APOESC (Associação de Poetas Escritores Simpatizantes e Colaboradores)

A APOESC (Associação de Poetas Escritores Simpatizantes e Colaboradores), criada em 03.2010 em Santa Cruz -RN, existe para congregar amantes da cultura, apologistas e produtores da arte da palavra.


quinta-feira, 30 de junho de 2011

CADÊ A HISTÓRIA? - Professor Ribeiro

Cadê o coreto que estava em frente à igrejinha, que olhava para o
Cruzeiro, que sustentava a Cruz do Inharé, que guardava as armas da rixa das famílias que deram origem à Santa Cruz do Inharé, que perdeu o nome para Trairi, e que por seu turno acabou também perdendo o Trairi?
Cadê aquela caixa dos Correios instalada na parede da sede da Prefeitura Municipal, que cedeu lugar para a Câmara Municipal, situada vizinha à Cooperativa, que olhava para a Praça onde estava o “Bar do Ponto”que abrigava de Dnaniro Moura a Doutor
Ferreirinha, no Café do Galego?
Cadê aquelas trepadeiras que davam sombra aos estudantes que
olhavam para os “fixus”plenos de “lacerdinhas”?
Cadê a quadra de areia onde se jogava vôlei e a outra de cimento onde Monsenhor Émerson Negreiros – irmão de Sanderson - promovia lutas de boxe com os meninos do Pré-Seminário?
Cadê a casa dos Ferreira de Souza que foi demolida pelo Banco do
Brasil para dar lugar a uma Agência que fica em frente à casa dos Balelê,
única peça que restou do conjunto arquitetônico da Praça Ezequiel
Mergelino?
Cadê as Usinas de descaroçamento de algodão que forneciam
matéria-prima para a fabricação do “Óleo Benedito”, que foram
“engolidas” pelo bicudo que expulsou o homem da terra?
Quem hoje sabe a origem do nome da Rua Cosme Ferreira Marques?
Cadê a Casa Grande que ficava ao lado do riacho das Caibreiras,
que fora cuidada por quase cem anos e destruída com algumas gotas
de óleo queimado de carro, que abrigava os versos e sofria ao som da poesia
do escoteiro Cosme Marques, que pouca gente sabe da existência do seu livro?
Cadê Márcio Marques, poeta da frente da casa de dona Noca, onde a
gente esperava as meninas da Escola Normal que encantavam com o coral de
Marlene, Odaíres – entre outras?
Cadê a História, a Vida, a cidade de Santa Cruz, quase desaparecida
pelo arrombamento do açude novo?
Cadê a Festa do Natal e Ano Novo com os pastoris? Cadê o AZUL
brigando com o ENCARNADO tendo a Diana como a mediadora?
Cadê a Festa de Santa Rita de Cássia com o Parque São Luiz? Com
as barracas?
Cadê o resplendor da Santa que desapareceu misteriosamente como
em “Pedra sobre pedra”? Onde foram desmanchar os gramas de ouro e
as pérolas que ornavam a cabeça de Santa Rita de Cássia?
Cadê “seu”Meireles gritando com suas jumentas como se fossem gente?
Cadê o São João dos Cury?
Cadê o Santo Antônio da Escola Normal?
Cadê o banho na piscina natural do Umbuzeiro?
Cadê o leilão de Santa Rita de Cássia com os gritos de Mane da Viúva?
Cadê Santa Cruz do Inharé?
Cadê a Tradição?
Cadê a História?

Professor Francisco de Assis Dias Ribeiro

A crônica acima foi extraída da obra inédita LITERATURA SANTACRUZENSE, da autoria de Nailson Costa, e vem acompanhada das seguintes considerações:

RIBEIRO: UM CRONISTA DE TRANSIÇÃO

Francisco de Assis Dias Ribeiro, Professor Ribeiro, como era conhecido, nascera em 22 de julho de 1940, na cidade de Santa Cruz. Fora aprovado em primeiro lugar no vestibular de 1981, primeira turma do curso de Letras de sua cidade. Não o concluíra, pois falecera no dia 14 de agosto de 1984. Era o referencial da palavra escrita ou falada, literária ou não, na década de 70, não só em Santa Cruz, como em toda a Região do Trairi. Publicou uma monografia sobre os 66 anos da elevação de Santa Cruz à categoria de cidade em 1980. O professor não era dado aos questionamentos sociais em sua arte.
A crônica abaixo está longe de ser considerada um exemplo de texto de engajamento social. Todavia, podemos observar que já não há mais o exagero do elogio aos aspectos físicos e naturais da cidade, como demonstramos ter observado nos vários hinos dos poetas locais das gerações anteriores. No próprio texto percebemos as suas muitas inquietações, reveladas pelo uso repetido de indagações. O texto sugere a angústia do autor em constatar a rapidez com que o tempo (ou o capitalismo em nome do progresso?) dissolve as colunas das tradições que davam sustentação às suas fantasias. O texto, de modo sutil, insinua que alguém é culpado pela destruição das tradições. E, mesmo fazendo a defesa da memória da cidade, mesmo sentindo saudade do seu passado, o autor ergueu a sua voz contra algo que lhe incomoda.