APOESC (Associação de Poetas Escritores Simpatizantes e Colaboradores)

A APOESC (Associação de Poetas Escritores Simpatizantes e Colaboradores), criada em 03.2010 em Santa Cruz -RN, existe para congregar amantes da cultura, apologistas e produtores da arte da palavra.


terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

DOIS, TRÊS BÁRBAROS ASSASSINATOS - Gilberto Cardoso dos Santos

Que sabemos eu e você sobre os dois jovens assassinados nesse primeiro mês de 2015 em Santa Cruz-RN? Provavelmente muito pouco, bem menos do que deveríamos. Sei sobre o primeiro que o chamavam de "Gordinho" ou "Gordim", que morava num bairro chamado Alegre e  era muito trabalhador. Disseram-me que era um rapaz bonito, simpático e admirado pelos que o conheciam. Alguém acrescentou: "Ele não tinha tatuagem, nem usava brinco, nem piercing."

Nessas horas as pessoas ficam tentando encontrar algo que justifique o crime, uma razão qualquer que caiba ao menos dentro da ótica da bandidagem. No caso de Edivanilson Pereira da Silva, o Gordinho, só obtive boas informações. O jovem de cerca de 20 anos foi vítima duma emboscada. Ao tentar escapar do assalto, foi alvejado nas costas. O dinheiro e a moto, honestamente adquiridos, foram a causa de sua destruição precoce.

Sobre a segunda vítima, Lúcio Flávio, sei mais porque fui seu professor em 2014. Em 27 de janeiro de 2015 - três dias após a morte de Edvanilson - baleado e esfaqueado no pescoço, foi jogado numa pedreira do bairro Maracujá, próximo ao local onde residia. 

Era um menino trabalhador, extremamente simples, órfão de pai. Com seu irmão, vendia picolé e ajudava os familiares no que podia. Ele tinha um temperamento calmo. Os meninos o chamavam de Jubileu e ele apenas sorria. Jubileu, termo de origem bíblica, faz referência a um período de intensa felicidade em que se comemora alguma data significativa. Aos 15 anos, idade que tinha, se comemora o jubileu de cristal. Exatamente aí a vida revelaria para ele toda sua fragilidade. Apesar de ter tal apelido, oriundo de júbilo, alegria,  seu riso não era ruidoso e talvez muito tivesse de resignação. Às vezes, em seu olhar, julguei ler alguma expressão de tristeza, de conformação com as vicissitudes da vida. Quem sabe, a perda do pai tenha agravado essa sensação. 

Eu e os outros professores nunca necessitamos puni-lo por qualquer coisa ou repreendê-lo. Certamente, nesse aspecto, era um motivo de orgulho para a família. No final do ano ele me surpreendeu quando me entregou em seu trabalho final uma porção de desenhos. Eu e outros colegas desconhecíamos seu pendor para a arte. Lembro que manuseamos com admiração cada página e tecemos elogios. A primeira coisa que pretendia fazer ao reencontrá-lo em 2015 era parabenizá-lo perante a turma e a partir daí incentivá-lo ao máximo. Infelizmente, não mais terei essa oportunidade.

Percebemos, por seus desenhos, que ele tinha em seu universo interior sonhos de um mundo justo, como todo jovem. Sua cabecinha era habitada por heróis. Como todos nós, ele e Gordinho deviam se deliciar com algum bom filme ou desenho animado em que o bem sempre prevalece. Refugiar-se nessas fantasias televisivas era uma válvula de escape para a cruel realidade em que todos vivemos. Na imaginação deles, com certeza, o bem sempre prevaleceria. A confiança em Deus  e  em certas pessoas tornavam esse mundo menos assustador. Há em seus desenhos uma moça bonita, de olhar penetrante quem sabe representativa de alguma com quem sonhou e que o fez chorar alguma vez na solidão da pedreira.  Chama-me a atenção, em seus desenhos, um general de olhar firme e bigodudo que cuida de sua segurança. Em seu mundo interior alimentado por filmes e desenhos, o crime não compensava. Nada escapava ao poder investigativo duma polícia bem equipada, não sobrecarregada pelo excesso de ocorrências, capaz de desvendar os crimes mais intrincados.

Lúcio Flávio era um jovem idealista, de alma nobre, sensível ao voo e beleza das borboletas. As flores e as aves, numa região que quase não mais as tem, também o deixavam enfeitiçado. Não julgava um desperdício o tempo que dispendia tentando reproduzi-las no papel. Mas a temível morte, de tão presente ao seu redor, lançava sombras  em seu pensamento e também o inspirava.

No livro O Código do Ser, Hillmann faz da semente de carvalho uma parábola da vida humana. Para ele, cada um de nós vem ao mundo com um chamado, uma espécie de missão e mais cedo ou mais tarde manifestará seus dons e vocação. Lúcio Flávio era um jovem vocacionado para as artes que não teve tempo de se desenvolver o suficiente. Tal como uma diminuta semente, trazia em si o potencial de tornar-se um carvalho frondoso, capaz de dar sombra à familia e amigos. Quem sabe a que alturas chegaria?
Enquanto enterravam Lúcio Cláudio, um desconhecido, perplexo, veio conversar comigo à porta do cemitério. - A situação tá muito complicada, - dizia-me ele referindo-se às duas mortes. - A gente não pode ter mais nada que alguém cresce o olho e quer tomar. Não pode mais ter um carro, uma moto, dinheiro. Antes, pelo menos, estavam matando só bandido. mas agora tão matando gente de bem, como esses dois jovens. Onde vamos parar?"

Sem saber direito o que responder, afastei-me do cemitério, enquanto escutava ao longe, cada vez mais distante, o clamor de uma mãe inconsolável com a injustiça feita ao ente amado.

O que significaria a prisão dos assassinos para os amigos e familiares destes dois jovens? Quase nada, imagino, diante da perda irreparável, mas é o mínimo que se espera. A vida necessita parecer com os filmes para que tenha sentido. Ficamos torcendo para que as autoridades competentes deem a estes casos a atenção que dariam caso se tratasse de pessoas socialmente ilustres ou se se as vítimas fossem da própria família. Estou torcendo, como no final de um filme, para que o bem de algum modo prevaleça e a gente não venha a ter que chorar em breve uma terceira vítima.*




















P.S.: Escrevi esse texto na manhã do dia 03.02.2015. À noite, um pouco depois das seis, mais um jovem (Luiz Welder) foi impiedosamente assassinado, no Alto do Cruzeiro.

Luiz Welder, a 3ª vítima