APOESC (Associação de Poetas Escritores Simpatizantes e Colaboradores)

A APOESC (Associação de Poetas Escritores Simpatizantes e Colaboradores), criada em 03.2010 em Santa Cruz -RN, existe para congregar amantes da cultura, apologistas e produtores da arte da palavra.


sábado, 12 de novembro de 2011

A SEXUALIDADE DO MESTRE - Nailson Costa

 
            Quando o Mestre criou o homem, fez apenas o macho. E o mundo todo ficou sem graça. O sol não tinha motivos para seu brilhar intenso, o ar não exalava em sua brisa seu melhor perfume, a noite não permitia às estrela seus piscares cúmplices, a lua se cobria triste e os pássaros não cantavam o dia.
            Então pediu Adão ao Mestre que completasse a obra. E fez-se a fêmea Eva. “É...vá!” Disse o Mestre ao seu novo traço em Sexualidade, sua obra-prima.
            E a natureza ganhou luzes. A vida sorriu alegre. O Mestre contemplou o seu trabalho, bocejou e foi descansar.
            Há quem não acredite na parábola da criação do homem. Mas uma coisa é certa: Não haveria vida se não houvesse o sexo oposto. Não haveria graça se assim não o fosse. O que seria do côncavo sem o convexo? O que seria do dia sem a noite? E o que dizer da água sem a sede? Do quente sem o frio? Do macho sem a fêmea? Da vida sem a morte?
             Não haveria antítese nem paradoxo. Insípido seria o sal. E do alto a terra não se mostrava linda.
            O sexo criou a vida e a vida deu corpo a alma. Foi assim desde o princípio.
            Entretanto, há, na Sexualidade, a cobra, que dizem os teólogos não ser criação do Mestre. Mas se está em seu quadro, quem a pintou? Eis a discórdia. Seria a antítese maior, a razão dos desentendimentos humano-religiosos? Que mal, hein?! Quem sabe não seria um bem?! Bem, o certo é que a cobra é substantivo epiceno, ou seja, seu gênero é feminino e indica os dois sexos, o macho e a fêmea. É a discórdia temperando o ser.
            A cobra não perdeu tempo. Ejaculou em Eva o seu líquido peçonhento e distorceu a beleza das curvas e dos traços da fêmea. O macho quis/quer a fêmea presa. A fêmea teve/tem preso a presa macho. Os sexos são presas presos. Não servem apenas para a reprodução, como queria o Mestre.
            É da cobra a culpa da malícia. A cobra é hermafrodita, epiceno e ciumenta. Ela maculou a Sexualidade pintada pelo Mestre. A cobra é uma droga. A droga é um veneno. O veneno picou o sexo, pintou a AIDS, borrou a obra.
            E a Sexualidade do Mestre, o que dizer dela? Não é mais a mesma. Mudou a linguagem. Tudo foi repintado enquanto Ele dormia. Não tem mais a pureza doutrora. Sexualidade fez sexo sem camisinha e a adolescência engravidou o despontar da nova aurora.
            A Sexualidade chorou a juventude perdida, a DST sem cura e a dor enrugada nos pais.
            O Mestre, ao ver Sexualidade desvirginada, colocou-a no colo, chorou muito. E suas lágrimas fertilizaram-na. A esperança renascerá. Viva a vida! Viva a Sexualidade! Sem machismo, o Mestre é macho todo!


Nailson Costa