quarta-feira, 3 de julho de 2019

"Minha casa é o retrato Das coisas do meu Sertão" - Cordel



Casa de Taipa

João Gomes Sobrinho – Xexéu 

Casa de taipa tem só
A minha por derradeira
Feita de barro e madeira
Vara, enxame e cipó
Carpinteiro com enxó
Arco de pua e formão
Firmou a armação
Toda com unha de gato
Minha casa é o retrato
Das coisas do meu Sertão.

Inda guardo em meu chalé
Pote de barro e baú
Pedra de fazer beiju
Caco de torrar café
Chifre de guardar rapé
Inda foi do boi leitão
O melhor boi de cambão
Do carro de boi pacato
Essas coisas é o retrato
Das coisas do meu sertão.

Guarda a mobília completa
Como quem guarda um tesouro
Até a cama de couro
De papai fazer poeta
Eu tenho rede e coberta
De fio de algodão
Todinha bordado a mão
Repleta de aparato
Essas coisas é o retrato
Das coisas do meu sertão.

Uma rede bem armada
No alpendre da cabana
Uma garrafa de cana
Da primeira cabeçada
Uma viola afinada
Um poema, uma canção
Cuscuz pilado a pilão
Com a perna de um boiato
Essas coisas é o retrato
Das coisas do meu Sertão.

Quando aparece visita
De carro de som ou moto
É político atrás de voto
Com uma promessa bonita
Que todo besta acredita
Quando ele assume a gestão
Não se parece o pidão
De quando foi candidato
Essas coisas é o retrato
Das coisas do meu sertão.

Ninguém quer mais ser prefeito
Neste sertão onde eu moro
Devido Mané Sodoro
Que por sinal foi eleito
Era um homem tão direito
Aprendeu a ser ladrão
Caiu numa operação
Chamada de lava jato
Só pra sujar o retrato
Das coisas do meu sertão.

Meu sertão tem cavalhada
Corrida de argolinha
Quebra pote, pastorinha
E o calor da vaquejada
Tem moça fantasiada
Do bumbum de violão
Se um bebo passar a mão
Apanha que fica chato
Essas coisas é o retrato
Das coisas do meu sertão.

No meu sertão tem menina
Desenhada de cintura
Cheirosa que se mistura
No perfume da campina
O rapaz que se destina
A ganhar a sua mão
Se abusar da união
O velho diz: Eu lhe mato
Essas coisas é o retrato
Das coisas do meu sertão.

Lá tem moça sacudida
Mais um velho esclerosado
Ela de motor zerado
Ele de máquina batida
Ela se mostra exibida
E o pobre do ancião
Escorado num bastão
Urinando no sapato
Essas coisas é o retrato
Das coisas do meu sertão.

O sertão tem mulher prenha
Que quer bater no marido
Leva mão no pé do ouvido
Vai pra maria da penha
Mas como mora na brenha
Onde não vai camburão
Muda de opinião
Retira a queixa no ato
Essas coisas é o retrato
Das coisas do meu sertão.

Tem a queimagem das flores
Na última noite de maio
Mas antes tem o ensaio
Pra não errar os louvores
Se chama dois cantadores
Que tem a repercussão
O povo levanta a mão
Chame a dupla de Nonato
Essas coisas é o retrato
Das coisas do meu sertão.

No meu sertão ainda tem
Candeeiro, lamparina
E moça velha vitalina
Que não casou com ninguém
Só morre com mais de cem
Com o rosário na mão
A capela e a benção
Lançada pelo beato
Essas coisas é o retrato
Das coisas do meu sertão.

Quem fez história marcante
De cangaceiro de porte
No Rio Grande do Norte
Foi Jesuíno Brilhante
Destemido e arrogante
Exigindo punição
Fez justiça com a mão
Quem deveu pagou o pato
Essas coisas é o retrato
Das coisas do meu sertão.

Casa de taipa seu moço
Eu mesmo não ignoro
Lá no Sertão onde eu moro
A minha virou colosso
O dinheiro do meu bolso
Não gasto sem precisão
De que vale um casarão
Onde ninguém tem contato
Sem demonstrar o retrato
Das coisas do meu Sertão.

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segunda-feira, 1 de julho de 2019

GRANDE EVENTO NO JUVENAL PÉ DE COPA


Bom dia, meus povo! será lançado sábado em Santa Cruz

            A literatura do Rio Grande do Norte está muito viva – talvez mais do que nunca em sua história – e não apenas em Natal e Mossoró. Do interior, surgem novas vozes retratando a riqueza cultural das suas cidades, muitas delas com qualidade de criação e de linguagem em alto calibre.

            Julho, por exemplo, traz para os leitores potiguares um exemplo dessa produção: Bom dia, meus povo!, do jornalista Rosemilton Silva. Bom dia, meus povo! (assim mesmo, com o plural do possessivo misturado com o singular do substantivo), conta histórias de Santa Cruz, a cidade polo do Trairi. Os dois livros do autor (“Crônicas da Casa de Maria Gorda” e “Bom dia, meus povo!) foram editados pela Z Editora, do jornalista Osair Vasconcelos.

Bom dia, meus povo! é o segundo do jornalista santa-cruzense Rosemilton Silva. O primeiro, Crônicas da Casa de Maria Gorda, lançado 2018, obteve sucesso a ponto de ter uma segunda edição no mesmo ano. As crônicas de Rosemilton, tanto no primeiro quanto no novo livro, relatam acontecimentos do dia a dia da Santa Cruz dos anos 50 até os anos 80.

            As histórias são ricas em humor e lirismo, com toques de leve nostalgia de tempos os quais, em qualquer cidade à época, corriam mansos, com forte integração entre os moradores, num convívio rico de fatos e entrelaçamento humano. Ao narrar esses acontecimentos, Rosemilton tornou Maria Gorda, a dona do cabaré mais concorrido da cidade, num personagem que traz sempre uma visão à parte dos que os seus conterrâneos viam. Personagem real, Maria Gorda convivia em meio aos moradores de Santa Cruz e se destacava no dia a dia pela personalidade agregadora, pacifica e bem-humorada.

             Se as histórias por si só já não fossem bastante atraentes, Rosemilton ainda as enriquece com uma linguagem coloquial rica, engraçada, resgatadora de palavras perdidas no tempo e que faziam a graça e humor do falar popular do interior. A linguagem leva o leitor a mais ouvir do que a ler, tal a fidelidade do autor na transcrição das falas e na própria narrativa que faz. E assim, ele começa as histórias sempre com a saudação Bom dia, meus povo!

            Rosemilton Silva é um veterano jornalista e passou por praticamente todas as redações de Natal – de rádio, jornal e televisão – nos melhores tempos do jornalismo potiguar. Foi primeiro bancário, mas aprendeu cinegrafia e assim começou a carreira que se estendeu através das rádios Cabugi, Tropical e Cidade, além de montar as de Santa Cruz e Ceará Mirim. Formado pela UFRN em jornalismo, trabalhou no Diário de Natal, A República, Tribuna do Norte, Dois Pontos, RN Econômico e Foco. Também prestou serviços às Tv´s Universitária, Potengi e União. Nos últimos anos, Rosemilton Silva especializou-se em jornalismo automobilístico na televisão.

Serviço
Bom dia, meus povo!
Lançamento: 06 de julho (SÁBADO)
Local: Clube Juvenal Pé de Copa
Horário:  18h30


segunda-feira, 24 de junho de 2019

DEMOCRACIA EM VERTIGEM: Um documentário que explica o Brasil recente.


Indico esse documentário como uma análise lúcida do que ocorreu na história recente deste país.

Como historiador da humanidade me faz notória sempre a necessidade de se evitar amnésias voluntárias. Esquecimentos são perigosos em todos os aspectos da vida social humana, tendo em vista que o esquecimento dos erros cometidos abre o precedente para que os mesmos venham ser repetidos. O Brasil é um país construído sobre esquecimentos propositais. Esqueceram-se dos índios, verdadeiros donos deste território, esqueceram-se dos criollos; os nascidos aqui, miscigenados que passaram a ser tratados como escórias ainda na colônia, esqueceram-se do passado de escravização de seres humanos e o quanto este aspecto influencia a sociedade atual.  

O Brasil nunca conseguiu substancialmente ser uma Democracia, afinal o modelo social que persiste em nosso meio é o Engenho Colonial. A elite na Casa grande tem como tarefa manter o sistema em vigor e o atraso social temperado pela separação justaposta em relação a senzala. Os donos do engenho, da indústria, do meio de produção fazem questão de controlar o ritmo produtivo e a persistência de seus privilégios. A Escravidão foi legal por mais de 350 anos e quando foi abolida nada foi feito para reparar este dano às populações antes escravizadas e que agora carregavam o estigma. Esqueceram-se da escravidão, mas não esqueceram que o negro um dia tinha sido escravo, eles sempre fizeram questão de lembrar.

Para entender a história recente do Brasil é preciso compreender que todos aqueles que lutaram no sentido de tentar exercer as lembranças, redistribuição de direitos e das riquezas deste país, foram vilipendiados pela elite do atraso. Quem buscou lembrar-se dos esquecidos sempre virou alvo. No documentário “Democracia em vertigem” (Netflix), da cineasta Petra Costa podemos contemplar a ascensão do grupo político que, mesmo com suas contradições, equívocos e retrocessos discursivos, foram os únicos que desejaram reequilibrar as desigualdades que foram sempre potencializadas por aqui. Podemos conhecer a primeira ocasião em que a elite viu a senzala caminhar em direção aos mesmos espaços que ela transitava; aspecto que impressionou uns, mas irritou freneticamente outros. Contudo, o detalhe mais significativo é que a Petra nasceu na Casa Grande, neta de um dos maiores empreiteiros do país e que pôde transitar pelos azulejos dos salões do alto, mas com perspicácia e consciência social teve sensibilidade de examinar o aspecto desumano de todo o processo. Ela narra a descoberta do absurdo por quem em parte acreditava que os golpistas queriam o bem do Brasil em 1964 e reúne fatos e evidências para mostrar porque apoiaram a eleição de Dilma em 2014 e choraram o Golpe institucionalizado de 2016.  Indico esse documentário como uma análise lúcida do que ocorreu na história recente deste país. Eu acredito que muitos relatos e cenas apresentadas no documento serão novidade para você, sobretudo porque a grande mídia também teve participação na tentativa de produzir novos esquecimentos, embora os fatos narrados não estejam nem 3 anos distantes. Prometo que é uma experiência agregadora e esclarecedora.


Historiador, pesquisador, professor e escritor, autor de
Cícero Justino Arco Iris de Uma Vida - Cantorias, Lugares e memórias de um repentista.

XEXÉU QUIXOTE E SEU ESCUDEIRO GELSON PANÇA - Gilberto Cardoso dos Santos


XEXÉU QUIXOTE E SEU ESCUDEIRO GELSON PANÇA

Sempre admirei a relação respeitosa de Gélson Luís Pessoa com o poeta Xexéu.  Gelson soube reconhecer a grandeza poética de João Gomes Sobrinho e o escolheu como mestre. Sem dúvida foi uma  escolha mutuamente lucrativa, pois em Gelson Xexéu encontrou o melhor de seus discípulos.

Semelhante aos escribas da antiguidade, que se punham a registrar as preciosas palavras de filósofos e rabinos - tal como Paulo aos pés de Gamaliel - Gelson voluntariamente ouvia os sábios versos entesourados na prodigiosa memória e os registrava no papel. Posteriormente, os digitalizava. Tudo isso requeria tempo, dinheiro, deslocamento e paciência, mas Gelson jamais recuou da missão que impusera  si mesmo. O eterno aprendiz se comparou a Sancho Pança seguindo Dom Quixote. Quem acompanhou os esforços feitos por ele e se convenceu da genuinidade de seu respeito e admiração; quem, como eu, conhece a fundo a história do Cavaleiro Andante e seu fiel escudeiro, depressa percebe a pertinência da analogia.

Foram anos, quiçá décadas, de dedicação quase incondicional à causa do inspirado guia. Batalhava para que seus cordéis fossem publicados; promovia eventos em sua homenagem; não esquecia de suas datas natalícias; na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza", fez-se presente e, por fim, juntamente com Marcos Medeiros - outro escudeiro de Xexéu - realizou o sonho de ver um livro dele publicado.
Se é verdade que anjos se acampam ao redor dos seres humanos, não tenho dúvida que um dos anjos de Xexéu chamava-se Gelson Pessoa.

Poucos sentiram tão profundamente a sua morte quanto ele. Ligou para mim em 29 de maio para dar-me a fatídica notícia. Dias antes ligara  convidando-me para o aniversário de 80 anos e contrastante era o modo como agora falava.  Recente fora a publicação de seu livro; os recursos arrecadados seriam utilizados para reformar a casa/gaiola do pássaro humano.

O fã incondicional, dando admiráveis sinais de humildade, gratidão e reconhecimento, buscou expressar em versos o que sentia pelo Vate das Lajes e daí nasceu o  cordel "Sendo Xexéu Dom Quixote Seu Sancho Pança eu seria":


Sendo Xexéu Dom Quixote
Seu Sancho Pança eu seria
Gélson Pessoa

Santo Antônio é a cidade
Que com certeza tem sorte
De ter um filho ilustre
Xexéu um poeta forte
Que hoje é Patrimônio
Do Rio Grande do Norte.

Ele é Patrimônio Vivo
Que nos causa alegria
Um poeta que escreve
Com muita sabedoria.
Sendo Xexéu Dom Quixote
Seu Sancho Pança eu seria.

Ewerton Lemos falou
Numa conversa outro dia
Xexéu sendo Dom Quixote
Seu Sancho Pança eu seria.
Então eu observei
Que isto aconteceria.

Sendo Xexéu Dom Quixote
Seu Sancho Pança eu seria
Pois acompanho seus passos
Com a maior alegria
Sem o seu ensinamento
Lhe digo neste momento
Poeta eu não seria.

No caminhar cultural
Encontrei Xexéu um dia
E tive a felicidade
De ter sua companhia.
Sendo Xexéu Dom Quixote
Seu Sancho Pança eu seria.

Caminhando com Xexéu
Eu formulei parceria
Porque ele me ensina
A versejar todo dia.
Sendo Xexéu Dom Quixote
Seu Sancho Pança eu seria.

De Xexéu sou aprendiz
No ramo da poesia
Ele me ensina sua arte
Com a maior maestria.
Sendo Xexéu Dom Quixote
Seu Sancho Pança eu seria.

Enveredei com Xexéu
No mundo da fantasia
E aprendi muitas coisas
Que antes eu não sabia.
Sendo Xexéu Dom Quixote
Seu Sancho Pança eu seria.

Lendo versos de Xexéu
Era como eu aprendia
E hoje Xexéu já ler
Versos da minha autoria.
Sendo Xexéu Dom Quixote
Seu Sancho Pança eu seria.

Xexéu me deu seu aval
Quando leu minha poesia
Eu todo lisonjeado
Ouvia o que ele dizia.
Sendo Xexéu Dom Quixote
Seu Sancho Pança eu seria.

Depois que avaliou
Meu verso e minha poesia
Xexéu então me falou
Que meu verso tem valia.
Sendo Xexéu Dom Quixote
Seu Sancho Pança eu seria.

Com a sua avaliação
Aí eu vi que podia
Fazer verso de cordel
Do jeito que eu queria.
Sendo Xexéu Dom Quixote
Seu Sancho Pança eu seria.

Quando xexéu improvisa
Parece trazer magia
Palavra na sua boca
Se transforma em poesia.
Sendo Xexéu Dom Quixote
Seu Sancho Pança eu seria.

Eu fico admirado
Xexéu fazendo poesia
Eu comparo com Beethoven
Fazendo uma sinfonia.
Sendo Xexéu Dom Quixote
Seu Sancho Pança eu seria.

Com Xexéu eu aprendi
Fazer boa poesia
Mas com este professor,
Quem é que não aprendia?
Sendo Xexéu Dom Quixote
Seu Sancho Pança eu seria.

Para ser seu Sancho Pança
Tenho que ter parceria
Eu encontrei em Xexéu
O Amigo que eu queria.
Sendo Xexéu Dom Quixote
Seu Sancho Pança eu seria.

Xexéu no seu alazão
Tendo a musa como guia
Eu montado num jumento
Sendo a sua companhia.
Sendo Xexéu Dom Quixote
Seu Sancho Pança eu seria.

Xexéu é o Dom Quixote
Que Wetinho me dizia
E eu sou o Sancho Pança
Dentro da minha poesia.
Se Xexéu é Dom Quixote
Sou Sancho Pança hoje em dia.

 Parabéns a Gelson pelo importante trabalho desenvolvido até agora. Que continue a crescer junto e a promover mais e mais o nome deste que, indiscutivelmente, foi um dos maiores nomes da poesia popular nordestina.

Gilberto Cardoso Dos Santos - Santa Cruz, 25.06.2019


terça-feira, 18 de junho de 2019

GALOPE À BEIRA-MAR (José Alves Sobrinho)

Você se deliciará  com um dos mais extraordinários poemas de José Alves Sobrinho; Ao lê-lo, entenderá  melhor a razão de meu amor por este livro, o Sabedoria de "caboco". Trata-se de um galope por excelência que nos dá um claro vislumbre da genialidade do autor. Não poderia deixá-lo de fora nesta busca por resgatar o que Zé Alves Sobrinho nos deixou de melhor.   Gilberto Cardoso Dos Santos
 



GALOPE À BEIRA-MAR (José Alves Sobrinho)

O mar é um príncipe muito bem trajado
Que vem galopando em busca da praia,
As ondas são finos coxins de cambraia
Que ornam o corcel do príncipe sagrado,
A praia é uma virgem de olhar levantado
Esperando o noivo que tem de chegar,
O vento é um pajem que vem avisar
A noiva do mar que está esperando
O príncipe marinho que já vem chegando
Pra casar com ela na beira do mar.

O mar é famoso, bonito e elegante,
Afoga em seu bojo o rosto da Lua,
No verde das águas o vento flutua
Balançando o corpo do grande gigante
Que se movimenta num embalo constante
Subindo e descendo, sem nunca parar,
A praia o espera no mesmo lugar,
Sem temer a fúria do monstro orgulhoso
Que vem resmungando, ciumento e queixoso
Dar-lhe umas palmadas na beira do mar.

É belo escutar-se da onda o barulho
Em seu movimento sacudindo as brumas,
E o mar estremece jogando as espumas
Recua e avança com força e orgulho,
Levando arrecifes, tangendo vasculho,
Limpando o caminho de Deus viajar,
Se a Lua estiver no espaço a  brilhar
Parece uma virgem de “cabelo louro”
Ou então uma bola maciça de ouro
Saindo de dentro das águas do mar.

A onda é bonita naquele vaivém,
Tem onda pequena, tem onda que cresce,
Tem onda que sobre, tem onda que desce,
Tem onda que vai, tem onda que vem,
Tem onda cansada porque não mais tem
Talento na água pra areia alcançar
Mas sente outra onda por trás a empurrar
E ela se ergue depois de empurrada
Aquela que empurra cai também cansada
E as duas se acabam na beira do mar.

As ondas são finos lençóis de cambraia
Bordados de rendas, de franjas e bicos,
Bem feitos, bem alvos, bem limpos e ricos
Que os ventos marinhos estendem na praia,
Aquilo é bonito que a vista desmaia,
E o homem contente fica a contemplar
A onda investir e depois recuar
Jogando pra fora ostras e mariscos,
Pequenas pedrinhas, retraços e ciscos
Que as vagas arrancam de dentro do mar.

É belo da praia avistar-se um navio
Travessando a costa na sua carreira,
Parece um gigante de ferro e madeira
Enfrentando o mar no seu desafio,
No verão, no inverno, no outono, no estio
Flutuando na água sem nunca afundar,
De popa, de proa, de velas no ar,
Soltando canudos de fumo azulados,
Seus mastros parecem braços levantados
Saudando a quem fica na beira do mar.

Na beira do mar vemos coisa boa
E melhor se torna no tempo do estio,
Barcaça, canoa, paquete, navio,
Paquete, navio, barcaça, canoa,
Ali também vemos mais de uma pessoa
Andando no cais querendo embarcar,
E o grande navio a se balançar,
Saudoso apitando desliza nas águas
Deixando saudades, tristezas e mágoas
Naqueles que ficam na beira do mar.

A terra é esposa, o mar é marido,
A terra trabalha, o mar é guerreiro,
A terra produz, previne o celeiro,
Esperando a volta do esposo querido,
E quando ele vem do desconhecido
Ela vai à praia para o esperar,
Quando ele a avista levanta o olhar,
E logo se olham, sorrindo e se enlaçam
Se atraem, se querem, se amam e se abraçam
Num beijo de espuma na beira do mar.

Extraído de