APOESC (Associação de Poetas Escritores Simpatizantes e Colaboradores)

A APOESC (Associação de Poetas Escritores Simpatizantes e Colaboradores), criada em 03.2010 em Santa Cruz -RN, existe para congregar amantes da cultura, apologistas e produtores da arte da palavra.


sexta-feira, 19 de agosto de 2011

ENTREVISTA COM MAURÍCIO ANÍSIO


GILBERTO: Trace de si um perfil. Fale-nos do que pensa sobre si mesmo e de sua formação e origem.

MAURÍCIO: Caro Gilberto, voce veio perturbar o "sossego do nada". Por aí, voce vê como estou, já esboçado numa conversa que tivemos na feira livre.
Como falar de mim mesmo? Acha voce que iria falar mal de mim mesmo? Quem falaria mal de si próprio? Mesmo assim, vamos lá: hoje, estou com 63 anos, aposentado. Vivo muito em casa, pouco olho a vida dos outros.. Não leio, não assisto filme, apenas jogo freecel. Assisto algum jornal. No momento, depois de longo tempo, estou acompanhando a novela Cordel Encantado. Como lhe falei, nunca tinha visto cangaceiros tão desorganizados. Eu sou isso. (desculpe-me as falhas de concordância que surgirão na caminhada).
GILBERTO: Como foi sua infância e quando foi despertado seu interesse pela política e pela leitura? Que livros foram decisivos em sua formação?

MAURÍCIO: Nasci na fazenda Santo Alberto ( a 21 km de Sta. Cruz/Cel. Ezequiel), em 19/11/1947 (dia da Bandeira). Comecei a aprender o ABC por lá mesmo. Em 57, vim estudar em Sta. Cruz. Naquela época, existiam três escolas: o Instituto Cônego Monte (da Igreja Católica) e duas do Estado - O Cosme Marques (conhecido por Grupo Novo) e o Quintino (também chamado de Grupo Vellho). Em 1960, fui pra Natal. Estudei no Marista, onde comecei a ter algumas idéias sobre política. Fui vice presidente do grêmio estudantil, tentei fundar um "partido político" com alguns companheiros de estudo (coisas de infante). Em 63, fui para Recife, estudar para formação de Irmão Marista. Voltei no ano seguinte, continuando no Marista de Natal. Em 1967, fui para o Atheneu. Nessse período já tinha havido a tomada do poder pelos militares, com apoio dos civis reacionários. Estava acontecendo o movimento estudantil de resistência a todo aquele clima de repressão MILITAR e domínio do império americano. E lá estava eu, participando de reuniões e passeatas. Já filiado ao Partido Comunista, tinha uma visão revolucionária de mudança social. Não aceitávamos simples reformas no ensino, mas lutávamos por uma nova sociedade. Líamos principalmente a literatura marxista. Em 68, ingressei na faculdade de sociologia, na Fundação José Augusto. Neste ano, o movimento estudantil já estava caracterizado como a principal ameaça aos militares, provocando a edição do AI, por Costa e Silva. Foi uma perseguição feroz a todos os democratas, inclusive com o fechamento do Congresso Nacional. A parti daí, não tinha mais conciliação: era luta mesmo para derrubar a Ditadura. E lá estava eu, um simples militante, mas contribuindo para essa mudança. Fomos deslocados (pelo Partido) para Pernambuco, onde tive participação no movimento rural, fazendo reuniões com trabalhadores rurais no zona da cana. Já havia um movimento guerrilheiro, entre tantos, conduzido por Carlos Marighela. Fui, com alguns companheiros, fazer parte da ALN (Aliança Libertadora Nacional), fundada e liderada por Marighela. Essa Organização Politica/Armada tinha vínculo fortíssimo com a Revolução Cubana(antes que me pergunte, nunca fui a Cuba). Participei do movimento armado, participando de poucas ações de "expropiação do capital burguês". Fui preso em 31/03/1970, em Recife, amargurando longos 10 anos de prisão (aí já é outra conversa). Desculpe-me se me alonguei.

GILBERTO: Conte-nos um pouco sobre sua militância. Era você um ultrarradical de esquerda? Que papel Lênin e Marx tiveram na formação de sua consciência?

MAURÍCIO: Veja só, não prestei atenção na sequência da perguntas e já me antecipei a esta.

GILBERTO: Hoje vemos centenas de intelectuais que sofreram exílio e outras formas de perseguição que se mantêm ao longe de discussões que no passado lhe foram tão preciosas. Você se considera um desses? Que resta do ideal marxista no Maurício Anísio de hoje?
MAURÍCIO: Sim, realmente me afastei da militância política revolucionária. Já não mais creio naquela revolução transformadora. Parece contraditório, mesmo não crendo, não vejo outra sociedade mais justa do que a idealizada pelo marxismo.

GILBERTO: Falava-me você ser um desiludido com a espécie humana e com as palavras. Explique-nos melhor o que quis dizer com isso.

MAURÍCIO: Há muito discurso mas a prática de melhorar a vida da humanidade é outra. Me lembro da derrocada do Leste Europeo (países que adotaram a sociedade comunista). Vimos coisas inaceitáves. Hoje está pior, vive-se o banquete bíblico: uma minoria se empanturrando com riquezas e as migalhas chegando nas coisas dos trabalhadores. Antes se pregava o ódio e combate à corrupção, e hoje se aceita com a maior naturalidade (para quem sabe ler, uma palavra é uma gramática inteira, com dizia Zé Cândido) todos os desvios do dinheiro público. Nenhuma faxina é feita com rigor. Aliás, faxina vai ser logo-logo uma palavra censurada.
È isso aí, estou sem crença nas mudanças sociais, mas onde puder contribuir, não me negarei.

GILBERTO: Com que idade você se tornou convicto da não-existência de Deus? O que o levou a tirar tal conclusão? Antes disso foi uma pessoa religiosa?

MAURÍCIO: Até hoje, "só sei que nada sei" sobre essa questão. Caro amigo, nunca duvidei de uma força superior, mas acho que pintaram Deus de uma forma que não é a dele. Fui muito católico na minha junventude (aliás, foi dentro do verdadeiro catolicismo que tomei consciência política das injustiças sociais)

GILBERTO: Comente, com a visão que tem hoje, seu entendimento e aceitação da máxima "A religião é o ópio do povo" e do provérbio "Religião, futebol e política não se discute".

MAURÍCIO: É que as pessoas que deram continuidade ao pensamento de Cristo, se esqueceram da parte de justiça social pregada por Ele (veja o Sermão da Montanha, o Grande Julgamento, entre tantas manifestações de Cristo. "A religião é o ópio do povo" citação de Marx, foi para identificar uma igreja contra reformas de justiça social, na época. Claro que esse pensamento religioso continua predominando abundantemente não só na igreja católica. Segundo essa expressão marxista, a religião serve de anestésico contra as revoluções sociais.

GILBERTO: Gostaria que falasse de sua experiência como prisioneiro político e do jejum a que se submeteu.

MAURÍCIO: Meu amigo, se for falar sobre isso, vamos levar dias (tô brincando). A prisão foi uma grande escola para mim. Aprendi muito sobre a necessidade de sermos mais humildes, sem nos deixarmos humilhar. Minha greve de fome (a primeira) fez parte de um movimento da maioria dos presos politicos brasileiros para forçarmos a votação, pelo Congresso, da Lei de Anistia Polítca. Foi um movimento muito bonito e emocionante. Houve uma participação muito intensa da sociedade brasileira, nos apoiando.
Já a segundo greve de fome, em 2005, foi para que o INSS cumprisse a Lei de Anistia que concedia aos perseguidos politicos pelo regime militar, o direito de contar como tempo para a aposentadoria. Eu tinha direito a 10 anos e foi necessárai a greve de fome para que o direito fosse assegurado. Consegui.

GILBERTO: O que espera da presente vida, que julga ser única, depois de tantas experiências incomuns que vivenciou? Como pretende finalizar sua jornada?

MAURÍCIO: Que o presente seja melhor para todos. Não sei se essa vida é única. Só sei que ninguém sabe verdadeiramente de outras vidas. Pretendo finalizar minha jornada, apesar da descrença, sonhando com uma vida saudável para toda a humanidade. Sem guerras e sem fome. (São as duas piores pestes).

GILBERTO: Que conselhos você daria para os jovens, adultos e crianças que vierem a ler esta entrevista?

MAURÍCIO: Não conselhos, não tenho essa pretensão de ter modelos de vida para ninguém. Mas procurem fazer o bem, leiam sempre. Leiam o que faça bem à sua consciência e a sua prática de vida. Façam o bem. (Certa feita, perguntei a um padre de nossa cidade se quem não acredita em Deus poderia entrar no reino dos céus. Ele me disse: faça o bem.)

GILBERTO: Que livros e filmes recomendaria?

MAURÍCIO:Faz tempo que não leio nem assisto fimes. Não leiam certas idiotices da literatura nacional e o demais dá certo.

GILBERTO: Cite algum pensamento ou poema marcante em suas reflexões. Pode ser mais de um.

MAURICIO: Veja bem, não sou muito afeito a essa coisas, mas existem alguns pensamento de inteletuais e gente do povo que me chamam atençao: "Nada do que é humano, me é estranho", citado por Marx. "Quando o gosto é do defunto, não faz mal que o diabo o carregue", citação de Sebastião Piliano, proprietário rural e comerciante de animais. "Pra quem sabe ler, uma palavra é uma gramática inteira", já citado anteriormente. Pra finalizar, "Deus, Senhor Deus dos desgraçados, dizei-me vós Senhor Deus, se é mentira ou se é verdade tanto horror perante os céus.
Desculpe-me amigo Gilberto e seus leitores, não sou bom de escrita.. Obrigado.