APOESC (Associação de Poetas Escritores Simpatizantes e Colaboradores)

A APOESC (Associação de Poetas Escritores Simpatizantes e Colaboradores), criada em 03.2010 em Santa Cruz -RN, existe para congregar amantes da cultura, apologistas e produtores da arte da palavra.


quarta-feira, 2 de maio de 2012

Entrevista sobre II Festival de Músicas do Cangaço


Entrevistado: Epitácio Andrade

GILBERTO: Caro Epitácio, você marcou presença no II Festival de Música do
Cangaço como representante da APOESC e como amante da cultura que é. Quais suas
impressões sobre o festival em si e sobre o nível das participações?

Epitácio Andrade: Em primeiro lugar, fiquei extremamente lisonjeado em representar
a APOESC (Associação dos Poetas e Escritores de Santa Cruz/RN) neste evento
cultural. Acredito que o II Festival de Músicas do Cangaço foi uma grande iniciativa do
ponto de cultura “Cabras de Lampião”, de Serra Talhada/PE, com Anildomá Willians
e outros “lugares-tenente”, no comando das ações e intervenções socioculturais. O
festival é um espaço de valorização da autêntica música nordestina e um meio de
preservação e desenvolvimento da memória do fenômeno do cangaço. Gostei do
nível dos participantes que vieram de todo Brasil. A mistura de ritmos, sem perder a
autenticidade, associada a letras criativas e engajadas, constituíram-se num dispositivo
intelectual para o enfrentamento da “puerilização da cultura”.

GILBERTO: Que achou do desenvolvimento cultural de Serra Talhada e de suas
paisagens? A figura de Lampião e a história do cangaço ali têm sido trabalhadas à altura
do esperado?

Epitácio Andrade: Na minha percepção, a sociedade serra-talhadense vem se
apropriando satisfatoriamente do seu patrimônio histórico e cultural. O museu do
cangaço deve ser agenda pedagógica e turística permanente para a população sertaneja,
nordestina e brasileira. A infra-estrutura de acolhimento é boa, mas precisa melhorar,
para que este recanto do sertão possa fidelizar clientelas e “disputar” fatias mais
consideráveis do turismo nacional e internacional. Nunca acreditei que o processo de
mitificação do cangaço fosse favorecedor do desenvolvimento da consciência crítica
do povo. Acredito sim, que o desenvolvimento da memória do fenômeno do cangaço,
o resgate histórico de seus principais líderes, como Lampião, Maria Bonita, Jesuíno
Brilhante, a família Limão, Antônio Silvino, Corisco e outros, com toda a produção
cultural que fomentaram, dão conformação à maior estratégia de desenvolvimento
sustentável do nordeste brasileiro.

GILBERTO: Como foi o desempenho de Lysia Condé com a música Estradeiro? Você
percebeu uma boa aceitação por parte do público?

Epitácio Andrade: Sou suspeito para falar de “Estradeiro”, por contaminar minha
opinião com o afeto que tenho pelos autores e pela intérprete. Mas vou arriscar uma
palavrinha. Acho o poema de Hélio Crisanto belíssimo. A citação “decote da colina”
é prá lá de poética. A música de Zeca Brasil é super-harmoniosa. A interpretação
afinadíssima de Lysia Condé e a ocupação do espaço do palco me fazem matar a
saudade de Elis Regina, a melhor cantora brasileira de todos os tempos.

GILBERTO: O que, a seu ver, teria sido responsável pela não classificação de
Estradeiro entre as cinco finalistas?

Epitácio Andrade: Percebo que nenhum festival é absolutamente técnico. A comissão

julgadora por ser humana vai entrar em sintonia com o povo. E o povo, que lotou as
dependências da estação do forró, estava predisposto a defender músicas com temática
mais dirigida para o cangaço e com sua ritmicidade característica.

GILBERTO: Após ouvir as outras concorrentes, continua a achar que Estradeiro
mereceria ter sido escolhida?

Epitácio Andrade: O nível estético das canções e interpretações foi altíssimo. Entre
as 20 músicas finalistas, não identifiquei nenhuma que pudesse ser considerada
como fraca. Estava ao lado de Lysia Condé e de seu esposo Élio (com E), quando
Anselmo Alves, realizador de grandes produções nacionais, fez referências elogiosas
a “Estradeiro”.

GILBERTO: Que pessoas importantes encontrou ou reencontrou durante o evento?
Houve algum fato ou momento marcante?

Epitácio Andrade: O meu reencontro com Escurinho foi uma dádiva. Desde os anos
oitenta do século passado que somos amigos e participávamos da vida universitária
em João Pessoa, capital da Paraíba. Caminhávamos pelos longos corredores e pelas
veredas da mata atlântica do campus. Fomos agentes proativos do movimento
estudantil e cultural. Reencontrei em Escurinho, um homem de consciência crítica bem
sistematizada, com uma produção cultural engajada, com uma alegria contagiante, com
uma personalidade amadurecida, preparado para vôos em horizontes ampliados que
contemplem sua matriz energética cosmogônica. Um vencedor!

GILBERTO: Em sua jornada até Serra Talhada o senhor esteve em Serra Caiada e até
imaginou a produção de um texto que intitularia "De Serra Caiada a Serra Talhada".
Que aspectos pretende explorar nesse artigo?

Epitácio Andrade: Produzi um acervo fotográfico do trajeto, digo do “Estradeiro”. Estou
produzindo textos-reportagens sobre os trechos, ressaltando as características culturais
e econômicas das localidades. No trecho potiguar, começando-se por Serra Caiada e
terminando em Equador, vou apresentar informações sobre o Cangaço de Chico Pereira;
entrando na Paraíba, vou escrever sobre os produtos que são vendidos ao longo da BR-
230, de Junco do Seridó até a Praça do Meio do Mundo; no trecho relativo à BR-412,
que vai da Praça do Meio do Mundo até a divisa da Paraíba com Pernambuco, estou
tentando inserir o conjunto fotográfico com a descrição das paisagens naturais; pretendo
redigir um texto-reportagem sobre “Monteiro – A Cidade dos Poemas”; no trecho
pernambucano, vou fazer uma exposição descritivo-fotográfica sobre as igrejas do
percurso; pretendo fazer uma reportagem com o cangaceirólogo-artesão Jorge Remígio,
em Custódia/PE; já produzi a primeira parte de “Nas Estradas de Bom Nome”, música
de Escurinho que venceu o festival, só que é uma tentativa de convertê-la em prosa.

GILBERTO: Fale-nos sobre outros projetos culturais que tem em mente.

Epitácio Andrade: Estou com o relançamento de “A Saga dos Limões – Negritude
no Enfrentamento ao Cangaço de Jesuíno Brilhante”, programado para 16 e 17 de
maio, numa Feira Lítero-poética de Natal/RN; acredito que o audiovisual “Guerra dos
Comboios” - 30 anos de Produções Culturais sobre Jesuíno Brilhante, esteja pronto
ainda neste primeiro semestre; para o segundo semestre, pretendo remergulhar no universo científico, entre as atividades a serem desenvolvidas, está a participação na Mostra Nacional de Psicologia, que ocorrerá em setembro, em São Paulo/SP.