APOESC (Associação de Poetas Escritores Simpatizantes e Colaboradores)

A APOESC (Associação de Poetas Escritores Simpatizantes e Colaboradores), criada em 03.2010 em Santa Cruz -RN, existe para congregar amantes da cultura, apologistas e produtores da arte da palavra.


sábado, 10 de setembro de 2011

11 de Setembro – Nasce uma Esperança - Marcos Cavalcanti



O século XXI teve início, precisamente às 10:45h do dia 11 de setembro de 2001, data em que a perplexidade mundial se fez sentir e se expressar na sua máxima intensidade em todos os quadrantes do globo terrestre, face a um acontecimento sem precedentes na história da humanidade. A data, por sua importância poderia ou poderá marcar num futuro próximo os livros de história com a denominação de uma nova era, substituindo o que chamamos atualmente de contemporaneidade por uma outra designação ainda não conhecida. Esse traumático marco histórico de consequências permanentes tem vários ingredientes belicosos e desastrosos para a humanidade, dentre os quais, destaco o ódio e a ambição humana nascidos da ideologia político-religiosa, como os principais responsáveis por gerar o terrorismo e todas as suas desgraças, pretensamente “justificadas”.

São 8 horas da manhã de 11 de setembro de 2001, acordamos tensos, ansiosos pelo porvir. Foram meses de preparação minuciosa, com acompanhamento especializado, aquisição de produtos, leitura de manuais, escutas, relatórios e tudo o mais que uma operação deste porte requer daqueles que estão engajados e conscientes do tamanho de suas responsabilidades. Sem que soubéssemos exatamente o que nos esperava, eu e minha companheira partimos para o local previamente agendado. Era o princípio das dores que começava. O trânsito horrível aumentava ainda mais a nossa tensão, a nossa angústia. Felizmente conseguimos chegar sãos e salvos ao nosso “Marco Zero”, espaço de um novo tempo que ia surgir, banhado pela luz intensa de um sol suspenso num céu de brigadeiro, refletido no grande espelho da costa atlântica que nos circundava.

Passava das 9 horas quando recebemos a ordem peremptória de nos separarmos e de nos prepararmos para a operação que daí a pouco iria se desencadear de modo irreversível na vida dos vários envolvidos. A minha companheira mostrou-se vacilante, apertou-me a mão com lágrimas no rosto, embaçando ainda mais o olhar de pavor que de suas pupilas saltavam ante ao desconhecido. Disse-lhe para ser forte e que acontecesse o que acontecesse, eu estaria, em pensamentos, ao seu lado. Um último argumento lancei para mudar os planos e seguir em frente junto com a minha parceira, mas fui impedido pelo encarregado-chefe da operação. Restava-me a resignação e seguir o meu caminho solitário, com todas as incertezas e temores de um principiante, mesmo tendo me preparado tão bem durante o longo aprendizado.

Dirigi-me à antessala do grande prédio e me prostrei no balcão de atendimento. Os ponteros do relógio na parede à minha frente se arrastava lentamente. Eu sabia que em instantes entranhas seriam rompidas pelos golpes cirúrgicos de mãos firmes e determinadas. Gritos nos corredores; sirenes nas calçadas. Eu andava de um lado para o outro aguardando notícias do desencadeamento da operação. Já havia passado quase duas horas de nossa despedida. Perguntava. Não me diziam nada.

No ápice de minha aflição, finalmente pude ouvir da recepcionista que a Esperança havia acabado de nascer, exatamente às 10:45h daquela manhã de 11 de setembro de 2001. Ela pesava 4,70kg, media 52 cm e era a cara do pai coruja. Para esse momento especial havia preparado uma camiseta com a imagem de minha esposa grávida, com uma mensagem que dizia mais ou menos assim: Na cidade dos Reis, eis que nasce uma Rainha, se tua mamãe assim desejar, terás por nome Nadiajda, que se traduz por Esperança. Sede bemvinda querida filha ao jardim de nossas vidas. Nossa doce e linda Esperança. Nadiajda era o nome que havia escolhido para minha primeira filha, 10 anos antes de seu nascimento, a partir da leitura que fiz do livro Viagens, de Graciliano Ramos, e cujo significado de origem russa remete à Esperança.

Não havia televisão na sala da maternidade Januário Cicco, mas em toda parte, o mundo boquiaberto tomava consciência de que jamais seria o mesmo após o terrível atentado. Para mim e minha esposa Sueli, naquela instante em que a morte marcava para sempre a vida de milhares de pessoas de várias nacionalidades e que trabalhavam nas torres gêmeas, bem como de outras tantas em consequência dos tresloucados atos; era a vida em forma de Esperança que brotava em nosso jardim, linda e forte como uma rosa contrastando com esse dia louco e despedaçado. Parabéns filha por mais este aniversário!!!!

Marcos Cavalcanti