APOESC (Associação de Poetas Escritores Simpatizantes e Colaboradores)

A APOESC (Associação de Poetas Escritores Simpatizantes e Colaboradores), criada em 03.2010 em Santa Cruz -RN, existe para congregar amantes da cultura, apologistas e produtores da arte da palavra.


quinta-feira, 20 de outubro de 2011

EU VI MEU PAI CABISBAIXO - Francisco Maciel



Hoje estive presente à 1ª MOSTRA CULTURAL aqui em japi, embora não bem me lembro, mas se fôssemos mais empenhados em fazer registros, talvez estivéssemos a realizar ali a 2ª, a 3ª ou a 4ª MOSTRA CULTURAL. A verdade é que era hora de acontecer porque já estava me estressando: é que a professora aqui de casa não se empenhava mais nos fazeres domésticos e quase nem olhava mais pra mim, envolvida com este projeto.
Encantei-me com a participação efetiva dos gestores, professores, das crianças e como era previsível, deparei-me mais uma vez, e sempre, refletindo na importância da escola, afinal, eu vivo de escola, sobrevivo da escola e não há um dia sequer que eu Adriana não conversamos sobre escola. Resgatei ali naquele evento muitas lembranças: algumas bem presentes, outras mais distantes.
Nessa viagem no tempo, deparei-me com uma conversa recente que tive com meu pai e que descambou para uma discussão sobre um tema bem presente. Ambos expusemos nossos argumentos, sendo que ele é duro na queda: se disser que pau é pedra, está consumado. Diante de nosso confronto de pontos de vista, conflito de gerações, embate de conhecimentos, naquele momento ele apostou suas últimas fichas na seguinte indagação: por que você nunca concorda comigo? Respondi também com outra pergunta, sem pestanejar: por que o senhor me colocou na escola? Naquele momento ele baixou a cabeça e ficou calado.
Saí dali com a sensação de vitória: eu venci, pois papai silenciou.
Momentos depois comecei a refletir no que havia dito: por que o senhor me colocou na escola? E só então me deparei com minha prepotência, meu jogo sujo, meu golpe baixo, minha ingratidão. Falara aquilo em nome da escola que em nenhum momento em minha formação acadêmica me dera o direito de subestimar o conhecimento de quem quer que seja, ainda mais de um homem que sempre me deu lições de vida, de cidadania e tornou-se referência a ser seguida, como homem politizado com quem sempre aprendi muito e com quem nunca perdi o gosto de conversar.
Naquele momento eu vi papai impotente, cabisbaixo, mas imagino que se ele ainda tivesse força suficiente, teria com certeza rodado o braço: cabra você me respeite!
Junto a estas lembranças me veio à mente uma imagem muito forte: a primeira vez entrando numa escola para estudar e de mãos dadas com papai. Foi assim já nos primeiros anos de minha vida, quando levava comigo para o primeiro dia de aula: um caderno, um lápis, sua força, seu apoio, sua torcida inflexível que permanece imutável até os dias de hoje.
Foi também de papai o pedido que me fez a mais de vinte anos em uma de nossas viagens a Bananeiras na Paraíba: Meu filho! Eu lhe peço que nunca se envergonhe de mim. Estava ele ali mais uma vez presente, envolvido com os meus estudos, desta vez na Escola Agrícola de Bananeiras. Como homem pobre, ele tentava fazer o que podia, como podia, mas temendo que o conhecimento me fizesse um dia desconhecê-lo: por que o senhor me colocou na escola?
Mas veio também de papai o presente que recebi outro dia: ele tirou do braço seu relógio de marca mido, banhado a ouro e me deu de presente com a seguinte justificativa: eu percebo que você gosta de mim! Coroamos ali de maneira simbólica o que realmente há entre nós dois. Prometi-lhe que nunca haveria de desfazer-me do relógio, que não levaria em conta seu valor financeiro, mas sim sentimental e que no futuro doaria para meu filho para ele pudesse levar adiante nosso propósito.
Enfim, foi para a escola que papai me direcionou desde sempre. Logo ele, com seus quinze dias de aula apenas, ainda mais com um professor que na época lhe obrigara a escrever com a mão direita, mesmo sendo ele canhoto... e só. Sou consciente de que minha pós-graduação precisa de tempo para superar este equívoco junto a papai, na certeza de que teria doído bem menos, se em vez do seu silêncio, tivesse ele rodado o braço.
Prof. Maciel- Japi/RN.