamos colocar essa foto no face. Ficou boa.  Eu não sabia o que havia ficado boa, só sei que eu fiquei mal. Saí de mão em mão durante um bom tempo. Já estava estressado. Chorei.

 

Abandonaram-me em um local cheio de lençóis. Aprendi que o choro era minha arma. Bastava abrir o berreiro que a situação mudava. Fui aprendendo rápido. Deu uma vontade na barriga de jogar algo fora. Para não ficar molhado sem que ninguém percebesse, chorei novamente. Quando a gigante da montanha me levantou, chiringuei na cara dela só por sacanagem.

 

Com uma hora depois de ter chegado, aprendi que cadeira é uma coisa que faz os gigantes se curvarem sobre elas. De costas. Ficam um bom tempo lá. Não descobri ainda o que fazem naquela posição. Mas acredito que é para diminuírem de tamanho. São muito desnivelados. Quando utilizam a cadeira ficam nivelados. Acho que é para isso.

 

Senti novamente, depois de um certo tempo, um desconforto. Escutei alguém falar. É fome. Ah! Então é o nome disso, pensei. Quando me dei conta estava com as montanhas novamente na cara. Escutei o gigante que gritava “papai está aqui” dizendo. Ele adora peito. Fiquei procurando quem era o “ele”, que o gritador tanto falava. Descobri que o “ele” era eu, e que peito era o nome daquelas montanhas na minha boca. Que mundo doido esses dos gigantes.

 

Trouxeram uns gigantinhos menores. Um deles bateu em mim. Disseram:  é ciúme! Pensei: quando eu crescer vou descontar esse tapa. Esse filho de montanha não sabe com quem está mexendo. Bota ele para dormir. Já havia aprendido que ele era eu, mas dormir nem sabia do que se tratava. Fui de volta para os lençóis. Fiquei atento. Qualquer descuido poderia levar tapas.

 

Um rato. Soube depois o nome daquilo. Vinha em minha direção. Era um monstro menor do que os gigantes, mas parecia que queria também me dar tapas, acho. Não esperei. Usei minha arma secreta. A gigante da montanha deu tapas no rato. Fiquei salvo, por enquanto. Na penumbra, escutei a gigante roncar. Vieram outras gigantes e me levaram. Depois de um dia raptado aprendi vários nomes: polícia, bandido, tiroteio, refém, resgate, salvo... outros sons muito repetidos é “Papai te ama”... estes eu não aguento mais ouvi-los.    

 


Heraldo Lins Marinho Dantas (arte-educador)

Santa Cruz/RN, 31/12/2020   12:53  

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