APOESC (Associação de Poetas Escritores Simpatizantes e Colaboradores)

A APOESC (Associação de Poetas Escritores Simpatizantes e Colaboradores), criada em 03.2010 em Santa Cruz -RN, existe para congregar amantes da cultura, apologistas e produtores da arte da palavra.


domingo, 24 de junho de 2012

IMPRESSÕES SOBRE A EUROPA (ENTREVISTA COM MARCOS CAVALCANTI)


1.       Nietzsche, filósofo a quem você muito admira, disse: “Torna-te o que tu és.” Esta viagem de algum modo contribuiu para mudá-lo ou para torná-lo mais Marcos?

MARCOS: Não tenha dúvida Gilberto que uma viagem desta dimensão, 42 dias, 20 importantes cidades européias visitadas, muitas situações vividas, a paisagem, a interação com as pessoas, a cultura, as línguas, e a percepção da impressão que as pessoas têm deste novo Brasil, ou do Brasil atual, tudo isso faz com que a viagem tenha se dado de fora para dentro e de dentro para fora. Quantas reflexões sobre os outros, sobre as coisas e sobre mim mesmo. Uma viagem que foi a realização de um sonho e uma grande experiência humana, demasiadamente humana, como diria Nietzsche.

2.       Em que países esteve e em que cidades?

MARCOS: França (Dijon, Besançon, Nancy, Metz, Marseille, Perpignan e Lyon) Alemanha (Heidelberg e Stutgard) Itália (Milão, Veneza, Florença, Roma, Pisa e Gênova) Espanha (Barcelona e Madrid) Bélgica (Bruxelas) Luxemburgo (Luxemburgo) e na Holanda (Amsterdam). Não conto Portugal, pois Lisboa foi só ponto de passagem, nem a Suiça, embora tenha sido por lá a mais bela viagem de trem. Os Alpes suíços são espetaculares.

3.       Como foi a experiência de reencontrar brasileiros e conterrâneos na Europa? Fale sobre eles e o papel que tiveram no sucesso de sua viagem.
MARCOS: Gil, tivemos uma recepção calorosíssima por parte de Assunção e Pascal (Pascal que tem duplo coração, um francês e um brasileiro). Já estavam lá, Glauber, Angelina (Andreza) e o pequeno Glauberth (Binho), que é um amor de criança, filho do casal. Vivemos momentos maravilhosos, regados a excelentes vinhos e à boa comida de Assunção, com seu toque especial, brasileiríssimo. Sem o apoio que tivemos, essa viagem não teria sido possível, pelo menos, não nos moldes e na dimensão que teve. Sou-lhes muito grato por tão simpática acolhida, pela disposição que tiveram de nos orientar, de nos conduzir, de nos apresentar Dijon, seus parentes e outras cidades, sem falar que a Carta Convite foi um requisito importantíssimo para entrarmos na Europa. Enfim, caro Gilberto, não tenho expressão para significar com toda a exatidão a nobreza dos gestos, tamanha solidariedade. Só posso dizer: Muito, muito obrigado!!!

4.       Discorra um pouco sobre os europeus com quem esteve em contato.

MARCOS: Gilberto, esta é uma pergunta muito ampla e complexa, pois cada país tem sua cultura, seu modo de ser, e cada pessoa é uma singularidade que sofre e exerce influência sobre todas estas peculiaridades. Foram contatos com muita gente, de várias nacionalidades, inclusive de outros continentes, de modo que não dá para discorrer aqui sobre isso sem cometer alguma falha, algum esquecimento ou sem cansar o seu leitor; o que posso dizer para sintetizar numa frase a impressão que tive, é que é um povo que demonstra muita simpatia e curiosidade para com o Brasil, esse gigante que começa finalmente a sair de seu berço esplêndido.
5.       Qual sua impressão geral sobre a Europa depois dessa viagem?

MARCOS: Gil, a pergunta é novamente muito abrangente, mas talvez eu possa dizer que já estava de algum modo mergulhado na Europa, antes mesmo de viajar para lá, devido aos canais de TV que costumo assistir cotidianamente. A tão falada crise europeia não é tão visível assim para quem esteja apenas viajando como turista, sem informações prévias sobre esse tema, pois há construções em toda parte, e todos os serviços, pelo menos neste período, estavam funcionando normalmente e de maneira muito eficaz. Mas devo dizer que encontrei mendigos em todas as cidades em que estive, felizmente as crianças parecem fora deste mundo da mendicância, ainda bem. Do ponto de vista antropológico, percebi que a Europa passa na atualidade pelo que nós já passamos, ou seja, um profundo processo de miscigenação, em que questões como identidade cultural e social, parecem estar na ordem do dia. Posso dizer ainda que a Europa continua tendo muita atenção com sua história, com a preservação da natureza, com seus monumentos, pois em todas as cidades há, na atualidade,  grandes obras de restauração. As cidades francesas me impressionaram por sua exuberante e bem cuidada jardinagem. Quem dera que aqui fosse assim também.

6.       Fale sobre a cultura de preservação que parece caracterizar toda a Europa.

MARCOS: Já discorri um pouco sobre isso. Não pensemos que é tudo perfeito, por exemplo, vi sujeira em várias cidades, nos canais de Paris, Veneza e Amsterdam, e até fotografei. Mesmo lugares como praças e parques, por vezes não escapam a insensatez humana. Talvez isso se dê porque há gente de toda parte, mas eu não saberia dizer quem foi que jogou tal lixo em tal lugar, se um estrangeiro ou alguém do próprio lugar. Os monumentos recebem atenção especial, sobretudo os mais importantes. O que é lindo, e isso é cultura de preservação, são os incontáveis grupos de crianças recebendo ao vivo e em cores, aulas de seus professores diante de um monumento, uma obra de arte, um parque, etc. Isso é muito bom de ver.

7.       Aproximadamente quantas fotos tirou nessa viagem? O que pretende fazer com tais registros? Fez também vídeos? 

MARCOS: Meu amigo, foram mais de 10 mil cliques, e logo que comecei a fotografar já me vieram ideias de fazer exposições na Casa da Cultura, de parte deste arquivo, na verdade, o maior tesouro que trouxe de lá, do ponto de vista material, são estas fotografias. Espero poder concretizar isso em breve. Aguarde!!

8.       Que aspectos da paisagem natural ou humana mais chamaram sua atenção?

MARCOS: Caramba, vou dar apenas dois exemplos, um que envolve o aspecto natural e outro mais humano: a forte emoção ao cruzar toda a extensão sul da Suíça e de se deparar com a imensidão dos Alpes. Era beleza demais para meus olhos sertanejos. Do ponto de vista humano teve um episódio interessantíssimo na Alemanha.  Dois mendigos nos ofereceram cerveja (lacradinha), depois que lhes mostramos uma carteira de cigarro, com alguns cigarros dentro, que estava jogada por traz de um banco. Os caras, quase sem nenhuma dentição e tentando se comunicar conosco em inglês, já que eram alemães. O inglês deles, quase perfeito, creio, já o nosso, hummm! Antes disso, pareciam discutir literatura ou filosofia, pois falavam e gesticulavam muito um com o outro, isso, um deles com um livro na mão. Incrível!!! Registramos em fotos este inusitado encontro.
9.   Que lugar em especial chamou sua atenção? A quais acha imperativo retornar?


MARCOS: Rapaz, lembrei muito do livro de Ítalo Calvino, As Cidades Invisíveis, que põe em cena o veneziano Marco Polo descrevendo para o grande Kublai Khan as inumeráveis cidades que visitou em suas missões diplomáticas pelo império mongol. Por falar nisso, estivemos em Gênova, onde Marco Polo esteve preso. Cada cidade tem sua peculiaridade, seu charme, sua essência: a monumentalidade da cidade eterna, Roma, mesmo as partes em ruína; o romantismo dos canais e gôndolas de Veneza; o por-do-sol em Florença, iluminando abóbodas e fachadas culturais; a surpreendente torre de Pisa, a sinuosidade das ruas de Gênova e sua bela arquitetura; navegar no mar Mediterrâneo, na linda cidade de Marseille; Paris, seus museus e suas catedrais, seus cemitérios, os túmulos de Piaf, Moliere e La Fontaine. Os jardins de Versaille e Luxemburgo. O encanto de Barcelona com sua fonte mágica, dançando multicolorida ao som de música clássica, lindo demais. Assistir num teatro em Madrid, Carmem de Bizet, toda ao ritmo da música e da dança Flamenga. Amsterdam, e seu exótico museu erótico, bem como o red-light-district, ponto de encontro da boemia holandesa. É imperativo voltar em quase todas as cidades em que estive, para desfrutá-las ainda melhor. Os artistas anônimos em todas elas, muito me emocionaram: malabaristas, cantores, músicos, pintores, palhaços, estátuas vivas. Em Florença, aproveitei até para fazer uma caricatura minha, você vai ver e rir.

10.   Sua verve foi impactada nessa viagem? Que podemos esperar em termos de produção poética/prosódica depois disso?

MARCOS: É preciso digerir tudo isso com paciência. É matéria prima demais para um simples fazedor de versos como eu. Vamos dar tempo ao tempo. Espero, pelo menos, fazer umas exposições fotográficas.
11.   Fale sobre uma experiência marcante da viagem.

MARCOS: Foram tantas Gilberto, mas quero dizer do dia em que tendo dificuldade de encontrar o hotel que havia reservado na cidade de Metz (França), e ao pedir ajuda a um jovem francês, o Bruno, acho que esse era seu nome, ou algo parecido, ele fez questão de me colocar dentro do carro dele, sem sequer me conhecer, e ir procurar comigo o hotel. Como tivemos alguma dificuldade, pegou o seu celular, localizou-o e me deixou lá. Isso foi demais, cara. A solidariedade que vi e que recebi de muita gente, marca muito e profundamente a gente.
12.   Fique à vontade quanto às palavras finais.

MARCOS: Agradeço mais uma vez a você pela oportunidade e faço votos que em breve seja a sua vez!