APOESC (Associação de Poetas Escritores Simpatizantes e Colaboradores)

A APOESC (Associação de Poetas Escritores Simpatizantes e Colaboradores), criada em 03.2010 em Santa Cruz -RN, existe para congregar amantes da cultura, apologistas e produtores da arte da palavra.


segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

O MEU CÃO PEDEGREE E A MINH'ALMA VIRALATA - Nailson Costa


Rossi Alemão era seu nome de batismo. Cachorro lindo, enorme, rajado, branco com pintas pretas, mais parecia um dálmata. Ele, em pé, tornava-se do meu tamanho, 1,70cm de altura. Suas patas de onça, língua de dois palmos, cabeça, tronco e membros colossais e latido estrondoso, dera-lhe, em 2006, o primeiro lugar num concurso de tamanho e beleza caninos promovido pela Casa do Vaqueiro, evento esse incluído na programação da festa de Emancipação Política de Santa Cruz daquele ano.
Meu cachorro Rossi Alemão, carinhosamente por mim apelidado de Cabeção ou de Bobão, era raça pura, pedegree de primeira linhagem, Dog Alemão. Sentia-me orgulhoso de passear com ele pelas ruas da cidade. Era comum as pessoas perguntarem, “Que raça é? Que cachorro grande, lindo! Qual o nome? Onde e por quanto comprou?”
Rossi Alemão, o Cabeção, o Bobão, era lindo mesmo! Não era agressivo, pois esse tipo de cão não é agressivo, mas assustava pelo tamanho. Ele tinha uma elegância espantosamente bela! Ainda hoje me arrependo de nunca ter tirado uma foto de seu jeito de cruzar as patas dianteiras no seu elegante sentar, com seus olhos negros, fiéis e diretos, não dissimulados, em minha direção, na mais pura, cristalina e sublime declaração de sua amizade.
Nos nossos passeios diários de fins de tardes, nunca usava enforcador e focinheira, pois achava desnecessários esses acessórios, dada a sua mansidão, que, aliás, era inversamente proporcional ao respeito que impunha. E quero crer que, dito isso, explico a razão do apelido Bobão.
Certa vez, ao passar defronte à casa de um cachorrinho pequenez, desses bem chatos e barulhentos, o meu Cabeção não aguentou mais aquela latumia sem motivos e arrancou a corrente do pescoço, para desespero meu e de todos os pacatos moradores do DNER, e botou  atrás desse  cahorrinho. Com certeza, não o machucaria, era só pra dizer-lhe poucas e boas. Foi um espatifado de gente pelas ruas do bairro, entra aqui, sai ali, entra à esquerda, sai à direita, sobe rua, desce beco, pega num pega, pega num pega, gente corre, povo grita, mulher reza, criança chora, o bairro treme, velhos se cagando de medo, e meu Cabeção pega num pega, pega num pega, e eu atrás gritando “Calma, Cabeção, Cabeçããããããão, volte! Volte, volte , pare, pare, fie duma égua...! Correndo, cansado, uf, uf, ninguém consegue parar meu enorme Cabeção.
Quando me dei conta, já tinha saído da Cravina e já estava na minha rua de novo, e, defronte à Radio Santa Cruz, vi cadeiras reviradas de pernas pra cima, e seus ocupantes em cima de poste e de árvores, implorando “Segura a fera, segura, pelo amor de Deus!”. O pequenez na frente “ai ai ai ai ai” e o Cabeção atrás “urrrrrrrrr” pega num pega, pega num pega... e, de repente, entraram  de vez na casa do Sr. do Queijo.
 Bendita seja a casa do Sr. do Queijo! Meu Cabeção, que estava quase alcançando o barulhento pequenez, parou, de repente, num freio espetacular! Na verdade ele viu, de passagem, uma tigela de leite bem quentinho, talvez nem tenha visto, pois sua velocidade de tantos km/h, não permitiria tal visão...sei lá, viu ou sentiu e passou ... frações de milésimos de segundos depois processou no cérebro a informação de que seria uma coisa boa e …..e era...e foi um freio tão grande que o mundo todo encobriu-se de poeira (lembram daquela grande ventania, ou redemoinho ou furacão, ciclone, tornado, um bicho desses, que deu em Santa Cruz em 2006, que arrancou o telhado do Posto 3 a 1? Foi o freio do Cabeção), mesmo estando num quintal encimentado.
E lepo, lepo, lepo, lepo, sua imensa língua de dois palmos deu umas cinco linguadas no leite que fora posto num depósito retangular para virar queijo, naquele quintal. Eu cheguei cansado e vi a situação: o Sr. do Queijo em cima de casa e o resto da família toda se tremendo, acho que debaixo da cama. Foi quando coloquei a corrente de novo no Cabeção e, no outro dia paguei o prejuízo do leite quase todo bebido. E o Sr. do Queijo ainda hoje se pergunta como chegou ao  telhado de sua casa. O Cabeção era um amor de pessoa!
Nos dias seguintes, ao passar defronte à casa do pequenez, dessa vez de enforcador e focinheira, percebia que não mais havia latidos estridentes, mas sim, um gemidinho de um vulto ai ai ai,  rabinho entre as patas, adentrando a sua casa.
Rossi Alemão tinha vida de rei: rações variadas, banho aos domingos com xampus e sabonetes medicinalmente recomendados, vacinas em dia etc e tal.  Era a minha segurança doméstica!  Onze anos de convivência. Onze anos de paz. A galera das invasões e arrombamentos não se atrevia adentrar ou até agendar uma visitinha à minha fortaleza.
Cão pedegree, fiel amizade e amigos para sempre, se não fosse a minha alma viralata. Dei o meu cão em maio de 2010 a um ilustre desconhecido dono de uma churrascaria. Isso mesmo! O meu melhor amigo fora pastorar a boiada do Sr. Churrascaria. Não vendi meu fiel escudeiro, não emprestei meu melhor amigo, apenas dei o meu belo cão, com uma única exigência, a de que cuidasse bem daquela preciosidade. Lá ele comeu muita carne, latiu, assustou, correu atrás da boiada, mas não era feliz. Maldizia-se em chorosos latidos vespertinos, na esperança de que eu aparecesse para com ele passear. Esperou ele por mim todas as tardes de seus cinco últimos meses de vida. Morrera de desgosto em 29 de outubro de 2010. Morrera da imensa saudade que sentira de mim durante esse tempo, segundo seu último dono.
Hoje a minha consciência pesa, a ferida não cicatriza e minha alma chora. Todos os dias tenho saudade de Rossi Alemão. Não sei o que mais me dói, o pecado do corpo ou a ferida da alma.
 Já começo a sentir o efeito de sua ausência e pagar um pouco por tão grande mal. Que bom, a minha casa foi arrombada no dia 29 de outubro deste ano, exatamente no dia do primeiro  aniversário de sua partida. Tenho muita saudade de meu fiel cão pedegree! Tenho muita vergonha da insensatez de minh’alma viralata.

(Nailson Costa, 29 de outubro de 2011)