APOESC (Associação de Poetas Escritores Simpatizantes e Colaboradores)

A APOESC (Associação de Poetas Escritores Simpatizantes e Colaboradores), criada em 03.2010 em Santa Cruz -RN, existe para congregar amantes da cultura, apologistas e produtores da arte da palavra.


quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

A chuva floriu meu deserto coração - Cecília Nascimento


A chuva floriu meu deserto coração

Amanheço o dia com pouco ar nos pulmões. Na escolha da roupa para ir à farmácia comprar o que chamo de meu pulmão ambulante deparo-me com uma diversidade de camisetas pretas. Apesar do meu deserto estado de espírito, opto pelo azul com bege; uma tentativa de colorir de vida meus dias sombrios.
No caminho, uma parada no Popular para fortalecer a carcaça. Na fila, a vida já me sorri com os lindos olhos de uma criancinha tão meiga, que não cessa de me chamar de titia e enche de ternura meu dia. Quem é? Não sei. Algum anjo enviado do céu para alegrar almas contritas talvez.
Na saída do almoço, uma chuvinha tímida cai no solo santa-cruzense. E eu, incrédula, arrisco-me a sair naquela garoa porque a farmácia poderia fechar caso eu esperasse, e meus pulmões certamente não esperariam para me surpreenderem sem medicação. Foi assim que a surpresa enxurrou meu dia. A cada passo, a chuva engrossava; o que se via nas paradas do centro da cidade eram olhos esbugalhados, incrédulos talvez, como eu, de verem o que estavam a presenciar, a se deliciar, a se encantar. Nossa terrinha, tão quente e assolada pela seca há tanto tanto tempo, finalmente recebeu a visita fortuita da chuvinha de verão.
Passo na farmácia, compro a bombinha e arrisco-me novamente na chuva, como o brotinho da crônica do Paulo Mendes Campos, apesar de que meus recém completos 32 anos me indiquem que não tenho mais idade para isso. Sim, a despeito de tudo isso e da blusa bege que certamente transpareceria na chuva, saio pelas calçadas como quem ganhou na loteria. No entanto, é uma espécie de sorte diferente. É a sorte de estar viva para poder desfrutar desse momento sempre célebre, quando a chuva nos dá o ar da sua graça. É a sorte de conseguir enxergar em meus conterrâneos aqueles mesmos severinos presentes em outras crônicas, em outros carnavais, mas que preservam o mesmo olhar contemplativo de quem não perdeu o dom de se encantar com a chuva, com a natureza, com Deus.
Meus ouvidos andam aguçados aos rumores que se fazem pelo caminho de volta ao meu Paraíso. Uns dizem: “Foi Deus que se lembrou de nós e mandou essa chuva”. Outros, com um espirito imprecatório, relembram o dilúvio e aguardam acuados dentro das lojas da cidade, comentando baixinho que pode ser finalmente o juízo de Deus sobre nós. Alguns ainda esquecem de observar o espetáculo da chuva e acham mais interessante notar a transparência da roupa alheia ou a ignorar o fato de que, com tantos pontos de parada, algumas pessoas ainda insistem em continuar sua trajetória debaixo de chuva. As mulheres, como sempre, preocupadas com suas chapinhas, me encaram como um ar de reprovação e às vezes zombaria. Eu a tudo observo e sigo meu caminho sorrindo, pensando em formato de crônica como digo a alguns amigos.
Os trovões, por sua vez, deram o tom da sua graça. E por mais que não estejamos acostumados e de certo modo nos assombremos quando eles apareçam, sempre nos regozijamos, pois é como se eles viessem como uma aliança, que marca o compromisso do fim da estiagem e dão mais seriedade à chuva que poderia parecer um caso passageiro, mas com eles, parecem relacionamento sério com a nova estação. E não raro, com as primeiras gotas e os primeiros trovões, já tem gente planejando o plantio, na esperança de comermos bastante milho e feijão verde no São João.
Na travessia da ponte, o cenário não poderia ser mais belo. Os coqueiros e árvores que na ida observei cinzas, já dançavam na chuva todos verdinhos, uma graça de se ver, contrastando com o céu cinza escuro. Logo após, crianças de bicicleta rodopiando e reverenciando esse milagre. Uma delas grita meu nome! E nem era preciso dizer mais nada. Nossos olhos se encontram e celebramos felizes a bênção da chuva, que a essa altura já engrossara e descia convicta pelas ruas do bairro, lavo meus pés, minha alma, minha dor.
Chego na minha casa com o pulmão tão apertado pela mudança climática, mas também tão feliz, pois desta feita o aperto é por um bom motivo. Abro a bombinha. Uso-a. Respiro fundo e volto para o portão a fim de continuar me deleitando com o espetáculo da vida. E foi assim que a chuva floriu meu deserto coração.

Cecília Nascimento
28/12/2016 – 14h31min.