quarta-feira, 21 de março de 2012

Da Maior Estátua do Mundo a Capital da Scheelita - Epitácio Andrade



Consiste a presente descrição numa viagem pelas atratividades históricas, culturais, econômicas e naturais existentes no percurso entre o município de Santa Cruz, terra da maior estátua católica do mundo, e Currais Novos, cidade considerada como a capital sul-americana da scheelita.

O alto de Santa Rita de Cássia, na cidade de Santa Cruz, distante 111 km de Natal, capital do Rio Grande do Norte, é um complexo turístico-religioso, onde está localizada a maior imagem católica do mundo, medindo 56 metros de altura.

A viagem começa no Rio Inharé, que foi barrado para a construção do açude do mesmo nome, acumulando mais de 17 milhões de metros cúbicos de água, maior reservatório do município de Santa Cruz.

Em 1981, a maior enchente do Rio Grande do Norte destruiu grande parte da cidade, principalmente as construções das margens do Rio Trairi, que dá nome à região polarizada por Santa Cruz.

Culturalmente rica Santa Cruz é um seleiro de intelectuais, que se aglutinam em torno da Associação dos Poetas e Escritores Santa-cruzenses (APOESC). Compõe a APOESC o cordelista Gilberto Cardoso dos Santos, autor do folheto “O Doutor e o Cangaceiro – A Saga de Doutor Epitácio Andrade com Jesuíno Brilhante e a Família Limão.


Na música “Outdoor de Cultura Popular”, que homenageia o folclorista Luiz da Câmara Cascudo, o compositor Dudé Viana resgata uma riqueza mineral comercializada em Santa Cruz: a granada, “pedra de doze faces”.

Faz parte do acervo do Museu Rural Auta Pinheiro, as correntes do cativeiro do poeta Fabião das Queimadas (1848-1928), que comprou sua carta de alforria com sua poesia e tocando rabeca. O poeta da liberdade nasceu na Fazenda Queimadas, que na época estava localizada no município de Santa Cruz, e hoje fica no município de Lagoa de Velhos.

A 5 km de Santa Cruz, fica o acesso ao município de Lajes Pintadas, que tem grande produção mineral de águas marinhas,“a miss das pedras”.

Continuando a viagem, sobe-se a Serra do Doutor, onde na comunidade Malhada Vermelha, no município de Campo Redondo, encontra-se o monumento alusivo a resistência sertaneja à Intentona Comunista. Buscando expandir a revolução comunista para o sertão, o exército vermelho avançava pelo interior do Rio Grande do Norte, quando foi enfrentado pelos sertanejos, que entrincheirados dispersaram os revoltosos, no dia 25 de novembro de 1935, durante episódio que ficou conhecido como “O Fogo na Noite da Serra do Doutor”.

A principal testemunha do “Fogo na Noite da Serra do Doutor” é o autodidata Francisco Anominondas Filho, Chico Amarante, com 94 anos, habitante do município de Campo Redondo, e autor do livro: “Serra do Doutor e suas Origens”, publicado em março de 1998, que narra o conflito final da Intentona Comunista no Rio Grande do Norte.

O professor de dança Luiz Barbosa de Melo, natural de Campo Redondo, é um fomentador da cultura nordestina. Há cerca de dois anos, incorpora o personagem “O Lampião de Ponta Negra” e, durante as noites naquela Praia de Natal, vende produtos culturais relacionados ao Nordeste.


Recentemente, o professor Luiz Barbosa produziu um CD com uma coletânea de músicas de cantores nordestinos que vai do rei do baião, passando por Elino Julião, até chegar aos Meirinhos do Forró.

No alto da Serra do Doutor existe uma grande produção de frutas nos quintais dos agricultores familiares, e ao longo da estrada são encontradas várias barraquinhas que vendem cajarana, siriguela, acerola, umbu, jaca, pinha e melancia, além de maxixe e jerimum caboclo e de leite.

Separando a região do Trairi do Seridó, o agreste do sertão, na fronteira do município de Campo Redondo com Currais Novos está o Riacho do Maxixe, que é uma hortaliça muito comum no sertão e foi trazida do continente africano para o Brasil pelos escravos no período colonial.

O facheiro é a cactácea mais abundante na transição do agreste para o sertão. Predomina nas regiões serranas, e é muito comum sua presença ao longo da viagem entre a terra da maior imagem católica do planeta para a capital da scheelita.

Acerca de 17 km de Currais Novos fica a estrada de acesso ao município serrano de Cerro-corá, que no mês de maio sedia um festival de inverno, considerado uma das principais atratividades gastronômicas do interior do estado do Rio Grande do Norte.

A mesma estrada de Cerro-corá dá acesso ao município de Bodó, importante pólo minerador da região da Serra de Santana, onde se localiza a Bodó Mineração e a Mina da Cafuca.

A religiosidade sertaneja está na toponímia das localidades. Acerca de 10 km de Currais Novos se encontra o povoado Cruz, fronteiriço com o estado da Paraíba.

Seguindo pela BR-226, nos 61 km que separam Santa Cruz de Currais Novos, entre o Povoado Cruz e a zona urbana da capital da scheelita, na margem direita do Riacho Maniçoba, um memorial construído por familiares registra a morte do cangaceiro Francisco Pereira Dantas, Chico Pereira, na noite de 28 de outubro de 1928.

Chico Pereira era natural de Nazarezinho, no interior da Paraíba, estava preso no Rio Grande do Norte acusado de assalto, suspeitas que jamais se confirmaram. Também foi acusado de fazer uma aliança com Virgulino Ferreira da Silva, “Lampião”, o rei do cangaço, para saquear a cidade de Sousa, “como forma de vingança devido a injustiças pela morte de seu pai”.

A principal obra que relata a saga do cangaceiro Chico Pereira é o livro “Vingança, Não!”, de autoria de seu filho o padre F. Pereira da Nóbrega, cujo prefácio tem a escritora Raquel de Queiroz como autora.

Há suspeitas de que questões políticas determinaram a morte do cangaceiro pela polícia potiguar. Os restos mortais foram sepultados no cemitério de Currais Novos.

A 06 km de Currais Novos, no Seridó Oriental do Rio Grande do Norte, um grande artefato de cerâmica, em forma de panela, sinaliza a entrada da mais pobre comunidade remanescente de quilombos do estado: o Sítio Bom Sucesso, conhecido como “Negros do Riacho”.

Antes de chegar a Currais Novos, o transeunte pode se banhar nas águas do Riacho da Sussuarana, nos períodos de invernada.


Na entrada da cidade de Currais Novos, um parque de estátuas com personagens típicos da região oferecem as boas vindas aos visitantes. De um lado da estrada está um casal formado por um vaqueiro e por uma apanhadeira de algodão.

Do outro lado da estrada, na entrada da capital da scheelita, com sua bateia, instrumento de peneirar a areia para separar os metais, está o velho minerador, que começou suas atividades na região seridoense, na década de 40 do século passado, durante a segunda guerra mundial.

Da scheelita se extrai o tungstênio, que faz a ponta da caneta esferográfica, mas também faz a “cabeça” das ogivas explosivas.

A produção mineral em Currais Novos resultou em acumulação de capital social. Mais de 90% da cidade é saneada, 95% dos domicílios têm acesso ao abastecimento d’água, quase 100% do município está ligado a rede elétrica, a cidade tem várias emissoras de televisão.

Os lugares de memória do ciclo scheelítico se espalham pela cidade. A imponência do Hotel Tungstênio reforça os áureos tempos da riqueza mineral.

No velho coreto, as moças em busca de seus consortes, deliciavam-se tomando “gasosa” e escutando o som das rabecas.

Tudo isso acontecendo sob os olhares do monumento alusivo ao centenário da cidade de Currais Novos (1808-1908).

Ou simplesmente, acontecendo numa cumplicidade arquitetonicamente harmônica, unindo modernidade e historicidade.

O principal lugar de memória da capital da scheelita é o Parque Temático da Mina Brejuí, a maior da América do sul, localizado a pouco mais de 05 km do centro de Currais Novos. O parque envolve um conjunto de instalações estéticas, a vila dos mineradores, a igreja, um museu, as dunas de rejeitos e a própria mina com túneis de vários kilômetros de extensão.

Já na praça do acesso ao Parque Temático da Mina Brejuí se encontra uma grande instalação metálica, correspondente a um minerador de lata.

No entorno da Mina Brejuí se formou a vila dos mineradores, que acolhem os visitantes desenvolvendo o turismo cultural.


A religiosidade sertaneja está presente no Parque de Brejuí.


O museu-memorial Tomaz Salustino guarda a história da exploração mineral e da família, que já esteve entre as maiores fortunas do mundo.

Apesar dos impactos ambientais, as dunas de rejeitos da mineração se constituem em atração a parte.

O Parque Temático Mina Brejuí é visitado durante todos os meses do ano, por turistas do mundo todo, e sua produção mineral é quase toda destinada ao mercado externo, empregando diretamente 203 trabalhadores.

A viagem da maior estátua a capital da scheelita ainda passa pelo Rio Totoró, como recomenda a música “Outdoor de Cultura Popular”, de Dudé Viana.

Durante a II Mostra de Cinema de Currais Novos, realizada no final de setembro do ano passado, os escritores Dudé Viana e Epitácio Andrade participaram de uma roda de conversa sobre o tema “saúde mental, cultura popular e cinema”. Epitácio Andrade fez uma exposição oral sobre alguns filmes que têm interfaces com a cultura popular e a saúde mental destacando “Bicho de Sete Cabeças”, uma produção cinematográfica baseada no livro “Canto dos Malditos”, do militante antimanicomial Austregésilo Carrano Bueno, e Dudé Viana apresentou a música “A Ponte”, que compõe a trilha sonora do curta-metragem “Pegadas de Zila”, do cineasta Valério Fonseca, sobre a poetisa Zila Mamede, que passou sua infância em glebas Currais-novenses.

Digno de uma produção cinematográfica é o monumento histórico-natural representado pelo cruzeiro da pedra do navio, localizado numa das entradas da cidade-polo mineral.


A viagem da maior estátua católica do mundo a capital sul-americana da scheelita finda no Canyon dos Apertados, que é uma formação natural localizada no município de Currais Novos/RN/Brasil. Está localizado na Fazenda Aba da Serra, de propriedade particular. É o único canyon de rocha granítica do mundo. Uma das sete maravilhas do Rio Grande do Norte.

Boa Viagem!

Texto: Epitácio de Andrade Filho, Médico Psiquiatra e Pesquisador Social

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