sexta-feira, 28 de março de 2025

SORRISO DA SALVAÇÃO

 


SORRISO DA SALVAÇÃO 


Visitando uma livraria, percebi quantas ideias ainda são registradas em papel. Homens e mulheres, até de lugares distantes, estavam presentes com seus escritos, acreditando que eu estaria disposto a acolhê-los.

Minha vontade era poder comprar tudo para jogar no lixo: livros em quadrinhos, "Diário de um Banana", até a guerra entre a Rússia e a Ucrânia já estava no além-prelo. Dentro da cena, algumas mulheres jovens olhavam o acervo, e a vendedora, de soslaio, perguntando-se o que eu estaria fazendo digitando sem comprar nada. Uma jovem, vestindo preto e com armação num rosto sério,  dirigiu-se diretamente ao caixa com duas ideias nas mãos. Tudo muito bem arrumado, pensei, depois de olhar atentamente. A jovem voltou e devolveu os livros à prateleira, resmungando baixinho depois de conferir os preços.

Um casal de mulheres, de mãos dadas, se aproximou do local onde eu estava. Uma ligação telefônica de parentes, lembrando-me do meu aniversário – apenas com dez dias de atraso – fez-me voltar à realidade de, como todo mundo, viver sendo vítima do tempo.

Um grupo de garotas chegou falando com intensidade além dos decibéis permitidos, elogiando as obras que haviam lido. Doeu nos tímpanos ouvir aquela euforia de jovens que se preocupavam apenas em blá blá blá. Ainda bem que fui recompensado por uma delas, em silêncio, olhando e sorrindo em minha direção. 

A vendedora me fitou, fingindo arrumar o que não precisava ser arrumado. "Disfarça", teriam dito a ela no treinamento. Circulando, ela pensou em me dizer, mas o filtro de vendedora a impediu de expressar seu pensamento.

Harry Potter ainda estava na gôndola do supermercado de aventuras, presente em todos os formatos de capa dura, numa seção completa dedicada a mentiras para entreter. A palavra escrita não sai de moda, pensei, aprofundando-me na reflexão sobre quantas pessoas lucram fazendo com que ideias sejam passadas adiante. Os editores, as gráficas e todo o resto, empenhando-se para que o papel com palavras chegue aos olhos sedentos por algo além de vídeos.

Subi a escada e dei de cara com uma cafeteria. Sacos de lixo na entrada, porém ninguém para me atender. Olhei em volta e dirigi-me ao balcão. "Já fechou?" Com muita calma, consegui atrair o olhar de uma mulher de branco. Ela balançou a cabeça, confirmando. Uma outra levantou-se, mostrando todos os trinta e dois dentes sadios. "Fechou porque hoje é dia de dedetização. É necessário", disse ela, tentando justificar o motivo de estarem fechando mais cedo. Tentou manter o sorriso de asiática, mas logo se recompôs quando percebi, sem falar nada, que ela deveria ser a gerente. Desci os degraus quase dando um encontrão no carregador dos sacos de lixo.

Voltei ao salão dos livros. As jovens leitoras já haviam ido embora, levando suas falas intensas de "já li" e "depois te empresto". Sentei-me no banco em frente à livraria. Uma moça passou, falando para as outras que iria descer a escada porque tinha medo de elevador. Um rapaz, com a farda da empresa de leitura, postou-se perto. "Será que está me vigiando?" Não, não estava. Apenas esperava a amiga que o acompanhou no final do expediente. 

Levantei-me e saí, pensando em uma das garotas que cruzou o caminho desta escrita. Ela nem sabia que estava prestes a explodir, pois minha missão era acionar o dispositivo preso ao corpo. O que me fez mudar de ideia foi aquele sorriso. Ah, que sorriso!"


Heraldo Lins Marinho Dantas

Natal/RN, 27.03.2025 - 22h10min.

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