APOESC (Associação de Poetas Escritores Simpatizantes e Colaboradores)

A APOESC (Associação de Poetas Escritores Simpatizantes e Colaboradores), criada em 03.2010 em Santa Cruz -RN, existe para congregar amantes da cultura, apologistas e produtores da arte da palavra.


quinta-feira, 6 de junho de 2013

ENTREVISTA COM RICARDO DANTAS, autor do romance Meia Pata




GILBERTO:  Fale-nos de suas raízes familiares, hobbies,  formação e origem.
RICARDO: Eu possuo a chamada verdadeira mistura brasileira. Meu pai é Paranaense, filho de um índio Guarani com uma ucraniana. Minha mãe Potiguar, filha de um descendente de portugueses com uma negra descendente de seres humanos que foram escravizados. Eu nasci em Santa Cruz do Inharé, um dos grandes orgulhos que tenho em minha vida. Sou Biólogo, possuo especialização em Meio Ambiente e um eterno amante da arte de Caíssa.

GILBERTO: Qual foi sua relação com Santa Cruz? Quanto tempo você viveu na cidade?
RICARDO: Eu nasci em 1979, e após poucos dias de vida fui embora de Santa Cruz com meus pais. No entanto, independente do estado que estivéssemos morando, sempre íamos passar as férias no Rio Grande do Norte. Faço parte da família Alberto Dantas, meu avô chama-se Ozanan Alberto Dantas. Em 1992 minha mãe se mudou para Santa Cruz, onde cheguei a estudar um semestre na escola Oscarlina. Neste mesmo período envolvi-me com o grupo de Teatro Arte Viva, participando de alguns ensaios. Em 1998 retornei para o Rio Grande do Norte, e novamente passei seis meses em Santa Cruz. Desta vez criei o primeiro programa totalmente de Rock and Roll da cidade, onde tocava Heavy Metal, Black Metal, Hard Core, e Psicodélico. O programa era realizado na então rádio comunitária de Santa Cruz, que ficava acima da farmácia do calçadão.

GILBERTO: Como foi parar em Roraima e quais seus elos de ligação com os índios? Como é seu dia-a-dia com eles?
RICARDO: Morei em Natal até final de 2001. No início de 2002 fui para Roraima a convite do meu tio Pedro Bala, que havia sido transferido pela Caixa Econômica. Fui contratado por uma empresa florestal multinacional que havia acabado de se instalar no estado, onde trabalhei até meados de 2010. Neste período não havia tido contato algum com os povos indígenas. No final de 2010 fui contratado temporariamente pelo IBAMA para realizar um trabalho de Educação Ambiental em áreas com altos índices de riscos de incêndios florestais. Para minha surpresa, o município que fui designado possuía toda sua área dentro de uma Reserva Indígena. Terminou meu contrato e continuei vivendo na Aldeia Boca da Mata. Atualmente sou casado com uma indígena, e em relação a como seria o cotidiano dos povos indígenas, todos saberão no meu próximo romance que estou finalizando, PATAA’ MAIMU – VOZES DA NATUREZA, com tema Literatura Indígena.

GILBERTO: Discorra um pouco sobre o que pensa e sabe sobre a situação dos índios no Brasil hoje.
RICARDO: O maior desafio dos povos indígenas brasileiros na atualidade é a pressão em relação à terra. Os costumes e cultura indígena são completamente diferentes da realidade dos não-índios. Caçar, pescar, praticar agricultura. Necessita-se de espaço! Os Yanomamis, por exemplo, realizam micromigrações em um raio de 3km a cada dois anos para novas roças, e periodicamente macromigrações com raio de 10 a 30km para aumentar o potencial de caça e pesca. Outro ponto muito conflitante é o preconceito. A população, desinformada, tende a absorver o discurso de autoridades políticas e empresários, de que Reservas Indígenas, Reservas Extrativistas, Unidades de Conservação em geral são atrasos para o desenvolvimento econômico do país, e assim criam estigmas negativos dos povos tradicionais que, por direito constitucional, habitam e tem autenticidade sobre estas áreas. A Educação Escolar Indígena é um ponto positivo. Atualmente atuo como professor de Biologia e Química no ensino médio da Escola Indígena na aldeia que vivo. Apesar da luta constante, estamos tendo avanços no que diz respeito à garantia de uma educação específica e diferenciada, com calendário escolar específico, respeitando os costumes e tradições, além de contemplar o estudo da língua e arte indígena, com currículo escolar diferenciado.

GILBERTO: E o romance “Meia Pata”, como surgiu a ideia?
RICARDO: “Meia Pata” foi iniciado em 2008 quando comecei a trabalhar em um Plano de Manejo Florestal Sustentável, município de Caracaraí, Roraima. Os trabalhadores florestais da empresa de manejo eram em sua maioria antigos Extrativistas de Castanha da Amazônia da região. Eu os acompanhava no interior da floresta, supervisionando as atividades florestais. Obviamente que eles contavam muitas estórias sobre a vida na floresta. Além do fato que ficávamos realmente acampados durante meses no interior da selva densa. Inspirado por aquela oportunidade única de relatos, e claro, experiências pessoais em contato com a Natureza, iniciei a obra. 

GILBERTO: Qual a temática desse romance?
RICARDO: O argumento do romance “Meia Pata” consiste em um biólogo pesquisador, Daniel Silva, que no final da década de oitenta, tem como objetivo estudar a maior selva do planeta. Acaba indo para Roraima, e completamente sem infraestrutura, parte em sua jornada ao interior da floresta. Em sua experiência no local mais isolado e peculiar da Amazônia Legal, Daniel será submetido a todo tipo de situações, como um romance inusitado e místico com a linda indígena da etnia Macuxi, Iara Parente, e um embate por luta de território e respeito com a maior predadora da floresta, a onça pintada. O interessante será observar os detalhes com que descrevo os ambientes naturais, e as transformações do comportamento humano diante da majestosa Natureza. O personagem da onça pintada é um atrativo a parte. Toda a manifestação de comportamento deste grande felino foi fruto de muita pesquisa e debates com grandes especialistas que estudam felinos em geral, principalmente onças. A personagem indígena foi um grande desafio. Escrever sobre o comportamento de um personagem que vive em uma cultura completamente diferente, tornou-se um processo de superação. Posso afirmar que o texto irá agradar desde profissionais e pesquisadores da área de Recursos Naturais, que irão aproveitar além do enredo do romance, a descrição do ambiente palco da obra; até mesmo o leitor que nunca esteve no interior de uma floresta, que irá fechar os olhos e sentir os elementos da vida selvagem.

GILBERTO: É uma obra inteiramente ficcional ou baseada em fatos reais?
RICARDO: É uma ficção inspirada em fatos reais. O fato do protagonista ser potiguar é simplesmente porque quis homenagear meu estado de origem. Certa vez me perguntaram se o protagonista era norte americano, naquela velha visão que para uma história ter valor, mesmo em solo brasileiro, o protagonista tem que ser estrangeiro. Então, como optei em escrever um argumento totalmente valorizando nossos povos tradicionais, costumes, cultura e belezas naturais, obviamente que vão existir muitas similaridades com minhas experiências e a de milhões de brasileiros que habitam a Floresta Amazônica.

GILBERTO: Como se sente sendo o primeiro santa-cruzense a publicar um livro no gênero romance?
RICARDO: Na verdade fiquei muito surpreso ao saber deste fato. Sinto um orgulho imenso! Pois valeu a pena decidir conhecer e viver em outras regiões brasileiras, testemunhar culturas diferentes da minha origem, e mesmo me privando de minha terra querida, poder presenteá-la com um relato de uma experiência na maior floresta tropical do mundo. Tenho certeza que este romance irá inspirar muitos jovens escritores santa-cruzenses a enveredarem por este estilo literário.

GILBERTO: Tem outras obras escritas? Quais suas pretensões como escritor?
RICARDO: Meu estilo literário intitulo como Bioarte. Como citei, atualmente estou desenvolvendo meu segundo romance, com tema Literatura Indígena, que além de retratar a cultura e costumes de três Povos Indígenas de etnias diferentes da região que vivo, retratarei as belezas naturais da Reserva Indígena São Marcos, região de serras na divisa entre Brasil e Venezuela. Meu objetivo é trabalhar com palestras em universidades e instituições de ensino em geral, difundindo o conhecimento ecológico, atrelado com a importância da literatura ficcional como uma ponte de informação para o público em geral, ao contrário da literatura científica que é técnica e restrita.

GILBERTO: Como a leitura entrou em sua vida e qual a importância para você?
RICARDO: Minha mãe, Ozanilda Dantas, foi minha grande incentivadora tanto na leitura quanto na escrita. Formada em Letras, para ela era fundamental que seus filhos tivessem o maior entendimento da Língua Portuguesa, pois assim poderíamos entender o contexto do mundo a nossa volta.

GILBERTO: A quem se sente particularmente grato pelo lançamento de seu livro?
RICARDO: Evandro Rohen, proprietário da Editora Kazuá ( www.editorakazua.com ), sediada em São Paulo. Após finalizar Meia Pata, percebi que o mais difícil era publicar o livro. Muitas editoras batiam a porta na minha cara porque eu não possuía capital para investi nos custos totais ou parciais da publicação. Quando finalmente decidi que deveria investir em Meia Pata, atraído por uma proposta acessível, acabei não recebendo nem os exemplares e muito menos o dinheiro de volta. No momento que estava desistindo de publicar Meia Pata, principalmente devido ao prejuízo financeiro que havia sido acometido, Evandro apareceu e me disse: “Ricardo, tive acesso ao seu manuscrito e acredito nele! Vamos publicar?”. Mesmo avisando não ter nenhum capital para investir, Evandro finalizou: “Não se preocupe. Seu manuscrito tem potencial. Irei investir nele.”

GILBERTO: Desde quando escreve? Que outros gêneros o atraem?
RICARDO: Com pretensão de me tornar escritor, desde 1998 que ensaio contos e peças de teatro. Atualmente, além de prosa romanceada, escrevo artigos de opinião para jornais de circulação estadual. Também cheguei a escrever algumas matérias jornalísticas que foram publicadas. Tentei escrever poesias, mas sou uma negação. No entanto, a Bioarte é essencialmente uma prosa/poética!

GILBERTO: Cite-nos escritores e obras que você considera fundamentais.
RICARDO: Em termos de romances, meus autores preferidos são em sua maioria nacionais. Eles vão desde Marcos Rey, a João Cabral de Melo Neto. Romances com temáticas regionalistas como “Vidas Secas” de Graciliano Ramos e “O Guarani” de José de Alencar, inspiram-me. Em relação aos autores estrangeiros, destaque para James Fenimore Cooper (The Last of the Mohicans) e Ernest Hemingway (The Old Man and the Sea), autores que retratam a beleza e detalhes da natureza, e a interação do ser humano com seus elementos selvagens.

GILBERTO: Partilhe um ou mais pensamentos que lhe servem como lema de vida.
RICARDO: Muitas pessoas dizem que por eu estar morando atualmente entre os indígenas eu demonstro humildade. A humildade não existe. A humildade é doação completa, e a humanidade é egoísta por natureza. Simplesmente estou sobrevivendo. Assim como também não existe artista humilde ou arrogante, mas sim aqueles que entendem o verdadeiro significado da arte. A minha arte existe para exaltar a diversidade de nossas culturas, ambientes naturais, e assim contribuir como repertório de conhecimento para a humanidade, e não para proporcionar uma segregação narcisista.

GILBERTO: Como e onde se pode adquirir seu romance “Meia Pata”?
RICARDO: Atualmente “Meia Pata” está disponível para aquisição através do link: http://www.zungueira.com.br/meia-pata-ricardo-dantas.html