quarta-feira, 10 de junho de 2015

PULGAS - Darcy Ribeiro


     Confesso que este mundo me assusta. Sempre me assustou, tanto pelo que sucede de inesperado e injusto, como pela natureza desnaturada de algumas coisas. A vida vivendo da morte e a morte se alimentando da vida, por exemplo.

   Uma das coisas que mais me espantam é a perfeição desnecessária e inútil de alguns seres. Minúcias de perfeição, perfeitamente dispensáveis. Há seres tão estranhos que seriam impensáveis, se a gente não topasse com eles por aí. As pulgas, por exemplo. Olhe uma pulga, pegue uma lente, agarre uma pulga e olhe com todo cuidado. Examine bem o jeitão dela, meça, depois, os saltos enormes que elas são capazes de dar e olhe as patas que as habilitam para isso. Veja a carapaça, a cabecinha, os olhos, o sugador de sangue, tudo absolutamente perfeito. Admirável. Maravilhoso.

     O criador das pulgas - a natureza, se você quiser - terá tido um trabalhão imenso e ocupado um tempo enorme para fazer as pulgas. tal qual elas são. Para quê? Por quê? Compreendo que um cachorro, um touro ou uma mulher sejam tão detalhadamente perfeitos. Mas me assusta, e até me ofende, pensar que se pôs o mesmo empenho, ou esforço ainda maior, para fazer as pulgas. Alguma razão deve haver. Não consigo é atinar que doida razão será esta.

     É pensável que seres extraterrestres cheguem aqui um dia. Se eles forem pulgas, imaginemos, seria a hora e a vez das pulgas terrestres. Decerto, se comunicariam, adestrariam nossas pulgas para se apossarem do planeta, sem que nós nem percebêssemos, senão quando tudo se tornasse inevitável. 

      A civilização extraplanetária das pulgas poderia acabar facilmente com a humanidade inventando alguma peste. A Aids não terá vindo aí por isto? Não há dúvidas de que as pulgas lá de fora acabariam conosco, se fosse negócio, se tirassem vantagem. O pior é se gostassem do nosso sangue e decidissem nos domesticar como comida movente das pulgas. A humanidade podia até enlouquecer, desesperada, por não saber o que está acontecendo. As pulgas aumentando astronomicamente, ninguém podendo impedir que elas sugassem seu sangue. Os cientistas inventariam hipóteses descabeladas para explicar tudo como uma praga inexplicável. Ninguém descobriria a verdade de que havíamos sido transformados em escravos do reino das pulgas.

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