domingo, 14 de agosto de 2022

DIA DO PAI DA POESIA - Heraldo Lins

 








DIA DO PAI DA POESIA 

Só não gostei muito da conversa de ontem porque vocês ficaram caladas(os). Vejam que preferi colocar "caladas" sendo o primeiro gênero a quem me dirijo, exatamente porque apoio as mulheres também na literatura. A gramática é machista na sua essência a ponto de dizer que o certo é colocar logo o gênero masculino para depois o feminino ser representado por "(as)" entre parênteses, como há pouco grafado. Facultativo deveria ser, como em muitos casos da crase, mas não tem reforma que dê jeito. Dizem que atrapalharia ainda mais. É... quando se quer justificar algo tendencioso, qualquer discurso serve.

Em todas as épocas, os códigos receberam influência pessoal dos que os organizaram, e, quem sabe, foi através de uma solução “homossexualizada" que ficou registrado o substantivo comum de dois gêneros no conjunto de normas e regras da língua portuguesa. Mesmo a cobra sendo macho, nunca deixará de ser “a serpente..." O jacaré, por mais que bote ovos, será sempre "o crocodilo..." 

Não tenho nada contra, mas essa tendência em colocar o pessoal à frente do profissional serve de alerta para atentarmos que cada escritor assume uma postura diante da sua obra, mas não quer dizer que ele seja de esquerda ou de direita, porém, um homem que utiliza trabalho escravo em suas fazendas, jamais irá publicar ou apoiar um texto defendendo a libertação dos subjugados. 

É importante saber que antes de adentrarmos na artística ideia escrita, devemos procurar saber a origem desse grito. Sim, porque escrever é gritar em modo silencioso para uma turma seleta. Muitos escritores sentem ojeriza em ir à noite de autógrafos só para não ficar explicando nem ser perguntado sobre seus personagens ou convicções. Outros nem concedem entrevistas por defenderem que o que tinham para dizer já está muito bem representado em seus livros. 

Não tiro a razão de quem não gosta de dar explicações sobre o que escreve. É pesado reviver o processo criativo que gerou um determinado texto, e a função de divulgar, criticar ou aplaudir deve ser delegada aos editores, críticos literários e youtubers. Para o escritor já basta a tarefa de produzir.  

Há pessoas que preferem adentrar no emaranhado de frases a ficar ouvindo blá blá blá de teóricos. Cada um tem seu jeito, e estou afirmando isso para não dar a entender que estou querendo influenciar alguém a agir "sem sal ou salgado". 

É preciso não querer ser um ditador quando se tem o poder da pena. Aqui posso ser "influencer digital", mas seria um desrespeito a quem pensa por si só. Ter seguidores pode até ser motivo para vaidades, mas lembro-me que Machado de Assis publicava para menos de 0,36% dos alfabetizados do Brasil de sua época e, mesmo assim, era muitíssimo satisfeito com o que fazia. 

Se escrever rende dinheiro, nunca ouvi um pai dizer: quero que meu filho seja escritor. Parece que quase ninguém acredita nessa profissão. O pai quer que ele seja médico, engenheiro, programador, mas escritor… hum, sei não! Será?! 

São tantas variantes surgindo a cada dia, consequentemente, influenciando nossos pontos de vista, que fica difícil tomar partido. Prefiro tomar emprestado a Mario Quintana um pouco da sua poesia:

"Eles passarão... 

 Eu passarinho."


Heraldo Lins Marinho Dantas

Natal/RN, 14.08.2022 — 15:34





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