APOESC (Associação de Poetas Escritores Simpatizantes e Colaboradores)

A APOESC (Associação de Poetas Escritores Simpatizantes e Colaboradores), criada em 03.2010 em Santa Cruz -RN, existe para congregar amantes da cultura, apologistas e produtores da arte da palavra.


sexta-feira, 24 de agosto de 2012

A celebridade politicamente correta - • Renan II de Pinheiro e Pereira


Uma das figuras mais presentes na atualidade é a celebridade politicamente correta. Herdeira direta dos protestos de Bertrand Russell contra os testes nucleares, do apoio de Sartre à União Soviética durante a Guerra Fria e da militância “pacifista” de Jane Fonda no Vietnã durante os anos 70, ela pode ser definida como a pessoa famosa que, ou por entusiasmo irrestrito ou por estar interessada em ser vista como alguém com mais profundidade de pensamento que a maioria de seus pares, sempre se envolve em ações consideradas pelos formadores de opinião como “moralmente válidas” e “ideologicamente corretas” para melhorar o mundo, às vezes em mais de uma ao mesmo tempo ou em várias seguidas, quase como se “salvá-lo” fosse a sua verdadeira missão. Para não correr o risco de identificar alguma delas erroneamente, eis algumas de suas características:
Em primeiro lugar, por ser um movimento que está acima de julgamentos negativos, a celebridade politicamente correta é a defensora número um da ecologia. No seu discurso, geralmente encontramos frases protestando contra o uso das energias poluentes, o desrespeito dos governos pela fauna e pela flora e o futuro cada vez mais negro da Terra diante do aquecimento global. Muitas vezes, também são vegetarianos radicais que consideram comer carne vermelha como “crueldade” e culpam os rebanhos bovinos do mundo como “parcialmente responsáveis” pelo aquecimento da Terra, através das flatulências dos bois. Sempre financiam ONGs que defendem ações “ecologicamente corretas”, e algumas vezes liderando protestos contra o uso de animais como cobaias por laboratórios médicos (e argumentando em favor dos que promovem atentados contra eles). Também nutre verdadeira obsessão por demonstrar que sempre recicla o lixo e é favorável a modelos de energia renováveis e “limpos”. Em mais de uma ocasião tiveram atitudes que espantam as pessoas “comuns”, como quando a modelo Giselle Bündchen declarou que para não gastar água nos sanitários de sua mansão prefere urinar durante o banho (quando talvez o mais correto e higiênico seria tomar banho de banheira e usar essa água nas descargas).
Como é “consciente” e “politizada”, a celebridade politicamente correta sempre se define ideologicamente como uma pessoa de esquerda. Assim como financia organizações ecológicas, também é militante ativa de partidos considerados renovadores, chegando a organizar festas para arrecadar dinheiro para as campanhas de seus candidatos. Nesse sentido, também é defensora entusiasta de bandeiras que costumam ser associadas a esses partidos, como a descriminalização do aborto (que segundo uma ótica feminista seria um “direito reprodutivo da mulher”) e o fim da influência do governo norte-americano nos demais países do mundo (especialmente no Oriente Médio). Também existe a possibilidade dela se manifestar favoravelmente a governantes que escondem uma fachada autoritária por trás de um governo esquerdista (como vários escritores que apoiaram a União Soviética nos tempos de Stalin ou se posicionaram favoravelmente a Muamar Kadaffi), mas nos últimos tempos ela tem sido mais rara, visto que com a diversificação das mídias as denúncias de arbitrariedades governamentais estão aumentando e suas assessorias estão mais cautelosas quanto a esse tipo de ação. Quando ela não é bem-sucedida nesse sentido, pode ocorrer algum vexame, como quando Benício Del Toro interpretou Che Guevara num filme laudatório e, ao divulgá-lo em Miami, foi confrontado por uma repórter que o entrevistara sobre algumas atitudes bastante negativas do homenageado e não soube o que dizer.
A celebridade politicamente correta sempre se posiciona em defesa de minorias de quaisquer tipos. Dessa maneira, integra ações em favor dos flagelados da África ou dos refugiados de nações em guerra, mas também pode exercer essa ação de maneira mais modesta, em seu país de origem, “apadrinhando” grupos “marginalizados pela elite”, como os grupos de funk e rap das periferias. Contudo, por mais importante que seja essa ação “redentora”, essa celebridade deve examinar o que ela defende, visto que eventualmente as coisas podem não ser como parecem (como no último caso citado, visto que os funkeiros americanos e brasileiros têm uma certa tendência a fazerem apologia do machismo e da violência sexual – o rapper Eminem, por exemplo, é um notório misógino – e aqui no Brasil alguns deles já se envolveram com o tráfico). Também merecem ser citados alguns casos em que a causa era legítima, mas não a forma como quem a defendia agiu, como quando Marlon Brando ganhou um Oscar de melhor ator por seu trabalho em “O poderoso chefão”, nos anos 70, mas ao invés de ir buscá-lo enviou uma índia, vestida em roupas tribais, em seu lugar. Ao recebê-lo, ela fez um discurso condenando a política do governo americano em relação aos indígenas, mas pouco depois se descobriu que ela era na verdade uma atriz caracterizada como nativa.
A celebridade politicamente correta é uma usuária frequente das redes sociais e sempre as utiliza em favor da última causa que está defendendo, seja para divulgá-la ou, mais uma vez, para arrecadar dinheiro para viabilizá-la. Nada errado com isso, não fosse pelo fato de que, como já foi mencionado, às vezes ela não se importa de verificar se aquilo que defende é verdadeiro: há alguns meses foi divulgado na Internet um vídeo onde vários artistas da televisão brasileira protestavam contra a construção da Usina Hidrelétrica de Belo Monte, mas universitários de ciências exatas também usaram a Internet para demonstrar que vários dos argumentos utilizados eram inconsistentes, o que prejudicou a credibilidade da causa. Outro exemplo disso foi quando vários atores se posicionaram contra a transposição do Rio São Francisco, levados pelo exemplo de um religioso atuante no Nordeste, chegando a ir à capital federal, e diante do fracasso de sua iniciativa a atriz Letícia Sabatella chorou, ignorando que o projeto em questão pode solucionar os problemas de milhares de “flagelados da seca”, contanto que seja conduzido com lisura e equilíbrio. Isso é perigoso levando-se em conta que só porque um fato foi divulgado na Internet isso não atesta sua veracidade, e um exemplo disso foi a campanha “Cala a boca, Galvão”, que mobilizou milhares de internautas estrangeiros em 2010, que, por ignorarem o significado da frase em português, foram induzidos a reproduzi-la em peso no Twitter em um determinado dia sob a alegação de que era um movimento contra a extinção de um pássaro que tinha esse nome, embora na verdade fosse uma crítica ao desempenho profissional do mais famoso locutor esportivo brasileiro, conhecido por ser fator de risco para os cardíacos pelo seu eventual destempero durante as transmissões que comenta.
Por último, a celebridade politicamente correta é ardente defensora da liberdade de pensamento, exceto para os adversários das causas que defende. Para estes, sempre são reservados os adjetivos de pior peso ideológico para defini-los, como “fascista (mais raro, só costuma ser usado pelas celebridades mais velhas ou que querem passar por cultas)”, “hipócrita”, “retrógrado” ou, como é mais comum, “preconceituoso”. Em geral, esses adjetivos são largamente utilizados para os que criticam movimentos que são vistos com repulsa por parte da população, como alguns dos já citados ou as passeatas pela legalização das drogas, como que para estereotipar aqueles que os condenam como pessoas presas a ideias ultrapassadas que não devem ter direito a voz ou voto numa sociedade verdadeiramente evoluída. E isso funciona, pois atualmente ninguém (incluindo-se aí o autor destas linhas) gosta de ser chamado por esses termos.

P.S.: em nenhum momento esse texto tem a intenção de defender o capitalismo selvagem, o desmatamento nas florestas, o conservadorismo radical ou a repressão de grupos marginalizados, e muito menos é contra denunciar arbitrariedades ou injustiças quando elas ocorrem a olhos vistos. Também reconhece que muitas pessoas públicas realmente se interessam pelo futuro do planeta e querem fazer uso de sua fama para defender causas que acreditam ser justas, como a luta que Elizabeth Taylor travou durante mais de vinte anos, até a sua morte, para encontrar uma cura para a AIDS, ou as ações filantrópicas do ex-jogador Raí. O objetivo dele, na verdade, é denunciar aquelas celebridades que apoiam qualquer causa que pareça interessante para um grupo “esclarecido”, mas não o fazem com naturalidade, e sim por uma necessidade quase obsessiva de parecerem boas ou “conscientes” aos olhos de seus fãs. Contudo, na vida real elas geralmente vivem em tempo quase integral em mansões e apartamentos de luxo, raramente se aproximam de uma pessoa necessitada sem um fotógrafo por perto e muitas vezes não conhecem com profundidade as causas que defendem. Sem mencionar que muitas vezes agem de forma contrária ao que pregam, como quando fazem campanhas para produtos “ecologicamente incorretos” (Giselle Bundchen, por exemplo, faz publicidade da Grandene, fabricada com derivados do petróleo) ou dirigem carros e motos “envenenados” com combustíveis poluentes. Sem mencionar as histórias mais dramáticas, como a da atriz americana Joan Crawford, que adotou quatro crianças dizendo que queria constituir uma família (conduta que não é incomum entre as celebridades politicamente corretas, sendo que elas dão especial destaque às nascidas em países subdesenvolvidos), mas após sua morte descobriu-se que ela abusava verbal e fisicamente de pelo menos duas delas. Ou de Brigitte Bardot, que é conhecida por ser defensora dos animais, mas se opõe à presença de muçulmanos na França e declarou em sua autobiografia que preferia ter dado à luz um cachorro do que o seu próprio filho. Mas principalmente, deve-se ter em mente que, como já é a praxe na vida, uma tese deve ser reconhecida não pela fama de quem a defende, e sim pela consistência dos argumentos em que ela se baseia. Celebridades não são infalíveis, até porque elas são seres humanos.