APOESC (Associação de Poetas Escritores Simpatizantes e Colaboradores)

A APOESC (Associação de Poetas Escritores Simpatizantes e Colaboradores), criada em 03.2010 em Santa Cruz -RN, existe para congregar amantes da cultura, apologistas e produtores da arte da palavra.


sexta-feira, 13 de julho de 2012

DOS SEM RELÓGIO AOS SEM-NOÇÃO - Francisco Maciel


 
Na minha infância relógio mesmo só existia no bolso ou no braço de alguns adultos que tinham “pulso” pra isso. Na escola marcávamos nas paredes o horário da merenda e demais que nos interessavam com um risco em torno das réstias que se formavam pela entrada do sol nos espaços entres as telhas. Nosso olhar se revezava entre o quadro negro e os pontos específicos da parede, atentos aquele círculo de luz em direção àquela marca. Noutro momento a codificação era do chocalho de ferro nas mãos de dona Regina, lá da hoje Escola Estadual de Ensino Médio, Severina Pontes. Neste caso o som tinha que atravessar toda a pequena cidade, encontrar o menor número de obstáculos possíveis, até nos achar na outra escola, hoje, a Escola Estadual Manoel Medeiros II. E foi lá que levantei a saia de uma aluna e depois vi seus pais na casa da minha professora, Irene Barbosa, que bravamente conteve os ânimos e não deixou que meus pais tomassem conhecimento: uma surra a menos.
Foi nesse período que ganhei e juntei muito dinheiro feito a partir de carteiras de cigarro nos jogos de biloca, que acumulei bens como uma fazenda de bois de osso, uma miniatura de casa no quintal e um carro num pneu que um dia o pobre Zanga me levou . Desse tempo tenho ainda as prosas de seu Nô Birico: “Eita tropa veia do...” que segundo ele era preto e mais adiante vivi a expectativa em torno de uma data sempre adiada e anunciada por seu Vicente Paulino que se dizia preparado para pular da torre da igreja católica. E foi na igreja, numa das reuniões de doutrinamento para minha primeira comunhão com dona Vezinha, que uma senhora foi motivo de risos por um pum que lhe escapou e que todos nós testemunhamos. Dona Vezinha com competência a inocentou nos explicando sobre o processo digestivo dos alimentos em nosso organismo: uma pausa para um assunto também importante para nossa formação. “Tõe” de Mariquinha que fazia parte do grupo ficou ainda mais compenetrado e em meio já à nossa reverência passou a reproduzir de modo natural, espontâneo e insistente o mesmo som que ouvira da senhora em foco. E a esta altura, depois da bela e convincente explicação, dona Vezinha ficou impossibilitada de impor limites àquela criança.
Nesses dias Batman já existia, direto da sala de justiça, numa televisão que ganhamos e que num caixote ficava do lado de fora da Câmara de Vereadores. Mas as primeiras televisões foram quatro, que como bem lembradas outro dia pela cantora Sandra de Sá, eram televizinhos em preto e branco: a de seu Nilton, de Pedrinho de dona Vezinha, de seu Severino Barbosa e a de meu padrinho, Geraldo Anselmo. As janelas e as salas destas casas eram nossas e ocupávamos tudo que era canto. Madrinha Maria Noêmia exigia apenas que as meninas se revezassem o tempo todo fazendo cafuné em sua cabeça, as mesmas meninas, bem poucas, das brincadeiras de “tô no poço”, onde eu era exigente e atrevido: -_Quem lhe tira?_Meu bem! E assim era, ansioso pela última pergunta, para minha resposta mais esperada: Com quê? _Com um beijo e um abraço! Mas fazíamos isso com a mesma pureza de quando cantávamos que debaixo da sacada o cravo beijou a Rosa e incapazes de construir qualquer piada de mau gosto, ainda que na brincadeira do grilo, que ficava sempre atrás.
E por último, quem me dera voltar às águas límpidas do nosso rio. É lá hoje e onde mais precisamente agora gostaria de estar. Rio dos banhos intermináveis na cachoeira de seu Jodoval. Rio da pedra de seu Zé Medeiros e do poço trapiar. Rio dos prejuízos aos proprietários de carros nas enchentes, dos que ousavam atravessá-lo e que para mim era apenas o nosso rio em festa, ou meu rio particular em festa. Rio que infelizmente agora só morre enquanto insiste ainda em contornar toda a cidade, como se faz num abraço e como sempre fez. E enquanto isso, direto de nossa injustiça, nós, os sem noção, cruzamos os nossos braços com nossos relógios de telefone ou telefones de relógio, calendário, calculadora, alarme, cronômetro, rádio, câmera, televisão, música, sofisticação e muito mais, tudo junto, para cuspir dejetos em seu leito, ainda que e já em seus últimos suspiros.
É certo que hoje acordei com um quebra-molas quase pronto e quase em frente à minha casa, onde passa um riacho que antes também nos era natural. Sei que assim estou ganhando uma bela represa artificial que pode até inundar a minha casa e, quem sabe, a minha vida, mas não quero. Prefiro voltar no tempo e o que mais quero agora é ao menos ou somente o rio de minha infância, onde ninguém me parecia sem noção.