APOESC (Associação de Poetas Escritores Simpatizantes e Colaboradores)

A APOESC (Associação de Poetas Escritores Simpatizantes e Colaboradores), criada em 03.2010 em Santa Cruz -RN, existe para congregar amantes da cultura, apologistas e produtores da arte da palavra.


quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Poema Inédito de Cosme Ferreira Marques: "SAUDADES DO TRAIRI"


José Mário Marques (filho)

Ainda sem revisão, Gilberto. Minha irmã, Lúcia, descobriu caderno com cópias da maior parte dos poemas deixados por meu pai, ainda inéditos.
Lúcia e Socorro, minha irmãs, localizaram esta pérola, entre os papéis de meu pai poeta (ainda sem revisão):

SAUDADES DO TRAIRI
Cosme Ferreira Marques

Para o livro Terra Abandonada, em preparo. O autor.

Composto em 24-04-1959, 38 dias antes de sua morte, quando o autor se encontrava convalescendo de cirurgia no antigo Hospital Miguel Couto (hoje Onofre Lopes), no Bairro de Petrópolis, em Natal-RN.



Chove, e esta chuva
Faz brotar no coração
Saudades do Trairi
Das terras de meu Sertão...

II°

Aqui eu fico cismando
Nêsse quarto de hospital
Ouvindo todo bulício
Dessa bela capital

III°

De como é diferente
Do meu querido Sertão
A própria chuva não é
Como as de lá, isso não...

IV°

Quem quizer ver a beleza
Da terra da promissão
Onde a mão da natureza
Deu-lhe toda perfeição.



Vamos embora comigo
Esqueçam um pouco aqui.
Estamos a dar um passeio
Nas terras do Trairi

VI°

Sentir comigo a natura
Fertilidade e bonança
Andar em meio a fartura
Da terra que é sustança

VII°
Aqui existem belezas
Belezas artificiais
Existem cinemas, hotéis
Avenidas, hospitais

VIII°

Igrejas belas bonitas
Praias e diversões
Mulheres de lábios pintados
Rapazes que são folgazões

IX°

Existe sim tudo isso
Mas, sem aquela beleza
Com que dotou o Sertão
A nossa mãe natureza



Há coisa mais bela no mundo
Do que a tarde se ouvir
Nos baixios e mufumbais
O gemer da juriti?

XI°

O romper da madrugada
Quando o sol se abre pro chão
Com preguiça vem chegando
Pra clarear o Sertão...

XII°

E começa o lufa-lufa
Cada qual para o trabalho...
O vaqueiro sai a campo
A ver a rez, de tresmalho.

XIII°

Cantando pelas estradas
Vão as lindas caboclinhas
Pros afazeres do campo
Bem cedo de manhãzinha...

XIV°

E cantando alegres da vida
Risonhas, pelas estradas
Juntam-se a seus cantos
O canto da passarada.

XV°

E quando é ao meio dia
Prepara-se o nevoeiro...
Azul pesado de chuva
Com pouco vem o aguaceiro.

XVI°

E a chuva cai, haja água
Nas terras do meu sertão
Risca o relâmpago no céu
Ribomba ao longe o trovão

XVII°

Entra a noite e chove ainda
É aquela gostosa inverneira
Cantam os sapos nas lagoas
Com a música das goteiras

XVIII°

De quando em vez no curral
Chama a vaca o bezerrinho
Num mugido tão saudoso
De amor materno e carinho!

XIX°

Passa a chuva e lá no céu
A lua cheia enamorada
Cobre as terras do Sertão
Doutra chuva prateada.

XX°
Vamos comigo, citadino,
Deixa a civilização
Vem sentir toda beleza,
Que mora no meu Sertão.