sexta-feira, 10 de fevereiro de 2023

UM OLHAR ALÉM DAS FLORES - Heraldo Lins

 


UM OLHAR ALÉM DAS FLORES


O grau de dificuldade na acrobacia é tão grande que os dois recebem aplausos até quando erram. Como é bom brincar no palco como fazíamos na infância, pensa aquele que está sendo "acambalhotado" pelos pés do irmão mais velho. 


Sabem que precisam treinar bastante para se manterem viajando a bordo daquele cruzeiro, e isso tira um pouco a espontaneidade. Enquanto lutam por um "lugar ao luxo", seu país continua sendo dilapidado nas imediações da linha do equador.


Na hora do espetáculo, o navio permanece fazendo manobras para se encaixar entre as boias espalhadas pela capitania dos portos. O momento de superfaturar os passeios está se aproximando, e para potencializar as vendas é bom contar com os acrobatas motivacionais.


Abaixo da superfície,  sardinhas fogem do monstro que invade seu território. Ali, o predador é aquele veículo transportador de egos inflados que se acham superiores aos que regam, com latas enferrujadas, os "alimentos" trazidos a bordo.


A dançarina atrai os olhares para o seu conjunto reprodutor coberto por uma saia curta esvoaçando a cada pirueta ensaiada na academia. As atenções estão voltadas para seus atributos volumosos, porém ela sabe que seu esplendor tem um prazo de validade até que o desejo de engravidar se torne realidade. Os hormônios da maternidade irão deformar sua silhueta a ponto de obrigá-la a mudar de profissão. Antes que chegue o dia de seu ego ser vencido pela natureza, ela permanecerá jogando o "pólen do amor" aos futuros candidatos a provedor.


Na sequência do espetáculo, outro faz manobras dentro de um aro gigante. Num giro "digno de oh!", os aplausos fluem em forma de agradecimento por ele ter dedicado toda sua existência aquele roda-roda. A única forma de contratá-lo foi através da sua hereditariedade circense. Era um trabalhão conseguir plateia na época que viajava com seus pais no arma e desarma da lona. Aqui, pelo menos não tenho que sair anunciando o espetáculo, cavar buraco e nem consertar a cerca estragada pelos meninos que queriam assistir de graça, lembra-se enquanto levanta a mão para ser ovacionado.


O careca do microfone anuncia que a saída para o continente deve acontecer no deck seis. Está na hora de divulgar os preços especiais a quem se interessar em conhecer a terra dos heróis mortos pelos chicotes dos coronéis. Acoplado naquele roteiro, vem a história de como se consegue obter o mel de cacau. Azedo e doce ao mesmo tempo, congelado em pequenas garrafas plásticas, é vendido ao lado da praça matriz. Este meu mel é o melhor porque não vem misturado com água, diz a mulher com a barriga saindo pelo elástico da saia, recomendando tomá-lo antes que o calor acelere o processo de fermentação.


Venham conhecer a casa onde morou o famoso escritor, diz o panfleto com um voucher de quinze por cento de desconto. Vamos subir o preço para poder dar o desconto, planejam os gerentes nas salas escuras onde tilitam os dólares. 


Do lado de fora do navio, um trabalhador passa deslizando em uma estrutura limpadora de vidros. Na hora do restaurante cheio, crianças acenam para aquele homem triste de olhos amendoados que manuseia o equipamento. Ele se lembra dos filhos que deixou do outro lado do planeta carentes de "conforto alimentar", e isso é o que o faz se arriscar num trabalho a trinta metros de altura. 


Os pagantes o observam como sendo apenas mais uma forma de entretenimento. Instalados nas poltronas refrescadas pelo ar condicionado, fazem fotos no momento em que saboreiam sopa de cogumelos cultivados nas montanhas geladas do norte.


Um dia, virei com meus filhos na primeira classe, aí eu também poderei ficar indiferente ao trabalhador que irá me substituir, pensa o limpador querendo afugentar a fadiga proveniente das tarefas executadas simultaneamente.


Os afortunados fazem "barulho dançante" noite a dentro sem se darem conta que onde as alegrias se encontram, a tristeza não foge à regra. 


Heraldo Lins Marinho Dantas

Ilhéus/BA, 08.02.2023 - 09h45min



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