APOESC (Associação de Poetas Escritores Simpatizantes e Colaboradores)

A APOESC (Associação de Poetas Escritores Simpatizantes e Colaboradores), criada em 03.2010 em Santa Cruz -RN, existe para congregar amantes da cultura, apologistas e produtores da arte da palavra.


quinta-feira, 23 de agosto de 2012

ENTREVISTA COM NAILSON COSTA – Escritor Potiguar


Entrevistado: José Nailson Costa de Medeiros

Entrevistador: Gilberto Cardoso dos Santos

Dados sobre o entrevistado (por ele mesmo): Servidor Público do Tribunal de Justiça do RN. Casado. Ajudei a fundar o PT local, o IESC, a Liga Desportiva Santacruzense, a ASPE, o basquetebol e outras coisas. Torcedor do melhor time do mundo, Fluminense do Rio.


1. Caro Nailson, você tem contribuído muito com o sucesso deste espaço virtual, propagando-o e enriquecendo-o com matérias interessantes. Vamos aqui trocar umas ideias, ter um bate-papo do bem que nos permita conhecê-lo melhor. Gostaria que iniciasse nossa conversa falando-nos de suas origens, família, profissão, paixões, defeitos, virtudes e formação.

    Caro Gil, sou filho daqui mesmo de S. Cruz, nasci ali naquela segunda casa vizinha aos correios, no dia 11 de setembro de 1963, às 15h15min de uma quarta-feira, tempo nublado, e fui pego pela parteira d. Emília Mariano (falecida neste mês de agosto lá em Campo Redondo), 5 meses depois da vinda do Presidente da República para inaugurar a energia elétrica, 1ª cidade do RN a dar a luz, e eu vim junto, é por isso que tenho ideais comunistas, apenas isso. Meu pai era agricultor e minha mãe professora lá na Escola Estadual Quintino Bocaiúva. Estudei o jardim no ICM, o Primário no Quintino, o Ginásio no Ginásio Comercial , o 2º grau (Ensino Médio) na CENEC e no Projeto Logos II e Terceiro Grau (Ensino Superior na UFRN, Letras e Ciências Contábeis). Tenho duas Pós-Graduações, uma em História do Nordeste (Identidade – a Questão Nordeste) e outra em Língua Portuguesa; iniciei uma terceira Pós em Literatura, mas foi o tempo em que mudei de emprego e deixei de lado. Penso em retomá-la. Tenho virtudes e defeitos, como todo mundo tem. Talvez o meu maior defeito seja o de ser chato e exigente; detesto quem fuma perto de mim, quase não vou mais aos estádios e clubes pra não ter que mandar o fumante pra casa de cacete; odeio a intransigência, a burrice, a falta de caráter, a velhaquice e os mal cheirosos. Porém, acho que ainda vou tomar um soco nas fuças por dizer na cara uma verdade que, às vezes, é melhor sair pela tangente. Esse é o meu maior defeito.
2. A Literatura santacruzense tem em você um dos maiores protagonistas. Fale-nos de suas intervenções e contribuições neste campo.

    Foi em 1986 que me chateei com aquela mesmice todo ano, quando iniciava o ano letivo e lá tinha eu que começar aquele conteúdo programático que nos enfiavam goela abaixo. Claro que a literatura brasileira é belíssima, mas resolvi comprar a briga, e introduzi no plano anual alguns aspectos da nossa literatura santacruzense (sem hífen mesmo). A partir daí, me senti na obrigação de pesquisar os nossos poetas e escritores presentes e pretéritos. Foi barra, mas comecei a gostar da empreitada e descobri a beleza da nossa literatura local, a ponto de tê-la como o meu objeto de estudo da minha pós-graduação em estudos do Nordeste, no ano de 2002. Iniciei falando em sala de aula de nossos poetas e trabalhando suas obras, forma e conteúdo etc. Lembro-me de ter encontrado uma certa resistência numa determinada escola em que trabalhava, quando uma mãe de aluno foi à diretora da escola perguntar se as poesias de Zé da Luz, de Marcos Cavalcanti, de Hélio Crisanto, de Nailson Costa e de outros mais antigos caíam no vestibular. Foi a partir daí que percebi o quão difícil seria seguir com esse projeto. Mas fui. Recebia um elogiozinho ali, um coice acolá, mas fui. E meu maior presente foi quando, numa entrevista na TV, o grande Tarcísio Gurgel , em 2003, comentando os avanços da literatura potiguar, fez uma mençãozinha à minha pesquisa, pois no ano anterior tinha eu dado uma cópia do meu trabalho a ele. Fiquei todo me achando. Me deu até uma diarreia nesse dia.

    3. Como foi despertado em você o gosto pela leitura? Fale-nos das primeiras obras e de algumas que deixaram marcas até hoje. Quando de fato aprendeu a ler?
    Rapaz, eu aprendi a ler, acho que com 5 anos. Lembro-me da palavra MUITO, em que eu pronunciava a letra i bem forte e ficava muIIIIIIto, motivo de risadagens dos presentes. Os gibis foram a minha iniciação, Pateta, Mickey, Zé Carioca, Cebolinha, Bolota, Cascão, Mônica, TEX WILLER, se você espremesse a revista, saía sangue demais, e eu adorava violência, pois quando criança, meu pai me botava pra lutar com meus irmãos (minha irmã, pois o meu irmão era magrinho e apanhava muito de mim, já minha irmã não, ela era gordinha, aguentava o tranco), eu apanhava era dos meus primos lá de S. Bento, chegava todo inchado em casa e ainda levava uns puxões de orelha do velho, que não admitia que eu fizesse feio. Papai entendia alguma coisa de jiu-jitsu e viva a me dar quedas, a torcer os meus braços e pescoço. À noite, mamãe saía pra estudar na Escola Normal e papai fazia um octógono na sala da casa. As janelas ficavam cheia de gente pra ver o grande lutador Ted Boy Marinho, como me auto denominara na época. Depois vieram livros melhores, como as obras de Monteiro Lobato (havia outros escritores, porém não me recordo não).

4. Mencione educadores e educadoras que foram importantes em sua trajetória e sinta-se à vontade também para salientar aspectos negativos de sua formação.

    Rapaz, a minha melhor professora foi Dona M., irmã do grande professor R. E aqui não divulgo o nome dela porque temo que ela pense ser a minha intenção denegrir a sua reputação, apesar de ela não mais morar aqui e já está aposentada há muito tempo. E não será nunca a minha intenção magoá-la, pois ela foi um grande incentivo na minha vida como estudante. Pense numa mulher inteligente. Fui seu aluno na 4ª série do primário lá no Quintino Bocaiúva. Dona M. odiava minha mãe, ambas eram professoras, mamãe da 3ª e Dona M. da 4ª série. Dona M. acusava mamãe de aprovar os alunos sem saber de nada. E Dona M., de cara, não foi comigo, me chamava de repetente, pois tinha eu sido reprovado no ano anterior. Eu era moleque ruim mesmo! Vivia a rasgar as saias das meninas e a furar a cabeça dos coleguinhas, com pedradas e lapisadas. Detestava estudar. Em 1975, primeiro dia de aula, D. M. me viu em sua sala e logo me homenageou em público “ Você é o filho de Terezinha, é o REPETENTE, num é?”, sim, sou eu, professora”. Ela dividiu a turma no primeiro dia de aula, de modo que ficou um corredor no centro da sala, e aos 20 alunos da direita, ela os chamou de turma forte, e aos outros 20 da esquerda, incluindo eu, ela os batizou de turma fraca. Em menos de um mês, Ozanaide, linda menina, bonequinha inteligentíssima, a disparada melhor e mais bela aluna da classe, pediu à professora que me botasse na turma forte, pois eu era o único que respondia às perguntas das muitas gincanas que D. M. fazia. D. M, professora cuja metodologia era avançadíssima para aquela época – um construtivismo, talvez - sempre obedecia aquela linda menina. E fui pra turma forte ser um dos melhores dela até o final do ano. fora ela, a professora M., quem me fez desasnar para os estudos. Fora a professora M. quem, do alto de suas mais cruéis palavras de desprezos a um garoto de apenas 11 anos, quem me abriu os olhos e a mente, fazendo-me entender positivamente a tabuada, conhecer as classes de palavras, encontrar as cidades, rios, regiões no mapa múndi, e, com desenvoltura, ler em público, escrever historiazinhas, recitar e produzir poesias, dentre outros aprendizados. D. M. pra mim foi tudo de bom, nos mais amargos momentos de minha de vida estudantil. Ela inventava os passeios em sítios e cidades vizinhas. Eram aulas práticas, inesquecíveis. Até inventara uma manhã de lazer na pequena piscina do BNB só para medirmos, com fitas métricas e trenas, a capacidade daquele reservatório. E foi com ela que aprendi o que era quadrado, retângulo, cumprimento , largura e metros cúbicos. Quando o normal era inventar uma aula para o lazer, ela inventava o lazer para uma aula. Devo dizer, também, que no crepúsculo do não letivo, já estava eu aprovado por média, pela primeira vez na minha vida escolar, no terceiro bimestre. E dela recebi uma elogio eloquente em público , a ponto de ainda hoje me acordar, nas altas madrugadas, ouvindo aquele “Gente, Nailson está de parabéns, ele foi o melhor aluno este bimestre e, por isso, já está aprovado por média!” E foi aquele estrondoso aplauso. E recebi um grande beijo dela na minha testa. Devo a ela o meu interesse pelos estudos. Ela é , de longe, a melhor professora que tive! Mais tarde tive outros bons professores, como T U e Mons. Raimundo. No ensino superior destaco Magali, no curso de Letras, que nem de Letras era, ensinava Estrutura e Funcionamento do Ensino. Foi ela quem despertou em mim as teorias socialista e capitalista. Ela simplesmente me abriu a cabeça. E a partir daí, comecei a ler Frei Beto, Leonardo Boff, Marx, Engells, Trostsky e outros, a ponto de , já “mal intencionado”,emprestar o livro de OSPB ao professor Erivan dos Santos, sabendo que ele era explosivo e bom de briga e que ensinava Moral e Cívica e OSPB no Instituto Cônego Monte, do Padre. O cara se empolgou tanto que, um ano depois, me convidou pra fazer uma revolução em Santa Cruz. E fizemos. Em 1986, fundamos, juntamente com Parafuso, Branco, Zé Rosa e Jadson Umbelino, o PT, um partido radical de esquerda em S. Cruz. Fiz isso, exatamente, por me conhecer, ou seja, eu não seria capaz de tomar à frente de uma tão grande empreitada. E isso é um ponto muito negativo em mim. Sou meio preguiçoso. Se tiver quem faça por mim, ótimo! Veja, eu quase não participo desses momentos de cultura de S. Cruz, apesar de estar sempre sendo convidado, inclusive por você, pra participar de seu programa de Rádio. Vou não, quero não!

5. Certa vez ouvi-o falando da importância da leitura. Dizia, entre outras coisas, que ler é o melhor meio de se aprender regras gramaticais. Gostaria muito que discorresse sobre isso.

    Tinha um cabra de quem eu admirava muito aqui em S. Cruz. Era Seu Mário Carneiro, então servidor da Emater de S. Cruz, na década de 1980. Ele escrevia maravilhosamente bem pra os jornais daquela época, inclusive fora ele quem me apresentou a um amigo seu do jornal Diário de Natal, onde escrevemos por quase um ano. Ele escrevia sobre técnicas de plantio etc, coisas de sua seara agrícola, pois era engenheiro agrônomo; eu, o de sempre, crônicas. E o cara dominava as regras gramaticais a ponto de me desafiar constante aborrecentemente. Falava ele, com aquela gargalhada de orelha a orelha, me babando todo e quase se engasgando com o gole de whisky, que era só hábito de leitura que o fizera assim. Ele dizia, “Professor, quem lê mais, sabe mais, inclusive gramática!” E era verdadeira aquela assertiva.
  1. 6. O que nos diz da cultura do “textículo”, tão dominante nos dias atuais?
    Olhe, o textículo, pra quem gosta, é por demais saboroso. Eu, particularmente, não gosto de textículos, muito menos dos meus. Essa onda de ser sucinto nos castra totalmente. No Facebook, por exemplo, quando iniciei nessa nova onda, fui violentamente criticado pelos meus próprios filhos, que diziam “ Painho, se liga, ninguém vai ler esse texto longo demais não! Facebook é textículo!” Aí, cara, é de lascar! Um texto que publiquei na semana passada, o que faz menção a Treca, figura pitoresca interessantíssima daqui de S. Cruz na década de 1970, tinha tudo pra ser até mais interessante do que o de Pananana. Mas não o foi porque deixei de escrever muitos detalhes cômicos, simplesmente pra não deixar o texto grande. Ficou tão sem graça que nem você pescou de lá pra o blog. O textículo, por ter vizinho tão inconveniente, é uma merda mesmo!

7. Houve uma fase de sua vida em que você aparentemente decepcionado com o desprezo pela cultura pareceu enterrar seus talentos e querer desistir da vida literária. Fale-nos sobre isso.

    Foi depois de tomar umas borrachadas lá naquela escola em que você trabalhou também. Críticas e desprezo de alunos e até de alguns professores, que não se interessavam por literatura. Professor Fulano, lá daquela escola, certa vez veio com essa pérola, “Qual é função da literatura? Em que ela contribui para o futuro de nossos alunos? Não tem serventia nenhuma essa tal de literatura!” Aí foi somando isso mais aquilo e mais o desinteresse dos alunos pela leitura foram me derrubando, e, de certa forma, me derrubou e muito. Lembro-me que tinha um grande projeto, o de transformar meu trabalho sobre a literatura de S. Cruz em livro. Lutei, procurei patrocinador , divulguei e nada. Depois veio a minha nomeação para o Tribunal de Justiça e aí foi a cacetada final. Passei os anos de 2007, 2008, 2009 e 2010 que não queria nem ouvir falar em literatura. Nesse período, Djair se ofereceu pra lançar o meu trabalho, transformá-lo em livro e eu lhe dei o maior gelo. Até tenho vergonha dessa minha atitude. Com o surgimento dos blogs do Wallace, da APOESC e do Facebook voltei a escrever. Esqueci-me de dizer que tinha escrito a 2ª edição de meu livro “Futebol: Documento de uma Paixão” e, naquele meu momento de hibernação, e angústia, deleitei o trabalho. Me arrependi, claro.

8. Tanto em prosa quanto em verso você se dá bem. Tem preferência por quais gêneros?

    A prosa em mim fala mais alto. Tenho muita dificuldade em fazer poemas, simplesmente porque a poesia não me fez sua melhor morada. Raramente tenho momentos de verdadeira poesia, e, quando elas passam por mim, são nos meus momentos de angústia. É só dar uma olhadinha nos meus poucos poemas que será fácil detectar que nela habita uma poesia de melancolia ácida. Prefiro a prosa ao verso. Na prosa tenho muito o que dizer. A minha memória me é amiga e tem me reservado suas melhores perspectivas. Vejo coisa que até me assusto e dou risada e digo, isso é bom, vou escrever algo a esse respeito. E a coisa flui, e não é textículo não.

9. Você mudou de profissão, mas não perdeu, julgo eu, seu lado professoral. Fale-nos de seus (des)encantos com a educação e o que significou mudar de emprego.

    Gil, mudei de profissão porque tinha que mudar mesmo. Não tenho vocação para o sofrimento não. Gosto por demais de educação, assim como gosto demais de meus filhos. E se alguém bater num dos meus filhos, o bicho pega. Bateram demais e ainda batem na minha querida educação, e a minha resposta foi sair dela. Não aguentei ver um filho meu apanhando que nem jumento desses nojentos que se perpetuam no poder e o bicho pegou. Saí feliz com o coração totalmente dilacerado E minha resposta, meu contra-ataque, a minha vingança foi essa mesmo, sair da educação pra não viver compartilhando tão grande dor, a do constante descaso para o com a nossa querida educação. Sempre serei professor. Não existe ex-professor, uma vez professor, professor sempre será. Tenho orgulho de ainda o ser assim chamado. Meu novo emprego , de certa forma, me traz independência financeira e um certo reconhecimento, mas lhe garanto, não me dá os grandes orgasmos dos poucos, bons e inesquecíveis momentos da docência.

10. Há muito você escreveu o livro Literatura Santacruzense - obra de importância capital para o conhecimento de nosso desenvolvimento literário. Que visão tem hoje, do alto de seu amadurecimento físico e cognitivo, a respeito do cultivo das letras entre nós?

    Essa obra carece de atualização. Djair quando se ofereceu pra lançá-la fez uma única exigência, que eu a atualizasse. Não o fiz simplesmente porque estava no meu momento de hibernação cultural. Penso em fazê-la, pois tratar de nossa rica literatura sempre me foi a melhor de minhas preferidas metas, e se hoje o momento existe, e isso me traz alegria e não me deixa triste, vou incluir as novas obras de nossos melhores escritores e impagáveis poetas. Dr. Jair Elói de Souza disse a semana passada que o nível dos poetas e escritores de S. Cruz é muito bom. Segundo ele, Assu, que é considerada a cidade dos poetas, não tem um nível tão elevado quanto o de S. Cruz. Ouvindo isso dele, que é poeta, escritor, pesquisador, advogado e professor da UFRN, fiquei com a sensação de que a fogueira pegou, acendeu, e que as labaredas tomarão conta do lenho intensamente, clareando a escuridão da dizibilidade e da visibilidade cultural de nossa terra querida.

11. O que almeja produzir daqui pra frente?

    Penso em escrever muito. O que a minha memória me servir, e se for de bom agrado ao faro, eu como, bebo e depois, se gostar, escrevo. Estou escrevendo um romance já faz dois anos. Tenho alguns contos começados, como Os Kuesta II, que preciso de algumas confirmações de aparentes meus dos Costas pra concluir a obra. Tenho alguns poemas que se eu publicar hoje, vou preso por atentado ao pudor. Deixá-los-ei para a minha velhice, pois, só assim, terei o atenuante da idade avançada. Escrevi a 2ª edição de meu livro Futebol: Documento de uma Paixão, mas deletei do micro e agora estou atrás do HD e da pessoa para quem presenteei a máquina, na esperança de salvar os escritos. Enfim, penso em escrever . E esse será meu passatempo na minha aposentadoria.

12. Opine sobre o dito popular: Futebolreligião política não se discute.

    Futebol se discute sim, e desde já quero afirmar categoricamente que o Fluminense é o melhor time de futebol de todos os tempos, mas será incapaz de ser campeão da Libertadores, simplesmente porque o futebol brasileiro desce em grande velocidade a ladeira de sua hegemonia. Religião é ópio do povo, já disse isso um grande filósofo socialista famoso. A palavra de Deus é importante, mas a Bíblia tem uma luz muito intensa, e aqueles que só têm olhos pra ela, tornam-se cegos, e assim, ficam incapazes de enxergar outras palavras de beleza, quiçá, semelhante. A religião é o consolo para a falta da certeza de quem somos, de onde viemos e para onde vamos. Acredito em Deus sim, ou pelo menos num ser supremo de infinita bondade. Os sonhos, os sentimentos, o amor, o ódio, a premonição não pertencem à vida material. Elas são provas incontestes de que há uma outra dimensão, a espiritual, onde nela habita o bem e o mal. As orações, bem como os maus desejos, são trilhas para se chegar a essa dimensão. E a religião é a ciência dos fiéis que ainda não conseguiu comprovar essa verdade. A política é o rascunho de um mínimo de razão entre os homens. Sem a política seríamos tão ou mais ferozes do que os leões, que não conseguem viver em comunidade simplesmente porque não sabem rabiscar um único rascunho. A política é a tentativa de se viver em comunidade com um mínimo de civilização. Se ela não funciona, vivemos em constante ameaça de extinção. Futebol , religião e política é o maior dos campos minados para uma grande discussão, ou explosão, como queiram.

13. Você parece-me um homem cheio de saudades. Que elementos do passado entesoura na memória e gostaria de resgatar?

    Rapaz, a minha/adolescência na foi das melhores não. Nunca passei fome, mas vivi humildemente. Lembro-me dos meus colegas, alguns, claro, que ganhavam um velocípede no Natal. Eu ganhava, quando ganhava, uma bola canarinho, que geralmente papai rasgava com dois dias de uso, por quebrar os vidros dentro de casa. Muitas vezes queria assistir a um filme no Cine S. Rita, um filme de Santos, Tarzan, Faroeste, Paixão e Morte de Jesus Cristo, Guerra etc e não tinha dinheiro para ver. Assistia a alguns quando papai vinha do sítio, e aí ia também para o Estádio 30 de Novembro assistir aos grandes craques de futebol que desfilavam naquela época. Talvez essa minha nostalgia se dê exatamente em função de minhas expectativas frustradas. Lembro-me da chegada do Circo Mágico Nelson ou daqueles que traziam animais de grande porte ou ferozes na cidade. Sua estreia era aguardada com enorme excitação pela fidalguia trairiense. Eu já tinha a certeza que não iria para a estreia, pois faltava-me dinheiro. Das apresentações, 10 ou 15, eu iria a uma, geralmente a rebarba , ou seja, quando o filé mignon já tinha sido devorado e alguém teria que comer os ossos a preços insignificantes, e, muitas vezes, cortesias jogadas pelos palhaços, como agradecimento ao povo da cidade. Talvez essa minha saudade do passado seja um imenso recalque adormecido em minh’alma e, talvez essa minha nostalgia explícita nos meus escritos seja a expressão duma vontade de dar o troco àquele tempo tão maravilhoso que não me foi completamente. Mas isso é para os analistas descobrirem. Olhe, tenho vontade de resgatar qualquer história bacana que se deu no passado recente ou remoto e que a valha a pena escrever. Por exemplo, Mons. Émerson, esse cara fez história em S. Cruz, pois ele foi tudo aqui, dentista, parteiro, chofer de caminhão, pugilista, guia turístico, pedreiro, servente de pedreiro, conselheiro, alcoviteiro, professor, diretor, escritor, historiador, poeta e, nas horas vagas, padre. Já escrevi uma crônica sobre ele, mas ele é muito maior do que uma página e meia de palavras.

14. Que anela para o futuro de Santa Cruz?

    Em termos culturais , acho que estamos vivendo aquele momento em que empurramos um carro enguiçado por várias horas na esperança de que ele pegue, e agora ele dá sinais de que vai pegar, e está pegando, já até nos vejo, os seus empurradores, correndo com aquela alegria pra pular em cima e dentro do carro em movimento. Em termos políticos, ainda vamos empurrar o carro mais algum tempo. Porém, quero crer que os nossos filhos e netos terão uma S. Cruz com melhor IDH.

15. O que pretende ler ainda e quais têm sido suas últimas leituras?

    Rapaz, fico sempre na expectativa de um Best Seller. Tenho lido alguns escritores nossos como Jô Soares, Chico Buarque e outros menos conhecidos. Nesses últimos meses li O Evangelho, segundo Jesus Cristo, de Saramago (muito bom pela inovação de sua forma de narração, sem aquele apego aos discursos diretos tradicionais e chatos – tenho até copiado essa forma em alguns textículos para o face, acho que vocês observaram) e terminei de ler recentemente Ponto de Impacto, de Dan Brown (gosto das viajadas do autor, essas viagens surreais me fascinam). Leio muito os jornais e revistas nacionais e locais, na maioria das vezes não para me informar, mas sim para captar alguma brecha, alguma fissura de caráter que mereça alguma releitura. Gosto disso e muito faço. Leio os principais blogs da cidade e gostaria de escrever para todos eles, mas a minha profissão não me aconselha, por motivos que não vou aqui expor.

16. Deixe-nos algum poema que muito aprecia, de autoria própria ou não.

    POEMINHA DO CONTRA

    Todos estes que aí estão
    Atravancando o meu caminho,
    Eles passarão.
    Eu passarinho!
É o poema mais besta que já li em toda a minha vida, juntamente com Tinha uma pedra no meio do caminho, de Drummond. E foi exatamente por isso que , quando da primeira vez que o vi, dei grandes risadas daquela tremenda babaquice. Aí passei uns cinco anos procurando uma explicação para tão grande idiotice. E, acredite, descobri um mundo de grandes significados. Mário Quintana é tudo de bom. Tive a honra de conhecê-lo em Porto Alegre e Brasília, quando dos Encontros de Estudantes de Letras. Sempre quando me decepciono com algo ou alguém, geralmente com alguém, faço uso desse poeminha terapia para me acalmar e voar feito um passarinho. Adoro este poema. É o meu melhor Gardenal/Lexotan. Sem ele acho que já tinha morrido. Mas hoje não tenho mais tantos desgostos quanto antes na minha labuta de sala de aula. E porque aprendi muito com o meu guru Maquiavel também.

17. Que livros recomenda e quais desaconselha?

    Vixe Maria!!!! Essa pergunta é muito indecente!!! Sei não!!!!Hoje eu indico O Nome da Rosa, de Umberto Eco, pra quem tem vontade de conhecer os aspectos medievais e dos bastidores da Igreja Católica daquele período; A Insustentável Leveza do Ser, de Mila Kundera, aspectos históricos da Primavera de Praga; e o melhor livro brasileiro, Memórias Póstumas de Brás Cubas, de M. de Assis, principalmente pela categoria de sua narração, inovação sob todos os aspectos para aquela época.

18. Cite pensamento(s) que acha bem interessante(s). Comente-o(s) se quiser.

Este pensamento de Henfil não precisa nem comentar, de belo e verdadeiro que é:
Se não houver frutos, valeu a beleza das flores! Se não houver flores, valeu a sombra das folhas! Se não houver folhas, valeu a intenção da semente!”

19. Dirija-nos suas palavras finais. Fique à vontade.

Quero agradecer a você, Gilberto, pela consideração a mim dispensada e dizer-lhe do meu espanto, por ter você tão aguçada visão, capaz de enxergar em mim qualidade que juro que em mim não vi ainda, pelo menos no que diz respeito à cultura. Continuo achando que sou um grande curioso e fofoqueiro, a ponto de botar em linhas mal traçadas aquilo que vejo e nem sei se quem as lê vai achar graça. E a quem conseguiu chegar até o fim dessa entrevista, agradeço a atenção, e até peço desculpas pelas minhas limitações, motivo principal de lhes causar expectativas frustradas em relação a esta entrevista. Vamos todos pra frente. Eu também vou, mas vou atrás, caminhando lentamente e aprendendo com cada passada dado. Um grande abraço.