APOESC (Associação de Poetas Escritores Simpatizantes e Colaboradores)

A APOESC (Associação de Poetas Escritores Simpatizantes e Colaboradores), criada em 03.2010 em Santa Cruz -RN, existe para congregar amantes da cultura, apologistas e produtores da arte da palavra.


quinta-feira, 30 de julho de 2015

ENTREVISTA COM O ESCRITOR THEO ALVES


Entrevista com Theo Alves

GCS: Theo, comecemos este bate-papo com você nos falando sobre suas origens, formação e trabalho.

TA: Nasci em Natal, embora tenha poucas lembranças de lá. Cresci em Currais Novos e essa é a cidade que me dá uma noção mais próxima de casa, de lar. Gosto de muitos lugares, mas só sei morar em Currais Novos. Sou filho único, sem pai, criado por minha avó, que foi meu esteio e que ergueu todos os pilares sobre os quais construí o que aprendi e o que acredito. Fui um menino de poucos amigos e de algumas alegrias. Não foram muitas, mas foram suficientes.
Embora minha área de formação acadêmica seja Letras, fui um aluno indisciplinado academicamente.
Hoje sou servidor público e atuo como Coordenador de Extensão no IFRN Currais Novos. Continuo lecionando literatura e língua inglesa, duas coisas que me divertem mais do que me dão trabalho.

GCS: Desde quando passou a se interessar por literatura e em particular pela poesia?

TA: Entrei na Literatura pela porta da poesia. Foi uma entrada pretensiosa ainda que não planejada.  Quando nos mudamos para a casa de uma tia que havia deixado a cidade – eu tinha por volta dos oito anos – encontrei uma caixa de livros que ela não levou. Entre eles estava o Espumas Flutuantes, de Castro Alves. Eu me encantei pelo livro, ainda que entendesse muito pouco dele. Gostava da sonoridade, das combinações de palavras e sentia uma elegância ali, algo que fazia da palavra um universo maior do que eu podia prever.

GCS: Fale-nos dos seus escritores preferidos, prosadores e poetas.

TA: a lista é enorme. Sempre li muito melhor do que escrevi. Mas para citar alguns, tenho de começar por André Gide e Jorge Luis Borges, Juan Rulfo, Fernando Pessoa e Manoel de Barros, Jonathan Safran Foer, Kafka, Zvi Kolitz, Gabriel Garcia Marquez, Machado de Assis, José Gomes Ferreira e Vicente Franz Cecim. São alguns. A lista é muito maior, muito maior.

GCS: Qual o papel e importância da leitura em sua vida?

TA: a literatura é o que permite que eu não me afogue, que não me consuma de dentro para fora. É através da literatura que eu encontro um caminho entre mim e o mundo. Mas não é algo apenas pessoal, é também estético, é minha maneira de contribuir com o mundo,

GCS: O que é poesia, Theo, e qual a importância dela para o mundo? Seria dispensável?

TA: eu vou repetir o José Gomes Ferreira, poeta português que adoro: a poesia são os nervos do entulho. O poema não tem utilidade prática. Quem tem isso é o alicate, o botão liga/desliga. A poesia tem existência. Ela não precisa de utilidade prática. Aliás, eu nem sei que paranoia da praticidade é essa em que a gente vive. O poema serve pra ser poema, pra gente pensar, sentir, entender as questões enormes da vida, que podem ir de temas como a morte, a vida, o amor, deus ou outras coisas igualmente grandiosas, como besouros, lodo e poeira. Se um poema nos enternece, nos comove, nos tira da maquinaria objetiva dos dias, esse poema cumpriu seu papel.

GCS: Que livros nos recomendaria?

TA: eu prefiro começar dizendo o que não recomendo: qualquer um das famosas listas de “10 mais”... esses livros não valem a pena. Saber ler e ler essas coisas, é como ser um cozinheiro talentoso e se limitar a cozinhar batata e fazer arroz. É importante ler os bons, os melhores: Cervantes construiu em Dom Quixote um anti-herói imortal. Esse herói sobrevive há séculos e isso não pode ser á toa. É preciso ler A Metamorfose, do Kafka; o Poema Sujo, do Gullar; Memórias Póstumas de Brás Cubas, do Machado de Assis; Crime e Castigo, do Dostoievski. Na poesia, é sempre bom começar por Drummond e Pessoa. Acho que deve-se ler poesia potiguar também: Adriano de Sousa, Márcio de Lima Dantas, Iara Carvalho, Wescley J. Gama, Tatiana Morais,Antonio Fabiano, Paulo de Tarso Correia de Melo, Marize Castro, Risolete Fernandes, e tanta gente boa.

GCS: Quando começou a escrever e se sentiu verdadeiramente um poeta? Fale-nos do seu primeiro livro publicado.

TA: Até hoje não sei se me sinto um poeta. Acho bonito as pessoas me chamarem assim, embora às vezes me constranja, porque costuma estar associado ao “título” de poeta a imagem de um sujeito aéreo, distante da realidade, que trabalha pouco e bebe vinho. Eu não sou esse sujeito. Eu trabalho muito, faço muitas coisas e, embora seja um tanto introspectivo, estou longe demais do estereótipo do poeta alimentado pelas musas. Mas se o poeta for como João Cabral, como Zila Mamede, trabalhadores, poetas com uma foice nas mãos para desbastar o canavial que cerca a palavra, então me sinto um poeta.
Eu escrevi algumas coisas há quase 15 anos que foram publicadas artesanalmente. Os livros eram escritos, depois diagramados, impressos em casa e recortados com estiletes e tesouras. As capas, coladas a mão. Era um processo bruto e que não permitia muitos exemplares. Assim vieram à tona Loa de Pedra (poesia) e A Casa Miúda (contos). Depois, em 2009, a Flor do Sal lançou o meu Pequeno Manual Prático de Coisas Inúteis, também de poesia. Um livro que me custou cerca de 10 anos de trabalho e indisciplina. Mas um livro do qual não me envergonho, o que já significa muito e é uma declaração de amor.

GCS: Gostaria de ver seu parecer sobre o prefácio intitulado SOBRE 118 ENVELOPES DE UM CONCURSO DE POESIA. Após ler uma análise tão rigorosa, fiquei curioso por saber mais sobre os gostos poéticos do autor e quais poetas teriam seu aval. Qual não foi minha surpresa ao deparar-me com seu nome, entre os poucos que ele citou! Que significou para você saber-se incluído neste seleto rol?

TA: Quando um poeta, Professor e crítico do quilate de Márcio Lima Dantas escreve, é preciso lê-lo com atenção e respeito. Márcio não é um aventureiro. Tem crivo muito exigente e é de uma coragem extrema, quase suicida, num universo de muito corporativismo e masturbação intelectual como o da produção literária. Não tenho estofo como poeta ou como leitor para julgar um texto como esse. Mas admiro imensamente a coragem, a lucidez e o embasamento do crítico para escrever o que  escreve. Márcio tem meu respeito e admiração.
Quanto a estar no rol de preferências de Márcio Lima Dantas, eu me sinto honrado. E espero não ter saído desse grupo tão seleto. Eu confesso que também fiquei imensamente surpreso ao me deparar com a declaração. Surpreso e feliz. Ter o respeito dos leitores é ótimo. Ter o respeito de um leitor exigente como Márcio é uma glória.

GCS: Tendo em mente a análise feita no prefácio do poeta Márcio de Lima e com base em seus próprios gostos, o que considera poesia de boa qualidade?

TA: não é tão difícil quanto possa parecer dizer o que é bom ou ruim em poesia. É diferente de dizer o que eu gosto ou não, claro. Mas a poesia precisa atender a alguns critérios: não se pode ter nos dias de hoje uma poesia que cheire ao mofo do Romantismo, por exemplo. A poesia é a vanguarda da palavra, então não podemos viver de evocar símbolos e comportamentos perdidos num recorte temporal passadista. É preciso buscar originalidade, fugir das armadilhas do que já foi experimentado, está calcificado. A boa poesia não pode ser prosaica e casual, tem de ser pensada, arquitetada e distribuída na página com cuidado. Há muita poesia cheirando a mofo nos dias de hoje.

GCS: Cite (alg)uma(s) das poesias que mais ama.

TA: Não tenho coragem! Sou frouxo pra essas coisas. Há poemas demais que eu amo e não teria coragem de uma traição pública assim. O Gide diz que escolher não é eleger, mas preterir. Vou dizer apenas que, dos autores que citei anteriormente, leiam tudo. E de alguns que eu não citei, leiam também.

GCS: Fale-nos de seu novo livro, da repercussão que tem tido e diga-nos como é possível comprá-lo.

TA: Meu livro mais recente é “a máquina de avessar os dias”, que reúne poemas escritos entre 2009 e 1014, muito marcado pelo olhar sobre a vida nas cidades, sobre o que humaniza ruas, prédios, construções... também pelo que a memória traduz da vida miúda, das lembranças pequenas, daquilo que é matéria-prima para a construção que somos, em que resultamos. É um livro que também trata um tanto de metalinguagem, do trabalho sobre a poesia, sobre o processo de elaboração da escrita. Enfim, é uma máquina orgânica, viva. É uma máquina do mundo, pra citar Camões através do Fabio Ulanin, que escreveu o prefácio do livro.
Quanto à recepção, ela tem sido boa do ponto de vista pessoal. Tenho recebido excelentes retornos de quem o leu, seja em contato direto com as pessoas, seja através das redes sociais ou dos amigos dos amigos. Acho que a crítica praticamente não o notou, mas isso não me surpreende.

O livro pode ser comprado através do contato pelas redes sociais, ou pelo site www.maquinadeavessarosdias.blogspot.com.

GCS: Que conselhos daria a um poeta iniciante?

TA: Acho que há dois conselhos primordiais: leia, leia muito; sinta e busque compreender o que sente. Há outras regras importantes: viva; escreva; entenda que o poema é posterior ao sentimento; reescreva; leia de novo; reescreva; continue sentindo; busque; descubra; encontre; maravilhe-se; perca-se...

GCS: Deixe-nos suas palavras finais.


TA: Prefiro a esperança das próximas palavras. Um abraço!