APOESC (Associação de Poetas Escritores Simpatizantes e Colaboradores)

A APOESC (Associação de Poetas Escritores Simpatizantes e Colaboradores), criada em 03.2010 em Santa Cruz -RN, existe para congregar amantes da cultura, apologistas e produtores da arte da palavra.


terça-feira, 21 de junho de 2011

Carta a Nailson - Roberto Flávio





João Pessoa, 20 de junho de 2011

Caro amigo Nailson Costa,

Peço a sua licença não apenas para comentar o seu valioso artigo sobre o Professor Ribeiro, mas também para quebrar o silêncio relacionado ao fato de que nunca fiz qualquer pronunciamento público, inclusive em livros ou estudos a respeito do mesmo.

Imaginando dada a permissão, em primeiro lugar, lhe parabenizo por esse texto-homenagem que você produziu. Adjetivações excessivas ou hipérboles à parte, compreendi que sua intenção foi a de recuperar na memória daqueles que conheceram o Profº Ribeiro as boas lembranças do seu convívio e de seus ensinamentos linguísticos do português, do francês e até mesmo do latim.

Percebi também que você tentou, embora que para alguns de forma exagerada, propiciar a todos os leitores do Blog da APOESC uma visão condensada da figura humana “Ribeiro” dando destaques, inclusive, a sua vida social de esportista e de religiosidade. Contudo, ao qualificá-lo quanto à intelectualidade que lhe era atribuída você realmente extrapolou, meu caro. Extrapolou em dizer que Ribeiro tinha uma palavra.

Nailson, você extrapolou os limites da compreensão de muitos dessa nova geração que vive ricamente conectada à chamada “rede mundial de computadores”. Geração século XXI que no clique, num toque do atalho da “área de trabalho” (para sequer digitar o tal do www), ou numa “busca por qualquer palavras” no “Google” - que a tudo engoliu - tem a sua resposta. Com resposta para todo gosto, conhecimento ou absurdo, em fração de segundos. São os megas, os gigas, teras, computação em nuvens, ou o que se cria a cada instante, que trarão a “palavra” que se procura.

Como ficou fácil escrever, fazer poesias, trabalhos escolares e até monografias. Nailson, pergunta a alguém desses tempos modernos o que é uma “Enciclopédia Barsa”, sonho de consumo que muitos de nós não tivemos acesso? Quem lembra dos trabalhos pesquisados em livros na Biblioteca Municipal? E quando não achávamos, pela escassez de bibliografia, a quem íamos recorrer? Ao professor, é a resposta. A PALAVRA de um professor era a palavra “final”.

Não tínhamos recursos de autocorreção do “word”, tradutor de idiomas, dicionários “on line”, “et caetera” (a propósito, esta última palavra para ser pesquisada). Debruçávamos apenas nas máquinas de datilografia da Professora Maria Andrade (em memória). Então, o jeito era procurar um professor. Professor, que nos trazia uma PALAVRA: da resposta, de sua amizade e sendo incentivadores dos sonhos que trazíamos em nossos corações de estudantes.

Extrapolou, dileto amigo. Os quase que infinitos recursos da navegação em rede nos têm feito esquecer o valor das pessoas, têm produzido seres e relações virtuais. Que fique bem claro que, por princípios cristãos espirituais, como também por convicções próprias, sou contra a qualquer tipo de idolatria ou veneração às pessoas. Não se trata de defender a mitificação de Ribeiro, ser humano que foi cheio de virtudes e defeitos. Apenas resgatar, assim como você, o valor de um bom professor.

Com saudades e reconhecimento ao Professor Paulo Gomes de Andrade, “Paulo de Nô”, homem de honra, sábio, culto e meu primeiro grande professor de Português. Mestre que deixou marcas, que não se pode deletar, em muitas gerações da cidade de São Tomé/RN (5ª e 6ª série, 1978-1979). Ele também tinha a PALAVRA e com o mesmo realmente aprendíamos português e redação.

Com saudades e reconhecimento à Professora Maria Celestina da Silveira, a “Dona Maroquinha”, grande mestra de todos os níveis educacionais e poetisa, que deu muita “aula de graça” no Campus Universitário de Santa Cruz (UFRN) e não teve um reconhecimento à altura, inclusive pela justiça trabalhista.

Com saudades e reconhecimento ao Professor Ivonaldo Feitosa Lopes, Ivonaldo de “Zé Baixinho”, que na sua passagem meteórica pela educação deixou as marcas reluzentes do saber e da perseverança dos que lutam até o “fim”.

Com saudades e reconhecimento da geração “Cônego Monte” ao Professor Raimundo Gomes Barbosa, o sempre “Padre Raimundo”, pelas lições de vida e que insistentemente nos ensinava que para vencer era necessária muita disciplina.

Saudades do Professor Ribeiro, pelo legado que deixou. Que sua memória não fique apenas restrita ao fato de ser o denominativo de uma escola e do “Arraiá do Chico Ribeiro” (com todo respeito e valorização devidos à cultura popular).

Muitos dos alunos desses sábios professores, historicamente desvalorizados pelos governantes, hoje estão graduados e pós-graduados (assim como eu). Foram-se os bons professores de nossas vidas. Ficaram os anéis em nossos dedos.

Do seu amigo,

Roberto Flávio Dias Câmara

Post-scriptum: Suspeito sou ao falar sobre o Professor Ribeiro porque os seus pais eram irmãos dos meus avós (maternos).

Nota: Esta carta teve a revisão do Professor e literato Gilberto Cardoso dos Santos, a quem agradeço e devemos reconhecimento por tudo que tem feito pela educação e pela cultura.