APOESC (Associação de Poetas Escritores Simpatizantes e Colaboradores)

A APOESC (Associação de Poetas Escritores Simpatizantes e Colaboradores), criada em 03.2010 em Santa Cruz -RN, existe para congregar amantes da cultura, apologistas e produtores da arte da palavra.


quinta-feira, 26 de julho de 2012

FRANCIMÁRIO: UM HOMEM DE BOM CORAÇÃO - Gilberto Cardoso dos Santos


Estávamos na escola, em uma reunião, quando tocou o celular da diretora. Pelo silêncio que se seguiu e pesar em seu semblante, sentimos que se tratava de uma notícia triste. 

– Gente, disse-nos ela, lamento ter que lhes dar uma notícia muito muito triste: acaba de morrer Francimário!

Logo me perguntei “quem será Francimário?”, vendo a tristeza que se apossou de todos. Um colega esclareceu que era o irmão do professor Jocemário; alguém que já fora motorista do carro da DIRED e que também era caminhoneiro. Fiquei na mesma, sem saber de quem se tratava. A diretora passou a descrever as circunstâncias de sua morte: tinha se sentido mal enquanto dirigia e, tentando ir até o hospital; acabara batendo em um poste, e morrera imediatamente, vítima de ataque cardíaco.

Explicaram-me que se tratava de um mal de família. Uma familiar dele teria morrido enquanto dançava no clube. “Muito novo ainda”, lamentou alguém. “Era gente muito boa. Nota dez.”

Ao chegar em casa, abri o Facebook e lá estava a seguinte mensagem, publicada por Nailson Costa:

“Amigos, é com profundo pesar que lhes comunico o falecimento de um grande amigo meu de infância, o Sr. Francisco Francimário Praxedes, que veio a óbito agora há pouco, vitimado por um infarto fulminante. Francimário era servidor público estadual e, nas horas vagas, caminhoneiro. Gente muito boa! Amigo de fé e irmão camarada. Seu corpo ainda não se encontra em sua residência, situada na Rua Elóy de Souza, Centro. O sepultamento dar-se-á amanhã, às 16 horas no cemitério de Santa Cruz. Estou aqui com o meu coração cheio de dor, com um engasgo muito grande e uma vontade doida de chorar pra fora. Por esse motivo, excluí um texto cômico que publiquei agora há pouco. Amigo Francimário, obrigado por sua tão boa companhia na nossa infância querida e inesquecível. Deus abra as portas dos grandes salões celestiais e o receba de braços abertos. Adeus.”

Percebi, nas palavras de Nailson, tratar-se de alguém do bem, que deixaria enorme saudade.

Mais tarde, tais impressões foram corroboradas ao ler outra nota, publicada por Paulo Neto:

“Grande amigo Francimário... A gente nunca entende o porquê tem que chegar esse triste momento, porém, é nossa única certeza na vida. Tivemos o prazer de conhecer e compartilhar boas alegrias com seu jeito autêntico e extrovertido, só nos deixou bons exemplos de dignidade humana, pessoa de infinitas qualidades, homem trabalhador e disposto, honesto, humilde, bom pai e bom amigo. Vai em paz meu irmão, mais cedo ou mais tarde a gente se encontra na casa do Pai. Meus sentimentos à família.”

Abaixo, Paulo postou esta foto:



Senti um sobressalto ao vê-la, pois descobri tratar-se de alguém a quem eu já vira muitas vezes e até chegara a trocar algumas palavras. Infelizmente, digo-o agora, nunca me aproximei dele o quanto deveria. Certamente sua boa índole e exemplo teriam tido  boas influências em minha vida.
Naquela mesma noite, por telefone, Eduardo lamentou profundamente a sua morte e falou dos esforços feitos, por mais de uma hora, tentando reanimá-lo. Para este, Francimário era um amigo extraordinário.

No outro dia, enquanto dava aula, a supervisora perguntou-me se eu não quereria ir ao enterro de Francimário. Não titubeei na resposta: "Sim!". 

Ao chegar na igreja, Luzenir Galvão, visivelmente emocionada, elogiava o falecido como se com ele falasse, dando destaque à sua paciência, educação, atenção e disposição para servir.
Chegara ao fim da cerimônia fúnebre. A igreja estava lotadíssima.

Ao som de “Segura na mão de Deus”, belamente tocada e cantada, e, posteriormente, de “Como é grande o meu amor por você”, uma enorme fila passou a circular em torno do caixão para o último adeus.
Ví alguns conhecidos  chorando. Ao perguntar se tinham algum grau de parentesco, respondiam-me: “Não. Éramos apenas grandes amigos.”

Zulmira, ex-funcionária da DIRED com emoção e à meia voz, falou-me de sua paciência, gentileza e de quão bom motorista era.

Dizem-nos que quem quiser ser bom morra ou se mude, mas percebi claramente que não era este o caso de Francimário. As pessoas de fato gostavam dele. As muitas lágrimas me disseram isto.
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Fui ao cemitério onde seria enterrado, mas ao chegar lá vi que o féretro ainda estava distante. Parei para trocar umas ideias com o coveiro local e sua esposa. Estes, por força do ofício, são “duros” em relação a quem morre. De tanto encarar a morte, familiarizaram-se com ela. Enquanto fumava, a mulher foi me explicando que chegavam a enterrar 3 por dia, às vezes. Ela limpava os túmulos, tirava o mato das covas e aguava as flores daqueles que a contratavam para tal. Muitas vezes, disse-me ela, fazia isto à noite.

De repente, porém, passou a falar sobre o morto que aguardávamos. Ao pronunciar seu nome sua voz se quebrou e os olhos ficaram úmidos. Ví que seu esposo não iria cumprir apenas mais uma etapa de seu terrível ofício; naquela tarde, também enterraria um ente querido. 
Traçou-me ela, dentro daquilo que sua limitação vocabular permitia, uma imagem bem positiva do falecido, parecida com a que Nailson, Paulo Neto e tantos outros me haviam passado.

Sim. A família do coveiro também o conhecia e gostava muito dele.

Mais uma vez, lamentei  não ter parado para conhecê-lo melhor quando ainda em vida. A memória, então, me comunicou que em alguma das viagens  que fiz no carro da Dired, o tive como motorista. Nesta viagem, porém, não parei para ver nele algo mais que o fato de ser meu motorista naquele momento. Lamentável, digo-o agora.

A esposa do coveiro finalizou seu lamento, dizendo
“Quem é bom Deus leva logo e quem é ruim fica na Terra.”

Ao acabar aquele enterro, a multidão se dispersou extremamente triste. E eu concluí:

Francimário era um homem de bom coração que (infelizmente) não tinha o coração bom.