APOESC (Associação de Poetas Escritores Simpatizantes e Colaboradores)

A APOESC (Associação de Poetas Escritores Simpatizantes e Colaboradores), criada em 03.2010 em Santa Cruz -RN, existe para congregar amantes da cultura, apologistas e produtores da arte da palavra.


segunda-feira, 22 de outubro de 2012

RECLAMA-SE AQUI! - Prof. Maciel


            

O suor escorria pelo corpo sob o sol causticante parecendo meio dia. Agarrado àquela alavanca que nem era a mais adequada e de tão usada já não mais produzia tanto, retardando ainda mais o serviço. Foi assim que seu Chico Geraldo decidiu respeitosamente com o chapéu em punho, lançar sua prece em terra seca, da serra grande para o céu sem nuvens: _ “Tenho fé em Deus que ainda compro uma lavanca nova!” Seu Dedé, ali do lado, cúmplice de todos os contragostos do irmão, reclamou: “_Home, peça isso não! Diga assim:_ Tenho fé em Deus que ainda saio dessa vida!”

Já seu Antonio Nunes reclamava de um trabalhador de suas terras porque reproduzia demais: _ “Mulher tem menino de quanto em quanto tempo? É que tenho um morador que só vive na minha porta pedindo carro pra mulher parir”. Essa cena já era uma evolução dos partos em casa com as parteiras dona Salvina, dona Vezinha, madrinha Maria França.... E foi só na década de setenta, na campanha de prefeito, que Pedrinho de dona Vezinha assumiu o compromisso em campanha de que se eleito fosse compraria uma ambulância, com a ênfase de que seria para transportar os pacientes do município. Disso o candidato adversário reclamou em palanque: _ “Meus amigos! O outro candidato tá aigoirando misera. Se eleito for, compro é um carro pra nós passiar.”

Mas quem passeou nesse tempo foi um casal da cidade e que nem teve filhos. Em ano bom de inverno, bom de algodão, juntou suas economias e comprou um jipe. O esposo empenhou-se para aprender a dirigir e no primeiro passeio a dois, o carro atingiu velocidade de 40 km/h e a mulher reclamou para que fosse devagar. Eis agora um marido constrangido e conciso em suas palavras: _ “Muié, tu é muito é feia!”

E em ano de fartura de algodão, também o era de milho, feijão e de “mistura”. Tio Amadeu passou no roçado de seu Antonio Certeza e sem sua ordem pegou uma melancia. Já este, ao contabilizar a falta no tomar conhecimento do feito pela confissão por parte da autoria, com maestria detonou a sua reclamação: _ “Tem nada não, seu Amadeu, aquilo é comer de poico mermo”.

A exemplo de seu Antonio Certeza, Chicão, seu Braz... e seu João Antonio, seu Pedro Cândido também tinha por hábito suspender os afazeres do roçado e dedicar-se a tomar umas e outras. Em mais um dia já alcoolizado reclamou do que se confundira, após ouvir de um colega de farra que o mundo estava prestes a se acabar por causa dos ESCÂNDALOS entres os povos: _ “Os cãindo mermo não! Nos cãindo só tem home de bem!”

E bem no meio do ano de 1974, junto com a energia elétrica inaugurada pelo saudoso governador Cortez Pereira, chegaram também os primeiros eletrodomésticos. As frutas passaram a ser comuns nas receitas de dindin, menos para uma senhora que insistia em fazê-los só de Q-suco, sabor artificial de morango, para vender e ajudar nas prestações de sua geladeira. A vizinha também adquiriu uma e resolveu entrar no ramo, só que inovou, oferecendo também outras opções, ainda mais da própria fruta, com o filho a fazer propaganda na calçada: Olhe o dindin de banana! Olhe o dindin de goiaba! Olhe o dindin de abacate! Olhe o dindin! A senhora do morango artificial vendo a debandada dos fregueses e já impaciente com tudo aquilo, certa vez bateu a porta de casa com toda sua força, mas não sem antes reclamar/esbravejar com a sua concorrente: _ “Nesses dias vão inventar dindin até de bosta!” (Pronto, paro aqui e o leitor se quiser pode sim reclamar de uma crônica que termina em...!)