APOESC (Associação de Poetas Escritores Simpatizantes e Colaboradores)

A APOESC (Associação de Poetas Escritores Simpatizantes e Colaboradores), criada em 03.2010 em Santa Cruz -RN, existe para congregar amantes da cultura, apologistas e produtores da arte da palavra.


sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Gabriela de ontem X tempos de hoje - Renan Pinheiro


 
Como homenagem aos 100 anos de Jorge Amado, a atual adaptação de sua obra-prima, “Gabriela”, pode ser considerada irregular: além de enfrentar a concorrência desleal da versão anterior, um clássico da teledramaturgia brasileira, a nova intérprete da personagem, Juliana Paes, se mostra madura demais para o papel – uma escolha mais adequada teria sido Débora Nascimento, a Tessália de “Avenida Brasil”  – em comparação com Sônia Braga, que com seu frescor e brejeirice virou a personificação definitiva da sensual cozinheira baiana na imaginação dos brasileiros (e mesmo dos estrangeiros, que a viram defender o papel com a mesma competência no filme de 1983). Outros problemas são um Nacib um tanto desconfortável, com  uma perene “cara de bêbado” (comparado aos intérpretes mais famosos do sírio, Armando Bogus e Marcelo Mastroianni, Humberto Martins perde feio, seja em relação ao vigor do primeiro ou ao charme lânguido do segundo), um Ramiro Bastos calcado em ACM (é só observar seu jeito autoritário, sua voz ríspida, sua cabeça quase calva, seu bigode e até o tipo de terno que usa para se ter certeza que Antônio Fagundes acintosamente copia a figura do mais polêmico político baiano na performance do principal vilão masculino da trama), um Tonico caricato (definitivamente o personagem não precisa daquele queixo pronunciado) e algumas concepções distorcidas (a personagem Zarolha virou uma vilã, contrariando não só o livro como seu perfil inicial na adaptação, onde era mostrada como uma prostituta um pouco ingênua e romântica, que lutava para ser reconhecida como uma mulher plena, capaz de amar e de demonstrar sua fé). O que salva a trama são as boas interpretações dos atores coadjuvantes, como Vanessa Giácomo (Malvina, filha de “coronel” que, provavelmente por ter herdado o caráter voluntarioso do pai, quer ser dona do próprio destino), Rodrigo Andrade (Berto, psicopata que, na verdade, é consequência direta dos desmandos do coronelismo), Marco Pigossi (Juvenal, jovem sensível que, apesar de ser filho de coronéis, teve oportunidade de estudar e vê o mundo de forma diferente, desafiando as regras de seu meio), Giovanna Lancelotti (Lindinalva, vítima do machismo da época que, mesmo sofrendo, tenta tocar sua vida) e Mateus Solano (que  embora não siga a caracterização de Mundinho Falcão no livro, descrito como loiro e de bigodes, transmite com perfeição a força, a coragem aliada a uma certa prepotência e o romantismo sem concessões que o caracterizam, fazendo com que esses aspectos aparentemente antagônicos do personagem soem convincentes). E principalmente Laura Cardoso, que rouba a cena numa atuação crepuscular como Doroteia, a beata implacável que, crendo agir em nome da moral e dos bons costumes (apesar de alguns veículos de comunicação anunciarem que em breve se revelará que ela foi prostituta) não hesita em usar a violência e a intriga para perpetuar seu poder. Também merece destaque o desempenho de alguns veteranos, como Ary Fontoura, Chico Díaz e Bete Mendes.
Contudo, existe um outro aspecto nessa produção global que, embora não seja tão evidente, também faz com que ela mereça a audiência do público: o contexto histórico e social da história e suas diferenças em relação aos dias de hoje.


Uma das primeiras coisas que saltam aos olhos do telespectador é o aspecto plástico: exceto quando entram em cena os pobres ou retirantes, o figurino é de uma elegância impecável, e pode-se dizer o mesmo da arquitetura da Ilhéus dos anos 20, o que poderia ser traduzido como um certo saudosismo. Contudo, como é de praxe nas obras do mais famoso escritor baiano, basta uma análise mais aprofundada para se perceber que esse refinamento é apenas aparente: como demonstra a própria sequência inicial da trama (apesar dela não estar presente no livro), ao retratar como os coronéis do cacau conquistaram suas terras matando agricultores e expulsando suas famílias, aquela é uma época regida por regras arbitrárias e violentas, que custaram a vida de não poucos inocentes. E esse autoritarismo permeia as mais diversas situações, contemplando desde o poder dos fazendeiros sobre a vida de seus filhos e netos, determinando com quem deveriam se casar e mesmo seu futuro profissional, até a repressão a todos aqueles que os desafiassem, inclusive por meio do assassinato (o coronel Ramiro faz questão de dizer com certo orgulho que “no seu tempo as coisas se resolviam na bala”), passando pela manipulação da justiça conforme as suas conveniências. Mas nada reflete mais esse quadro do que a situação das mulheres: obrigadas a seguir regras inflexíveis determinadas por homens e fiscalizadas pelas matronas irrepreensíveis, tinham de se encaixar nos papéis de “mulheres honestas” ou “damas de família”, e aceitar com resignação o poder deles sobre elas, com todas as consequências que isso acarretava (“dividir” os maridos com prostitutas, “téudas” e “manteúdas”, sujeição à violência física deles ou de seus pais e impossibilidade de terem independência financeira ou profissional, bem como restrição às suas atividades profissionais – exceto se fossem doceiras, costureiras, parteiras ou, se procedessem de famílias de maior poder aquisitivo, professoras). E ai de quem desse um “mau passo”: mesmo se fosse levada a isso por necessidade ou tivesse sido coagida por algum noivo ou namorado, tal mulher era considerada “culpada”, ganhava má reputação e virava uma espécie de “pária”, por não ter “lutado até a morte” e ter “entregado seu maior tesouro”, sendo desprezada pelas “virtuosas” e suas famílias. E quando (como geralmente era o caso) eram pobres, ninguém as ajudava e eram obrigadas a se virar como podiam, muitas vezes indo bater no único lugar onde não lhes fechavam as portas: os bordéis, onde se sujeitavam aos desejos dos poderosos. Existe até uma expressão corrente na minissérie (a ponto de ter virado tema de piadas e comentários na Internet) que mostra o quanto as mulheres eram vistas como objetos pelos homens: quando se referem a ter relações sexuais, as mulheres “decentes” se deixam “usar” por seus maridos. A esse respeito, merecem destaque as histórias de dona Sinhazinha (Maitê Proença) e Lindinalva: a primeira, uma mulher sensível e virtuosa, casada com um homem bruto, violento e nada carinhoso, conhece o amor nos braços do sensível dentista Osmundo (Erik Marmo), mas, vítima da vigilância das beatas – que teoricamente eram suas amigas –, tem sua história descoberta por elas e é assassinada junto com o amante pelo marido; a segunda, após ser desonrada pelo noivo, tem o seu noivado rompido por Doroteia, avó dele, que chega à conclusão de que por não ter se “guardado” ela não era mais digna de figurar na família (claro que o fato dela ter perdido os pais e o negócio da família deve ter pesado na decisão) e, rejeitada por sua própria madrinha (que depois até diz que o rapaz não teve culpa, e sim ela, por ter “cedido”), é forçada a se prostituir, e chega a sofrer uma tentativa de assassinato por parte dele, mais uma vez instigado pela velha, quando descobre que ela iria fugir com o irmão dele. A hipocrisia também é um elemento marcante na narrativa, e um exemplo disso são as irmãs Dos Reis, doceiras solteironas que posam de virtuosas mas são informantes de Doroteia (e portanto cúmplices de suas maldades) e roubam dinheiro da Igreja. Imersos nessa teia de acontecimentos, os habitantes da cidade, mesmo os mais pobres que são usados como “bucha de canhão” nas roças de cacau ou como empregados mal-pagos, não conseguem se desvencilhar dela, e esse arranjo “natural” só será perturbado com a chegada de dois forasteiros: Mundinho Falcão, carioca rico que se torna exportador de cacau e, incorformado com o atraso econômico e político da cidade, decide usar o seu dinheiro para acabar com o poderio dos coroneis, especialmente depois que se apaixona por Gerusa Bastos, neta do seu maior inimigo; e Gabriela, retirante e cozinheira habilidosa que, por seu passado miserável (incluindo-se aí uma iniciação sexual traumática por um tio), é dona de seu próprio destino, deita-se com quem quer e não aceita ser propriedade de ninguém, mesmo se isso a ajudasse a ter estabilidade financeira. Nas palavras do próprio Jorge Amado, “foi com ela que começou a libertação da mulher na zona de cacau”, e no livro isso transparece na cena da folia de Reis, quando Gabriela, a essa altura casada com Nacib e “senhora da sociedade”, desafia as regras e se junta ao povo na comemoração, e seu exemplo é seguido por Gerusa. Outros passos dados nessa direção, mais adiante, serão a condenação do marido de dona Sinhazinha e a derrota política dos coronéis.
Diante de tudo que foi descrito, a sociedade atual parece ser bem mais “evoluída”: após alguns reveses, a censura desapareceu nominalmente do Brasil, e os “crimes de honra” e os “apedrejamentos morais” não contam mais com os aplausos da sociedade. A estrutura do Judiciário também é mais independente, as leis estão sendo mais respeitadas e, principalmente, as mulheres são donas de seus narizes, podendo ter a profissão e o parceiro que quiserem, chegando mesmo à presidência da República. O fato de alguma delas perder a virgindade sem se casar também não restringe automaticamente sua vida. Sem dúvida, a sociedade está mais igualitária, mas será mesmo que não existem resquícios daquela época nos dias de hoje?
Infelizmente, existem. Para começo de conversa, a miséria ainda é uma característica marcante no Brasil, bem como a existência dos retirantes: com frequência um número razoável de Gabrielas, Clementes e Fagundes deixam a zona rural, castigada por secas e falta de recursos para manter safras e colheitas, para tentar a sorte nas cidades grandes, alimentando o crescimento das favelas e se sujeitando a todo tipo de dificuldades para conseguir seu sustento. Tampouco a pobreza deixou de ser utilizada pelos políticos como instrumento para manipulação de interesses, através de desvio de verbas, perpetuação de “clãs” no poder e funcionamento precário dos direitos sociais básicos, e embora mais raros, a redução de pessoas à situação análoga ao trabalho escravo e os assassinatos de dissidentes políticos ainda ocorrem em recantos mais distantes do Brasil. O machismo e a violência de caráter sexual também não desapareceram de todo, e eles se manifestam principalmente através da prostituição infantil, no espancamento e assassinato de homossexuais (que, na opinião de alguns, merecem passar por isso tendo em vista a vida que “escolheram”) e, no que se revela sua maior ligação com o romance e a minissérie, nos abusos domésticos cometidos contra mulheres por seus próprios companheiros e parentes, que compreendem humilhações verbais, agressões físicas e até assassinatos, com a desculpa de que “foi por amor”. Até a fofoca ganhou um incremento perverso na era da Internet, pois as redes sociais podem ser usada para difamar  e estigmatizar alguém, principalmente jovens, através da divulgação de vídeos e fotos, que ficam registrados nos arquivos de todas as pessoas que os baixarem. Prova que uma adaptação contextualizada do romance não seria algo tão impossível.
Mas esse quadro não deve desanimar ninguém, e sim estimular o empenho tanto para mudar o mundo quanto para ler o romance, pois só analisando os erros do passado poderemos construir um futuro melhor. E (por que não?) continuar acompanhando a minissérie, de preferência torcendo para que a cena final da versão de 1975, onde pessoas humildes pediam a bênção a Mundinho Falcão (querendo dizer que tudo mudara para que nada tivesse mudado) não seja repetida em 2012.


Renan II de Pinheiro e Pereira.