domingo, 16 de julho de 2023

CONVERSAS DE FERIADO

 


CONVERSAS DE FERIADO 


Estou sem muita disposição de registrar algo. Um vazio assume o comando e apenas fico acompanhado da respiração que eleva meu tórax. Os pés cruzados também são testemunhas dessa minha indolência juntamente com as unhas que precisam ser cortadas. Dou uma pausa, fecho os olhos acreditando que estou no espaço sideral sem dor nem vontades. Flutuo no vácuo sentindo-me superior aos demais terráqueos porque não preciso de hospitais e outras coisas...

Adormeci e acordei mais disposto, duas horas depois das reticências, porém sem vontade de pensar profundamente. Hoje é domingo e me dou a liberdade de consumi-lo com moderação. Os suecos, com a filosofia de vida fundamentada no conceito da palavra Lagom, foram quem me ensinaram a gastar o tempo livre dessa maneira.

Sou muito influenciado pelos costumes por onde passo, motivo maior de quase morrer de trabalhar quando morei no Japão por cinco anos. 

A influência dominante neste momento está sendo a de me manter quieto, por isso permaneço deitado digitando com o dedo indicador no celular aberto no bloco de notas. Ainda bem que não preciso ir mendigar para poder almoçar nem encurralar vacas para tirar leite. Essas pessoas, mais dependentes do trabalho do que eu, não podem se dar ao luxo de ficar sem correr um só instante. 

Hoje também é dia de futebol ou ir à praia, e como já moro na beira do mar, fico na cama mesmo. São esses os momentos mais interessantes da minha existência: não fazer nada. Já dei o comando de que daqui a uma hora vou almoçar, e, enquanto isso, fico olhando o cursor piscar pedindo para que eu continue empurrando-o para a frente. Nem vou salvar o que digitei até agora, pois se apagar por descuido o sol não deixará de existir. 

Bem antes de adormecer novamente, havia concluído a leitura do livro “O teatro de Sabbath.” Uma leitura picante e ao mesmo tempo filosófica. Cada boa ideia que Philip Roth escreveu que já até baixei seu grande sucesso “O Complexo de Portnoy.” Quando vou terminá-lo? Só sei que comecei, e isso já é o bastante. 

Tento seguir os conselhos dos poetas de que devemos ler muito para cair na batalha do escrever, mas sei que essas leituras incluem a realidade em que estou inserido e o próprio eu sendo observado. Há muitas descobertas quando me observo chegando a tirar conclusões de que os adultos fazem o que fomos impedidos na infância. É tipo uma revolta por ter vivido muito engessado nos ditames das chineladas. 

Vou almoçar.

O almoço não estava pronto, apesar dos relógios, tanto o biológico quanto o da parede, dizerem que sim. Volto para o escritório de colchão, ligo o ar e a atenção percebendo uma porta do armário de parede aberta lembrando-me que a deixei assim para colocar uma ferramenta lá. Faço cada serviço a prestação. Nesse caso específico, primeiro abri a portinha para só amanhã concluir a tarefa. 

A reforma, por exemplo, ainda não terminei. Coloco uma cerâmica num dia, espero a imagem da nova aparência ficar sedimentada para só depois pregar a próxima. Para quem não é do ramo, é bom saber que a cerâmica não é totalmente reta, e sim boleada implicando que todo cuidado é pouco para que a parede não fique desalinhada, igual um texto, este último, com cuidados redobrados para que não aconteça um desnivelamento na atenção do leitor. Fico imaginando que cada palavra colocada está no mesmo parâmetro de uma cerâmica. Aquela também é boleada e cabe ao escritor fazê-la se encaixar de forma que fique bem-dita. 

Gritaram pronto lá da cozinha. Daqui a pouco retorno. 

Além de me servirem o almoço também cortaram minhas unhas. Antes disso, passei a vassoura no chão com o objetivo de contar aqui, por isso a mulher estranhou perguntando-me: o que deu em você?, sem saber que eu precisava de um final contrariando a ideia de permanecer ocioso.  


Heraldo Lins Marinho Dantas

Natal/RN, 16.07.2023 - 15h49min.



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