APOESC (Associação de Poetas Escritores Simpatizantes e Colaboradores)

A APOESC (Associação de Poetas Escritores Simpatizantes e Colaboradores), criada em 03.2010 em Santa Cruz -RN, existe para congregar amantes da cultura, apologistas e produtores da arte da palavra.


quinta-feira, 16 de novembro de 2017

A CASA DE ZÉ BENTO (cordel) - Selma Crisanto

Sueli, Sânzia, Carlos, Selma, D. Nelza, Seu Celso, Hélio Crisanto


A CASA DE ZÉ BENTO

Autora: Selma Crisanto


APRESENTAÇÃO

Baseados em fatos reais, os versos que ora apresento, trazem em sua íntegra, a história da nossa infância vivida às margens do rio Jacu de Órfãos, localizado no município de São José de Campestre-RN. As marcas daquela época, nunca esquecidas por todos nós, como também a trajetória de vida percorrida até a nossa chegada na cidade de Santa Cruz-RN no ano de 1974 até os dias atuais.
Deixo aqui registrado, a importância da literatura para a família Crisanto, visto que, papai se deleitava todas as noites contando as histórias de Trancoso e seus versos em cordéis para os seus filhos. Nesse ínterim, o meu coração transborda de alegria, porque faço em vida uma singela homenagem a estes dois amantes da literatura, já considerados cidadãos santa-cruzenses: Celso Crisanto, meu amado papai e ao meu irmão Hélio Crisanto, cantor, compositor, escritor e poeta, que hoje completa cinquenta anos de existência com o coração cheio de amor, ternura e bondade.

1
Nascemos numa casa nova
No sítio do meu avô
Vinte milheiros de tijolos
O pedreiro ali gastou
Mas papai tinha um sonho
E logo concretizou
2
Lá na década de sessenta
Com grande contentamento
Papai comprou uma terra
Pertencente  a  seu Zé Bento
Do outro lado do rio
Por três mil e quinhentos
3
Lembro o dia da mudança
Feita num carro de boi
Seis pessoas foram em cima
E a mobília foi depois
Camiseiro, cama e mesa
E uma saca de arroz
4
Ia um silo de farinha
E um tambor de feijão
Uma dúzia de galinhas
Um lavatório de mãos
E o cachorro Trigueiro
Presente do capitão 
5
Chegando ao anoitecer
Naquela casa esquisita
De chão de barro batido
Pra recomeçar a vida
Já era proprietário
Tinha uma nova guarida 
6
Quando o inverno chegava
Era grande a alegria
O rio botava água
Os barreiros se enchiam
O revoado das garças
No céu se embranquecia
7
Era um tempo de fartura
Os paióis de algodão
Colhia-se jerimum
Batata, milho e feijão
E a feira papai ia
Subindo num caminhão
8
O escaldado de leite
E a papa de farinha
Fortificava a gente
Coalhada, queijo e galinha
Pirão de perna de boi
E buchada também tinha 
9
Vovó Marica fazia
O queijo no ponto certo
E a crendice dizia
Ninguém podia tá perto
Mas quem se deliciava
Era a Tina de Terto
10
Bebia o soro num prato
A manteiga derretia
Ainda levava a sobra
Para a sua freguesia
E a farofa da borra
A meninada comia 
11
Tina era uma velhinha
Humilde e bem  pobrezinha
Cuidava da sua irmã
E era nossa vizinha
Maria doida seu nome
Que andava sem calcinha
12
Mamãe ia costurar
Hélio embaixo da mesa
Maria doida dizia
O que é isso Dona Neuza
Tem um gato por aqui
Tenho toda a certeza
13
Maria segurava a saia
 Ficava apavorada
Sem saber da agonia
Mamãe já preocupada
E Zé Carlos descobria
A doidinha tá pelada
14
Tinha a voz enrolada
Mas dava pra entender
Que Maria já sentia
O desejo e o prazer
Por isso andava nua
Não queria nem saber 
15
No ano setenta e três
Já que a safra dava lucro
Papai comprou rádio à pilha
E também um acapulco
A cristaleira de vidro
Por certo no vulco vulco 
16
O fogão feito à lenha
As panelas eram de barro
Tinha só uma bicicleta
Nunca possuiu um carro
Também não tomou cachaça
Nem  fumou nenhum cigarro
17
A gente era feliz
Belos como a açucena
Mas se a gente arengasse
Mamãe não sentia pena
Com o cinturão de papai
Ela roubava a cena
18
No cavalo maribondo
Saía a galopar
Hélio ainda menino
E sem a sela botar
Mamãe morria de medo
Só se via o cabelo e a poeira voar
19
Numa tarde de domingo
Com astúcia de menino
Carlos foi mamar nas tetas
Era grande o desatino
Sofreu um coice da vaca
Que o queixo ficou fino
20
Na escola Viviane
Começamos a estudar
Mas foi a mamãe querida
Que ensinou o bê a bá
Com a carta de ABC
Para alfabetizar
21
Lembro como se fosse hoje
Na escola do Major
Colocava a mão no peito
E afinava o gogó
Em saudação e respeito
Recitava o “rouxinó”
22
Theodorico Bezerra
O herói daquele tempo
Amigo do meu avô
Digo agora nesse texto
Mas o que lhe interessava
Era o voto de cabresto 
23
Depois da primeira série
Fomos pra Serra de São Bento
Sobe serra, desce serra
Foi grande o sofrimento
Estudar para crescer
Sob a chuva, sol e vento
24
Mais de seis léguas andava
Para poder estudar
A correnteza do rio
Tivemos que enfrentar
Raposas e guaxinins
Cavalo a desembestar 
25
Passava na mata fome
Rajada e serra do meio
Era tanta da mutuca
Segurava nos arreios
O sacrifício era grande
Que quase me acabei
26
Nêga Salu, Osmarina
As professoras de lá
Aprimorei a leitura
Aprendi  multiplicar
E com Cicinha Taveira
Eu tive que estudar
27
Mas a cidade não tinha
Um grau maior de estudo
Foi por isso que papai
Pensou no nosso futuro
Trazer a gente de volta
Para um lugar seguro
28
O que a gente não sabia
E cada dia intrigava
Eram as coisas do além
Que tinham naquela casa
Só agora em lembrar
Fico toda arrepiada
29
Uma noite Hélio Crisanto
Acordou muito assustado
Dizia mamãe, socorro...
Chorando quase não pára
Abriram a minha rede
Cuspiram na minha cara 
30
E eu ainda pequena
Via imagens na parede
Parecia um cinema
E uma grama bem verde
De quebra um gato preto
Balança minha rede  
31
Um dia vovó Adélia
Foi lá pra nos visitar
A noite pegou o terço
E começou a rezar
Dizia que a oração
Era pra não se assombrar
32
Logo que anoiteceu
Começou a gaguejar
Valha-me nossa senhora
Um bode pôs-se a berrar
Acendeu o candeeiro
Para a assombração parar 
33
Um dia pai foi pra feira
E mãe começou cavar
Uma botija na sala
Já pensava em enricar
Pois o finado Zé Bento
Pediu pra desenterrar 
34
Disse o finado em sonho
Que o dinheiro não valia
Se ela tivesse medo
Para arrancar sozinha
Chamasse a mulher de óculos
Que era Dona Dorinha 
35
E naquela trevalia  
frisava ele no sonho
Que o dinheiro não valia
Mas uma medalha de ouro 
logo apareceria
E na primeira chibancada
Foi aquela gritaria
É minha, é minha, é minha!
36
Mamãe disse logo a gente
Não contem  isso a ninguém
Nessa botija que cavo
Não encontro um vintém
E foi tapando o buraco
Repare se o seu pai vem
37
Ou casa mal assombrada
Seria a alma de Zé Bento
Que por ali vagava?
Trazendo medo e tormento
Até a chave da porta
Balançava sem ter vento
38
Um dia a boca da noite
Uma voz fanha falou: “Ou de casa”
Até Trigueiro escutou
E saiu logo latindo
Mamãe disse, oxi  menino
Vejam ai quem chegou?
39
Mesmo ainda com medo
Fizemos a caminhada
Da cozinha até a sala
Depois até a calçada
Papai tinha viajado
Para uma farinhada
40
É visagem, disse mãe
Sinto só pelo olfato
Ela ouviu e eu também
Todo aquele aparato
Na dúvida olhem na estrada
Pode ser o Honorato
41
Luzia no outro dia
A irmã de Honorato
Disse logo Dona Neuza
Vim aqui deixar seu prato
E lhe pedir um remédio
Tô vendo a hora um infarto
42
Mãe disse o que aconteceu
Há tempo que não te via
Luzia foi respondendo
Hoje faz é quinze dias
Que Honorato tem asma
É grande nossa agonia
43
Foi ai que descobrimos
Que era mais um malassombro
E assim passava os dias
Papai mudava seus planos
E a ida pra cidade
Seria nos próximos anos
44
Em meio à vida do campo
Papai chegava cansado
Mais a noite era sagrado
Depois que ajeitava o gado
Tomava banho de cuia
Menino pra todo lado 
45
Papai contava histórias
De Trancoso para nós
Centenas delas eu lembro
Seu repertório era franco
Uma guardei na memória
O príncipe do barro branco 
46
Mamãe com a sua garra
Logo incentivou papai
Vamos embora pra cidade
Que a roça já não dá mais
Venderam o sítio que tinha
Deixando tudo para trás
47
Mesmo com o pouco estudo
Pai e mãe eram letrados
Sabiam qual o futuro
E também o resultado
De quem trabalhava muito
De sol a sol no roçado
48
Apostaram nos seus filhos
Jogaram tudo pro alto
Ainda não havia a droga
Nem tão pouco o assalto
Compraram uma casa nova
No riacho do pecado
49
Vovô Joaquim quando soube
Do nosso êxodo rural
Ficou logo capiongo
Começou a passar mal
Na rua tem preguiçoso
Delinquente e marginal
50
Contrariando vovô
Viemos pra Santa Cruz
Três professores formou-se
Com as bênçãos de Jesus
Carlos, Sânzia e eu
A educação faz jus 
51
Sueli essa linda criatura
Contadora competente
Trabalha na prefeitura
Ser humano admirável
É difícil outra igual
Que esteja a sua altura
52
É nossa segunda mãe
Mulher nobre de fervor
Casada com o Tarcísio
O nosso vereador
Pequena só no tamanho
Mas grande no seu valor
53
Outro irmão abençoado
Se chama Hélio Crisanto
Um poeta popular
Com simplicidade e encanto
E com a graça de Deus
Completa cinquenta anos
54
Aqui concluo o cordel
Deixo um abraço a todos que estão aqui
Aos meus pais e aos irmãos 
e a cunhada Ully
A Tarcísio e aos meus netos q
ue moram muito distante
Graça, Laine, Juliana 
e também a Wilsim
Aos filhos e sobrinhos  
e  meu esposo Chagas Pontes!
55
Deixo um abraço também
Para o professor Gilberto
Agiu no momento certo
E cumpriu a sua meta
Pediu-me uma homenagem
Para o meu irmão poeta!

                                   
BIOGRAFIA DA AUTORA

Selma Gomes Crisanto Pontes, Professora aposentada da SEEC-RN, graduada em Pedagogia (UnP), Letras (UFRN), Especialista em Linguagens e Educação (UnP).