quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

FREI GILSON, O MOTORISTA E A PRAIA - Gilberto Cardoso

 


FREI GILSON, O MOTORISTA E A PRAIA

 

Um dos prazeres que tenho quando viajo é o de conversar com motoristas de aplicativos.

Geralmente são conversas curtas enriquecedoras ou amenas, aparentes bobagens que são prato cheio para quem escreve besteiras.

Os que andam comigo dizem que transformo estas viagens em sessões de entrevistas. Como alguém já disse, “Tudo que é humano me interessa profundamente”. Às vezes encontramos motoristas cultos, dispostos a falar, e outros bastante simples, mas de prosa agradabilíssima. Os chatos também marcam presença no aplicativo e nos fazem relutar em dar 5 estrelas.

Quanto ao que agora apresentarei, compete a vocês classificarem.

Nossa viagem foi pela manhã, pouco depois das seis. Íamos à praia. Perguntei-lhe sobre o evento da noite anterior ocorrido na orla com o Frei Gilson, se havia sido bom para ele.

“Foi e não foi”, disse-me (no primeiro “foi”, pôs ênfase vocal). “Muita gente na cidade, mais de 500 mil pessoas, mas o trânsito ficou horrível. Não faltavam chamadas no aplicativo, porém o trânsito emperrava tudo e a gente perdia tempo e gasolina. Mas foi maravilhoso ver nossa cidade cheia de turistas de vários lugares, até de outros estados. Mas isso já era esperado, pois Frei Gilson tem mais de 20 milhões de seguidores.”

Vinte milhões!?, exclamei. É gente demais.

“Na verdade ele tem e ao mesmo tempo não tem 20 milhões de seguidores”, depressa corrigiu-se o motorista. “... porque muitos deles o seguem em mais de uma plataforma. Vamos dizer que tenha uns dez milhões ou menos. Mesmo assim ainda são muitos!”

O Frei Gilson é o novo Frei Damião, até pelo modo como se veste e talvez seja da mesma ordem, comentei sem muita convicção do que tinha dito.

O motorista, após certos trejeitos faciais que sinalizavam discordância, disse: “É e não é o novo Frei Damião.” Mais uma vez, percebi ênfase na primeira palavra. “Trata-se de uma outra dinâmica e realidade. Frei Gilson tem se envolvido muito com política. Apresenta um perfil de direita bastante ostensivo. Já assisti algumas pregações dele e vi que ele é uma bênção para determinados políticos e uma maldição para muitos eleitores.”

Por associação, lembrei-me de fotos de Frei Damião com Fernando Collor e outros políticos da época, do aval que dera aos protagonistas do golpe de 64. A única diferença, talvez, esteja na ausência de sotaque italiano nas falas do Frei Gilson. Outra diferença é que Frei Damião não criticou o mandato de Lula, talvez por falta de oportunidade, pois morrera 5 anos antes.

“Aliás...”, disse-me Romualdo, o motorista magro cheio de reflexões, afastando-me das divagações. “... não entendo porque a igreja permite que ele celebre missas na Internet e ao mesmo tempo proíba Júlio Lancelotti de fazer o mesmo. Analisando melhor, eu digo que não entendo, mas entendo!”. Ênfase na última palavra desta vez. “A igreja sempre foi conservadora e aliada à classe política de direita”. Neste momento, aproveitando que estávamos parados no sinal, voltou-se para nós expansivo, fazendo gestos manuais: “Quero até pedir desculpas a vocês por estar dizendo estas coisas, pois pode ser que sejam admiradores de Frei Gilson e se sintam ofendidos”.

Como ninguém se pronunciou no carro, eu o tranquilizei. Disse-lhe que não somos ligados à igreja, tampouco conservadores. “E você”, perguntei. “... é católico?”. Fez pequena pausa e respondeu: “Sou e não sou...”. Ênfase no primeiro “sou”; depois, deu um sorriso à Monalisa ao qual não correspondi. “Gosto mais da linha do Frei Beto e de Júlio Lancelotti. Este último, sim, faz um trabalho maravilhoso, semelhante ao de Jesus: alimentar os famintos e agasalhar os com frio. Talvez a igreja queira escanteá-lo exatamente por fazer o que Jesus mandou!”

“Faltou você citar Leonardo Boff, também perseguido pela Igreja”, disse eu, tentando colaborar com seu pensamento. Mas logo veio a réplica:

“É...! Eu também gosto de Boff, mas acho que ele é e não é católico. Ele, de fato, deu motivos para que a igreja o silenciasse. É quase um ateu.”

Como fiquei em silêncio, prosseguiu: “As pessoas dizem que não devemos discutir religião, mas eu penso que não devem e ao mesmo tempo devem tratar deste assunto”. Ênfase no “devem” final. “Depende do modo como o tema é abordado.”

Olhou-me de lado como a querer ver o impacto de suas palavras. Acrescentou que a religião faz parte da vida, dá sentido à existência e que, por causa dela, havia muita coisa boa e ruim na sociedade. Revelou que queria se aprofundar no conhecimento dos pais da igreja cristã e que começaria por Santo Agostinho. Tinha tentado, dias atrás, ouvir o audiobook do livro Confissões durante as viagens, mas percebera que os passageiros não aprovavam. Teria que arranjar um tempinho extra.

Neste instante minha esposa o interrompeu, tentando mudar o rumo da prosa. Perguntou se o lugar para onde íamos era legal.

“É e não é.”, disse. “Mas não vou entrar em detalhes para não estragar o passeio de vocês. Estive lá uma vez. Há umas coisas que gosto, outras não. Vão lá e tirem suas conclusões.”

“Muito bem, Hamlet, ou melhor, Romualdo. Não dê detalhes”, sugeri eu. “Em breve descobriremos por nós mesmos se presta ou não.”

Romualdo perguntou-me rindo por que eu o chamara de Hamlet. Expliquei-lhe que havia sido um lapso.  E conclui a explicação com a famosa frase “Ser ou não ser: eis a questão!”

Fiz-lhe uma última pergunta: “Você é daqui mesmo?”

Silêncio total no carro por parte dos passageiros. Aguardávamos ansiosos um padrão de resposta e não fomos decepcionados:

“Sou e não sou. Nasci em Uberaba, mas vim pra cá com meus pais ainda bebê. Aqui me batizei. Portanto, sou daqui e ao mesmo tempo mineiro.”

Desejei-lhe um feliz ano novo. Replicou que, se Deus quisesse, ele teria e não teria uma boa entrada de ano, pois passaria trabalhando.

“Tudo de bom pra você, Romualdo. Você amanhecerá o ano novo com um bom saldo na conta”. E acrescentei: “... ou não, pois vai depender do trânsito, não é mesmo?”.

Havíamos chegado ao destino. Ele teve dificuldade de encontrar uma parada adequada para deixar-nos. Disse que seria em um ponto intermediário.

Iríamos descobrir em breve se seria ou não legal o passeio pretendido. Ficamos a refletir sobre a personalidade e ideias do Romualdo, enquanto buscávamos a passarela vista na net.

Não muito distante, próximo a uma pequena elevação sombreada, vimos um grupo animado cantando. Estavam uniformizados com camisetas coloridas onde se destacava a imagem do Frei Gilson. Um violonista, com mãos não muito hábeis, tocava o instrumento enquanto os demais cantavam um dos sucessos do pregador. Notei que a fé e os instintos aproximavam aqueles jovens no ambiente paradisíaco.

Devem ter participado do evento de ontem, pensei, e aproveitaram para vir à praia, em vigília, talvez. Seria gente do interior? Estariam hospedados ali por perto?

Fomos em sentido oposto ao do grupo e começamos a produzir alimento para o feed do Instagram. 

 Vi na areia algo lindo, colorido, que despertou meu lado criança. Seria uma flor exótica? Parecia um pastel transparente ou empanada. Pensei que fosse um brinquedo perdido intacto ou um prendedor de cabelo   infantil. Quando me agachei para apanhá-lo, um homem avançou como se quisesse pegá-lo, como quem diz “Eu vi primeiro!”. Deu-me um empurrão. Antes que eu esboçasse qualquer reação, explicou, enquanto me segurava, que aquilo não era um objeto; tratava-se de um ser vivo muito perigoso chamado caravela-portuguesa. "Bem pior e mais venenoso que a água-viva", disse-me. "A dor da queimadura costuma durar dois ou três dias", acrescentou.

Desculpou-se pelo gesto agressivo, acrescentando que aquilo me salvara de alguns dias de tortura. Pediu que tivéssemos muito cuidado, pois havia visto várias naquela manhã.

Duas pessoas com camiseta de frei Gilson se aproximaram. Um deles, com aspecto de europeu, apontou para o ser marínho e disse: "Sifonóro. Cdinário. Hidrozoária".

Imaginei: "Até estrangeiros vieram ver Frei Gilson!". Não eram. Tratava-se de um estudante de Biologia Marinha. Referia-se ao inconsciente pivô  da cena.

Fiquei feliz pela família não ter filmado nem fotografado o momento em que fui imobilizado. Quanto ao mais, foi tudo tranquilo. Gostei e não gostei.

 

Gilberto Cardoso dos Santos


  Contatos do autor: Fone 84 999017248;  Gmail, Instagram e Facebook: gcarsantos

Livros publicados:

 

 

 


2 comentários:

  1. Muito bem escrito. Prendeu-me a atenção do início ao final.

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  2. Massa! Gostei, e não gostei, com ênfase no “gostei”, e o não “gostei” se dá em função de saber que você não posta crônicas assim com mais frequência ! Dez! (Nailson Costa)

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