APOESC (Associação de Poetas Escritores Simpatizantes e Colaboradores)

A APOESC (Associação de Poetas Escritores Simpatizantes e Colaboradores), criada em 03.2010 em Santa Cruz -RN, existe para congregar amantes da cultura, apologistas e produtores da arte da palavra.


sexta-feira, 18 de setembro de 2015

Rotina de professor (Ismael André)




Ao chegar na calçada da escola, um grita:
- Professor, o senhor veio hoje?
Num tom irônico e grosseiro, respondo:
- Não, eu fiquei em casa.
Uns riem, outros esbravejam:
- Quanta ignorância para um professor!
Mais uma vez, repudio:
- Quanta insensatez para um aluno!
Disse insensatez para não ser mais tosco e chamar a salutar afirmação do estudante de burrice mesmo. Ora, onde já se viu perguntar o que a presença responde?
Sigo caminhada, mais adiante outro sussurra:
- este professor não adoece?
Meneei os lábios para responder, mas fui prudente desta vez. A única coisa que fiz foi:
- Boa noite para você também, meu caro!
Uma colocação educada com um fundo de rebeldia.
Antes de chegar na sala dos professores, mas uma voz sutil:
- E eu que pensei que estava livre deste aí hoje.
Resmungo comigo:
- Eu que o diga.
Não é que eu não goste da minha profissão, aliás, amo-a, mas ser gentil, educado, sereno e relevar as provocações diárias têm limites.
Depois que a sirene toca, pego minha mochila e me direciono à primeira turma da noite. Alguns cabisbaixos, ao me verem, mexem a cabeça negativamente, outros, tentando ser gentis dizem:
- Pensando que o senhor não vinha, nem fiz a atividade. Posso fazer agora?
- Por que o senhor nunca falta? – brada outro.
- Porque estou presente! – Respondi secamente para não ser mais grosso ainda.
No fundo do recinto outro ainda acrescenta:
- esta atividade é para responder?
- é para olhar seu... – diz outro do lado tentando ser sensato e estudioso.
- ei, você fez a sua atividade? Manda teu caderno para ver se consegui acertar. – afirma outro tão somente querendo pegar as respostas.
- Professor, não fiz porque minha mãe adoeceu, aí fui fazer as coisas de casa – justifica uma.
Não sei porque mas tem sempre parente de aluno doente. Às vezes imagino que se fosse verdade ou o SUS seria terrivelmente pior ou coveiro trabalharia dobrado.
- E eu porque achava que não tinha aula hoje – ainda diz outra.
De repente, tudo silencia. Quando penso que vou começar a dar aula, já se fora quase cinquenta por cento dela, aí grita o último:
- Professor, o senhor sabe o que aconteceu?

Já nem dá tempo para responder, o caos volta ao ambiente. Cada um que conte uma história de si, do parente, do amigo, do animal de estimação. Enquanto eu vou maquinando e me perguntando: como é que se dá aula?  
Aff!

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