APOESC (Associação de Poetas Escritores Simpatizantes e Colaboradores)

A APOESC (Associação de Poetas Escritores Simpatizantes e Colaboradores), criada em 03.2010 em Santa Cruz -RN, existe para congregar amantes da cultura, apologistas e produtores da arte da palavra.


domingo, 15 de maio de 2011

EXEGESE DE TÔ FICANDO ATOLADINHA



META-REFRÃO MICROTONAL E PLURI-SEMIÓTICO

3) PLURI-SEMIÓTICO:

O refrão de “Atoladinha” tem vários planos de significado:

a) em termos semânticos, o significado léxico já registrado em dicionário, que abarca o nível denotativo;

b) em termos pragmáticos, “Tô Ficando Atoladinha” desencadeia um novo significado, agora ambientado em um ato sexual. É o chamado nível conotativo dos significados deflagrados pelo uso.

* * * *

Depois desse passeio pelo denota e pelo conota, o refrão foge dessas classificações e vai reverberar no sentido do tato. E o tato já é outro código de sinais.

* * * *

Além disso, cria um signo contundente, quando numa sociedade misógina e preconceituosa, faz uma mulher assumir o comando de um ato sexual e chamar para si o direito e a conclamação do prazer.

* * * *

De acordo com C. S. Pierce, o fundador da Semiótica, o conjunto de signos “To Ficando Atoladinha”, dentro das 10 classificações compostas e combinatoriamente possíveis das tríades piercianas, forma um legi-signo dicente indicial.

Considerando o contexto, eu talvez preferisse um sin-signo dicente indicial, porque o lugar objetivo onde se dá o encharcamento é o vestíbulo vaginal e a metáfora lancinante é mais exatamente uma metonímia – o tropo que estabelece a parte tomada pelo todo.

Estou exagerando? Se o exagero passa por sua cabeça, convoco o testemunho da dra. Carmita Abdo, diretora do Departamento de Sexologia da USP. Em pesquisa divulgada em outubro de 2004 a dra. Abdo revelou que, no próprio campus da USP, um dos bolsões mais civilizados do País, 68% das meninas de 15 a 25 anos revelaram não ter prazer no ato sexual. Alegaram que seus parceiros terminavam antes, não ligavam para o que acontecia com elas. e “com medo de parecerem depravadas ou prostitutas”, não tinham coragem de pedir mais, de pedir ao parceiro que as socorresse na frustração.

2)

Microtonal

O canto microtonal era praticado pelos cristãos nas catacumbas de Roma, onde se reuniam os adeptos de uma religião católica ainda proibida no Império Romano. Depois da oficialização do credo, o papa Gregório, no início do século 7, proibiu a microtonalidade na Igreja e instituiu a escala diatônica, criando o cantochão ou canto gregoriano.

Essa escala diatônica serviria de base para toda a música ocidental. Até hoje somos prisioneiros desse dó-ré-mi-fá-sol-lá-si-dó, com seus sustenidos e bemóis, tanto na música erudita quanto na popular.

Acontece que do ponto de vista da Física, entre um dó e um ré existem 9 comas, que se instituiu chamar quartos de tom e oitavos de tom.

Vale a pena dizer que para um violinista o dó # é diferente do ré bemol. Chegaram a ser construídos na Europa instrumentos de teclado que tinham uma tecla para o dó # e outra para o ré bemol. Depois, no século 18, veio otemperamento, que unificou os dois acidentes.

Muitos músicos e teóricos saíram a campo para dizer que não funcionaria, mas J. S. Bach tomou o partido da inovação. Para provar que dava certo escreveu o Cravo bem temperado.

Desde então a prisão da escala diatônica temperada dominou a música ocidental popular e erudita.

Agora defrontamo-nos com o inesperado.

Há duas exceções: o compositor erudito italiano Giacinto Scelsi e o funk carioca com o MC Bola de Fogo. O primeiro, escrevendo peças microtonais para orquestra e este, escrevendo Tô ficando atoladinha.

No caso de Atoladinha, trata-se de um achado muito simples. Na repetição obsessiva

ficando atoladinha,

ficando atoladinha ,

a cantora não muda diatonicamente a nota musical: num crescendoinsistente, vai subindo obsessivamente quartos de tom, como a própria excitação e aquecimento do assunto requer.

1)

Meta-refrão

Ora,uma peça tão bem achada chama a atenção e põe em questão todos os refrões e toda a arte de compô-los.

Portanto, quando se acusa o meu “Estudando a Bossa” de ser influenciado pelo funk carioca, não se trata de uma aberração: em aspectos mais profundos e em momentos de exceção, o funk tem laivos criativos tão altos como a bossa nova.



Escrito por Tom Zé

Para melhor entender veja o video abaixo: