segunda-feira, 11 de abril de 2022

DESEJOS REALIZADOS - Heraldo Lins

 


DESEJOS REALIZADOS


Saiu em busca do prazer. Tomou sorvete, assistiu filme, mas prazer mesmo, não conheceu. Alguém lhe disse que havia mulheres que lhe proporcionariam o que ele queria. Nessa experiência morreu. Deu-se o enterro e a chegada a uma encruzilhada. Lá estavam dois caminhos em bifurcação. Ficou um ano indeciso, dez, cem, esperando que alguém viesse lhe informar qual dos caminhos seguir. Ninguém veio, então resolveu voltar, porém,  perdeu-se no caminho de volta e ficou vagando pelas estradas. 

Depois de um certo tempo percebeu que não adiantava ficar apegado a esse propósito. Precisava apenas divertir-se com as encruzilhadas, e que esse objetivo seria o rumo, nem mais nem menos do que isso. Vivenciar cada momento, tornava-se o mais importante. Durante as curvas, dormia, acordava, e sempre estava parado no mesmo lugar e tempo. 

O interessante é que não se cansava daquilo. Não tinha companhia, mas não sentia falta delas. Veio a vontade de construir uma casa a partir do nada e, rapidamente, adormeceu. No outro dia havia uma no local onde ele havia idealizado. Entrou. Tudo nos devidos lugares. 

Pensou na fome. Claro que não estava sentindo, mas sua lembrança do que era fome, chegou. Em seguida encontrou alimentos que o saciaram. Idealizou que a fome era uma ilusão criada pelo próprio instinto de sobrevivência para que lhe obrigasse a trabalhar. Quanto tempo perdeu em ser induzido pela dor do estômago vazio. Se tivesse sabido disso antes, muito tempo e trabalho haviam sido economizados. 

Percebendo que seu pensamento fazia as coisas acontecerem, pensou em pessoas para preencher o vazio da casa. Ao abri as portas, humanos iam surgindo. Caminhavam junto, dando opinião sobre tudo que ele tentava pensar. Fechou os olhos para que sumissem.  

Percebeu que seu pensamento o tornara um ser extraordinário. Seus objetivos, com a prática, iam sendo alcançados sem muito esforço. Suas dúvidas haviam sido todas supridas, e ele ficou parado sentindo-se um deus criador de tudo, inclusive, dele mesmo. Ficou temeroso se pensasse em sumir. Se ele fizesse isso o que aconteceria? Não parou por muito tempo nesse pensamento, e resolveu usufruir o que havia armazenado na memória. Todas as atrocidades ele agora poderia praticar. 

Trouxe para a sua presença os inimigos que tivera na vida anterior. Estavam ali os desafetos, uns causadores de mais rancores e outros de menos. Submeteu-os aos mais penosos castigos. Divertia-se com sua malvadeza sem sentir represália ou remorso. 

Os prazeres da carne também foram usufruídos. A gula mais ainda. Comia sem parar. Depois, bastava pensar em uma barriga vazia que sua gordura desaparecia. O cuidado com o meio ambiente também não existia. Seu ponto máximo foi quando pensou em tocar fogo no mar. Viu de longe o incêndio se prolongar pela noite adentro.  Apagou a lua para que o fogo pudesse brilhar com mais intensidade. Até o controle sobre a gravidade ele conseguiu ter. 

A partir daí foi só balançar os braços e sair voando. O que sempre sonhara conseguiu com facilidade. Estava quase feliz da vida, mas ainda faltava matar a curiosidade sobre o que aconteceria se pensasse em se destruir, já que era senhor da criação. Como humano, detentor da curiosidade, fez o experimento de forma apressada: destruiu-se como ser onipotente, onipresente e onisciente. 

Ao matar a curiosidade, deparou-se em uma cama de hospital saindo de um coma induzido para morrer de verdade. 


Heraldo Lins Marinho Dantas

10.04.2022 ─21:39



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