APOESC (Associação de Poetas Escritores Simpatizantes e Colaboradores)

A APOESC (Associação de Poetas Escritores Simpatizantes e Colaboradores), criada em 03.2010 em Santa Cruz -RN, existe para congregar amantes da cultura, apologistas e produtores da arte da palavra.


domingo, 1 de julho de 2012

IDA À ITÁLIA - Entrevista com Alessandro Nóbrega (Por Gilberto Cardoso dos Santos)



 
1. Alessandro, você é um homem de múltiplos talentos e formações; Comece falando sobre isso.

Amigo Gilberto, antes de mais nada, quero lhe agradecer o convite de poder partilhar minha  experiência de viagem.
Sou professor da rede pública de ensino e no momento exerço o cargo de gestor da Escola Estadual Professor Ribeiro. Tenho pós-graduação em língua portuguesa pela UFRN. Possuo também formação em psicanálise. Adoro poesia, sempre que posso faço alguma e envio para o blog da APOESC, em que você gentilmente publica. Sou um ser muito curioso e dotado de um desejo profundo de aprender novas coisas.

2. Ao retornar da Itália, eu lhe disse que você nunca mais seria o mesmo. Você retrucou dizendo que, pelo contrário, você tinha se tornado mais você. Que quis dizer com isso?

Fui criado em um lar católico e me tornei católico. A viagem à Itália teve uma motivação religiosa. Ela aconteceu devido a um evento que ocorre em Cássia, na Itália, todos os anos, em que, entre paróquias do mundo todo, que tem Santa Rita de Cássia como padroeira, uma é convidada a celebrar a Gemelaggio. Uma celebração em que torna essa paróquia e a de Cássia, irmãs. E foi isso que me levou a esta viagem. E toda a experiência religiosa tida naquele lugar, apenas me deu a confirmação de ser e continuar católico. Algo que jamais duvidei. Um caminho de fé e amor em Cristo Jesus.
 
3. Em que cidades italianas esteve e em quais lugares?

Eu estive em Cássia, Roccaporena (povoado de Cássia), Vaticano e Roma.

4. Entendo que encontrou brasileiros na Itália, além de ter ido com alguns conterrâneos e pessoas mais íntimas. Como foi essa experiência?

A comitiva de Santa Cruz foi formada de pessoas maravilhosas e grandes companheiras e companheiros de viagem. Foi para mim um momento de aproximação, afinal, foram sete dias de viagem. Estive com pessoas com as quais quase nunca tenho a oportunidade de conversar, mesmo morando em uma cidade pequena como Santa Cruz. Adriano, meu irmão, grande articulador dessa viagem em Santa Cruz, sua esposa Maria José, Padre Vicente, Pároco denossa cidade, Josemar Bezerra e sua esposa Monalisa, Terezinha Gonçalo, Iranilson Silva e Enne, Coordenadora da Shalon, grupo religioso, em nossa cidade. Todos eles, sem exceção, foram pessoas encantadoras durante toda a viagem. E parte desse espírito de companheirismo e religiosidade se deve ao sentimento nutrido por nossa padroeira Santa Rita de Cássia.
Encontrei brasileiros no Vaticano, durante a benção papal, momento em que milhares de pessoas do mundo se fazem presentes na praça de São Pedro. Todos muito felizes e solidários por encontrar compatriotas, mas é um contato muito rápido. Tivemos a oportunidade de encontrar o nosso conterrâneo e seminarista Francisco que está estudando em Roma. Uma pessoa muito querida por todos da igreja de Santa Cruz.

5. Discorra um pouco sobre os europeus com quem esteve em contato. Qual sua impressão geral sobre a Itália depois dessa viagem? 

Todos foram muito solidários e prestativos conosco. Todos aqueles que estiveram aqui em Santa Cruz nos receberam com uma alegria sem igual. Acolheram-nos como irmãos. Padre Mário, e todos os outros clérigos, o Prefeito de Cássia e Vereadores. Marta Ferraro foi a que esteve a maior parte do tempo com a nossa comitiva. Sempre nos orientando para onde deveríamos ir, o que iria acontecer e fazendo traduções para nós. Foi uma pessoa fundamental e muito gentil para com todos e que hoje sente muita
honra de ter recebido o título de cidadã santa-cruzense. Quanto à Itália, é um país belíssimo e que preciso retornar um dia para conhecê-la melhor. Um lugar de muita história que nos diz respeito.
 
6. Houve algo em especial que o emocionou nessa viagem? Chorou alguma vez?

Sim. Creio que o momento mais emocionante que vivi foi o de encontrar o corpo incorrupto de Santa Rita de Cássia. Não contive as lágrimas. Outros momentos me emocionaram muito, mas este foi realmente muito forte.

7. Fale sobre a cultura de preservação que parece caracterizar toda a Europa e que lições a Itália tem a nos dar neste campo.

Há um cuidado exemplar em preservar a história. Precisamos aprender com esse povo a manter viva nossa memória. E pode se perceber isso na infinidade de monumentos, na arquitetura, na arte existente nesses lugares.
 
8. Nós, santacruzenses e brasileiros, de algum modo nos sentimos representados por vocês ao empreenderem essa viagem; descreva-nos cenas que foram marcantes aos seus olhos.

Uma linda cena que lembro é a de ter visto a bandeira do Brasil nos recepcionando na entrada da Igreja em Cássia em nossa primeira visita a Igreja onde se encontra o corpo de Santa Rita de Cássia. Estar distante de nosso país aflora o espírito patriótico. E todos os momentos solenes em que estávamos ali representando Santa Cruz e o Brasil.

9. Alguns têm vontade de ir, mas temem pelos altos custos e barreiras linguísticas; que diria aos que têm tal preocupação?

Vale muito a pena economizar e fazer uma viagem como essa. A língua pode ser uma barreira, mas nada que não se possa superar, aprender algumas frases básicas pode ajudar em alguns momentos, mas o ideal é que se procure uma empresa de turismo para orientar.
 
10. Que aspectos da paisagem natural ou humana mais chamaram sua atenção?

Os lugares lhe pareceram maiores ou menores que o imaginado? A paisagem é muito particular, em Cássia e Roccaporena, o clima, as montanhas, a natureza em si, alimentam o nosso sentimento religioso. Já em Roma, centro turístico, o que me chamou atenção foi a concentração de pessoas advindas lugares muda, é belíssima, e muito particular daquele clima, mas pessoa é pessoa em qualquer lugar. Dotadas de capacidades, defeitos, sentimentos etc.

11. Que lugar em especial chamou sua atenção? Para onde pretende retornar ou o que pretende visitar numa segunda viagem?

Quero muito voltar a Cássia e Roma. Roma é uma cidade fascinante, mágica, encantadora. Enche-nos os olhos.
 
12. Vemos que sua inspiração foi fortemente impactada nessa viagem, conforme demonstrado nos vários poemas seus que temos publicado? Há algo mais a se esperar de Alessandro como fruto dessa viagem?

Estou fazendo uma pesquisa mais aprofundada sobre Santa Rita de Cássia. Espero que isto dê fruto e que eu possa produzir e apresentar ao público. O tempo dirá.

13. Fale sobre uma experiência marcante da viagem.

Escolher uma é difícil, fora a visita ao local onde se encontra o corpo de Cássia, ocorreu em Roma, quando já caindo à noite, as luzes acesas, fui até o terraço do mosteiro Agostiniano em que ficamos hospedados, no centro de Roma, próximo ao Vaticano e de lá pude ter uma visão panorâmica da Cidade Eterna. Meus olhos não deram conta de tanta beleza.

14. Você voltou mais católico ou menos? Por quê?

Creio que minha fé voltou mais fortalecida. Diante de tanto exemplo de santidade, Cristo volta o seu olhar para mim e diz: Levanta-te e segue-me.

15.Que diferenças percebeu entre a liturgia e religiosidade católica italiana em relação ao Brasil?

A liturgia é a mesma, mas a forma de religiosidade das pessoas é que muda, tendo em vista que a cultura tem um papel preponderante.
 
16. O papa atual tem falado numa crise de fé alarmante que tem invadido a Europa. Acha que a Itália também passa por isso? A que você atribui essa falta de espiritualidade em países que têm abundância de monumentos à fé, a que buscam preservar a todo custo?

A crise da fé tem chegado ao mundo todo. Não saberei dizer como isso ocorre na Itália, mas infelizmente este é mais um dos frutos do materialismo em que estamos mergulhados. A resposta a tudo isso virá com o tempo.

17. Além do corpo de Santa Rita, que mais lhe pareceu uma prova viva da fé?

O corpo incorrupto de Santa Rita não é uma prova viva da fé, mas um sinal, para todos que a veem constatarem o quão grande foi seu amor pelo Cristo Eucarístico e Crucificado, assim como o milagre eucarístico ocorrido em Cássia, em 1930, onde um sacerdote foi chamado para dar o santo sacramento a um enfermo. Colocou uma partícula consagrada entre as páginas de seu breviário e o segurou em baixo do braço. Ao abri-lo para retirar a hóstia consagrada constatou a marca de sangue sobre as duas páginas. Até hoje, está lá uma das páginas do breviário com a marca de sangue.
Em determinado momento da história de Cássia, de muita violência e sofrimento daquele povo, Cristo mostrou sua face, para lembrar-nos que Ele é o caminho. E Rita foi o instrumento para a pacificação, através do perfume de sua fé. E vê-la, tão de perto, incorruptível, dá-me a certeza do poder que emana de Jesus.
Se posso dizer que há uma prova viva da fé são todos aqueles peregrinos que para lá vão, vindo de todos os lugares do mundo, orando a Deus e aprendendo com o exemplo de Santidade e amor a Jesus Cristo que nos deu Santa Rita de Cássia e as monjas e monges que cuidam tão zelosamente daquele lugar.
 
18. Dezenove anos após sua morte, o corpo de Napoleão estava em bom estado e foi exumado; temos visto casos de corpos, múmias naturais (como é o caso do caçador Ötzi) que resistem a decomposição devido fatores climáticos (no caso de Napoleão teria sido arsênico). Por que isso não poderia se aplicar ao que sucedeu com Santa Rita? Seu cadáver teria sido coberto com cera e apenas suas mãos e rosto estariam intactos. Expresse-nos sinceramente o que pensa sobre isso.

Não acredito que tenha sido assim com o corpo de Santa Rita. Seu corpo já possui mais de 600 anos. É o corpo de uma mulher que viveu mais de 75 anos. Apenas sua pele escureceu por terem exposto, depois de um terremoto ocorrido na região a centenas de anos atrás, as intempéries do tempo. Exames já foram realizados e nada foi constatado. Isso é uma questão de fé, estando perto como estive e sentindo as emoções que senti, confirmo o poder de Jesus que se manifesta no corpo de Santa Rita. Mas o importante não é o corpo dela, mas seu exemplo e sua lição de cristandade, como nos lembra Remo Piccolomini, em seu livro “Santa Rita il respiro del perdono” ao se referir a mensagem transmitida por ela com seu exemplo de vida: “Il messaggio che oggi ci dá in termini molto attuali, lo sintetizzamo in tre punti: il messaggio del perdono, della pace e la devozione all'umanità di Gesù Cristo.” (A mensagem que hoje nos trás em termos muito atuais, a sintetizamos em três pontos: a mensagem do perdão da paz e da devoção a humanidade de Jesus Cristo.) (tradução feita pelo entrevistado)

19. A quem agradeceria relativamente a esta viagem? 

Agradeço de forma especial em primeiro lugar a Deus, a Padre Vicente, nosso pároco, que me permitiu fazer parte da comitiva, ao Vereador Lucicláudio, o qual fui representando, ao meu irmão Adriano, que teve papel importante na realização desse evento em Santa Cruz e em Cássia, a minha família, que soube suportar minha ausência, aos cassianos que nos receberam tão bem, a Marta Ferraro, aos monges e monjas Agostinianos de Cássia e de Roma e a Santa Rita de Cássia.

20. Deixe-nos uma reflexão; sinta-se à vontade quanto às palavras finais. 

Quero agradecer o espaço do blog para compartilhar minha experiência e desejar que outras pessoas também realizem o sonho de poder fazer uma viagem como esta. Vale muito a pena. Obrigado