APOESC (Associação de Poetas Escritores Simpatizantes e Colaboradores)

A APOESC (Associação de Poetas Escritores Simpatizantes e Colaboradores), criada em 03.2010 em Santa Cruz -RN, existe para congregar amantes da cultura, apologistas e produtores da arte da palavra.


terça-feira, 18 de junho de 2013

Religião versus Prática - Gilberto Cardoso dos Santos

A Naílson Costa e sua mãe, a quem tanto ama.


Religião e teoria são quase sinônimos. Por isso, escolhi este título.
O que me fez desejar escrever este texto foi uma cena vista nessa manhã: Um filho acompanhava a mãe já velhinha, dando-lhe a devida atenção e suporte. Conheço bem o filho e sei que ele não é muito chegado a igrejas. Aliás, o pouco que vai à igreja é para fazer companhia à mãe. Por amor a ela, ouve pacientemente sermões que às vezes lhe soam indigestos. É um filho que continua tão ligado à mãe quanto quando lhe estava no ventre: apenas mudou de lado.

Vi-o a seguir com a senhora idosa e voltei ao tempo em que viveriam situações inversas: a mãe, paciente, esperando pelos passos lentos do filho ainda trôpego. Quem sabe, talvez, ali por aquelas mesmas ruas...  Talvez passeie com a mãe para atender-lhe um desejo que julga desnecessário, mas quer vê-la feliz, assim como ela procedia quando ele era pequeno e pedia para passear.

Trata-se de um irreligioso que segue à risca o que prescreve o quinto mandamento: “Honra teu pai e tua mãe”. Aquilo não necessita vir da Bíblia para penetrar-lhe o espírito: já está escrito em seu coração.

Que mais espera uma mãe idosa, cheia de achaques e feridas da alma feitas ao longo da vida, quando a morte já golpeou tantos entes que lhe eram tão caros? Resta-lhe a esperança de poder contar com o carinho de um filho; de ter alguém que lhe segure a mão enquanto completa a travessia.

Resta-lhe, talvez, o poder contemplar aqueles que lhe saíram do ventre, felizes como ela os concebeu desde o tempo em que ainda brincava de bonecas; restam-lhe alguns beijos e abraços e a esperança de ver pelos olhos embaçados “o fruto do penoso trabalho de sua alma”.

Este de quem falo é alguém que atingiu os alvos estabelecidos pela mãe: casou, construiu uma família bem ordenada, tornou-se benquisto pela sociedade e financeiramente não tem do que reclamar. Mas a possibilidade que ele tem de usufruir dos prazeres terrenos muitas vezes é substituída pelo prazer de estar com sua mãe. O mundo lhe oferece asas e a amplidão, mas ele prefere retornar ao ninho.

Ele sabe quão precioso é cada segundo que lhe resta ao lado dela. Seu olhar transpira gratidão quando busca lucidez naqueles olhinhos carinhosos ilhados nas rugas. Tudo que ele é deve a ela e ao inesquecível pai.
Em direção contrária, vão aqueles que tentam colocar a obra de Deus em primeiro lugar e negligenciam obrigações com a família. Estes, amam tão intensamente a religião quanto aqueles que não cuidaram do homem ferido no caminho de Jericó porque tinham pressa de chegar ao templo.

Nessa mão contrária vai o pregador de uma igreja que visitei recentemente. Fui para fazer companhia a um irmão carnal que nos visitava. A pregação estava boa. Teoria bonita que arrancava améns e aleluias. No final, o pregador pôs tudo a perder. Falou-nos de sua mãe. Obviamente, ocupado com a obra, não podia cuidar dela. Disse-nos o quanto ela sofria (parece-me que tinha câncer) e que a consolara com as seguintes palavras: “Nada posso fazer pela senhora, mãe. Entrego nas mãos de Deus, pois só Ele que tudo pode resolver.”

Aquilo, foi como que um espirro forte num bolo de aniversário recém-enfeitado. Foi como nadar, nadar... e morrer na beira da praia.
“NADA podia fazer?!”, perguntava-se meu irmão indignado depois do culto.  “NADA”, respondia eu com ironia.

Quanto ao amigo que pacientemente passeava com sua mãe pela rua da feira, sei que ele não espera, como recompensa por isso, herdar um lugar no céu. Também não é o temor do inferno que o move. É simplesmente amor. Gratidão. Aliás, céu pra ele é estar com os seus, principalmente com sua mãe. E o inferno começa quando ele se põe a pensar em muitos adeuses definitivos que ainda terá que dar...
Já outros, que têm um inferno a temer e um céu a desejar, não encontram nisto motivação suficiente para cumprir o quinto mandamento. Hipocritamente falam de um Deus que é Pai, e de Maria que é mãe, mas vivem longe do sentimento filial.

Não são religiosos no sentido de estar ligados a Deus, mas teóricos da fé.
Deus pai, que não se engana, sabe que estes o paparicam não com amor de filho, mas como aqueles que visam receber a grande herança... Ele sabe que, caso fosse dispensável como os pais terrestres em sua velhice, também seria lançado num asilo...

Todavia, esqueçamos os exemplos negativos. Fiquemos com os bons samaritanos modernos, aqueles que pouco conhecem a letra da lei, mas a vivem em sua essência. Deem-nos suas bênçãos, filhos bons! Continuem a pregar para nós que frequentamos os templos! Enquanto acontecem os serviços religiosos, façam companhia àqueles que necessitam de vossa presença. O Deus que se transubstancia na hóstia também estará no abraço e no aperto de mão que sustém o corpo frágil.