APOESC (Associação de Poetas Escritores Simpatizantes e Colaboradores)

A APOESC (Associação de Poetas Escritores Simpatizantes e Colaboradores), criada em 03.2010 em Santa Cruz -RN, existe para congregar amantes da cultura, apologistas e produtores da arte da palavra.


sábado, 30 de abril de 2016

MEMÓRIAS DO CABARÉ DE MARIA GORDA - Rosemilton Silva


Bom dia, meus povo! Tava eu ali, de frente pra igreja, conversando com Tibúrcio sobre um bom roçado e uns pés de imbu carregado enquanto ele preparava uma cuia de farinha, meia de feijão, quatro rapaduras borós a mando de Mané da Viúva, quando me aparece cumade Maria Gorda e a conversa envereda pela carestia que andam dizendo ser pequena mas não é isso que a gente sente na feira. Minha cumade, ainda de ressaca da sexta feira puxada porque Gonzaga, com aquele jeito calado, sarcástico como quem não ouve ou não liga o que dizem, anda satisfeito com o que está acontecendo. Já Michael, está querendo mudar algumas coisas ali perto de onde João Chicó e Luiz Passo, lavam jumentos e cavalos. Pois bem, vizinho a Tibúrcio está Cíço Anulino que pergunta se nós estamos animados pra festa de Santa Rita e que já mandou fazer a roupa por Luiz e eu digo que prefiro Aluizio Mago mas bom mesmo é roupa costurada por dona Rosa Wenceslau ou Nair. Nisso, a difusora paroquial entra no ar e Cleonice começa a pedir doações para a construção da igreja nova. MInha cumade me chama pra acompanhá-la até o mercado onde ela vai na banca de João Amaro comprar brilhantina Glostora, um espelhinho redondo de bolso com escudo do Flamengo e um pente com o nome do mesmo time. Não pergunto pra quem é porque sei dos segredos da minha cumade. Antes que me perguntem, digo que sou Botafogo. Ela me diz que vai na 36 de Zé Calado receber um dinheiro e passar em seo Zé Dadá pra deixar pago umas injeções de penicilina e levar dois tubos de anaseptil e gaze. Aí eu digo que vou na budega de Irineu, na esquina da Rua Daniel, do outro lado de Zé Matias, os dois abrindo o beco que chega em Manoel Cassimiro. Chegando lá encontro Gilberto Cardoso na maior cantoria. "arrudiado" por todos os lado que, ao me ver, sapeca:


Vida boa é a do vizinho
Maria Gorda dizia
Quanto homem bem casado
Pra seu cabaré seguia
Cansado de suas lutas
Para nos braços de putas
Fugir da vida vazia.

Do cabaré de Maria
O povo jamais esqueça
Mais que um motel barato
Por incrível que pareça
Cada escuro dormitório
Também era um consultório
Pra problema de cabeça.

Mal Giba terminou o repente, chegou outro bom poeta, Ismael André, que emburaca na peleja:

Gilberto, meu caro amigo
Fiquei aqui encucado
Você é conhecedor
Do cabaré frequentado?
Fala com tão precisão
Ou é somente ilusão
O que tem aqui comentado?


O poeta é um fingidor
Isto não vivenciei
Falo duma experiência
Que nunca experimentei
Usando a imaginação
Entrei numa habitação
Onde nunca "penetrei"


Pesquisas só não respondem
O que você afirmou
Gilberto fez freguesia
No cabaré lá morou?
Comenta com tanto afago
Era cliente ou era pago
No bordel que frequentou?

E por ser um fingidor
Deixou-me mais pensativo
Agora tenho certeza
Deste ato afirmativo
Então, lá você esteve
Pelo visto não conteve
E veio ser contemplativo


Maria Gorda sabia
O quanto é forte o pecado
E que a grama geralmente
É mais verde do outro lado
Sem que o povo desse vista
Muito cabra moralista
Findava ali, derrotado.

Mais que fonte de prazer
A prostituta aprendia
Que escutar o cliente
Parte do jogo fazia
Toda atenção prestava
Como tempo se tornava
Mestre em psicologia.

O escritor Júlio Verne
Nunca esteve no Brasil
No entanto de Manaus
Traçou perfeito perfil.
Assim tenho versejado
Sem nunca haver "penetrado"
No atrativo covil.

Conto tudo pra minha cumade que me recomenda ter cuidado, porque tem gente safada que anda copiando as coisas que os outros escrevem dizendo que foi ela que fez.

Jose Rosemilton Silva










Querido cronista, causista, memorialista, compositor, radialista, fotógrafo, cameraman, jornalista,  romancista, poeta e enciclopédia ambulante Rosemilton Silva, teve também  o causo daquele cantador de Sítio Novo, o Valdeilson Ribeiro,  que assistiu a peleja e fez a seguinte confissão:

"Eu ainda era criança
mas já ouvia falar
do cabaré de Maria
um puteiro popular
a minha mãe reclamando
e meu pai sempre negando
era sempre aquela briga,
mas na linguagem direta
quase que esse poeta
nasce "fi" de rapariga."

Fico feliz porque você ficou em dúvida se eu tinha estado lá mesmo ou não naquela casa de prazeres proibidos, e sua cumade confirmou que eu nunca botei os pés ali. Eu tinha medo de pegar aquelas doenças perigosas. Estamos todos inchados de orgulho por nos envolver em sua trama.